24 outubro, 2016

Na cozinha de Dilma


Dilma em Porto Alegre, 2010. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Dilma estava tirando um suflê do forno e cantarolando "Deixa a vida me levar", enquanto eu terminava de temperar a salada.

- O que a senhora acha da revolução em Rojava? - perguntei.
- Que que eu...

As três primeiras palavras, ela respondeu ainda sorrindo, com a cabeça longe. Na quarta, me encarou espantada:
- Quê?! Por que você tá me perguntando isso?
- É que a senhora é presidenta, né?
- Ah... - ela pareceu devanear de novo.
- Sabe, presidenta, morando fora do Brasil, eu encontro muito brasileiro que está conseguindo estudar fora e rodar o mundo graças aos governos do PT. A maioria é brilhante, tem uma sede de aprendizado enorme. Mas a gente, a imensa maioria dos brasileiros, tem uma dificuldade em ler os grandes acontecimentos da história, né?

Carregamos nossas contribuições culinárias da cozinha pra sala da casa do Manuel, onde estávamos. Dilma se sentou na cabeceira; eu, na quina, do lado dela.

- É verdade que a gente é meio autocentrado...
- A senhora mais do que o presidente Lula.
- É, mas o presidente Lula tem tido que se concentrar em se defender. Querem acabar com ele de qualquer jeito.
- E com a senhora. Mas aí que tá, presidenta: eu, a senhora, o Lula, o Murillo, a Elisa, a Petra, a gente é tudo uns grãozinho de areia na história.
- Uns mais que outros, né?
- Lógico, eu não tô me comparando com o presidente Lula nem com a senhora. Mas a parada é que a elite mundial, o 1%, decidiu que a gente vai morrer igual. A gente, eu digo, como instituições. Eu, como negro, a senhora, como Estado, e o Lula, como representante da classe trabalhadora, por mais que esperneie dizendo que enriqueceu banqueiro até dizer chega.
- E ele fez isso mesmo, distribuindo renda ainda por cima! Foi incrível! Saiu com 82% de aprovação...
- Parece distante, né?
- Parece...
- Sabe por que ficou tão longe? Porque ali, ainda tinha uma sementinha de utopia. E é isso que o capitalismo resolveu destruir nos últimos anos: a utopia. O Lula, por mais conservador que tenha sido...
- Conservador?! Foi o presidente que mais distribuiu renda na história do país!
- Tá vendo? Olha a senhora regionalizando a conversa! Claro que foi conservador, ele empoderou banqueiro, empoderou imprensa reacionária, empoderou bancada evangélica. Que nem a senhora, que tem Kátia Abreu de ministra, declara que a idade de aposentadoria é abusiva e não taxa grandes fortunas.
- Ah, mas você não tem ideia do que rola nos bastidores do governo...
- Oxalá me livre! Nem quero saber, presidenta! Mas a Kátia Abreu é um bom exemplo. A senhora viu a entrevista dela pra Folha? Pô, presidenta! Ela falou com todas as letras: uns têm que morrer pra outros sobreviverem. Ela falava de empresa, mas a gente sabe que vale pra pessoa também! Sua ministra é a única no governo que tá pensando globalmente. O resto, vocês tão tudo aí, chafurdando nos probleminha que a Globo fala que é importante. Eles tão é desviando o foco! A Kátia Abreu, quando ela fala isso, ela está repetindo o que disse o presidente da Turquia, o Erdogan, que anunciou o genocídio curdo como promessa de ano novo. E o Obama, que também tá pensando grande, responde: a Turquia tem o direito de se defender. Se defender do quê, presidenta?!
- Do PKK...
- Nada! Dos pobres. Esses dias eu vi um historiador indiano que dá aula nos Estados Unidos falar um negócio muito interessante: sabe por que o mundo está em crise? Porque os ricos declararam greve. Eles simplesmente não vão mais pagar impostos. Acabou. Imposto distribui renda e eles chegaram à conclusão que a produção capitalista pode viver muito bem sem três quartos da humanidade. A gente troca esse povo todo por cone. Esse é o jogo global, presidenta! E é por isso que eles vão acabar com o Estado: pra evitar que, em algum lugar do planeta, em algum momento da humanidade, alguém volte a sonhar com distribuição de renda, mínima que seja. Seu governo, o governo do Haddad, que ridiculariza movimento social, vão ser tudo umas nota de rodapé na história da extinção do Estado e da utopia.
- Foi por isso que você perguntou sobre a revolução em Rojava.
- Sim. Também porque eu estou sonhando. E no meu sonho, ainda existe utopia.

Texto de 2 de fevereiro de 2016, quando a democracia era só precária e não letra morta.
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