30 agosto, 2018

O apocalipse não será conservador, será reacionário mesmo

 Em fevereiro de 2015, membros do autoproclamado Estado Islâmico destroem estátuas milenares no museu de Mosul, no Iraque, em nome da primazia de um único deus. Foto: captura de tela.

Por volta de 1350 a.C., quando Akhenaton decidiu que Aton era o único deus existente e decretou a morte de todo o resto do panteão egípcio, pela primeira vez na história conhecida, sangue correu em rios por motivos estritamente religiosos. Antes disso, quando divindades diversas compartilhavam a atenção da espécie humana, não ocorria a ninguém matar outra pessoa por adorar um falso deus. Afinal, não havia a ideia de um deus totalitário, responsável por toda a criação. Deuses eram complementares, como pessoas. Quem se ocupa da pesca não pode caçar ao mesmo tempo; da mesma maneira que quem mantém a água sobre o oceano não pode providenciar que frutos germinem da terra. Quando, por decreto, Aton torna-se onisciente e onipotente, todos os outros deuses deixam de ser operários da harmonia cósmica e convertem-se em falsos ídolos.

Assim nasce a intolerância religiosa, conta o egiptólogo alemão Jan Assmann, no livro Moisés, o Egípcio, de 1997. A  intolerância religiosa é fruto e característica inalienável do monoteísmo. Esse é um vício de origem da nossa maneira de pensar. Fomos cognitivamente construídos em torno do monoteísmo e, consequentemente, da intolerância. Mais de 3 mil anos depois, nossa sociedade vive sob o postulado de Akhenaton: tudo que não é Deus é diabo. Logo, deve ser eliminado.

Esta maneira de pensar não se restringe à religião, mas permeia toda a nossa estrutura de compreensão do mundo. Quando constituímos nossas relações sociais em torno de três faculdades, leitura, escrita e cálculo, relegamos todas as outras faculdades a um lugar de sub-existência ou existência indesejada. Abdicamos de uma série de capacidades humanas - que hoje, face à iminência de nosso colapso como espécie, podem guardar a chave de nossa sobrevivência, como especula o neurocientista Jeremy Lent em The Patterning Instinct:A Cultural History of Humanity's Search for Meaning (em tradução livre, O Instinto de Padronização: Uma História Cultural da Busca da Humanidade por Sentidos) .

Numa sociedade em que o mercado, a mão invisível descrita por Adam Smith, é um substituto imediato de Deus, relegamos o que está fora do mercado a este mesmo lugar de existência indesejada. O que não pode ser calculado precisa se tornar calculável para poder reivindicar existência. É assim com a arte, por exemplo, cuja relevância deve ser avaliada em cifrões; é assim com a felicidade, a ser quantificada por terceiros, de acordo com o potencial de consumo que um indivíduo ostenta; é assim com a beleza, calculada a partir do grau de proximidade estética com modelos milimetricamente produzidos em Photoshop; é assim com a fé, medida segundo o peso do dízimo. Algo que insiste em permanecer fora do alcance de nossa matemática mercantil veste a máscara do diabo e deve ser eliminado. É assim que a filosofia, mais abrangente do que qualquer gaveta disciplinar e determinante de nossa condição existencial, passa a ser vista como um empecilho desconfortável, um cisco no olho do progresso econômico.

Isso vale para ideias, mas também para pessoas. Uma vez que o lucro se estabelece como condutor da atividade humana, a sociedade se torna inerentemente incapaz de garantir à coletividade da espécie as faculdades necessárias à reivindicação de existência nesta mesma sociedade (ler, escrever e calcular), porque a educação foge à previsibilidade de curto prazo necessária ao lucro dentro de uma lógica competitiva global, que opera 24/7.

Cadeia é uma varinha de condão da burguesia, que transforma exclusão em lucro

É por isso que o número de prisões cresce de forma inversamente proporcional ao número de escolas. Quanto menos investimos na divinização dos seres humanos por meio da aquisição das faculdades utilitárias que elegemos como portadoras de existência potencial, mais diabos criamos. E, se criamos diabos, precisamos criar infernos que os comportem e tornem sua existência passivamente utilitária. "Utilitária? Cadeia não serve pra nada!" Claro que serve: serve para transformar em valor quem foi privado de gerar valor dentro da exploração capitalista. Se você não é capaz de agir dentro do sistema para gerar lucro ao 1%, o sistema age sobre você para garantir o lucro. Ou você acha que é pouca coisa uma licitação pra construção de presídio, outra pra alimentação, outra pra segurança privada, outra pra extorsão de parentes de presos, outra pra compra de armas e uniformes e outras tantas que nem imaginamos, tudo superfaturado? Cadeia é uma varinha de condão da burguesia, que transforma mão-de-obra recessiva, o exército de reserva do capitalismo, em dinheiro.

Em outras palavras, aqueles seres humanos que são economicamente inviabilizados pela precariedade educacional infligida em nome da manutenção da lógica da lucratividade são transformados em geradores passivos de valor por meio do encareceramento. Quem não se classifica para sofrer a mais-valia pseudo-voluntária proposta (pra cada vez menos gente) pelo mercado de trabalho é reduzido à total-valia dentro do inferno prisional. Quem não adquire as capacidades básicas para produzir commodities ou assets financeiros é diretamente transubstanciado em commodities e assets financeiros.

Ou seja, aqueles para quem o Estado guiado pela lógica mercadológica não concedeu faculdades divinas têm seus corpos expropriados e convertidos em objetos especulativos descartáveis. Presos são ativos financeiros de curto prazo enquanto calculadores-leitores-escritores são ativos financeiros de médio prazo. No longo prazo, os dois se convertem em lucro para o topo da pirâmide.

Só que, frente à lógica da competitividade, onde cada capitalista mediano deve vencer seus concorrentes diariamente, o médio prazo é longo. Para manter-se numa fileira intermediária da cadeia alimentar, é necessário dosar poucos ativos de médio prazo com muitos ativos de curto prazo. Ainda mais quando o mercado de futuros está ameaçado pela desestruturação incontornável do mercado de trabalho, auto-infligida pela automatização (robôs, que não consomem, produzem mais do que podemos consumir, mas eliminam os empregos, expropriando o poder de compra dos potenciais consumidores).

Neste sentido, o monoteísmo mercadológico é tão totalitário quanto o teológico. Do mesmo jeito que o inferno só pode existir dentro da igreja, a exclusão da economia de mercado existe dentro da economia de mercado.

Como o sistema econômico é totalitário e a escolha é entre a forma de servir o lucro (se voluntária ou involuntariamente), é plenamente compreensível que os excluídos queiram inconscientemente converter-se em commodity antes que o sistema o faça. Uma das maneiras de fazê-lo é tornar-se veículo de propagação ideológica para a lucratividade de mega-corporações, como no caso da contribuição mecânica à engrenagem das redes sociais, por exemplo. Ao tornar-se um digital influencer (ou outdoor humano) e entregar seu corpo ao Facebook, você gera valor de mercado para si próprio e evita ser transubstanciado em carvão para as fornalhas da indústria da morte.

A profunda contradição é que as fornalhas - talvez por conta da tácita (ou nem tanto) inspiração nazista da sociedade contemporânea de mercado - servem não como propulsoras de uma máquina produtiva qualquer, mas como um fim em si próprias. Como acontece com batatas em sobressafra, é mais viável economicamente queimar excedentes do que distribuí-los. É mais viável economicamente matar pessoas do que integrá-las à própria sociedade de mercado por meio da educação.

Ao invés de optar pela manutenção conservadora do nosso ethos cognitivo, baseado no tripé cálculo-escrita-leitura, tomamos a saída abertamente reacionária, que é rentabilizar o descarte do geometricamente crescente excedente humano. Se ainda acreditamos que somos parte de uma mesma espécie e habitamos um mesmo planeta (no andar de cima, há quem conteste essas afirmações), alguma dúvida de que nosso sistema social, econômico e político é  biologicamente insustentável?
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02 julho, 2018

Junho 2013: sinais do futuro que já começou

Junho de 2013 pode ter aberto possibilidades para um futuro que não chegou. Resta saber se, pela esquerda, este futuro está extinto ou apenas suspenso. O que chegou foi a múltipla e totalizante crise na qual estamos inseridos até o pescoço. Do levante dos "coxinhas" em 2013 à intervenção do exército contra a greve dos caminhoneiros em 2018, sobram sinais de um novo gênero de contrarrevolução preventiva que demonstram o quanto as elites brasileiras entenderam o espírito de junho.

Por Fred Lyra*

No seu livro de intervenção O ano em que sonhamos perigosamente, lançado em 2012, o filósofo esloveno Slavoj Zizek tenta pensar os diversos acontecimentos que haviam emergido por todo o mundo no ano anterior, 2011, ano este de: Revolução na Tunísia; Revolução no Egito, tendo as ocupações na praça Tahrir como o símbolo maior; Ocupação na praça Syntagma e motins por toda a Grécia; o movimento 15M dos Indignados na Espanha; Occupy Wall Street; motins por todo o Reino Unido; entre outros acontecimentos. Zizek observa que boa parte da dimensão emancipatória deste ano em que voltamos a sonhar de forma perigosa na busca de alternativas para sair do pesadelo do capital ao qual estamos subsumidos foi imediatamente anulada pela mídia que, entre outras coisas, passou a disseminar falácias quase delirantes que colocavam plataformas como o Facebook como os meios responsáveis por tais insurreições e revoluções. As grandes mídias cumpriram bem uma das suas funções de existir, a saber, a de serem meios contrarrevolucionários. Exatamente por isso, uma análise que busca vir pelo lado oposto, aquele da tradição dos oprimidos, não está autorizada a se comportar como neutra. Essa posição, argumenta Zizek, é inexoravelmente parcial e engajada, ou seja, para se pensar acontecimentos desta proporção apenas uma análise que não negue o seu ponto de vista parece ser consequente.

Ao final do livro, Zizek observa que após um ano, se muito, todas essas explosões haviam sofrido um refluxo, quando não uma reação violenta. Seria, se pergunta o filósofo, “a única escolha que temos aquela entre a nostálgica-narcísica lembrança dos momentos sublimes de entusiasmo e a cínica-realista explicação do que dessas tentativas de mudar a situação iriam inevitavelmente falhar” (ZIZEK, p. 127)? Um primeiro sinal – de certa forma confirmado pelo futuro que é o agora – é que a raiva não acabou e que novas revoltas poderiam explodir. Um outro sinal é que nada poderia ser como antes e que as elites sabiam bem disso, estando consciente de que já não tem mais o mesmo controle da situação.

Tendo isto em mente, Zizek propõe então uma inversão da perspectiva historicista corrente que muda o ângulo de percepção desses acontecimentos, em vez de fazerem parte de uma linha que teria vindo do passado para o presente, eles deve ser lidos como: sinais do futuro. “Explosões radicais emancipatórias não podem ser compreendidas desta maneira: em vez de analisá-las como parte do contínuo do passado e presente, devemos trazer a perspectiva do futuro, tomando-as como limitadas, distorcidos (às vezes mesmo pervertidos) fragmentos de um futuro utópico que se encontra dormente no presente com o seu potencial escondido”. Estes acontecimentos são “elementos que estão aqui, no nosso espaço, mas cujo tempo é o de um futuro emancipado, o futuro da Ideia Comunista” (Zizek, p. 128).

Contudo, nada pode garantir de maneira nenhuma que este futuro chegará. Não há teleologia, apenas reconhecimento de uma potencialidade particular. “Enquanto aprendemos a assistir tais sinais, nos diz Zizek, devemos estar conscientes que o que estamos fazendo agora só se tornará legível quando o futuro estiver aqui” (ZIZEK, p. 128), e ele continua “o que é preciso, então, é um delicado equilíbrio entre a leitura dos sinais do hipotético futuro comunista e a manutenção da abertura radical do futuro” (ZIZEK, p. 128-29). A leitura desses sinais requer assumir plenamente uma posição engajada, seguir fielmente estes sinais para que só assim o futuro que eles anunciam possa talvez se tornar presente.
Todavia, isso não implica que este futuro deva ser imaginado positivamente, pelo contrário, a abertura para o futuro é negativa e o empenho deve ser em via da efetivação dessa negação. A palavra de ordem “não vai ter copa!” foi de certa forma, um sinal de um futuro que não chegou. A copa aconteceu, mas poderia não ter ocorrido. Os sinais são ambíguos, não são garantias de nada.

De onde nossa hipótese de ler as Jornadas de Junho 2013 da mesma forma com que Zizek leu os acontecimentos que transcorreram em 2011 como: sinais do futuro. Junho teria sido uma abertura de possibilidades para um futuro que, no entanto, não chegou. Resta saber se ele não chegou ainda, ou se aquele futuro já foi extinto. Um outro futuro, que é o nosso presente, este sim chegou chegando e é a múltipla e totalizante crise na qual estamos inseridos até o pescoço. De certa forma, assim como as reações contra as insurreições e revoluções de 2011 continuam em marcha, o contínuo, que vai do levante dos “coxinhas” ainda nas ruas de Junho até a intervenção do exército contra a greve dos caminhoneiros, embora desorganizado, caótico e aleatório pode ser visto como um gênero novo de contrarrevolução preventiva que demonstra que as elites brasileiras entenderam aquele espírito de junho.

Como disse Mario Sérgio Conti, “a situação que se abriu é revolucionária” (apud, ARANTES, p. 424), mas isto não era garantia de que haveria de fato uma revolução. A hipótese de Paulo Arantes é de que as Jornadas seriam “um enigma, de cuja solução apenas encaminhada dispomos, desde Junho, de um ensaio geral. Fica a descoberta atônita de que a insurgência que vem, ou que está chegando, envolve um momento perturbador de desgoverno, de abalo sísmico do regime normativo dominante: simplesmente não queremos mais ser governados, ou não mais assim” (ARANTES, p. 424). Que ele completa dizendo que “quase tudo consiste em saber decifrar retrospectivamente um tal ‘assim’. O novo se insinuou por essa brecha” (ARANTES, idem). Um outro futuro foi aberto nas ruas, e nenhum esforço para evitá-lo parece ser em vão e empenho. Se por um lado, na hipótese de Arantes as Jornadas de Junho teriam sido uma insurreição contra uma outra contrarrevolução que já durava mais ou menos 30 anos e que é normalmente conhecida como transição democrática, uma nova etapa de rebaixamento e agravamento deste processo talvez fosse o que ele tinha em mente quando nos disse que “Depois de Junho a Paz será Total”.

Contudo não é do futuro que chegou que nos propomos a falar. Mas de alguns sinais que parecem ter ficado lá atrás e que fazem parte do futuro que não veio. Decidir se ele pode vir é uma tarefa política. De forma que poderíamos adaptar, um pouco facilmente é verdade, a questão feita por Giorgio Agamben em relação a Auschwitz, e nos perguntar: O que resta de Junho de 2013? Se um por um lado, Agamben busca identificar o que é latente no presente daquela catástrofe maior que foram os campos de extermínio nazistas, a nossa questão é muito mais modesta e diz respeito a quais práticas e a qual dimensão do que aconteceu no Brasil podemos continuar fiéis? E fiéis no sentido badiousiano da necessidade de ser fiel a um acontecimento para poder de certa forma continuá-lo. Isso posto, é também verdade que mais recentemente o próprio Badiou parece ter esquecido esta dimensão da sua filosofia e tem feito uma leitura da primavera árabe e do que aconteceu na Grécia e Espanha de uma forma bastante historicista e paternalista. Como se as consequências reativas a tais acontecimentos revelassem as suas verdades, interditando de fato àqueles que continuam engajados em tais processos de os continuarem. Pensando os acontecimentos contemporâneos, ele não faz jus as suas análises da Comuna de Paris ou de Maio de 68 entre outros acontecimentos.

A nossa hipótese é que devemos interpretar os sinais do futuro que anunciou Junho de 2013 através do que deles resta e, sendo fiel a este resto, tentar dar forma àquele futuro que não veio. Não se pode esquecer que um outro futuro de 2013 é o presente, é o agora, o futuro já é. Ele já está aí de certa forma. Então como reverter isso? Passo então a sugerir três sinais que creio ainda serem latentes. Sinais que de certa forma foram atualizados com a greve dos caminhoneiros: a ação direta dos black blocs; a negatividade que surgiu na rua com o “eu sou ninguém” e a dimensão nacional do acontecimento.

Ação direta
A atuação dos black blocs em 2013 coloca algumas questões para se pensar o ressurgimento e se de fato existe uma necessidade crescente para pensar a ação direta. Mais do que os black blocs em si, é esse problema que me interessa mais. Antes de chegar no Brasil podemos iniciar com um desvio em torno de alguns fatos recentes aqui em Paris. A tradicional manifestação do 01 de maio deste ano de 2018, que é normalmente um inofensivo desfile dos tradicionais partidos e sindicatos franceses, foi impulsionada pelo cortège de tête (linha de frente) dos black blocs e assim passou do estágio de ser apenas mais um desfile para vir-a-ser de fato uma manifestação. Segundo a grande mídia havia entre 1200 e 1300 casseurs (velha expressão francesa para designar a ação direta; em tradução literal, "quebradores"), a vanguarda combativa da manifestação e mais ou menos 20 mil no desfile tradicional.

No entanto, o que mais chamou atenção foi o grupo intermediário nomeado pela mídia como ‘cortejo de pessoas radicalizadas’ e que segundo dados oficiais contabilizava 14500 pessoas. Pois foi este grupo que mais assustou o aparelho do Estado francês. Embora numerosos, os casseurs eram esperados e já se sabe que os sindicatos vêm ano após ano definhando, não se esperava um terceiro grupo tão significativo. Uma certeza é a de que eles não fazem mais parte da esquerda mais tradicional, mas, por outro lado, eles também não são black blocs. No entanto, se quisermos avançar bastante o sinal poderíamos dizer que eles são potencialmente black blocs. E é essa, no fundo, a interpretação sugerida, pois estas 14500 pessoas estavam de certa forma protegendo e eram no mínimo simpatizantes daqueles outros. É este tipo de aliança que é temida, pois não está claro o que seriam e nem o que poderiam fazer 16000 mil casseurs nas ruas Paris.

Um outro exemplo desse tipo de aliança ocorreu na manifestação do sábado 26 de maio 2018, quando pela primeira vez o cortège de tête foi ocupado por uma organização de banlieue (periferia, em tradução literal) – La verité pour Adama – que por todo o trajeto – de Place de République à Place de la Bastille – foi escoltado por algumas centenas de black blocs. Estes em respeito à Adama, fugiram das suas praticas usuais, não agiram e desfilaram lado a lado do cortejo do banlieue. Isto é, os casseurs não quebraram nada, agiram contra a sua lógica comum, fugiram do confronto que estava previsto e ensaiaram constituir uma nova aliança ainda por vir.

Esse longo desvio nos leva de volta ao Rio de Janeiro onde por alguns meses – entre junho e outubro – se constituiu uma aliança entre os black blocs e os professores que estavam em greve naquele momento, aliança esta simbolizada pela simbiose nomeada de: black prof. Se não podemos afirmar que todos os professores do Estado do Rio de Janeiro se tornaram de uma hora para outra black blocs, com a constituição dos black profs fica claro que este poderia muito bem ter sido caso. E esta aliança foi construída na rua.

Como bem descrevem Mariana Côrrea dos Santos e Silvio Pedrosa, a ação direta e violenta havia conquistado uma certa legitimidade e demonstrado ser necessária naquele momento e assim havia ganho a adesão de parte da população que normalmente não apoiaria tais ações. Além do mais, segundo estes autores, naquele momento no Rio houve uma transversalidade de classe e raça na composição dos black blocs que não se encontrava em outros lugares, nem em São Paulo. Haviam mais negros e pobres do que o usual. Como alguns autores observam, foi esse tipo de convergência que permitiu às manifestações durarem tanto tempo nessa cidade. Assim, em uma interessante inversão observada por Rodrigo Nunes, os black blocs, em princípio contra qualquer tipo de representação, se tornaram os representantes maiores daquilo que estava acontecendo.

Enfim, se é verdade que essa tática mostrou os seus limites, e que talvez devamos imaginar outras táticas de ação direta dissociadas e para além dos black blocs, essa aliança temporária com os professores constituindo o black prof demanda que se pense seriamente as possibilidades abertas pela ampliação e de certa forma reaparição da ação direta urbana. Por exemplo, e se tivéssemos visto surgir os black trucks ou caminhoneiros blocs na greve dos caminhoneiros? Ou melhor, e se alguma nova tática tivesse surgido nesse momento? O sinal do futuro que é a aparição dos black profs, é a demonstração de que algo desse tipo não é de todo impossível.

Des-identidade
“Anota ai, eu sou ninguém”. Muito já se discutiu em torno desse enunciado político que surgiu nas ruas de São Paulo. Guardada as devidas proporções, o que aconteceu com a aparição deste enunciado na rua é mais ou menos o que Foucault havia visto nas ruas de Teerã em 1979: uma ideia política nova que nasceu na rua, completamente imanente ao processo e que têm uma força particular pois surge e se transforma na rua, no encontro com o real. Por um lado, Peter Pal Pelbart sublinha a potência dessubjetivadora desse enunciado. Por outro lado, Giuseppe Cocco e Márcio Tascheto insistem na sua inerente multiplicidade. Porém, parece existir um aspecto prático pelo que no entanto tem sido pouco observado e que tentarei desenvolver brevemente prolongando a observação feita por Paulo Arantes que diz que a aparição do “ninguém” “ressalta a luta para tornar comum o que é comum ao contagiar o próprio nome comum de quem luta” (ARANTES, 462).

Essa não-identidade surgida nas ruas não nega necessariamente todas as identidades e nem pode ser facilmente invertida e se tornar: “eu sou ninguém, logo sou todo mundo”. “Eu sou ninguém” não pode ser invertido em “eu sou todo mundo”, como supõe João Marcelo Simões. O enunciado que surgiu nas ruas parece sobretudo essencialmente negar a identidade mais tradicional de esquerda, a versão brasileira dos partidos e sindicatos franceses que aludimos acima. Devido à situação política concreta do Brasil, outras identidades não parecem ser automaticamente negadas. Ao menos não imediatamente e nem tão pouco de forma necessária. Por estas identidades serem negativas quando se veem confrontadas às mais diversas situações, “eu sou ninguém” não dobra a negação, mas pelo contrário pode vir-a-ser algo como: “eu sou ninguém’ que você já não vê”. Uma maneira de assumir essa negatividade dando força política para ela.

Desta maneira, a nossa hipótese é de que essa não-identidade surgida na rua talvez possa ser um operatório capaz de articular a potência desidentificadora da figura do proletariado com as ditas pautas e luta identitárias especialmente as de gênero, raça e feministas. Quando a figura do proletariado é desidentificada da classe operária, passando a ter de volta o seu sentido original de despossessão volta a ser, de certa forma, capaz de reencarnar esse ninguém que pediu para ter o seu nome anotado. Em um país onde estas lutas acima referidas são tudo menos abstratas, tudo menos imaginárias, me parece que a única identidade que não parece ser capaz de se articular com esse enunciado é a da esquerda mais tradicional, essa está fadada a desaparecer ou se reificar. Falta saber como articular de fato essas pautas e o enunciado, pois eles em princípio parecem mutuamente se excluir. Algumas pistas parecem estar na heterogênea composição dos black blocs no Rio de Janeiro e no fato de que na França este mesmo grupo é cada vez mais composto por mulheres, além de mais e mais se reclamar de um feminismo libertário.

Talvez o enunciado “eu sou ninguém” se pronunciado por militantes de gênero, raciais e feministas não deva ser visto como sendo uma negação dessas lutas, mas como uma forma particular de se assumir plenamente uma contradição, contradição esta que talvez seja capaz de criar uma abertura possível de reorganizar o campo militante radical a partir dessas lutas concretas. Possivelmente essa tensão constitutiva também seja simbolizada por Marielle: mulher, negra, lésbica, pobre e de esquerda. Diversos “ninguém” em um mesmo corpo. Dito de outra forma, quem sabe o sinal do futuro não esteja contido no paradoxo constituído entre a potência desidentificadora do enunciado “eu sou ninguém” e estas lutas concretas e urgentes.

Nacional
Por último gostaria de insistir na dimensão nacional de Junho de 2013. Estamos sempre observando que o Brasil é territorialmente maior do que a Europa, mas não parece que nos damos conta de que é efetivamente essa a dimensão territorial de junho, ou seja, é quase como se em um espaço de poucos dias tivéssemos tido manifestações de massa por toda a Europa. Desta forma, se estamos de fato numa Guerra Civil e a República acabou, como tem dito Vladimir Safatle, estas duas dimensões são bem nacionais, abarcam todo o território e não estão restritas a poucas localidades. Paulo Arantes observa que: as “mais diversas fontes oscilam entre 10 e 15 milhões de manifestantes em mais de quinhentas cidades. Enquanto não dispusermos de uma razoável coleção de relatos de todas as procedências, sobretudo das mais improváveis, continuará soterrada a memória viva do maior protesto de massa da história brasileira, com esta peculiaridade igualmente divisora de águas, a de que ele foi rigorosamente autoconvocado” (ARANTES, p. 378).

Não por acaso, em um ensaio como o dele, que se detém nas suas mais de cem páginas essencialmente ao que aconteceu no Rio de Janeiro e em São Paulo e que em uma nota assume que o seu ponto de vista é mesmo paulista – e isso não é nenhum problema em si, mas apenas um fato – confessa que o relato mais improvável de Junho do qual teve notícias até aquele momento não tinha ocorrido em nenhuma dessas cidades, mas em Fortaleza, quando por ocasião do jogo Brasil e México, pela copa das confederações, um “enxame de pivetes que capricharam num sem-número de manobras táticas, entre elas o sequestro de um ônibus, ato contínuo desviado na direção de um pelotão de cavalarianos da PM, não sem antes desembarcar os passageiros e confiscar-lhes os ingressos para o jogo. Mas como a barra da direção pesou mais do que podiam os braços do novo motorista, este pulou fora, deixando um saldo devedor atravessado na pista, um bagulho-dispositivo fora do uso oficial” (ARANTES, p. 409). Talvez este seja um outro sinal do futuro (e vale observar que até aqui o autor, pernambucano, também só havia falado de RJ e SP).

É verdade que o volume Junho potência das ruas e das redes organizado por Alana Moraes, Jean Tible, Henrique Parra, Bernardo Gutierrez, Salvador Schavelzon e Hugo Albuquerque pareça ter sido o esforço que conseguiu ir mais longe nesta direção. No entanto, ele trata mais de movimentos que ocorreram em paralelo do que o que de fato aconteceu no Brasil afora. Por exemplo, o capítulo sobre o Ocupe Estelita em Recife, é mais um relato e análise crítica deste movimento do que sobre o que foram as Jornadas de Junho nesta cidade. No fundo ninguém ainda parece ter dado conta dessa dimensão e conseguido efetivamente sair do eixo Rio-São Paulo. Talvez passe por esse gesto um novo entendimento do que está efetivamente acontecendo neste que é o futuro de junho, o nosso presente. O sinal do futuro é que as jornadas abarcaram a integralidade do “gigante”, e temos que dar conta disso para reabri-lo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS:
AGAMBEN, Giorgio. Auschwitz, L’archive et le Témoin, in Homo Saces. L’intégrale. Paris: Seuil, 1998/2017.
ARANTES, Paulo. “Depois de junho a paz será total”, in O novo tempo do mundo. E outros ensaios sobre a era da emergência. São Paulo: Boitempo, 2014.
BADIOU, Alain. Éloge de la politique. Paris: Flammarion, 2017.
CORRÊA dos SANTOS, Mariana; PEDROSA Silvio. “Corps en mouvement : les Black Blocs à Rio et les représentations de la résistance”, in Les Temps Modernes, n. 2 (678), 2014, p. 73-92.
COCCO, Giuseppe; TASCHETO, Márcio. “Eu (não) sou ninguém: a subjetividade sem nome”, in Kalagatos, Fortaleza, v. 14, n. 2, maio-ago, 2017, p. 37-57.
MORAES, Alana; GUTIÉRRES, Bernardo; PARRA, Henrique; ALBUQUERQUE, Hugo; TIBLE, Jean; SCHAVELZON, Salvador. Junho. Potência das Ruas e das Redes. São Paulo: Friedrich Ebert  Stiftung, 2014.
NUNES, Rodrigo. “Anônimo, vanguarda, imperceptível”, In Revista Serrote, 2016. n. 11. Disponível em: https://www.revistaserrote.com.br/2016/11/anonimo-vanguarda-imperceptivel-por-rodrigo-nunes/
PELBART, Peter Pal. “Anota ai, eu sou ninguém”, in Folha de São Paulo, 19.07.2013. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/07/1313378-peter-pal-pelbart-anota-ai-eu-sou-ninguem.shtml
SAFATLE, Vladimir. “A nova republica acabou”, in Carta Capital, 15.03.2015. Disponível em:
https://www.cartacapital.com.br/revista/841/a-nova-republica-acabou-2242.html
________________. “Vivemos uma fase cada vez mais explicita de guerra civil”, in Carta Capital, 28.03.2018. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/safatle-201cvivemos-uma-fase-cada-vez-mais-explicita-de-guerra-civil201d
SIMÕES, João Marcelo. “Anota aí: Eu sou ninguém” As transformações no senso de coletividade e o uso tático das mídias no Brasil”. in. Anais Simpósio ABCciber, 2014. Disponível em: www.abciber.org.br/simposio2014/anais/GTs/joao_marcelo_lima_simoes_140.pdf
ZIZEK, Slavoj. “Conclusion: Signs from the future”, in The year we dream dangerously. London-New York: Verso, 2012.

*Fred Lyra é mestre em Musicologia e doutorando em Filosofia da Arte na Universidade Lille 3
Foto: Manifestação contra aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, 7 de junho de 2013 (Maria Objetiva/Wikimedia Commons)

Texto publicado originalmente pela Rede de Universidade Nômade
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11 junho, 2018

Alvo

 
Por Arape Sango*

É assustador quando começamos a fazer algumas comparações. Comparações entre a vida de pessoas que moram tão próximas de nós; e descobrimos o quanto são distantes da nossa realidade.

Há pouco tempo, um amigo me contou sobre um assalto que sofreu. Estávamos os dois em uma mesa na calçada de um bar próximo à Consolação.

Eu, um homem negro de 30 anos, história comum. Ele um homem de 29 anos, branco, de classe média.

Ele me contou que tudo durou poucos segundos. Ele saiu do carro, um rapaz o abordou armado, pediu carteira e celular e saiu. Ele obedeceu, não reagiu.

O monólogo do meu amigo nada teve a ver com o prejuízo. Nem com o transtorno de ter que tirar novos documentos. Teve a ver com o que ele sentiu nos poucos segundos em que esteve sob a mira de uma arma.


Já tive uma arma apontada para a minha cabeça para cada beijo que eu dei na vida



Momentos em que alguém gritava com ele, e simultaneamente tinha o poder tirar a vida dele apenas com um gesto. De como ele se sentiu pequeno, com medo. De como ele sentiu raiva por ter sido roubado. Não pelo celular. Nem nela carteira. Mas pelo momento em que outra pessoa o despiu completamente de todo o poder que ele achava que tinha, e o deixou nu sob o chicote da escolha de obedecer ou perder a vida.


Num primeiro momento ao ouvi-lo eu me senti superior. Achei cômico o efeito devastador que estar frente a frente com um algoz armado causou nele. Durou pouco. A realidade caiu na minha cabeça com tanta força que me deu náusea.

Eu tenho 30 anos. Não sou policial. Não sou criminoso. Não servi o exército, muito menos lutei uma guerra. Porém, eu já olhei o interior do cano de uma arma muito mais vezes que meu amigo branco. Eu já tive uma arma apontada para a minha cabeça para cada beijo que eu dei na vida. Já apontaram armas pra mim com mais frequência do que eu procurei emprego. Mais vezes do que eu viajei. Mais vezes do que eu namorei. Eu já tive armas diferentes apontadas para a minha cabeça no mesmo mês, na mesma semana, no mesmo dia.

Já estive tantas vezes sob a mira de uma arma que acabei criando um certo costume. O medo nunca foi embora, todavia eu criei pra mim mesmo uma falsa premissa de que, se eu disser as coisas certas, agir do modo ensaiado e não fazer algo brusco e idiota como espirrar, tossir ou ter um soluço, eu vou viver até o dia seguinte. Falso.

Eu não sei como, mas já conheço os tipos de armas que me apontaram. Sei que geralmente estão engatilhadas e o portador tem quase sempre o dedo no gatilho, o que coloca a calma, equilíbrio e perícia dele dentro da equação.

Já levei uma coronhada. Não chegou a cortar. Só ostentei um galo enorme por alguns dias.

A humilhação também é sempre a mesma. Um desconhecido armado que te encoxa, passa a mão por todo o seu corpo enquanto você prende a respiração com as mãos na parede, ou na cabeça.

Descobri que quando eu estou mais calmo eles param de gritar logo. Descobri também que se ele me matar, é possível que nem vá a julgamento.

Estar sob a mira de uma arma, inutiliza você, te paralisa. Te faz menor que aquele que a segura. Não muda com o tempo. Todas as vezes foram iguais.

Fiquei ouvindo o peso que teve para o meu amigo, e tentando calcular o peso que isso trouxe para mim, o quanto isso molda as minhas ações e visão hoje.

Meu amigo foi assaltado pela primeira vez aos 29 anos. Eu fui assaltado da minha dignidade por um sem número de vezes desde os 11 anos. Poderia escrever um manual sobre.

Me assustou perceber que essa realidade é minha.

Me confortou saber que não somos todos fortes o tempo todo. E que sim, faz diferença na vida. E muita.


*Arape Sango é cantor, compositor e escritor
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30 abril, 2018

Abandonar Lula é abandonar a luta de classes


Foto (Mídia Ninja): Última Assembléia e Marcha Povo Sem Medo por Lula Livre, em São Bernardo do Campo, no dia 08 de abril de 2018.

Por Maria Fernanda Novo, Laura Luedy e Fábio Nolasco*

Desde 8 de abril, subtraíram o corpo do ex-presidente Lula da cena política brasileira, aprisionando-o em Curitiba. Lula deixou de ser público, mas não deixou de participar do horizonte político que tem nas eleições de outubro o cenário menos previsível desde a redemocratização. Tal como anunciado na missa organizada em homenagem a Marisa Letícia, evento que iniciou o dia de sua prisão, os elementos de uma muito necessária transubstanciação já estavam à disposição. Lula se fez ideia. Aos líderes da esquerda, aos movimentos sociais e ao povo reunido em São Bernardo, é legada a responsabilidade pelo afrontamento da extrema direita e do liberalismo que se instala vertiginosamente pelo país.

Ao transubstanciar-se – não exatamente em pão e vinho, mas em churrasco, pagode e multidão – Lula se põe de acordo com o curso dos fatos: a ideia, o conceito e a forma da luta de classes no Brasil não cabe mais na singularidade Lula. Contudo, a nova figura representativa da luta de classes também não poderá, de maneira alguma, deixar de conter em si essa singularidade que lhe serviu de veículo por pelo menos três décadas. Isso porque o conceito e a realidade da luta de classes não operam por saltos bruscos, mas acumulam pacientemente, suspendem e conservam seu próprio caminho e história – porque, em suma, é memória acumulada da história dos oprimidos.

A luta de classes no Brasil, em toda a complexidade da noção, não vai adiante sem Lula – e por isso é urgente que ele seja posto em liberdade. Isto é, para que a tal transubstanciação possa seguir seu curso e ir além do passe de mágica católico operado naquele sábado, na pia batismal de São Bernardo. Ela tampouco se dá, agora, apenas com o ex-presidente – e isso é incontornável, posto que estamos diante do restabelecimento do projeto brasileiro de luta de classes como um todo, a ganhar, enfim (e já tarde demais), nova figura quatro décadas depois.

Mas seria a luta de classes a única ideia na qual Lula se transformou? Duas são as possíveis respostas a essa pergunta - uma mais sombria, outra mais potente. Devemos ter coragem para encarar a resposta sombria como quem faz uma autocrítica, sem jogar pérolas aos porcos e sem nos constranger como se os equívocos grosseiros do desenvolvimentismo fossem um flagelo insuperável. Por outro lado, a necessária renovação se fará apenas se os processos de mudança não forem rifados à lógica da aliança com o atraso.

Em primeiro lugar, não se pode negar que a história de Lula tenha feito dele uma personalidade. Ele próprio explora imensamente essa faceta na sua ação sobre o público. No discurso que precedeu a prisão, quem aparecia como o grande responsável por diminuir a mortalidade infantil e levar estudantes da periferia para as melhores universidades do país não era um conjunto de pessoas, mas uma pessoa só - o próprio Lula. Há, assim, o risco de que a ideia que Lula se tornou seja, em grande medida, a ideia da grande personalidade auto-suficiente e superpotente - e isso tem pouco valor para os fins reais da esquerda no país.

A segunda resposta e o outro lado da ideia correspondem, justamente, a Lula enquanto um indivíduo que carrega algo que o ultrapassa e faz dele uma potência incontornável da esquerda brasileira. Lula é, sem dúvida, uma figura efetiva da ideia da luta de classes. Diante de São Paulo, foi o imigrante nordestino. Diante do processo de favelização do polo industrial do ABC, produto do “milagre econômico” da ditadura, foi o articulador da resistência trabalhadora.

Tratou-se, é certo, sempre de uma força que se mantinha no jogo porque também cedia. Isso se torna muito evidente, primeiro, em sua posição conciliatória no final crítico da greve do ABC de 1979. Como retratou o cineasta Leon Hirszman, no filme ABC da greve, Lula defendeu que os trabalhadores acatassem uma contraproposta da direção da fábrica, aquém das demandas grevistas. Para o então presidente do sindicato dos metalúrgicos, o aumento proposto pelos empresários representava uma vitória ao movimento sindical, que realizava uma greve sem precedentes em plena expansão da industrialização.

A figura conciliatória se manteve mais tarde, na administração da economia que fez em seu governo – administração que foi, em muitos aspectos, agradável ao neoliberalismo, embora haja sido também marcada por alguma intenção distributiva que apaziguou a miséria, mas não a exploração do trabalho e dos recursos naturais. De todo modo, ninguém que assista aos atuais desmontes da coisa pública e dos direitos básicos dos trabalhadores sob a administração do golpe deixará de olhar com saudades para a expansão do Bolsa Família, do salário mínimo e do ensino público no país.

Enquanto pessoa que carrega a figura da luta de classes, Lula é uma força da esquerda e não simplesmente enquanto personalidade. É isso o que justifica nossa mobilização contra sua prisão, e dificilmente tal fato é ignorado por Lula, pelo PT e pelos que se reuniram em torno dele no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo nos dias 7 e 8 de abril.

A deadline que Moro & Co. impuseram à história do país talvez tenha sido a maior responsável, aliás, por fazer disso que deveria ter sido um processo social de transubstanciação, um improviso carismático. A República de Curitiba, assim, tentou lançar veneno num processo de passagem essencial para nossa eterna tentativa de constituição enquanto povo diante do Estado e das forças da elite.

Trata-se do modus operandi tradicional que, desde sempre, desgoverna o Brasil, qual seja, a tática sempre vencedora de desarticular precisamente os momentos cruciais do passamento, adiá-los mediante violência e coerção, encarcerar ou assassinar covardemente (como no caso Marielle Franco) aqueles que portam e atuam a ideia da justiça social no país.

Nossos processos de passagem sempre sofrem, nos momentos cruciais, interferências, interrupções abruptas, e daí que nossas reviravoltas tenham sido sempre saltos bruscos, no mais das vezes meramente nominais, sem passamento nenhum (vide a abolição da escravidão, a modernização no período ditadura e a própria redemocratização). Os momentos de passagem revelam sempre, especialmente no Brasil, a atuação antecipatória de elites exclusivamente preocupadas em impedir que as mãos “impuras” dos oprimidos imponham o sentido, o ritmo e a agenda do processo de alteração social.

Avançar um projeto de esquerda que não abandone Lula nem nos impeça de realizar mais amplamente a reconfiguração da luta de classes no Brasil é reivindicar o direito de operarmos nossa história a partir dos elementos que de fato a constituíram. É resistir e denunciar o golpe em curso.

*Maria Fernanda Novo é doutoranda em Filosofia pela Unicamp
Laura Luedy é doutoranda em sociologia pela Unicamp e feminista autônoma
Fábio Nolasco é doutor em filosofia pela Unicamp
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27 abril, 2018

A maior fake news do Brasil é a ideia de fake news


O Ministério do Bom Senso adverte: este texto contém doses perigosas de ironia. Numa sociedade contaminada pelo fascismo, não existem níveis seguros para o uso dessa substância.

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luiz Fux, ameaçou suspender as eleições presidenciais durante um fórum sobre as chamadas "fake news" promovido pela insuspeita revista Veja. De acordo com o ministro, "uma propaganda que visa destruir o candidato alheio configura um abuso de poder que pode levar à cassação". É pra rir ou pra chorar?

Podemos começar rindo de uma cruzada contra fake news promovida pela Veja - a mesma revista que noticiou uma inexistente conta milionária do Romário, publicou fotomontagem do Lula abraçado com a Rosemary Noronha, atestou com convicção (mas sem provas) que Fidel Castro enviou US$ 3 milhões para o PT acondicionados em caixas de bebidas etc., etc., etc. É como se uma Câmara Legislativa presidida pelo Eduardo Cunha derrubasse o Poder Executivo em nome do "combate à corrupção". Imagina só!

Mas a tragédia é tão profunda que não tem nem por onde rir. A começar pelo fato de que já tem gente falando em coibir "fake news" sem que tenhamos sequer definido o que são "fake news". Porque, se encararmos a tradução ao pé-da-letra (notícias falsas), pode ter certeza de que estamos atacando o problema errado. A promoção do desconhecimento como arma política não é nenhuma novidade.

Quase 100 anos antes de Cristo, Julio César manipulou o medo generalizado de uma ameaça bárbara para justificar uma invasão da Gália e construir capital político para entrar em Roma como imperador. Hitler vestiu seus soldados em uniformes poloneses e atacou uma estação de rádio na fronteira com a Polônia para justificar a expansão nazista para o Leste. Bush jurou de pé junto que Saddam Hussein tinha armas químicas para justificar uma operação de assalto ao petróleo. No pós-crise de 2008, democracias liberais do mundo todo transformaram o crescimento da dívida interna na maior ameaça à segurança econômica mundial para garantir que os pobres pagassem pela farra financeira de bilionários.

Foi um bom nacionalista alemão chamado Joseph Goebbels quem inventou a metodologia contemporânea de disseminação de fake news (também conhecida como propaganda), que ele definia cinicamente: uma mentira repetida à exaustão vira verdade.

O comandante da Luftwaffe (Força Aérea alemã) e inveterado viciado em morfina Hermann Göring, por exemplo, meteu o louco e soltou a seguinte pérola durante o tribunal de Nuremberg, que julgou os crimes nazistas no pós-Segunda Guerra: "o povo sempre pode ser forçado a se ajoelhar diante de seus líderes. Isso é fácil. Tudo que você tem que fazer é dizer que eles estão sendo atacados e denunciar os pacifistas como antipatriotas que estão colocando o país em perigo. Funciona assim em qualquer país". Imagino o então deputado Richard Nixon ouvindo o depoimento no rádio e pensando: "alguém dá logo um tiro nesse filho da puta, antes que ele dê o spoiler completo da guerra que eu vou fazer no Vietnã!" Quer dizer, a diferença entre os bons capitalistas liberais e os maus capitalistas fascistas é uma questão de etiqueta, não de respeito aos direitos humanos. Os liberais mastigam o povo de boca fechada e dispensam os restos no banheiro, enquanto os fascistas sujam a mesa com cadáveres. Fascistas matam fedido, liberais matam limpinho.

Fake news, um slogan

Tá certo, mas o que isso tem a ver com o fato do Fux ameaçar cancelar as eleições em nome do combate às “fake news”? Tudo. “Fake news” são em si um conceito publicitário e como tal, não podem ser encaradas sem uma menção honrosa ao nazismo, que nos presenteou com a forma contemporânea de forjar e manipular vontades políticas. Com o ar de novidade com que são apresentadas, “fake news” não passam de um slogan de pseudo-combate às estratégias de manipulação da vontade popular. Só que slogan funciona que nem o mito da caverna. Liga o Mito da Caverna? Aquela historinha do Platão: tinha uma galera presa numa caverna, que só via o mundo através das sombras projetadas por uma fogueira numa parede. O que acontecia do lado de fora da caverna aparecia como imagens chapadas na parede pra quem estava dentro. E a turma da caverna achava que as sombras tremulantes eram o mundo de fato e não uma imitação da realidade. Slogans são sombras de conceitos.

Ou seja, a maior "fake news" que a gente tem é o próprio conceito de "fake news". Obviamente, não estou negando a existência de notícias falsas. Pelo contrário. Elas são tão profundamente arraigadas na nossa cultura, que simplesmente proibi-las é tapar o sol com a peneira. É como proibir a corrupção. Ok, a corrupção é proibida, mas e daí? É preciso um rearranjo cultural e cognitivo para enfrentar este tipo de coisa. Rearranjo cultural dá trampo, altera estruturas que estão consolidadas pra quem tem muito poder, estimula a sociedade a se refletir e se reinventar, dissemina criatividade política.

Quem tem poder e um mínimo de inteligência sabe disso. E sabe também que 92% dos brasileiros estão preocupados com isso. Pior, estão em pânico, que é o estado ideal para engolir medidas autoritárias que só beneficiam quem já tem dinheiro e poder. Como explica o psicólogo Roy Eidelson, no livro recém-lançado Political Mind Games: how the 1% manipulates our understanding of what's happening, what's right and what's possible (trad. livre: Jogos Mentais Políticos: como o 1% manipula nossa compreensão do que está acontecendo, do que é correto e do que é possível), "nossa preocupação com a vulnerabilidade é central para a maneira como vemos o mundo ao nosso redor. Quando nossa segurança está ameaçada, nada mais importa. A simples expectativa do perigo pode consumir todo nosso foco e energia. Portanto, não é à toa que o desejo de assegurar nossa segurança - e de nossos entes queridos - é uma força poderosa para determinar as políticas que apoiamos e as ações que tomamos. Por isso, os plutocratas de hoje trabalham duro para moldar nossa percepção da vulnerabilidade para seus próprios objetivos".

Se a pesquisa da BBC mostrou que temos pânico de “fake news”, hora de mistificar mais ainda as “fake news”, transformá-las no bicho-papão das eleições, capaz de ameaçar a própria legitimidade da vontade popular. Para que este esforço dê frutos, é necessária uma construção anti-intelectual, anti-racional das “fake news”. Ou seja, é necessário maximizar a sombra publicitária do fenômeno como meio de obscurecer o fenômeno em si. Em outras palavras, evitar fornecer às “fake news” um corpo teórico. “Fake news” só podem gerar medo, que é uma moeda política facilmente modelável; nunca pensamento.

O que Fux começou a fazer ontem foi essa mistificação. Exatamente o contrário do que fez o Conselho Europeu. Ao invés de soltar ameaças vagas sobre a judicialização do processo eleitoral, este órgão - que não dá para chamar exatamente de antro de comunistas - encomendou à doutora em Comunicação e diretora de Redes Sociais da Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR) Claire Wardle e ao escritor e ativista iraniano Hossein Derakhshan uma pesquisa acadêmica séria que permitisse entender a complexidade do fenômeno e balizar a tomada de decisões políticas. O resultado foi a monografia Distúrbio informativo: em direção a uma moldura interdisciplinar para pesquisa e formulação de políticas públicas, divulgada em 2017 pelo First Draft, centro de pesquisa de mídia de Harvard. Pra gente aqui no Brasil, pode parecer atrasado mas, em alguns lugares do mundo, políticas públicas ainda são baseadas em pesquisas e não em memes.

A primeira conclusão da pesquisa é justamente que o termo "fake news", embora seja um slogan chiclete, não dá conta do fenômeno. Primeiro, porque a maior parte das narrativas que promovem e se alimentam do desconhecimento não é nem notícia nem necessariamente falsa. Muito mais frequentes do que mentiras deslavadas à la MBL e 4Chan são as imagens colocadas fora de contexto ou em arranjos semióticos que conduzem o leitor a interpretar aquilo que o autor da narrativa quiser.

Distúrbio informativo

De forma muito resumida, o estudo da Comissão mapeia este ecossistema a partir de algumas definições gerais de suportes de notícias, meios de propagação, tipos de autores e receptores, que se influenciam e se modificam mutuamente, de formas distintas. Para analisar uma "fake news", é preciso primeiro saber se a informação é simplesmente falsa, simplesmente prejudicial a alguém ou se é os dois ao mesmo tempo. Ela pode ser o vazamento de uma escuta ilegal, por exemplo, que não traz nenhuma mentira intrínseca, mas tem o único objetivo de prejudicar alguém. Uma presidenta da República, para usar um exemplo aleatório, sem qualquer relação com o Brasil.

Em segundo lugar, temos que analisar quem propaga a narrativa, como propaga e qual seu grau de credibilidade diante do receptor, que pode ser passivo (não fazer mais do que receber o conteúdo) ou ativo, compartilhando o que recebe. E mesmo no caso do compartilhador ativo, há variáveis que têm de ser consideradas, uma vez que, no ecossistema da propagação de mensagens nocivas, a intencionalidade é fundamental. A pessoa compartilhou como apoiadora ou opositora da mensagem? Isso vai mudar a maneira como ela é redistribuída - sim, porque o conteúdo na comunicação em rede sofre diversas distribuições ao mesmo tempo, por razões e com objetivos inumeráveis.

Isso significa que é essencial analisar também o processo de propagação: como a mensagem é criada, como é distribuída, como é recebida, eventualmente remixada e redistribuída. Como se tudo isso não bastasse, quem se aventurar a estudar esse problema tem que levar em conta o suporte de distribuição, já que ele influencia em todos os agentes anteriores. Embora a gente fale em "fake news", as notícias falsas são a minoria absoluta do conteúdo nocivo. Em quantos dos seus grupos de WhatsApp, os "textões" são proibidos enquanto os memes circulam livremente? Dá para dizer que memes são necessariamente notícias falsas? Por outro lado, considerando que os grupos de família são os principais vetores de difusão do caos informativo, dá para ignorar o papel dos memes na construção de narrativas ou destruição de reputações?

Essa comunicação descentralizada, de intencionalidades múltiplas, altera o mapa da comunicação de uma maneira inédita na história. O emissor não é necessariamente conhecido ou respeitado, a credibilidade passa por critérios subjetivos obscuros e o receptor não é necessariamente passivo. Ou seja, estamos falando de um ambiente de poluição comunicativa que frequentemente escapa ao controle dos centros de poder e exige novos paradigmas conceituais.

Neste sentido, o olhar reducionista sobre o slogan "fake news" restringiu o debate ao plano textual. E pior: fez com que as empresas de tecnologia e pesquisadores do tema gastassem tempo demais desenvolvendo técnicas de localização textual de mentiras. Bom, deveríamos buscar as más intenções em vídeos, memes, gifs... Deveríamos, como sugere o estudo, neutralizar as incontáveis variáveis que resultam neste "distúrbio informativo" de proporções internéticas.

Enfrentar a disseminação de fake news ou preparar o receptor?
 
Mas será que isso é possível? É possível proibir as más intenções e a influência delas em processos sociológicos, políticos, econômicos e culturais? É possível criar uma boa técnica que freie a subversão da democracia pelo mau uso da técnica? Ainda que não possamos nos dar ao luxo de buscar paliativos, é preciso ter a honestidade de encarar paliativos pelo que são e reconhecer que a resposta para as três perguntas anteriores é provavelmente não. Não tem jeito de conter tecnicamente o distúrbio informativo, como não tem jeito de avaliar objetivamente se alguém chegou ao poder por "fake news" ou não. Afinal, todo mundo que chegou ao poder teve sua dose de notícias falsas, manipulações, propaganda. Isso deve ter começado no primeiro pilantra que resolveu marcar os dias com risquinhos num cajado, reparou que as estações do ano são cíclicas, previu um inverno e convenceu todo mundo de que era profeta. Quer dizer, a manipulação é um vício de origem, mas não é na origem da mensagem que devemos buscar a cura do vício. É no preparo do receptor.

Se o ministro Fux, se a Veja, se quem quer que seja estiver interessado em de fato combater "fake news", não como uma estratégia publicitária de disseminação do pânico, não como um estigma a ser colado ao inimigo da vez, como "corrupção" ou "terrorismo", mas como uma doença social que subverte a democracia, um bom começo pode ser estudar a literatura que está sendo produzida sobre isso no mundo. Traduzir a pesquisa encomendada pelo Conselho Europeu e distribuí-la amplamente pelos agentes envolvidos na execução e fiscalização do processo eleitoral pode ser uma boa.

Mas mesmo isso é um paliativo. Porque no fundo, só existem três ferramentas capazes de atacar o problema de fato. E, como as três são medidas de longo prazo, nenhuma delas vai render fatias de poder pra ninguém. A mais importante de todas é a alfabetização crítica da população: preparar o nosso povo, desde cedo, para compreender as mensagens subliminares de qualquer discurso autoritário. E toda propaganda é autoritária, uma vez que o emissor se vale de um repertório psico-semântico que não está disponível ao receptor.

Segundo, é preciso politizar honestamente a sociedade inteira. As pessoas têm de saber se colocar num campo político, saber que querem o poder e porquê querem o poder. É preciso que a política não seja um clube VIP de engravatados, mas uma atividade cotidiana de promoção do bem-estar humano. Assim, as pessoas serão capazes de diferenciar as propostas políticas que de fato visam o bem coletivo daquelas que ideologicamente sequestram o poder da maioria para o benefício de poucos.

Por fim, é preciso que a mídia seja amplamente democratizada. E essa democratização não é simplesmente uma redistribuição de verba entre veículos midiáticos já existentes. Ainda que obviamente, uma mídia monopolista e oligárquica como a nossa seja um canhão na têmpora da democracia, a democratização é mais do que uma canetada. Ela é dependente da alfabetização crítica. Ela tem de ser um processo que quebre monopólios ao mesmo tempo em que eduque as pessoas para distinguir conteúdo informativo de melodrama sensacionalista. É preciso ensinar à sociedade os truques da construção ideológica da imagem, rompendo as diversas esferas de distinção entre emissor e receptor. Em outras palavras, a democratização da mídia implica ampla redistribuição do poder. Não apenas do poder de difundir, mas do poder de interpretar o que se recebe.

Sem essas três medidas educativas que busquem desconstruir o caráter autoritário da comunicação universalizando a democracia informativa, não há como efetivamente enfrentar “fake news”, independentemente do quão sofisticado seja seu algoritmo de detecção e verificação. Nosso maior problema não é a criação de narrativas mal-intencionadas ou seus novos meios técnicos de propagação. O problema é que a gente está moldado pra acreditar em propaganda como se fosse informação. Ainda que estas soluções estejam no longo prazo, a simples tentativa de desmascarar a instrumentalização publicitária das “fake news” e o compromisso com a racionalização do conceito frente à tentação reducionista já são vias de enfrentar o problema.

E, ao longo desta luta, temos que ter sempre na mente: ou aprendemos a nos comunicar fora da lógica da propaganda goebbeliana, que legitima a mentira e a manipulação, ou o distúrbio informativo terá vindo para ficar.
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19 abril, 2018

Gleisi, al-Jazeera e a ignorância como estratégia


Cheguei atrasado na história do vídeo que a presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, gravou para a Al-Jazeera. Foram memes desencontrados sobre uma eventual confusão entre o gigante midiático catari e a Al-Qaeda (?) que me levaram a desenterrar a narrativa. Pensei que alguém tivesse de fato misturado alhos com bugalhos. Mistura houve. Mas foram outros alhos e outros bugalhos. 

Ana Amélia, senadora pelo PP gaúcho, disse em plenário esperar que a declaração da colega não fosse "um pedido para o 'Exército Islâmico' atuar no Brasil". Considerando que não existe uma entidade chamada "Exército Islâmico", suponho que Ana Amélia estivesse se referindo ao  autoproclamado Estado Islâmico, aquela organização de extrema-direita que emergiu das ruínas do Iraque devastado pela também autoproclamada Guerra ao Terror e tentou erigir um califado sobre os escombros da Síria.

Em seu discurso monocromático, que, por ignorância ou má-fé, divide o mundo ideologicamente entre bons cristãos e maus muçulmanos, Ana Amélia não desata um único nó da intrincada teia de interesses geopolíticos que cobre o Oriente Médio. A Al-Jazeera já foi acusada de oferecer espaço para o fundamentalismo; e não é uma acusação completamente sem sentido. Entre as razões para desconfiança estão o fato de a emissora não usar, ao contrário da mídia europeia, o acrônimo pejorativo Daesh para se referir à milícia sunita, além do fato de ela ter oferecido palanque à Irmandade Muçulmana, antes e durante a conversão da primavera egípcia no longo inverno distópico de Abdel Fattah al-Sissi.

Até aí, a Globo também não chama um Jair Bolsonaro de fascista e a Record é um palanque 24/7 para Igreja Universal, cujas declaradas aspirações totalitárias fazem o projeto teológico da Irmandade Muçulmana parecer uma democracia liberal. O que estou dizendo é que a Al-Jazeera, como qualquer império de mídia, não é um hub de ativismo midiático trabalhando pela revolução - embora seja acusada de ser exatamente isso pelas principais teocracias da região, Israel e Arábia Saudita.

Al-Jazeera, em terra de cego

A al-Jazeera é a maior rede de comunicação do mundo árabe, além de ser a única que se pauta pelos tímidos postulados liberais de "liberdade de expressão" e "imparcialidade". Além da palpável aspiração de Doha em, no pós-guerra, controlar a bilionária reconstrução da Síria e, consequentemente, o abastecimento de petróleo via Turquia para a Europa, este compromisso da Al-Jazeera com o jornalismo livre foi uma das razões pelas quais os "parceiros" da OPEP romperam relações com o Catar em meados do ano passado.

Para entender a cena, basta olhar para o funcionamento da mídia nos demais países da região: toda informação que sai da monarquia wahabista saudita, seja pela agência oficial Sanaa, seja por um blog qualquer, passa pelo crivo da família real. E o crime de desobediência ou desrespeito à elite governante pode acarretar 10 anos de prisão, além de 1000 chibatadas, como aconteceu com o blogueiro Raif Badawi, que cometeu a heresia de defender, em termos moderadíssimos, a laicização do Estado, em 2012.

O vizinho Bahrein fechou o Al-Wasat, seu único jornal independente, em junho de 2017. Antes e depois disso, dissidência - física ou ideológica - ao emirado é caso de prisão perpétua e pena de morte. (Cuidado: terreno irônico a seguir) Pelo menos, o Bahrein ainda persegue a dissidência dentro de algum tipo de moldura legal, ao contrário do Egito, que desde 2013, tem tratado jornalistas com tortura e execuções sumárias. Do ponto de vista jurídico, Cairo determinou em 2015 que só a versão oficial de qualquer "ato terrorista" pode ser publicada. Nada como uma terminologia vaga como "terrorismo" para fantasiar a arbitrariedade de lei: até um jogador de futebol, Mohamed Aboutrika, já foi considerado terrorista pelo regime al-Sissi, depois de declarar simpatia a adversários políticos do presidente-marechal.

Omã e Emirados Árabes Unidos não ficam atrás: nos anos que se seguiram à Primavera Árabe, os dois instauraram a leis de ciber-crimes, que preveem longas sentenças de prisão para jornalistas e blogueiros que "insultem ou difamem" o Estado. Na Turquia, o líder autocrata Recep Tayyip Erdogan está há 15 anos no poder demonstrando seu desprezo pela dissidência (ele chegou inclusive a proibir todas as redes sociais - Wikipedia inclusa - e enquadrou como "terroristas" membros do HDP, partido pró-curdo que faz a única oposição de fato ao seu governo). Em 2016, ele aproveitou uma mal-ajambrada tentativa de golpe de Estado supostamente organizada por seu ex-aliado Fetullah Gülen, para promover a censura em larga escala. De lá para cá, mais de 200 jornalistas foram presos, 25 mil demitidos e 120 veículos de mídia fechados.

Ou seja, o golfo não está para peixe no que diz respeito à liberdade de imprensa. O oásis neste cenário desolador, em que cartéis formados por bilionários do petróleo e líderes autoritários impõem sua narrativa para manter o fluxo de petrodólares livre de aspirações democráticas, é justamente a al-Jazeera. A rede foi criada em 1996 majoritariamente pela equipe editorial da unidade árabe da BBC britânica, que ficou a ver navios depois que a família real saudita decidiu dissolver a sucursal. Se, em 2001, três em cada quatro árabes tinham na al-Jazeera sua fonte primária de informação, este número cresceu exponencialmente durante a cobertura da Primavera Árabe, quando a emissora passou a replicar todos os matizes da revolta popular, em particular no Egito e na Tunísia.

Não, a al-Jazeera não serve para convocar "Exército Islâmico"

A al-Jazeera é o oposto de tudo que o que chamamos genérica e ignorantemente de fundamentalismo islâmico defende. Pergunta se existe liberdade de imprensa na Dabiq, a revista do "califado". Pergunta se diversidade de opinião é um valor encampado pelo "califa" Abu Bakr al-Baghdadi. Não é a al-Jazeera que tem capacidade de convocar o "Exército Islâmico" (sic) em defesa do ex-presidente Lula. Até porque o Daesh é uma seita totalitária, enquanto Lula é tão republicano, que continua acreditando nas instituições democráticas e na Justiça oligárquica, mesmo depois de a democracia ter sido esfacelada por um golpe encampado pelo Judiciário.

Quem se aproxima do "fundamentalismo islâmico" - eu prefiro chamar de extrema-direita wahabista - é quem defende militarização da política, ingerência religiosa no Estado, pena de morte. É por esse tipo de coisa que luta o jihadismo wahabista radical, não pela pluralidade de informações. Tanto que, em seu auge, o grupo Estado Islâmico mantinha ótimas relações comerciais e militares com a Turquia de Erdogan, além do perfeito alinhamento ideológico com a Arábia Saudita, que financia diretamente a promoção desta leitura ultra-conservadora do Alcorão.

A al-Jazeera, como qualquer grande veículo liberal, está longe de ser perfeita. Mas tachar um depoimento ao único órgão midiático plural do mundo árabe de "convocação" à extrema-direita fundamentalista em defesa de um líder social-democrata não pode ser só um contrassenso absurdo. Até porque, me recuso a acreditar que as pessoas que estão vendendo esta narrativa acreditem nela de fato. Me parece uma perigosa estratégia de promoção da ignorância, de instrumentalização do racismo e da xenofobia. É usar a premissa racista de que "todo muçulmano é terrorista" para dizer que quem fala com muçulmano é terrorista.

E, se é uma estratégia, é premeditada. A linha de construção desse pensamento seria mais ou menos a seguinte: "quero classificar o PT de terrorista. Por quê? Porque 'terrorismo' é um tipo jurídico impreciso, que causa pânico na sociedade e me permite imputar qualquer pena a qualquer pessoa ou organização". O escarcéu que a direita está fazendo em cima do vídeo da Gleisi Hoffmann tem muito mais de promoção do terror do que o fato de a presidenta do PT falar com a mídia liberal árabe. Afinal, como mostram claramente Turquia e Arábia Saudita, classificar adversários políticos de "terroristas" é um expediente recorrente das autocracias árabes para eliminar a diversidade política e fertilizar o terreno para o crescimento do chamado fundamentalismo islâmico.

Que erva daninha brotará do totalitarismo brasileiro após o expurgo do PT?
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18 abril, 2018

Violência policial é regra no eterno estado de exceção do Brasil



Em nove meses de 2017, a polícia de São Paulo matou 687 pessoas, o que dá uma média de homicídios próxima do autoproclamado Estado Islâmico.

Foto:
Todos Negros, feita por Luiz Morier, durante uma blitz no Rio de Janeiro, em 1982.

Por Vanessa Oliveira, Maria Fernanda Novo* e  Gabriel Rocha Gaspar

O roteiro da violência policial no Brasil chega a ser monótono: o soldado aborda o jovem pobre – quase sempre negro –, que morre numa suposta “troca de tiros”. Na primeira versão que emerge da corporação, o morto é reduzido a “bandido”, “suspeito” ou coisa que o valha, como se alguma coisa valesse para justificar assassinato extra-judicial. Geralmente, a história acaba por aí. Quando não, é porque vêm à tona imagens amadoras que colocam em xeque a versão da polícia. Se o contraditório é suficientemente midiatizado, as autoridades são impelidas a responder. E vêm com o padrão moralista de sempre, que isola a solução de sua causa estrutural: “vamos apurar e, se constatado que houve excesso por parte do policial, ele será responsabilizado”.

É a lógica da “laranja podre”. Para criar uma cortina de fumaça sobre a cultura violenta da corporação, assume-se a existência de “maus policiais”, que precisam ser expurgados pelo bem da sociedade. Nos primeiros nove meses de 2017, as “laranjas podres” da polícia de São Paulo fizeram 687 vítimas, segundo levantamento feito pelo UOL a partir de dados da Secretaria de Segurança Pública. Isso significa uma média de 76,3 mortos por mês, em um único estado brasileiro. Para se ter uma ideia do que isso significa, em novembro de 2017, o autoproclamado Estado Islâmico matou 114 pessoas. Se a média nacional for próxima da paulista, as polícias brasileiras são infinitamente mais mortíferas que a milícia wahabista.

A diferença é que o chamado Daesh está em guerra declarada, com o claro objetivo de erigir uma teocracia global sobre os cadáveres de todos que considera infiéis. A polícia brasileira não está em guerra declarada nem tem objetivo claro. Não carrega um slogan liberal como a norte-americana, que diz “proteger e servir”. Traz caveiras, armas e feras como símbolos, mas trata o assassinato extra-judicial como exceção à regra. Se a violência desmedida é excepcional, podemos supor que a regra da corporação se paute por um humanismo profundo, de caráter democrático, com compromisso social e institucional. Bom, não é o caso.

E seria uma aberração histórica se tivéssemos uma polícia liberal – no sentido iluminista clássico – num Estado colonial oligárquico como o brasileiro. Uma polícia minimamente democrática depende de uma concepção de coisa pública que não existe no Brasil. Desde que fomos batizados com esse nome de commodity, somos um país cuja máquina burocrática serve exclusivamente a interesses extrativistas privados.

Nunca determinamos culturalmente que o Estado devesse servir para algo mais do que a administração da violência em defesa da propriedade, sempre conquistada à força (com escravização e genocídio) pelas elites dominantes. E as tímidas tentativas de se atribuir uma função pública ao Estado – com Vargas, Jango e o Partido dos Trabalhadores – foram respondidas com virulência golpista pelas oligarquias, sempre prostradas sob o estandarte do combate à corrupção.

Há uma ironia profunda na instrumentalização do discurso anti-corrupção como mecanismo de reversão das funções estatais à exclusiva manutenção violenta da propriedade privada. É que a propriedade privada existe no Brasil graças à corrupção inerente a este Estado orientado exclusivamente para a manutenção de privilégios de classe. O que é a chamada “Lei para Inglês Ver” (Lei Feijó, de 1831), que institucionalizou as vistas grossas do Império Brasileiro ao tráfico de africanos escravizados, senão a inscrição da corrupção das elites na Constituição?

Ou ainda os bandeirantes, milicianos contratados, oficial ou oficiosamente, pelo Estado para promover terror genocida pelos sertões em nome do interesse privado de grandes proprietários (de terras e pessoas)? As Bandeiras são ótimo exemplo do quanto está consolidada na concepção de Estado de nossas elites a ideia de que a manutenção e expansão da propriedade privada precisam ser feitas à margem da lei e da institucionalidade.

É uma concepção que admite uma contradição fundamental no discurso liberal: a ideia de que é possível confinar o capitalismo a limites legais. Se a acumulação é a força motriz do sistema, impor restrições de qualquer ordem à acumulação significa implodir a prazo as bases de reprodução do próprio sistema. A solução para o paradoxo é cínica: erguer fronteiras legais proto-humanitárias contra a exploração ao mesmo tempo em que se tolera que os maiores acumuladores terceirizem a violência necessária à expansão do lucro.

Exemplos abundam pela história. No século XVII, a Coroa inglesa comissionou piratas para assegurar suas colônias caribenhas, por exemplo; desde a década passada, Washington encarrega o exército mercenário da Blackwater da missão de garantir com violência facínora o fluxo de petrodólares do Oriente Médio para suas corporações; e o poder pseudo-público brasileiro sempre contratou – e contrata – milicianos para assegurar um Estado oligárquico, orientado exclusivamente para a exploração elitista.

Se a cínica terceirização da violência é intrínseca ao divórcio entre discurso e prática no capitalismo liberal, a tendência é que este expediente cresça em escala num lugar como o Brasil, onde o Liberalismo se estabeleceu exclusivamente em sua fórmula econômica, esvaziado do repertório filosófico humanista.

Isto aqui é uma colônia escravocrata – o que significa que, ao contrário do que dita a historiografia oficial, a escravidão não foi utilizada para produção de mercadoria. A mercadoria era o negro em si, o que traz uma série de implicações políticas, econômicas e psicossociais.

Para o filósofo e historiador camaronês Achille Mbembe, a lógica da exploração total nas colônias exige um novo tipo de consciência e de análise econômica, que considere o escravizado, simultaneamente, como objeto, força de trabalho e mercadoria. Foi essa economia escravocrata, amparada na ficção metafísica do conceito de raça, que impulsionou o capitalismo mercantil e o posterior capitalismo industrial. O comércio transatlântico de africanos inaugura de uma só vez a geopolítica da exploração e a naturalização jurídica do sujeito sem direito. Não haveria condições para a ascensão da ordem burguesa não fosse pela violência do tráfico transatlântico de seres humanos.

Claro que o comércio de pessoas em si já implica uma violência objetiva inenarrável. Arrancar pessoas de suas terras, famílias, idioma, nome, cultura, qualidades afetivas, memória e histórias ancestrais é um processo que desfaz o corpo negro, desmonta sua identidade. A partir dessa violência, a razão colonial naturaliza a privatização dos lucros e os prejuízos econômicos, sociais e ambientais são assumidos pelo Estado e distribuídos entre a população segundo um critério de hierarquização racial.

Mas, além de toda violência objetiva, a sustentação da instituição escravocrata exige formas de violência mais gráficas, de maior impacto subjetivo, como estupro, tortura, assassinato e mutilações. De acordo com o psiquiatra e filósofo martinicano Franz Fanon, a fórmula de sucesso da colonização é a combinação dos usos físico e simbólico da violência.

Pense no Haiti. Lá, influenciados pelos ventos de humanismo que emanavam da metrópole, negros escravizados e libertos se atreveram à revolução. Foi quando a Revolução Francesa se viu obrigada a estabelecer o exclusivismo do universalismo: “liberdade, igualdade e fraternidade, mas só entre nós”. E até hoje, o Haiti paga pela tentativa de colar ideologia e prática.

Nós também tivemos nossos arroubos afro-revolucionários. É o caso da confederação quilombola de Palmares, um Estado independente que sobreviveu por cem anos na mais próspera colônia açucareira do império português. Como a revolução haitiana, foi reduzido às cinzas. Não pelo exército regular, mas por bandeirantes e capitães do mato, uma outra variedade de mercenários, especializada na caça de negros fugidos.

Estas duas categorias são exemplos claros e duradouros – tanto do ponto de vista ideológico quanto prático – de como a gestão da violência pelo Estado brasileiro não se fez dentro de uma moldura legal em nome do interesse público, mas com o emprego de forças de exceção em nome do interesse privado. Não há uma preocupação legalista democrática na concepção elitista do que somos. Há, sim, a briga por quem vai conseguir estabelecer seus interesses particulares como prioridade do Estado e utilizar a máquina para impô-los violentamente. O Estado brasileiro não gere a legalidade, mas a ilegalidade.

E ilegal não é quem infringe, mas quem é ideológica e historicamente relegado a posições de anomia social. Não é à toa que negros compõem uma parcela desproporcional das populações pobre, encarcerada e desescolarizada. Se a pobreza é uma consequência do nosso peculiar processo de “abolição”, que indenizou o senhor de engenho e ocupou o mercado de trabalho com imigrantes europeus, é na cadeia que a escravidão sobrevive, como defendem a teoria e o ativismo da filósofa Angela Davis.

Para Davis, a fundação de uma democracia real depende de reconhecer a continuidade da escravidão no sistema prisional – e entendê-lo como ferramenta essencial para a persistência do racismo num mundo que se anuncia livre e democrático. A migração dos investimentos do Estado da educação, moradia e saúde pública para a administração penitenciária é uma manobra para manter a população negra e pobre à margem do que é reservado para apenas uma classe e uma cor privilegiadas.

Pior: o encarceramento leva à morte social e à privação vitalícia de direitos. Se a ideia do sistema fosse a ideologicamente propagada reinserção do preso, não existiria um documento como o atestado de antecedentes criminais, que nada mais é do que um dispositivo de exclusão social definitiva de egressos do sistema carcerário.

O aumento deliberado da população carcerária resulta de uma política de estado racista, que decide quem vai para a cadeia e quem vai para a universidade; quem é obrigado à anulação civil e quem tem o direito de legislar em causa própria. O que rege a política de encarceramento não é a ideia de obrigar infratores a uma reparação social, mas o controle da população que terá acesso aos direitos distribuídos pelo estado.  Angela Davis mostra que esta manobra operada no seio do Estado, com apoio interessadíssimo do capital privado, está longe de ser um boato. E é nefasta para a população negra, que vive no encarceramento o prolongamento do cativeiro da escravidão.

Ostentamos o quarto lugar no ranking de população carcerária no mundo. Este é um entre muitos indícios das raízes escravocratas do Brasil contemporâneo, ao lado do apagamento (físico e simbólico) da população de rua, a ideia de guerra às drogas que não faz mais do que criminalizar a pobreza, as políticas de remoção forçada de populações precarizadas ou a parcialidade do Judiciário, que se apoia em sua posição de classe e raça para distribuir sentenças.

Ou seja, somos um cadáver ambulante da colônia, vestido com o manto ideológico de um liberalismo político-social sem lastro histórico. A polícia, uma atualização de bandeirantes e capitães do mato, se assenta nestes dois zumbis coloniais, a escravidão (convertida em encarceramento); e a pseudo-abolição (convertida em pobreza), para honrar seu compromisso exclusivo de ostentar o monopólio oligárquico da violência. Nossas forças de segurança são um paradoxal mecanismo de exceção com existência jurídica, uma empresa fantasma do Estado oligárquico, que caça com adestrada precisão o inimigo interno da elite.

É necessário encarar nossa história de violência estatal e inaugurar a função pública do Estado, rompendo radicalmente com seu caráter oligárquico. Sem a expropriação de privilégios herdados do nosso formato de colonização, não há como expurgar a constituição miliciana e seletivamente arbitrária da polícia. Afinal, a exceção é regra em um Estado que se funda para garantir o parasitismo elitista sobre a coisa pública.

*Maria Fernanda Novo é doutoranda em Filosofia pela Unicamp

Texto publicado originalmente na edição de março de 2018 da Revista Cult
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