Chama o síndico: Tim Maia

Não, isso não é uma sessão espírita, nem um encontro extraterreno preparado pelo Racional Superior. Muito menos uma viagem triatlética de baurets com brizola e goró. O Afroências orgulhosamente apresenta uma entrevista inédita com o mestre do soul brasileiro, Tim Maia.

"Voltou Clarear", autografado no Rio, em 28 de abril

Esse papo entre Tim, Marcio Gaspar e Lauro Lisboa Garcia rolou em São Paulo, curiosamente às nove da manhã de 28 de maio de 1995. À época, Marcio escrevia para a efêmera revista de música Qualis, tão efêmera que não sobreviveu até a publicação da entrevista; Lauro reportava para o Jornal da Tarde e publicou uma materinha sobre o assunto. Curta, infelizmente, porque Tim Maia andava meio "quatro-quatro-meia" (gíria dele mesmo, "uma fração, que não chega a ser cinco") no mercado. Tinha acabado de lançar "Voltou Clarear", um disco a la Tim Maia, meio "mela-cueca", meio "esquenta-sovaco", mas tachado imediatamente de brega. E estava numa onda esquisita - pra variar - chamada Nova Era Glacial. Dizia que o mundo, ao contrário do que imaginavam alguns cientistas, estava esfriando. Havia até feito um disco dedicado a essa ideia. Bom, disco é exagero: tinha o nome de "Nova era glacial", uma música falando do assunto e fim de papo. O resto era o bom e velho Tim, mezza romântico, mezza dançante.

Pouco se sabe sobre a entrevista. Nenhum dos dois lembra direito. Marcio conta que Tim recebeu os repórteres vestido em um agasalho esportivo azul-turquesa. Só. E, embora a fita - que recuperei com árduo esforço - esteja datada de 28 de maio, encontrei uma cópia de "Voltou Clarear", com autógrafo e dedicatória ao Marcio, escritos no Rio de Janeiro, em 28 de abril. Pelo menos é o que diz o manuscrito espalhafatoso de Tim. Marcio jura de pé junto que não esteve no Rio em abril de 1995, muito menos com Tim Maia. De repente, o síndico esqueceu que estava num apart hotel de São Paulo, um mês adiante. Ou senão foram seres intraterrenos, extraterrenos ou mesmo lunares que misturaram essa entrevista no tempo. Talvez seja efeito do esfriamento global ou culpa de algum ETA (Explorador de Talento Alheio em Tim Maiês) safado...

Mas chega de lero-lero. Curta o áudio da entrevista na íntegra abaixo. Para ouvir os trechos, basta clicar no ícone "play" dos tocadores, depois que a barrinha de tempo ficar cinza. Para ler a conversa na íntegra, corra às bancas e compre a Revista Brasileiros - sim, o Afroências entrou na era das parcerias. Aperte os cintos e boa viagem; você está entrando no mundo de Tim Maia.

Importante: o plugin de áudio funciona melhor no Firefox

Galo velho empoleira cedo












Embora gostasse de dizer o contrário - neste trecho, por exemplo - Tim Maia não era muito de acordar cedo. Ou não dormia, ou acordava a qualquer hora. E quando aparecia cedo, era problema, como conta o empresário André Midani em seu livro "Música, ídolos e poder - do vinil ao download". As duas vezes em que aparecem os hábitos matinais do síndico são catastróficas: numa, uma ameaça de morte, reação ao disco do Casseta & Planeta "Preto com um buraco no meio" ("se você não retirar essa merda do mercado, vai ter um francês com um buraco no meio da testa"); na outra, uma ligação de Nova York, cancelando um contrato de gravação com ninguém menos que os lendários J.B.s, banda de James Brown. Depois de gravadas bases do mais fino funk, Tim resolveu que não gravaria voz nenhuma se não recebesse um "levado" extra ("Se não me der esse dinheiro, você pode fazer o que quiser com essas bases. Inclusive..."). Mesmo assim, Tim Maia gostava de dizer que acordava cedo. Mais do que isso, se definia como um cara que acordava cedo. Em uma entrevista clássica à revista Playboy, em julho de 1991, disse que Tim Maia "é um sujeito que, em vez de estar dormindo com uma Miss Brasil maravilhosa até as 9 da manhã, acorda às 6h43 com uma prostituta que sai correndo e ainda leva quinzinho".

Os reis do grilo














Tim Maia, Cassiano e Hyldon foram o "segundo time", como diz o próprio Tim nesta entrevista. Isso porque o primeiro foi aquele que surgiu na Haddock Lobo esquina com Matoso - esquina que aliás, virou música no disco "Nuvens" -, quando Tim Maia (na época, só Tião), Roberto e Erasmo Carlos brincavam de tocar bossas e rocks em pseudo-inglês. Mas o primeiro tinha pouco de time. Tim vivia dizendo que os outros o sacanearam sempre que puderam. Mais pra frente nessa entrevista, diz inclusive que Roberto lhe deu botas dois números menores que seu pé naquelas primeiras apresentações de TV da Jovem Guarda. Com Hyldon e Cassiano foi bem diferente: até onde se sabe, Tim não teve nenhuma rusga com eles, embora tenha detestado a capa de "Tim Maia, Cassiano e Hyldon - Velhos camaradas", reproduzida aí ao lado.

Persona non grata














Nem é preciso dizer que Tim Maia era um cara inconstante. Reza a lenda que foi banido da TV Globo depois de marcar uma participação no Domingão do Faustão e sumir sem dar satisfação - perdoem a rima pobre. Mas os problemas vinham desde os tempos da Cultura Racional, quando ele se apresentava todo de branco, cercado de gente também de branco, propagandeando uma seita preparatória para a chegada dos ETs. Um pouco demais para a Globo. Marcio Gaspar, um dos autores dessa entrevista, foi encarregado pela Warner Music de tentar uma reaproximação entre Tim Maia e a Globo. Marcou uma visita de Tim ao Projac. Viajou para o Rio de Janeiro. Chegou ao aeroporto Santos Dummont, ligou pro síndico: "Tim, tô aí em 20 minutos". "Pode vir", ecoou o trovão do outro lado. Em 20 minutos, caminhava pela lendária rua Vitória Régia. Tocou a campainha, atendeu um carinha qualquer. "Tim Maia não está". "Como não está? Falei com ele agora há pouco". Marcio deu uma espiadela pra dentro e viu Tim sentado numa varanda. "Pô, tô vendo ele ali. Ô Tim!". Tim nem levantou os olhos. Disse só: "Não vou fazer porra nenhuma. Solta os cachorros atrás desse filho da puta". Dito e feito - Marcio saiu correndo, pulou um muro e quase matou do coração uma pobre senhora ao entrar desarvorado pela cozinha.

Jabaculê é que nem chifre...













...todo mundo tem, mas ninguém quer dizer. Pois é, só que o Tim Maia falava e eu, pra falar a verdade, também vou falar. Quando trabalhava com assessoria de imprensa de artistas, pude ver de perto como a prática dos subornos a DJs e programadores de rádio molda o mercado. A começar pelos divulgadores específicos. Enquanto basicamente qualquer pessoa pode divulgar um artista para imprensa ou televisão - com mais ou menos sucesso, dependendo do poder de barganha e da lábia -, é preciso ser um certo tipo de negociador astuto para fazer divulgação em rádio. Um tipo de negociador que carrega uma mala. O jabá não só existe, como é a moeda do mercado. Tem emissora que emite até nota fiscal da tal "taxa de divulgação". Tem bandinha da moda aí que desembolsou R$ 7 mil por uma semana de execução numa grande rádio de São Paulo.

Caçulinha














João Gilberto, extremamente bem-humorado, tocou o mais fino de seu repertório. Tocou "Rosinha", "Isaura", "Palpite infeliz", "Corcovado", tudo; chegou até a convidar o público a pedir músicas. E, pasmem: acatou as sugestões. Um show lindíssimo. Mas quem aguçou os ouvidos ficou com a pulga atrás da orelha. Era viagem ou havia um tênue som de piano acompanhando os acordes do violão de João? Parecia que um pianinho baixinho, um playback inspirado acompanhava o show todo. Mas não era possível que o playback pudesse acompanhar - e muito bem, diga-se de passagem - até os ensejos da plateia. Ao finalzinho de "Aquarela do Brasil", já no segundo bis, uma cortina à direita do palco se abriu e revelou o genial Caçulinha, talentoso a ponto de acompanhar João Gilberto numa noite inspirada. Não era a toa que Tim Maia andava tão injuriado com Fausto Silva.

Mais grave, mais retorno, mais tudo













Quisesse ver um técnico de som tremer igual vara verde, bastava dizer que Tim Maia tocaria na casa. Dono do tal ouvido absoluto, Tim fazia questão de que o som entrasse no eixo. E não bastava que soasse bem - tinha que soar como as big bands americanas de soul. Os metais deveriam ficar claros e bem-definidos, sem entretanto atrapalhar os backing vocals, cuja timbragem era semelhante. O baixo deveria soar grave, no exato tom do bumbo da bateria, enquanto as guitarras e teclados dividiam o campo dos agudos sem nunca se sobrepor uns aos outros. Instrumentos percussivos deveriam ter tonalidades específicas que servissem não apenas para enfeitar o som, mas para marcar a cozinha rítmica. Por fim, a voz do próprio Tim deveria soar clara e nítida, sobressalente no campo sonoro, mas sem ofuscar nenhum instrumento. E ele só queria era que tudo isso aparecesse no retorno. Pô, é pedir demais?

Músico, advogado e pedreiro é foda














Nesta entrevista, Tim acabou absolvendo o pedreiro. Talvez porque seu contato com músico e advogado fosse mais constante. Um levava ao outro, já que era praxe entre os músicos que saíam da Vitória Régia processar Tim Maia. Embora ele próprio se dissesse vítima de conspirações absurdas de gente inescrupulosa, não dá pra tirar dessa gente todos os motivos. Por exemplo, na biografia "Vale Tudo", o jornalista, produtor e compositor Nelson Motta conta que Tim pagava quem queria, quando queria e até como queria. Ele adorava o slogan "Vitória Régia - a única que paga aos domingos após as 21 horas". Mas era só um slogan. Teve um certo músico que foi buscar seu levadinho e saiu com duzentos gramas de fumo. "Pô, esse é do bom, mermão!", argumentou o síndico. "Mas eu não fumo, Tim..."; "Quem falou que é pra fumar? Isso aí é dinheiro. Tu vende e fica com a grana!"

50 mescalinas e uma religião














Gilberto Gil partiu para a macrobiótica, Caetano Veloso, paz, amor e liberdade, Roberto Carlos virou beato, os Mutantes pegaram seu cometa e partiram para país dos baurets. Tim Maia cortou barba e bigode, largou misto quente (skank com haxixe), goró (bebida) e brizola (cocaína), jogou todos os brinquedos dos filhos no lixo, doou os móveis da casa, se vestiu de branco e foi esperar pela chegada dos seres extraterrenos. Era a tal da Cultura Racional, uma seita mística encabeçada por Manoel Jacintho Coelho, que prometia - em livros herméticos de tão mal escritos - preparar os homens para o encontro com o Racional Superior, uma espécie de força criadora independente e antagônica à matéria. Pela primeira vez, Tim Maia revela que entrou na "fase mística" depois de tomar 50 mescalinas.

Pararraio de pilantra














Empresários musicais, donos de gravadoras, programadores de rádio, músicos, prostitutas, traficantes. Tinha toda espécie de gente querendo tirar uma casquinha do Tim Maia. Em entrevista à Playboy, Tim conta que certa vez recebeu um telefonema de uma moça, que disse: "Nasceu! Mas ela está fraquinha a nenenzinha, coitada". Tomou um susto: "Nasceu o que, se a gente nunca transou?". E ouviu a história insólita: "Sabe aquele carinho que eu te fiz com a mão? Então, peguei 'o negócio' e botei 'lá'". Outro susto: "Que negócio, minha filha?"; "O esperma".

Os ETs e o esfriamento global















Enquanto o mundo começava a se preocupar com o efeito estufa e o aumento geral da temperatura da Terra, o visionário Tim Maia preparava os casacos para uma nova era glacial. Se os cientistas acreditavam que a humanidade já havia encarado um congelamento, Tim Maia garantia que já passavam de quatro. Ou mais. Ele também alertava para a existência de seres extra e intraterrenos - os lunares, brancos porque nunca viam o sol -, gente do futuro vivendo entre nós e até mesmo um motel para ETs, que ficava numa imensa propriedade rural em Nova Iguaçu. Isso porque seu interesse era apenas na ufologia, "o estudo de uma coisa que ninguém sabe o que é". Talvez venha daí o lema filosófico que Tim propagou até o fim da vida: "Tudo é tudo e nada é nada".

Sai "I love you", entra "Leia o livro"














Boa parte das músicas que entraram nos dois volumes de Tim Maia Racional já havia sido composta previamente. Mas, para entrar no disco, por ordem de Manoel Jacintho Coelho, as letras tiveram de ser reescritas, sob a ótica absurda do Racional Superior. Os temas de festa "We're gonna rule the world" e "Que beleza" ganharam estrofes messiânicas como "Read the book Universe in Desenchantment" e "Leia o livro e você saberá a verdade". Até a história do bêbado regenerado de "Bom senso" ("Já fiz muita coisa errada/Já pedi ajuda/Já dormi na rua") se "racionalizou". Até a hora em que Tim Maia caiu na real e largou o Racional do mesmo jeito que aderiu a ele: da noite pro dia sem explicar nada para ninguém.

These are the songs














Com 19 anos, morando nos Estados Unidos, Tim Maia tinha um inglês impecável, sem qualquer sotaque que denunciasse a origem tupiniquim. No máximo, achariam um resquiciozinho de Bronx, Brooklin ou outra periferia negra de Nova York. Tanto que, frequentemente, conseguia acertar aluguéis de quartos por telefone - tarefa inglória para latinos. O problema era que não importava quão bom fosse o inglês; quando chegava aquele preto gordinho de cabelo alisado, a coisa ficava esquisita. E ele ouvia todo tipo de bizarrice: "O quarto acabou de ser alugado", "há uma goteira sobre a cama", "alguém acabou de ser assassinado lá". Mas, na volta ao Brasil, o inglês virou um trunfo do qual Tim Maia se orgulhou até o fim da vida. O pessoalzinho da Jovem Guarda era muito bom, obrigado, mas todo mundo cantava rock em português - ninguém arriscava encarar o inglês. Exceto o Tim. Quando ele partiu para a bossa nova, resolveu cantar em inglês. Não que não gostasse das letras em português; gostava até mais do que em inglês - sempre achou esnobe esse negócio de "Quiet nights of quiet stars". Mas queria porque queria sacanear João Gilberto. Para ele, "um ótimo cantor que não canta porra nenhuma".

Tombo na chola














Final dos anos 60, comecinho dos 70. André Midani estava atrás de um artista à espera de ser descoberto, um gênio escondido por aí, com um som ao mesmo tempo original e vendável. Queria um diamante bruto. Foi atrás dos Mutantes: "Tem um tal de Tim Maia, muito louco, mas genial". Perguntou pro Erasmo: "Tem que conhecer o Tim Maia, muito louco, mas genial". Caçou o tal do Tim Maia e encontrou a figura - gordinho invocado, antes conhecido como Tião Marmiteiro, porque carregava as marmitas que seu pai preparava e dava conta de devorá-las antes da entrega. Assinou um contrato de gravação com o cara, ele entrou no estúdio e saiu com "Primavera", sucesso absoluto. E abandonou o alisamento a base de queimadura, que ele mesmo chamava de "tombo na chola".

Elis, Marisa e regravações













Reza a lenda que a música "Chocolate" é uma declaração de amor à maconha. Tim Maia nunca confirmou o boato. Afinal, ele não bebia, não fumava, não cheirava. Só mentia um pouquinho. Mas ele ficou pê da vida quando viu Marisa Monte escancarar a apologia em sua versão. Para ele, quando ela cantou "Não quero cocaína, me liguei no chocolate", feriu o espírito da música. Coisa que Elis Regina jamais faria. Elis era perfeita, não exagerava, não errava, não era fraca, tinha emoção forte, sabia se expressar, tinha cabeça boa. E mesmo quando entrava em disputas musicais - como nos casos do dueto com Hermeto Pascoal, no Festival de Montreux; e na clássica parceria com o próprio Tim, em "These are the songs" -, era elegante e precisa. Ah, como Tim Maia queria ter cantado mais com ela...

Tim, em foto de divulgação do "Nova Era Glacial"

Vende mais porque é fresquinho ou...













Erasmo disse ter comido mais de mil mulheres. Roberto deve estar por aí. Erasmo ganhou milhões - torrou vários outros milhões. Roberto ganhou milhões e transformou em bilhões. Tim Maia não comeu tanto, não ganhou tanto. Mas ainda ficou melhor do que os grilos Cassiano e Hyldon. Por que uma turma se deu bem e a outra nem tanto? Tim Maia não sabe, mas repara em algumas "curiosidades" acerca dos velhos companheiros.

Vovôs na pista













Em 1995, Jorge Ben Jor embarcou para Nova York e trouxe na bagagem o disco "Ben Jor World Dance", além de um novo bonezinho virado para trás. Embaixo de cada música, havia legendas como "club dance version" e "radio version", mas as músicas eram as de sempre: "Fio Maravilha", "País tropical", "Taj Mahal" etc. A diferença eram as batidonas eletrônicas. Lulu Santos também entrou numas de fazer dance e trocou a guitarra pelo batidão. Tim Maia continuou Tim Maia, alternando mela-cueca com esquenta-sovaco, mas ganhou a pecha de brega. Pelo menos pode se orgulhar de não ter virado um velho tentando passar por menino. Teve gente que até mentiu a idade!

Rap calango













Na Jamaica dos anos 60, nenhuma gravadora se atrevia a lançar artistas de reggae, muito menos rastafáris. Por isso, todo mundo saía em compacto simples - desde gente muito grande como Bob Marley e Jimmy Cliff até artistas menos famosos como Lloyd Parks e Jackie Opel. Enquanto um lado do disco tocava a música completa, com harmonia e vocais, no B, os produtores colocavam instrumentais viajandões para o povo curtir enfumaçado de ganja. Era assim, até que um ou outro DJ teve a ideia de animar a festa improvisando rimas sobre as bases de dub. Surgiu o ritmo e poesia, surgiram os MCs e o povo começou a acelerar as rimas. Os primeiros passos do rap nacional seguiram as pegadas da rima americana e não das raizes jamaicanas. Por isso, Tim Maia desce o pau no rap e no funk. Para ele, um calanguinho vagabundo.

Triatlo














Tim Maia não sabia nada de droga. Afinal, como a gente já disse lá em cima, ele não fumava, não bebia e não cheirava. Só mentia um pouquinho. E, quando não mentia, parecia mentira. Era triatleta profissional. Não, natação, ciclismo e corrida não passavam nem perto do cantor de 160 quilos. O triatlo dele consistia em uísque, maconha e cocaína em quantidades exorbitantes. Mas nada descontrolado: a brizola era de primeira linha; a maconha, apelidada de misto quente, era uma mistura insólita de skank e haxixe; e o uísque, só de 12 anos para cima. E houve fases em que iam cinco garrafas em três dias. Pelo menos, o Tim Maia só bebia quando fazia shows ou andava de avião.

Roberto, Erasmo e Ed Motta? Não conheço.














Sempre que perguntavam a Tim Maia se ele gostava do Roberto Carlos, ele lançava um claro e retumbante "não". A mágoa vem desde os tempos de Jovem Guarda, quando o Tião Maconheiro - que largou a marmita tão logo se apaixonou pela cannabis - voltou deportado dos Estados Unidos, depois de "uma etapa" de oito meses em cana gringa. Tim precisava de um apoio dos velhos colegas, de uma forcinha para se levantar. Ela não veio. Tim não conseguiu se juntar a turma que, de acordo com ele, "tinha medo da revolução do soul", e, quando conseguiu, entrou no palco com botinhas dois números menor que seu pé, que o deixava ainda mais desengonçado, mais desajeitado e mais inseguro. Erasmo, o Tremendão, era boa gente, mas sempre manteve uma certa distância - "Nem conheço os filhos dele". E por falar em não conhecer, Tim teve um herdeiro "meio quatro-quatro-meia": Ed Motta, cantor jovem e talentoso de 150 quilos, mas que curtia falar mal do tio. Talvez não tanto quanto o tio curtia falar mal dele. Mas Tim Maia é Tim Maia, né?

Tim Maia, em foto de Divulgação do "Nova era glacial"

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Andrade, mais um primeiro negro a...

Estereótipos. Nossos maiores inimigos são os estereótipos. Na autobiografia de Malcolm X, escrita por Alex Haley, há uma passagem muito interessante sobre estereótipos. Malcolm, então Little, então estudante do primeiro grau, fala a um professor que sonha ser advogado. Ele é um dos melhores da turma do colégio, de maioria branca. O professor pede que ele fique depois da aula e desestimula a ideia. "Por que você não escolhe ser marceneiro, mecânico, atleta, músico, garçom...? São todas boas profissões, exercidas por gente honesta. E são mais adequadas a sua raça. Os negros têm mãos grandes, enorme habilidade física, são de fato privilegiados. E isso é muito bom, algo de que você deveria se orgulhar. Por que tentar ser advogado?"

Malcolm X, depois de cumprir os desígnios da raça

O discurso soa absurdo. "Que coisa racista!", pensamos, acostumados a nossa experiência empírica de que não há componentes raciais que determinem o que alguém pode ou não fazer. Pois é. Mas se pegarmos a prática, os mínimos cargos de comando são reservados aos brancos. Já que o futebol explica o mundo, como diria o jornalista americano Franklin Foer, é nele que caço exemplos dessa terrível verdade. Dizem que um bom time começa com um bom goleiro. Afinal, o goleiro não é simplesmente o cara que tem o privilégio das mãos - em terra de pé, quem tem mão é rei -; o goleiro é o princípio organizacional de um time de futebol. Ele orienta a defesa, ele tem a visão máxima do jogo, ele define se um time avança ou recua. O goleiro tem mais tempo para observar do que os outros jogadores, já que sua participação com a bola dominada é limitada a situações extremas. O goleiro é uma extensão do técnico em campo.

Não me lembro do futebol de 1950 - que frase ridícula, né? Mas é verdade, não saberia comensurar quanto o jogo evoluiu ou mudou de lá pra cá. Mas sei que a seleção brasileira tinha o goleiro negro Barbosa, que entrou para a história como o vilão do Maracanazzo. Já vi o lance do gol de Gigghia - aquele que calou 200 mil pessoas no Maracanã - milhares de vezes e juro que não consigo enxergar a falha clamorosa de Barbosa. Mas ele morreu idoso, ainda se desculpando por ser o maior vilão da história futebolística brasileira. Se a tragédia pessoal de Barbosa não é suficientemente comovente, basta olharmos para seu impacto social. Foram precisos 56 anos para que outro goleiro negro voltasse a defender a meta da seleção brasileira. Dida foi o cara. Ao longo deste tempo, no Brasil da democracia racial, ninguém falava, como o professor de Malcolm X, que os negros eram inaptos a esse cargo pseudo-intelectual. Mas não deram a nenhum a oportunidade de refutar a tese.

Barbosa toma o gol que decreta fracasso brasileiro em 1950

Se o cargo de goleiro - extensão campal do técnico - já esbarra no estereótipo, que dirá o de técnico propriamente dito. Ontem, pela primeira vez, um técnico negro foi campeão brasileiro. Brasileiro, não alemão. Brasil, sabe? Aquele país que tem dois terços de população negra? Pois é: neste modo de Brasileirão, que acontece desde 1971, nunca houve um técnico negro campeão. Andrade, do Flamengo, é o primeiro. É a queda do estereótipo de que o negro não tem competência para o trabalho intelectual? Não. Ainda não. Mas, cada exceção que aparece faz com que a próxima seja um pouco menos exceção. Até que o estranho vire normal. Aí sim, temos uma verdadeira conquista social rumo à igualdade. Então, parabéns ao Andrade por essa conquista, maior até do que a de Campeão Brasileiro.

Andrade, uma vez Flamengo...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

(Vídeo) Afropapo com Steel Pulse

Foi só deixar o saguão do aeroporto Santos Dumont, na sempre maravilhosa cidade do Rio de Janeiro, que o Steel Pulse veio à cabeça: "You can’t stand the heat (você não aguenta o calor)". A letra dessa faixa de 1989, gravada sob encomenda para a trilha de Faça a coisa certa, de Spike Lee, martelava a cabeça como o sol, culpado pelos 42 graus que marcava o termômetro. Em São Paulo, Marina havia lembrado um outro som dos caras, "Drug Squad". É que, ao passar pelos detectores de metal, ela cantarolou: "Ain't got nothing to declare! (não tenho nada a declarar)".


Embora tivéssemos tempo, afligia-me o fato de não ter uma pauta completa. Dentro de algumas horas, tinha de ter na ponta da língua uma breve entrevista com o Steel Pulse. O problema era justamente o "breve". Os caras têm 35 anos de carreira, já dividiram palco com Bob Marley e Stevie Wonder (só para ficar na superfície), tocaram em toda parte do mundo, levantaram diversas bandeiras de consciência negra, resgataram heróis como Steve Biko (revolucionário sul-africano) e George Jackson (pantera negra), gravaram quase 20 álbuns impecáveis e estão em estúdio pra fazer mais um. Para piorar (ou melhorar), era 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Quer dizer, um dia inteiro não esgotaria o papo.

E havia mais um agravante: o fato de eu ser fã de carteirinha da banda. Quem trabalha com isso sabe como é complicado entrevistar ídolos. Por um lado, você sabe tudo sobre o cara; por outro, a chance de frustração é imensa já que, frequentemente, o artista não é tão interessante quanto a obra. Não é o caso de David Hinds, Selwyn Brown e companhia. Eles calharam de tocar no Rio exatamente no Dia da Consciência negra... E chegaram aqui afinadíssimos com a luta negra por aqui. Basta ver a propriedade com que David Hinds fala de Zumbi no vídeo abaixo!



O show? Bom, o show foi como uma segunda resposta à entrevista: eles tocaram "Drug Squad", "Can't Stand It" e fecharam com "Vote Obama". Na escolha dessas duas últimas para o repertório, acho que tivemos influência direta! Hehehehe

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Helena negra na Tróia brasileira

"Ela é uma modelo rica, não representa a população negra brasileira", disse-me Kokumo, sob o sol escaldante do Rio de Janeiro, na última sexta-feira. Kokumo (foto ao lado) é jamaicano, radicado na Inglaterra, poeta dub da turma de Linton Kwesi Johnson e Benjamin Zephaniah. E eu respondi: "Mas demorou sessenta anos para que tivéssemos uma protagonista preta na novela das oito". Ele deu uma risadinha de canto de boca: "É, já é alguma coisa".

É, já é alguma coisa. Mas concordo com Kokumo que é pouco. Ele seguiu o papo dizendo que respeita os negros americanos, que conseguiram construir uma identidade com a própria força. Verdade; eu também. Mas o fato disso precisar ser dito pressupõe um porém. Acho que o porém deve ser o "bling bling", o fascínio que causam metais tilintantes nos artistas negros americanos de hoje em dia. Há exceções, é claro. Mas, via de regra, o negócio deles é quanto mais ouro, melhor.

A gente está a anos-luz de pecar pela ostentação. No fim da primeira década do novo milênio, o preto brasileiro comemora a primeira protagonista negra de um programa de televisão que é exibido ininterruptamente - com breves variações de roteiro - há seis décadas. Entendo a frustração de Kokumo com a personagem. Mas entendo também que o Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão - se é que aboliu. E é o país da "democracia racial" (haja aspas!) e do senso que computa igual número de negros, mulatos, pardos, marrons-bombons e chocolates sensuais.

Travamos essa conversa em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Pelo menos, era o que comemorávamos lá no Rio. Estivéssemos em Goiânia, não comemoraríamos nada. Afinal, a cidade aboliu o feriado antes mesmo que acontecesse pela primeira vez para não prejudicar "diversos setores produtivos". Desde 2003, Porto Alegre, Santa Maria e Pelotas também não têm Dia da Consciência Negra. E, pasmem: naquele mesmo momento, em Salvador, o povo - 85% negro - trabalhava. Lá também não tem 20 de novembro. Engraçado que não há muitos esforços para abolir feriados no Brasil, né? Por que será que há tantas vozes contra esse, especificamente? Se der a resposta aqui, vou parecer aquele negão perseguido, que vê racismo em tudo.

Taís Araújo na pele de Helena, de Viver a Vida

Voltando ao assunto: estamos muito longe. Longe dos americanos, longe dos jamaicanos, dos ingleses, dos africanos. Quando falamos em Consciência Negra, precisamos explicar que sim, existem negros no Brasil - embora eu ache que se você colocar negros e brancos numa parede e falar pra polícia definir quem é quem, você encontra a resposta rapidinho. Por isso tudo, acho que devemos comemorar a Taís Araújo na novela das oito. Não só pelo papel, mas pelos 31 anos, que ela completou ontem. Hehehehe. Parabéns. E devemos exigir mais, como sugere Kokumo e minha mãe, que disse outro dia na televisão que ficará satisfeita quando puder falar dos modelos pretos - modelos de vida, não de passarela - sem citar nomes.

PS: Pulga atrás da orelha - a semana da Consciência Negra começou com a personagem de Taís Araújo de joelhos tomando tapa na cara de uma branca. Pode ser uma coincidência infeliz, embora eu tenda a acreditar mais em MV Bill do que em conto da carochinha: "Novela de escravo, a emissora gosta. Mostra os pretos chibatados pelas costas".

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O comediante Spike Lee

Ontem, eu estava morrendo de sono. Muito mesmo. Por isso, temia ligar a televisão. Eu me dou o luxo de manter TV a cabo no quarto porque sou um tevê-adicto nato e até orgulhoso. O problema é que a TV a cabo tem infinitos canais, é impossível não achar alguma coisa boa. Um dia, é Simpsons, no outro, teipe de um jogo da série C do campeonato de um ano passado, em mais um, um documentário sobre babuínos que têm de lidar com a seca na travessia do deserto africano. Quer dizer, só coisa imperdível.

Mas o pior de tudo é quando é um filme que você já viu. Pior ainda: quando é um filme que você já viu e tem o DVD para assistir a qualquer hora. Foi o que aconteceu ontem: liguei a TV e passava "A hora do show" (Bamboozled, 2000), do Spike Lee, minha Bíblia cinematográfica. Tive que assistir. Até porque a versão que eu tenho é tão pirata que eu mesmo fiz as legendas. Observação importante: eu não compactuo com a pirataria (talvez, só um pouquinho! Hehehehe), mas o DVD nunca foi lançado no Brasil. Bom, minha primeira tentativa de não postergar meu sono em quase três horas foi buscar via controle remoto outros horários de exibição. Não consegui, mas descobri uma coisa engraçada: o filme está classificado como "Comédia".

Eu não sei o que esse povo entende por comédia, mas vamos lá. "A hora do show" conta a história de um roteirista de televisão negro que tenta emplacar sitcoms para classe média afro-americana e sempre esbarra no racismo da emissora. Até que se enche o saco das frequentes batidas de porta e cria um roteiro tão ofensivo e racista que irremediavelmente o leva à demissão. É um show de menestrel, com gente pintada de preto (as famigeradas "blackfaces"), sapateados, estereótipos - Tia Anastácia, Tição e Pai Tomás estão todos lá - e melancias. Um negócio horroroso. O problema é que o programa vira um sucesso de público e crítica. Spike Lee faz uma análise profunda do racismo nos Estados Unidos e, evidentemente, coloca um ponto final trágico na história. Isso é o que eu leio; a Veja usou as palavras "ridículo" e "rebarbativo" pra falar do filme. Mas acho que nem a Veja chamaria de "Comédia".




Essa classificação me lembrou "Crooklin", outra obra-prima de Spike Lee. O nome em inglês é uma junção de "crook" (bandido, ladrão, safado, pilantra) e Brooklin, o tradicional bairro meio negro meio judeu de Nova York. O filme mostra uma família - mãe, pai, quatro meninos e uma menina - que sofre pela falta de grana e perspectivas. Mais uma história trágica que, em português, recebeu o trágico nome de "Uma família de pernas pro ar". Não sei quanto a vocês, mas um título desses me lembra o pior da "Sessão da Tarde", tipo: "Alunos muito loucos", "Uma turma do barulho" e "Loucademia de polícia". Será que eu estou viajando ou a tragédia negra é mesmo muito engraçada?

Feliz aniversário, Afroências!


Negrada... Afroências completou um ano no último dia oito e, fazendo da incompetência lema, estou atrás da notícia. Nem lembrei de comemorar o aniversário do blog. É fato que das últimas vezes que me atrasei - Ilê Aiyê, Ziggy Marley e mais umas ou outras - foi por pura falta de tempo. Ando na maior correria do mundo.

Mas, dessa vez, não. Tive tempo para escrever. Poderia ter me planejado, feito um textinho no fim de semana e mandado bala. Afinal, dia 8 de novembro foi um domingo. "Oito de novembro?" podem se perguntar os mais atentos, já que o primeiro post pintou só no dia dez. Mas foi em 8 de novembro de 2008, um sábado, que me sentei e resolvi que finalmente exporia minhas negrices para o mundo. Foi por euforia. Eu estava em casa, vagando pela internet atrás das repercussões da eleição de Barack Obama - outro post que perdi, deveria ter comemorado um ano do negrão no poder, comentado mudanças de postura frente a Iraque, Afeganistão, América Latina e Guantánamo, Prêmio Nobel, popularidade, internet... Que post seria! Perdi o fio da meada. Ah, sim: euforia! Sim, eu estava lá, eufórico, feliz da vida que tínhamos um negro no mais alto cargo de liderança política do mundo e queria compartilhar essa alegria.

Houve outras vezes em que comecei blogs, mas foi sempre por raiva. O primeiro, por raiva do jornalismo. Estava no segundo ano de faculdade e queria desistir da profissão. Gosto dessa profissão, amo essa profissão. Mas, como Gay Talese, não queria escrever textos para as pessoas lerem no banheiro. E sentia que era isso que faria para o resto da vida. Vários amigos acadêmicos faziam um uníssono preconceituoso contra a minha profissão. Mas meu caso não era preconceito, era frustração. Frustração com um mercado inflado de estagiários, que demitia seus mestres e relegava a qualidade à posição de coadjuvante da velocidade. Um mercado que transformava o jornalismo em moldura da publicidade. Era assim que eu me sentia quanto à profissão - sentia que éramos gente que não queria escrever escrevendo para gente que não queria ler, regidos por patrões que não sabiam ler. Trabalho na internet; pouca coisa mudou. Mas aquele primeiro blog não foi pra frente. Depois de dois ou três textos, eu já tinha tanta raiva do blog quanto do mercado em que trabalhava.

A segunda vez que montei um blog foi no dia seguinte à entrevista do Mano Brown no Roda Viva. Eu estava com raiva de tudo. Principalmente da raiva que tinham determinados intelectuais da postura do próprio Brown no programa. "Ele foi complacente"; "Ele se mostrou ignorante"; "Ele é em cima do muro"; "Ele é contraditório"; "Ele não é o líder da periferia". Não foi isso que li daquele programa. O que vi ali foi um péssimo time de entrevistadores que se dividia entre entusiastas de uma pseudo-revolução promovida pelos Racionais e reação a essa mesma revolução. Metade entrevistou um terrorista, metade entrevistou um Che Guevara do Capão Redondo. Ninguém tentou entrevistar um músico competente, um poeta de mão cheia e um mano da periferia de São Paulo. É isso que Mano Brown é; não é revolucionário, não é líder, não é bandido, não é terrorista. O que se viu ali foi uma projeção de todos os preconceitos - bons e ruins - da classe média sobre um cantor e compositor. Um exercício nítido de péssimo jornalismo, um modelo de como não entrevistar. Vestida de preconceito, a classe média frustrou a si própria com uma entrevista direcionada a quem eles queriam que fosse e não a quem era de fato. O programa perdeu uma ótima entrevista e eu resolvi montar um blog pra dizer isso. Esse durou um post. Hehehehe

Mas eu continuei tentando e inventei o Groovy Tech, cujo esqueleto permanece em algum armário da internet. Sabe? Era um blog legalzinho até. Falava de tecnologia, internet, essas paradas... E não nasceu do ódio! Nasceu de nada... Nasceu do fato de que eu e meus amigos Paulo Planet e Ricardo Infante queríamos dar um complemento online a um site que desenvolvíamos à época. Queríamos estabelecer uma sólida comunidade interativa em que as pessoas trocassem conhecimento, informações, diversão, gostos pessoais e pudessem conhecer umas às outras cultural e socialmente. Era uma ideia bacana pra caramba. Mas não foi pra frente como queríamos. E eu perdi o parco entusiasmo que tinha por aquele blog de tecnologia... Faltou tesão.

Eu, Planet e Ric

E foi o tesão que não faltou para fazer o Afroências. Para falar a verdade, esse aniversário do Afroências é meio ilusório. O nome surgiu lá em 2004, mas passava longe de blog. O Afroências nasceu no rádio. Eu, Murillo Camarotto e Wander Otoni montamos um piloto para uma rádio pirata na Puc, um programa de música negra que traria a história dos ritmos e a evolução do som desde a tribo até hoje. Eram afroências de fato. Influências, afluências, afroências. Era como se o som, como Kunta Kinte de Alex Haley, viesse de navio pelo Kambi Bolongo e desembocasse na América com nada além de seu repertório cultural, que sobreviveu a 500 anos de tentativas de genocídio. Era a música como um rio, vindo da África. A polícia fechou a rádio e confiscou os equipamentos depois de dois programas. Paciência. Combinei com o Murillo que faríamos do programa o trabalho de conclusão do curso de jornalismo e nos ativemos a essa ideia até o último ano de faculdade, quando ele espirrou e me deixou a remo no Oceano Atlântico. Mas isso foi ótimo porque ele produziu um trabalho maravilhoso, ao lado de Juliana Vettore - o documentário "Sociedade Secreta", que transformou um usuário do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) em cineasta. Eu não fiz o Afroências. Para falar a verdade, não fiz praticamente nada.

Eu, Murillo e Wander (não consigo ficar de olho aberto, não tem jeito)

Até o ano passado. Estava eufórico e queria comemorar o Obama num espaço preto. Queria exaltar a negrada pela importância do fato. E queria dar continuidade a isso: queria exaltar a negrada sempre e pra sempre. Queria fazer isso por amor, porque precisava ser feito, porque eu acredito nisso. Por incrível que pareça, não me vinha um nome à cabeça. Marina Morena que, além de leitora assídua e pauteira mais afroente, é minha namorada, sugeriu: "Afroências". Pedi autorização para o Murillo - o nome é ideia dele - ele mandou um típico "lógico, trutão!" e a coisa deu certo. Deu muito certo! Mais de 10 mil pessoas passaram por aqui ao longo deste ano e deixaram contribuições inestimáveis não só ao espaço mas a mim mesmo. Não sei se tinha um objetivo claro quando montei esse blog. Mas, depois que recebi da leitora Naiane o comentário que reproduzo abaixo, tenho certeza de que o Afroências cumpriu seu objetivo. Obrigado, Afroentes leitores. Tamo junto!

Gabriel, foi um amigo branco que me falou do seu blog. Eu vim ler e acho sempre foda o que escreve (tb sou exigente viu! rs) Hoje ele me ligou dizendo que seus textos o ajudam com várias questões que tem dúvidas mas não fala comigo porque se sente constrangido. Não tenho o que acrescentar ao seu post, só dizer que sua contribuição é bem maior do que imagina viu. O melhor foi ele dizendo: "Eu entendi!!agora não ficarei mais ofendido quando vc disser que é 100% negra"...rs
Continue nos afroenciando!
Um beijo grande!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ilê Aiyê para abrir o mês da consciência negra

Afroências atrás da notícia. Literalmente - essa notícia no caso está atrasada 35 anos e dois dias. Mas são os dois dias que pegam: eu queria começar este mês da Consciência Negra com uma série fina de posts, dedicada a eventos importantes da história negra. Mas, trabalhei, trabalhei, trabalhei e o Afroências ficou numa gaveta angustiada nos últimos dois dias. Por isso, peço a vocês, meus afroentes leitores, um esforço de imaginação: vamos fingir que hoje não é 3 de novembro, mas dia 1º. Vamos fingir que o feriado não foi ontem, mas será amanhã. E sejamos mais felizes pois (dentro dessa nossa ficção) começa hoje o mês da Consciência Negra.


Há (quase) exatos 35 anos, em 1º de novembro de 1974, nasceu no Curuzu, em Salvador, o Ilê Aiyê, não só o mais importante bloco afro do País, mas um dos principais movimentos de inclusão social do negro. Sergios Bianchis e afins dirão que "bater lata não é inclusão social". Pois isso passa longe de definir o Ilê Aiyê.

Na verdade, quando o bloco irrompeu as ruas da capital pela primeira vez no Carnaval de 1975 causou um incômodo. O bloco cantava a África, cantava as revoltas negras - a própria Bahia concentrou ao longo da história alguns dos principais levantes anti-escravidão -, forçava goela abaixo a auto estima negra. O grito de guerra? "Que bloco é esse/Eu quero saber/É o mundo negro/Que viemos mostrar pra você". Essa música de Paulinho Camafeu, que depois ganhou o Brasil e o mundo nas vozes de Gilberto Gil e O Rappa, enfureceu o Brasil da democracia racial.

O site oficial do Ilê reproduz um artigo do jornal "A Tarde" sobre essa insurreição afro que foi a primeira aparição do bloco. Peço licença para reproduzi-lo aqui:

"Bloco racista, nota destoante"

Conduzindo cartazes onde se liam inscrições tais como: "Mundo Negro", "Black Power", "Negro para Você", etc., o Bloco Ilê Aiyê, apelidado de "Bloco do Racismo", proporcionou um feio espetáculo neste carnaval. Além da imprópria exploração do tema e da imitação norte-americana, revelando uma enorme falta de imaginação, uma vez que em nosso país existe uma infinidade de motivos a serem explorados, os integrantes do "Ilê Aiyê" - todos de cor - chegaram até a gozação dos brancos e das demais pessoas que os observavam do palanque oficial. Pela própria proibição existente no país contra o racismo é de esperar que os integrantes do "Ilê" voltem de outra maneira no próximo ano, e usem em outra forma a natural liberação do instinto característica do Carnaval.

Não temos felizmente problema racial. Esta é uma das grandes felicidades do povo brasileiro. A harmonia que reina entre as parcelas provenientes das diferentes etnias, constitui, está claro, um dos motivos de inconformidade dos agentes de irritação que bem gostariam de somar aos propósitos da luta de classes o espetáculo da luta de raças. Mas, isto no Brasil, eles não conseguem. E sempre que põem o rabo de fora denunciam a origem ideológica a que estão ligados. É muito difícil que aconteça diferentemente com estes mocinhos do Ilê Aiye.

Esse artigo é muito interessante. A começar pelo "apelidado Bloco do racismo". Apelidado por quem, cara pálida? Ou melhor: por qual cara pálida? Depois vem essa história de democracia racial que é dura de engolir. Segue com a acusação de comunismo ("somar aos propósitos da luta de classes...") e fecha, ironicamente, com um racismo importado dos Estados Unidos. Afinal, aquele WASP de extrema direita dos estados do sul tem mania de chamar o negro de "boy", mesmo que ele tenha 60 anos. Em 1975, o Vovô do Ilê já era vovô demais pra ser chamado de "mocinho".

Mas enfim, se for bater esse artigo ponto a ponto, vou longe demais e perco o foco, que é o Ilê. Acho que o importante dessa reprodução é mostrar como surgem aparelhos de opressão fortemente armados a cada vez que o negro tenta - mesmo de forma não violenta, como no caso do Ilê - ser negro. Esse texto aí em cima me lembra as reações agressivas que esse blog já recebeu, como daquele Anônimo - esse Anônimo tá em todas, né? - que disse que isso aqui é um espaço de macacos. O problema é que ali em cima, era 1974, em plena ditadura militar. Não tinha Dia da Consciência Negra, não tinha rap, não tinha Ilê e, se acreditarmos na mídia tradicional, não tinha racismo! Dá pra entender tamanho reacionarismo. Impressionante é ver que passados 35 anos, ainda tem quem não acredite em racismo, quem se ofenda com 100% negro, com o cabelo da Taís Araújo na novela, com as afirmações de identidade negra. Quer dizer, passados 35 anos, com todos os méritos, o Ilê Aiyê encara o mesmo desafio da época da fundação: o fortalecimento da identidade negra no Brasil.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

 
Afroências Arte: Gabriel Rocha Gaspar