19 abril, 2018

Gleisi, al-Jazeera e a ignorância como estratégia


Cheguei atrasado na história do vídeo que a presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, gravou para a Al-Jazeera. Foram memes desencontrados sobre uma eventual confusão entre o gigante midiático catari e a Al-Qaeda (?) que me levaram a desenterrar a narrativa. Pensei que alguém tivesse de fato misturado alhos com bugalhos. Mistura houve. Mas foram outros alhos e outros bugalhos. 

Ana Amélia, senadora pelo PP gaúcho, disse em plenário esperar que a declaração da colega não fosse "um pedido para o 'Exército Islâmico' atuar no Brasil". Considerando que não existe uma entidade chamada "Exército Islâmico", suponho que Ana Amélia estivesse se referindo ao  autoproclamado Estado Islâmico, aquela organização de extrema-direita que emergiu das ruínas do Iraque devastado pela também autoproclamada Guerra ao Terror e tentou erigir um califado sobre os escombros da Síria.

Em seu discurso monocromático, que, por ignorância ou má-fé, divide o mundo ideologicamente entre bons cristãos e maus muçulmanos, Ana Amélia não desata um único nó da intrincada teia de interesses geopolíticos que cobre o Oriente Médio. A Al-Jazeera já foi acusada de oferecer espaço para o fundamentalismo; e não é uma acusação completamente sem sentido. Entre as razões para desconfiança estão o fato de a emissora não usar, ao contrário da mídia europeia, o acrônimo pejorativo Daesh para se referir à milícia sunita, além do fato de ela ter oferecido palanque à Irmandade Muçulmana, antes e durante a conversão da primavera egípcia no longo inverno distópico de Abdel Fattah al-Sissi.

Até aí, a Globo também não chama um Jair Bolsonaro de fascista e a Record é um palanque 24/7 para Igreja Universal, cujas declaradas aspirações totalitárias fazem o projeto teológico da Irmandade Muçulmana parecer uma democracia liberal. O que estou dizendo é que a Al-Jazeera, como qualquer império de mídia, não é um hub de ativismo midiático trabalhando pela revolução - embora seja acusada de ser exatamente isso pelas principais teocracias da região, Israel e Arábia Saudita.

Al-Jazeera, em terra de cego

A al-Jazeera é a maior rede de comunicação do mundo árabe, além de ser a única que se pauta pelos tímidos postulados liberais de "liberdade de expressão" e "imparcialidade". Além da palpável aspiração de Doha em, no pós-guerra, controlar a bilionária reconstrução da Síria e, consequentemente, o abastecimento de petróleo via Turquia para a Europa, este compromisso da Al-Jazeera com o jornalismo livre foi uma das razões pelas quais os "parceiros" da OPEP romperam relações com o Catar em meados do ano passado.

Para entender a cena, basta olhar para o funcionamento da mídia nos demais países da região: toda informação que sai da monarquia wahabista saudita, seja pela agência oficial Sanaa, seja por um blog qualquer, passa pelo crivo da família real. E o crime de desobediência ou desrespeito à elite governante pode acarretar 10 anos de prisão, além de 1000 chibatadas, como aconteceu com o blogueiro Raif Badawi, que cometeu a heresia de defender, em termos moderadíssimos, a laicização do Estado, em 2012.

O vizinho Bahrein fechou o Al-Wasat, seu único jornal independente, em junho de 2017. Antes e depois disso, dissidência - física ou ideológica - ao emirado é caso de prisão perpétua e pena de morte. (Cuidado: terreno irônico a seguir) Pelo menos, o Bahrein ainda persegue a dissidência dentro de algum tipo de moldura legal, ao contrário do Egito, que desde 2013, tem tratado jornalistas com tortura e execuções sumárias. Do ponto de vista jurídico, Cairo determinou em 2015 que só a versão oficial de qualquer "ato terrorista" pode ser publicada. Nada como uma terminologia vaga como "terrorismo" para fantasiar a arbitrariedade de lei: até um jogador de futebol, Mohamed Aboutrika, já foi considerado terrorista pelo regime al-Sissi, depois de declarar simpatia a adversários políticos do presidente-marechal.

Omã e Emirados Árabes Unidos não ficam atrás: nos anos que se seguiram à Primavera Árabe, os dois instauraram a leis de ciber-crimes, que preveem longas sentenças de prisão para jornalistas e blogueiros que "insultem ou difamem" o Estado. Na Turquia, o líder autocrata Recep Tayyip Erdogan está há 15 anos no poder demonstrando seu desprezo pela dissidência (ele chegou inclusive a proibir todas as redes sociais - Wikipedia inclusa - e enquadrou como "terroristas" membros do HDP, partido pró-curdo que faz a única oposição de fato ao seu governo). Em 2016, ele aproveitou uma mal-ajambrada tentativa de golpe de Estado supostamente organizada por seu ex-aliado Fetullah Gülen, para promover a censura em larga escala. De lá para cá, mais de 200 jornalistas foram presos, 25 mil demitidos e 120 veículos de mídia fechados.

Ou seja, o golfo não está para peixe no que diz respeito à liberdade de imprensa. O oásis neste cenário desolador, em que cartéis formados por bilionários do petróleo e líderes autoritários impõem sua narrativa para manter o fluxo de petrodólares livre de aspirações democráticas, é justamente a al-Jazeera. A rede foi criada em 1996 majoritariamente pela equipe editorial da unidade árabe da BBC britânica, que ficou a ver navios depois que a família real saudita decidiu dissolver a sucursal. Se, em 2001, três em cada quatro árabes tinham na al-Jazeera sua fonte primária de informação, este número cresceu exponencialmente durante a cobertura da Primavera Árabe, quando a emissora passou a replicar todos os matizes da revolta popular, em particular no Egito e na Tunísia.

Não, a al-Jazeera não serve para convocar "Exército Islâmico"

A al-Jazeera é o oposto de tudo que o que chamamos genérica e ignorantemente de fundamentalismo islâmico defende. Pergunta se existe liberdade de imprensa na Dabiq, a revista do "califado". Pergunta se diversidade de opinião é um valor encampado pelo "califa" Abu Bakr al-Baghdadi. Não é a al-Jazeera que tem capacidade de convocar o "Exército Islâmico" (sic) em defesa do ex-presidente Lula. Até porque o Daesh é uma seita totalitária, enquanto Lula é tão republicano, que continua acreditando nas instituições democráticas e na Justiça oligárquica, mesmo depois de a democracia ter sido esfacelada por um golpe encampado pelo Judiciário.

Quem se aproxima do "fundamentalismo islâmico" - eu prefiro chamar de extrema-direita wahabista - é quem defende militarização da política, ingerência religiosa no Estado, pena de morte. É por esse tipo de coisa que luta o jihadismo wahabista radical, não pela pluralidade de informações. Tanto que, em seu auge, o grupo Estado Islâmico mantinha ótimas relações comerciais e militares com a Turquia de Erdogan, além do perfeito alinhamento ideológico com a Arábia Saudita, que financia diretamente a promoção desta leitura ultra-conservadora do Alcorão.

A al-Jazeera, como qualquer grande veículo liberal, está longe de ser perfeita. Mas tachar um depoimento ao único órgão midiático plural do mundo árabe de "convocação" à extrema-direita fundamentalista em defesa de um líder social-democrata não pode ser só um contrassenso absurdo. Até porque, me recuso a acreditar que as pessoas que estão vendendo esta narrativa acreditem nela de fato. Me parece uma perigosa estratégia de promoção da ignorância, de instrumentalização do racismo e da xenofobia. É usar a premissa racista de que "todo muçulmano é terrorista" para dizer que quem fala com muçulmano é terrorista.

E, se é uma estratégia, é premeditada. A linha de construção desse pensamento seria mais ou menos a seguinte: "quero classificar o PT de terrorista. Por quê? Porque 'terrorismo' é um tipo jurídico impreciso, que causa pânico na sociedade e me permite imputar qualquer pena a qualquer pessoa ou organização". O escarcéu que a direita está fazendo em cima do vídeo da Gleisi Hoffmann tem muito mais de promoção do terror do que o fato de a presidenta do PT falar com a mídia liberal árabe. Afinal, como mostram claramente Turquia e Arábia Saudita, classificar adversários políticos de "terroristas" é um expediente recorrente das autocracias árabes para eliminar a diversidade política e fertilizar o terreno para o crescimento do chamado fundamentalismo islâmico.

Que erva daninha brotará do totalitarismo brasileiro após o expurgo do PT?
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18 abril, 2018

Violência policial é regra no eterno Estado de exceção do Brasil



Em nove meses de 2017, a polícia de São Paulo matou 687 pessoas, o que dá uma média de homicídios próxima do autoproclamado Estado Islâmico. Foto: Todos Negros, feita por Luiz Morier, durante uma blitz no Rio de Janeiro, em 1982.

Por Vanessa Oliveira, Maria Fernanda Novo* e  Gabriel Rocha Gaspar

O roteiro da violência policial no Brasil chega a ser monótono: o soldado aborda o jovem pobre – quase sempre negro –, que morre numa suposta “troca de tiros”. Na primeira versão que emerge da corporação, o morto é reduzido a “bandido”, “suspeito” ou coisa que o valha, como se alguma coisa valesse para justificar assassinato extra-judicial. Geralmente, a história acaba por aí. Quando não, é porque vêm à tona imagens amadoras que colocam em xeque a versão da polícia. Se o contraditório é suficientemente midiatizado, as autoridades são impelidas a responder. E vêm com o padrão moralista de sempre, que isola a solução de sua causa estrutural: “vamos apurar e, se constatado que houve excesso por parte do policial, ele será responsabilizado”.

É a lógica da “laranja podre”. Para criar uma cortina de fumaça sobre a cultura violenta da corporação, assume-se a existência de “maus policiais”, que precisam ser expurgados pelo bem da sociedade. Nos primeiros nove meses de 2017, as “laranjas podres” da polícia de São Paulo fizeram 687 vítimas, segundo levantamento feito pelo UOL a partir de dados da Secretaria de Segurança Pública. Isso significa uma média de 76,3 mortos por mês, em um único estado brasileiro. Para se ter uma ideia do que isso significa, em novembro de 2017, o autoproclamado Estado Islâmico matou 114 pessoas. Se a média nacional for próxima da paulista, as polícias brasileiras são infinitamente mais mortíferas que a milícia wahabista.

A diferença é que o chamado Daesh está em guerra declarada, com o claro objetivo de erigir uma teocracia global sobre os cadáveres de todos que considera infiéis. A polícia brasileira não está em guerra declarada nem tem objetivo claro. Não carrega um slogan liberal como a norte-americana, que diz “proteger e servir”. Traz caveiras, armas e feras como símbolos, mas trata o assassinato extra-judicial como exceção à regra. Se a violência desmedida é excepcional, podemos supor que a regra da corporação se paute por um humanismo profundo, de caráter democrático, com compromisso social e institucional. Bom, não é o caso.

E seria uma aberração histórica se tivéssemos uma polícia liberal – no sentido iluminista clássico – num Estado colonial oligárquico como o brasileiro. Uma polícia minimamente democrática depende de uma concepção de coisa pública que não existe no Brasil. Desde que fomos batizados com esse nome de commodity, somos um país cuja máquina burocrática serve exclusivamente a interesses extrativistas privados.

Nunca determinamos culturalmente que o Estado devesse servir para algo mais do que a administração da violência em defesa da propriedade, sempre conquistada à força (com escravização e genocídio) pelas elites dominantes. E as tímidas tentativas de se atribuir uma função pública ao Estado – com Vargas, Jango e o Partido dos Trabalhadores – foram respondidas com virulência golpista pelas oligarquias, sempre prostradas sob o estandarte do combate à corrupção.

Há uma ironia profunda na instrumentalização do discurso anti-corrupção como mecanismo de reversão das funções estatais à exclusiva manutenção violenta da propriedade privada. É que a propriedade privada existe no Brasil graças à corrupção inerente a este Estado orientado exclusivamente para a manutenção de privilégios de classe. O que é a chamada “Lei para Inglês Ver” (Lei Feijó, de 1831), que institucionalizou as vistas grossas do Império Brasileiro ao tráfico de africanos escravizados, senão a inscrição da corrupção das elites na Constituição?

Ou ainda os bandeirantes, milicianos contratados, oficial ou oficiosamente, pelo Estado para promover terror genocida pelos sertões em nome do interesse privado de grandes proprietários (de terras e pessoas)? As Bandeiras são ótimo exemplo do quanto está consolidada na concepção de Estado de nossas elites a ideia de que a manutenção e expansão da propriedade privada precisam ser feitas à margem da lei e da institucionalidade.

É uma concepção que admite uma contradição fundamental no discurso liberal: a ideia de que é possível confinar o capitalismo a limites legais. Se a acumulação é a força motriz do sistema, impor restrições de qualquer ordem à acumulação significa implodir a prazo as bases de reprodução do próprio sistema. A solução para o paradoxo é cínica: erguer fronteiras legais proto-humanitárias contra a exploração ao mesmo tempo em que se tolera que os maiores acumuladores terceirizem a violência necessária à expansão do lucro.

Exemplos abundam pela história. No século XVII, a Coroa inglesa comissionou piratas para assegurar suas colônias caribenhas, por exemplo; desde a década passada, Washington encarrega o exército mercenário da Blackwater da missão de garantir com violência facínora o fluxo de petrodólares do Oriente Médio para suas corporações; e o poder pseudo-público brasileiro sempre contratou – e contrata – milicianos para assegurar um Estado oligárquico, orientado exclusivamente para a exploração elitista.

Se a cínica terceirização da violência é intrínseca ao divórcio entre discurso e prática no capitalismo liberal, a tendência é que este expediente cresça em escala num lugar como o Brasil, onde o Liberalismo se estabeleceu exclusivamente em sua fórmula econômica, esvaziado do repertório filosófico humanista.

Isto aqui é uma colônia escravocrata – o que significa que, ao contrário do que dita a historiografia oficial, a escravidão não foi utilizada para produção de mercadoria. A mercadoria era o negro em si, o que traz uma série de implicações políticas, econômicas e psicossociais.

Para o filósofo e historiador camaronês Achille Mbembe, a lógica da exploração total nas colônias exige um novo tipo de consciência e de análise econômica, que considere o escravizado, simultaneamente, como objeto, força de trabalho e mercadoria. Foi essa economia escravocrata, amparada na ficção metafísica do conceito de raça, que impulsionou o capitalismo mercantil e o posterior capitalismo industrial. O comércio transatlântico de africanos inaugura de uma só vez a geopolítica da exploração e a naturalização jurídica do sujeito sem direito. Não haveria condições para a ascensão da ordem burguesa não fosse pela violência do tráfico transatlântico de seres humanos.

Claro que o comércio de pessoas em si já implica uma violência objetiva inenarrável. Arrancar pessoas de suas terras, famílias, idioma, nome, cultura, qualidades afetivas, memória e histórias ancestrais é um processo que desfaz o corpo negro, desmonta sua identidade. A partir dessa violência, a razão colonial naturaliza a privatização dos lucros e os prejuízos econômicos, sociais e ambientais são assumidos pelo Estado e distribuídos entre a população segundo um critério de hierarquização racial.

Mas, além de toda violência objetiva, a sustentação da instituição escravocrata exige formas de violência mais gráficas, de maior impacto subjetivo, como estupro, tortura, assassinato e mutilações. De acordo com o psiquiatra e filósofo martinicano Franz Fanon, a fórmula de sucesso da colonização é a combinação dos usos físico e simbólico da violência.

Pense no Haiti. Lá, influenciados pelos ventos de humanismo que emanavam da metrópole, negros escravizados e libertos se atreveram à revolução. Foi quando a Revolução Francesa se viu obrigada a estabelecer o exclusivismo do universalismo: “liberdade, igualdade e fraternidade, mas só entre nós”. E até hoje, o Haiti paga pela tentativa de colar ideologia e prática.

Nós também tivemos nossos arroubos afro-revolucionários. É o caso da confederação quilombola de Palmares, um Estado independente que sobreviveu por cem anos na mais próspera colônia açucareira do império português. Como a revolução haitiana, foi reduzido às cinzas. Não pelo exército regular, mas por bandeirantes e capitães do mato, uma outra variedade de mercenários, especializada na caça de negros fugidos.

Estas duas categorias são exemplos claros e duradouros – tanto do ponto de vista ideológico quanto prático – de como a gestão da violência pelo Estado brasileiro não se fez dentro de uma moldura legal em nome do interesse público, mas com o emprego de forças de exceção em nome do interesse privado. Não há uma preocupação legalista democrática na concepção elitista do que somos. Há, sim, a briga por quem vai conseguir estabelecer seus interesses particulares como prioridade do Estado e utilizar a máquina para impô-los violentamente. O Estado brasileiro não gere a legalidade, mas a ilegalidade.

E ilegal não é quem infringe, mas quem é ideológica e historicamente relegado a posições de anomia social. Não é à toa que negros compõem uma parcela desproporcional das populações pobre, encarcerada e desescolarizada. Se a pobreza é uma consequência do nosso peculiar processo de “abolição”, que indenizou o senhor de engenho e ocupou o mercado de trabalho com imigrantes europeus, é na cadeia que a escravidão sobrevive, como defendem a teoria e o ativismo da filósofa Angela Davis.

Para Davis, a fundação de uma democracia real depende de reconhecer a continuidade da escravidão no sistema prisional – e entendê-lo como ferramenta essencial para a persistência do racismo num mundo que se anuncia livre e democrático. A migração dos investimentos do Estado da educação, moradia e saúde pública para a administração penitenciária é uma manobra para manter a população negra e pobre à margem do que é reservado para apenas uma classe e uma cor privilegiadas.

Pior: o encarceramento leva à morte social e à privação vitalícia de direitos. Se a ideia do sistema fosse a ideologicamente propagada reinserção do preso, não existiria um documento como o atestado de antecedentes criminais, que nada mais é do que um dispositivo de exclusão social definitiva de egressos do sistema carcerário.

O aumento deliberado da população carcerária resulta de uma política de estado racista, que decide quem vai para a cadeia e quem vai para a universidade; quem é obrigado à anulação civil e quem tem o direito de legislar em causa própria. O que rege a política de encarceramento não é a ideia de obrigar infratores a uma reparação social, mas o controle da população que terá acesso aos direitos distribuídos pelo estado.  Angela Davis mostra que esta manobra operada no seio do Estado, com apoio interessadíssimo do capital privado, está longe de ser um boato. E é nefasta para a população negra, que vive no encarceramento o prolongamento do cativeiro da escravidão.

Ostentamos o quarto lugar no ranking de população carcerária no mundo. Este é um entre muitos indícios das raízes escravocratas do Brasil contemporâneo, ao lado do apagamento (físico e simbólico) da população de rua, a ideia de guerra às drogas que não faz mais do que criminalizar a pobreza, as políticas de remoção forçada de populações precarizadas ou a parcialidade do Judiciário, que se apoia em sua posição de classe e raça para distribuir sentenças.

Ou seja, somos um cadáver ambulante da colônia, vestido com o manto ideológico de um liberalismo político-social sem lastro histórico. A polícia, uma atualização de bandeirantes e capitães do mato, se assenta nestes dois zumbis coloniais, a escravidão (convertida em encarceramento); e a pseudo-abolição (convertida em pobreza), para honrar seu compromisso exclusivo de ostentar o monopólio oligárquico da violência. Nossas forças de segurança são um paradoxal mecanismo de exceção com existência jurídica, uma empresa fantasma do Estado oligárquico, que caça com adestrada precisão o inimigo interno da elite.

É necessário encarar nossa história de violência estatal e inaugurar a função pública do Estado, rompendo radicalmente com seu caráter oligárquico. Sem a expropriação de privilégios herdados do nosso formato de colonização, não há como expurgar a constituição miliciana e seletivamente arbitrária da polícia. Afinal, a exceção é regra em um Estado que se funda para garantir o parasitismo elitista sobre a coisa pública.

*Maria Fernanda Novo é doutoranda em Filosofia pela Unicamp

Texto publicado originalmente na edição de março de 2018 da Revista Cult
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27 março, 2018

Democracia: na trincheira ou na vala

Duas semanas depois do assassinato de Marielle, atentado a tiros contra caravana do ex-presidente Lula deveria ligar o alerta vermelho do grau de violência política que enfrentamos 

Perfuração de bala em ônibus onde estavam jornalistas que acompanhavam a caravana de Lula no Paraná. Foto: Daniel Giovanaz/Brasil de Fato


Um ex-presidente da República foi vítima de um atentado a tiros. Essa notícia deveria, no mínimo, gerar calafrios em qualquer pessoa que preze pela democracia. O que aconteceu nesta terça-feira foi mais grave do que nossa capacidade de análise histórica, estreita pelo calor do momento, é capaz de apreender.

Se a violência política começou a mostrar sua cara no golpe misógino e classista contra a presidenta Dilma, se o assassinato da vereadora Marielle Franco confirmou o grau de penetração institucional do estado genocida, o atentado contra Lula mostra que a infecção fascista já está alojada no corpo da sociedade.

A história testemunha que, quando não reagimos à altura da violência política, o obscurantismo impera. Derretem-se as instituições, o medo vira moeda política, criminaliza-se a disputa de ideias e a criatividade política, abre-se o caminho para ideologias totalitárias. Estamos descendo um poço, cujo fundo é forrado com os cadáveres da diversidade, do diálogo, do contraditório.

O fascismo não é uma ideologia nem uma falha moral. É uma violenta doença antissocial, que penetra as mentes dos indivíduos, anestesia a empatia e desumaniza definitivamente as parcelas vulneráveis da população. Corrói o tecido social.

O fascismo começa por atuar por debaixo dos panos, matando quem ninguém lembrava que estava vivo. O intelectual negro W.E.B. Dubois enxergou com clareza as raízes do nazismo na colonização africana. Os congoleses do século XIX foram as primeiras vítimas do que se tornariam os campos de concentração do Leste ocupado, assim como as pretas e pretos das periferias e as pessoas trans são o campo de teste do fascismo do século XXI. Depois de varrer os esquecidos da sociedade, a máquina do genocídio passa a matar símbolos, como Rosa Luxemburgo ou Marielle Franco. É neste estágio que estamos.

Perdemos a oportunidade de enfrentar o fascismo no ninho. Ele já está escancarado na manchete do Globo, que, de maneira leviana, trata o atentado como uma fábula petista; está no ímpeto moralista por procurar bodes expiatórios. O fascismo nos infecta como sociedade.

Por isso, não esperamos apenas que os fatos sejam apurados. Esperamos e lutamos por um despertar de consciência contra a violência política, que nos permita dizer às próximas gerações que nós fomos capazes de matar o fascismo antes da metástase institucional.

O que aconteceu hoje exige reação coletiva à altura. Se apoiamos ou não uma nova eleição de Lula é irrelevante. Hoje, lutamos pela sobrevivência da democracia e dos símbolos que a constroem. Ou nos encontramos hoje nas trincheiras ou amanhã nos porões.
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18 março, 2018

"Quem matou Marielle?", será que essa é a pergunta?



Quem matou a Marielle Franco foi o racismo. Foi o fascismo. Foi a polícia. Foi o exército. Foi o golpe. Foi o estado de exceção. Todas essas frases estão certas, ao mesmo tempo, se acreditamos que os problemas estruturais da sociedade só podem ser vistos numa ótica interseccional, que não simplifique nem hierarquize formas de opressão. Se você está buscando uma resposta única, exclusiva e excludente para "quem matou a Marielle?", você está analisando uma hashtag, um slogan, e não o profundo problema político, social e racial que este assassinato evidencia.

Basta ler o título de Mulheres, Raça e Classe, da Angela Davis, pra invalidar a discussão se o racismo foi mais determinante do que a condição de classe ou de gênero. "Mais determinante" não é a questão. Se você achar que ela é "só mais uma vítima" do genocídio da juventude preta no Brasil, você perde de perspectiva o fato de que este assassinato é uma escalada inédita do estado de exceção. Se achar que foi só o estado de exceção, você não explica por que morreu Marielle Franco e não Marcelo Freixo.

O estado sempre foi de exceção pro nosso povo? Sempre foi. Mas quando foi que conscientemente executaram uma negra/o eleita/o no meio da rua? O fato de ela ter sido a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro não quer dizer nada? Ou não teve nenhuma relação com a morte dela? A busca por uma resposta monolítica para esse assunto complexo elimina a distinção entre o que é o funcionamento automático da máquina genocida e o que é a ideologia genocidária. A máquina do genocídio (de qualquer genocídio da história) mata tanto porque não só é automática, mas funciona em escala industrial e de forma transversalmente distribuída pelo corpo da sociedade; quer dizer, não é só a polícia ou justiceiros que matam, tem o sistema de saúde, de educação, o Judiciário etc.

A máquina do genocídio x ideologia genocidária

O assassinato de Marielle não é automático, ele é um ato premeditado de apologia da ideologia genocidária. As mortes das outras vítimas do genocídio são políticas no plano objetivo, estrutural, macroscópico. O da Marielle, além de ser objetivamente e estruturalmente político, é subjetivamente político. Ou seja, ele impacta nossa retina para passar um recado direto: "vocês, pretas e pretos, pobres, de esquerda, não venham brincar de democracia no nosso quintal, porque nem a sua instituicionalização vai te proteger do assassinato em massa". A gente PRECISA entender como este recado opera na esfera ideológica, se quiser enfrentar o genocídio de fato.

Nosso povo tem a esperança de que, como indivíduo, se a gente chegar positivamente a uma esfera institucional, as nossas chances de virar estatística diminuem. O assassinato de Marielle é um atentado contra essa lógica psicossocial do povo oprimido, é um tiro no peito da nossa capacidade de sonhar. É terrorismo de Estado contra a população preta e pobre na esfera institucional positiva, que é diferente do terrorismo de estado que atua na esfera institucional negativa, por meio de cadeia e polícia.

E se a gente não for capaz de racionalizar isso, a gente vai absorver o terrorismo de Estado emocionalmente e não racionalmente. Ele vai ter cumprido seu objetivo.

Se aceitarmos a complexidade da situação, se pararmos de desprezar a interseccionalidade - que é o que faz essa busca pela causa monolítica -, vamos provavelmente chegar à conclusão de que "quem matou a Marielle?" não é a pergunta política fundamental. Objetivamente, essa pergunta é pro Judiciário. Porque, do ponto de vista político, quem matou Marielle foi o avanço do reacionarismo simultaneamente racista, classista, misógino e homofóbico num contexto de estado de exceção. A questão fundamental é quem vai continuar matando a Marielle. Provavelmente, quem vai continuar matando a Marielle é a guerra publicitária pelo seu cadáver ou, como tem se colocado de forma eufemista, a disputa de narrativa.

O autoritarismo da disputa de narrativa

Infelizmente, ela não acontece no plano racional, é um conflito pelo monopólio da manipulação emocional da população. Todos os lados usam a razão de forma autoritária para ver quem consegue impactar mais fortemente o coração da sociedade. E todas as armas dessa guerra foram disponibilizadas pela direita.

Afinal, o caráter contemporâneo do uso autoritário da razão para manipular o inconsciente coletivo com fins políticos ou econômicos - processo também conhecido como "publicidade", na faceta eufemista; "propaganda", na mais literal - é uma invenção do ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels. Enfrentar o fascismo exige brigar pelo restabelecimento do debate racional, usando, com profunda honestidade intelectual, o que a gente desenvolveu de teoria - neste caso, feministas negras como Angela Davis e Patricia Hill Collins caem como luvas.

Tanto quem diz que Marielle foi vítima exclusiva do racismo estrutural e do genocídio do povo preto, quanto quem diz que Marielle foi vítima exclusiva do golpe e do estado de exceção, está jogando um campeonato de várzea achando que é Copa do Mundo. Afinal, escreve a história quem vence. E a esquerda, preta ou branca, está perdendo. A narrativa sobre a Marielle vai ser escrita pela Globo, que já incorporou a pauta e parece querer esvaziar todo seu conteúdo político, com a construção do que eles chamam de "drama humano": a redução de problemas estruturais a problemas individuais. Nossa disputa simbólica é contra a direita - Globo, MBL etc.

A gente deveria estar se perguntando seriamente o que a Globo pretende com este "Marielle Presente" no intervalo da programação. Ou vocês esqueceram que, em junho de 2013, bastou um editorial pró-manifestações do Arnaldo Jabor para transformar uma legítima demanda por mais Estado em uma escalada fascista de dimensão nacional?

E o inimigo quer o quê?

Uma coisa é óbvia: eles querem a razão fora do jogo. Querem reforçar o aspecto emocional, despolitizador. Querem individualizar o drama para transformar o Estado de exceção e o genocídio em pautas secundárias. Ou seja, a Globo tem o poder de, com uma única manobra de autoritarismo emocional, marginalizar as duas bandeiras da esquerda que estão se digladiando na arena semi-pública dos grupos de WhatsApp.

Se este é o objetivo narrativo, a gente precisa se perguntar qual o objetivo político final deles. Eles querem um aprofundamento da intervenção militar, que leve à determinação de um estado de emergência, que suspenda as eleições e transforme o Brasil numa gestão militar de fachada civil? Ou eles pretendem botar o fardo nas costas do governo federal para esvaziar o movimento de sua potência política, criar uma espécie de "sou da paz" e capitanear uma volta da democracia neoliberal nos braços do povo? Uma combinação dos dois, com agendas de curto, médio e longo prazo? Estamos especulando.

Seja qual for a intenção do inimigo, é urgente que a gente aprenda a estabelecer uma comunicação social horizontal, de razão para razão, de cabeça para cabeça. A gente precisa conseguir acabar com esta forma de comunicação autoritária, que coloca a razão num lugar de privilégio para manipular a psicologia social pela emoção. A gente precisa romper com o formato nazista de comunicação. Afinal, se o meio é de extrema-direita, com base em quê vocês acham que o resultado vai ser favorável à esquerda, seja ela preta ou branca?

Foto: Mídia Ninja
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29 janeiro, 2018

Por que não somos todos Somália?

Homens vasculham escombros em Mogadíscio. Foto: Tobin Jones/Amisom
A Somália sofreu em 14 de outubro de 2017 um dos atentados mais violentos da história. Na segunda-feira seguinte (16), o Twitter ferveu de questionamentos sobre a baixa cobertura midiática e a pouca comoção em torno das mais de 500 vítimas (entre mortos e feridos) do ataque ao centro da capital Mogadíscio. Representantes de ONGs, jornalistas e acadêmicos do mundo todo se perguntaram por que não surgiu rapidamente um Je suis Somália ou coisa do tipo.

Infelizmente, porque culturalmente naturalizamos o sofrimento de pobre, preto, muçulmano e africano. Mas ainda que houvesse forte resposta emocional a tamanha violência politicamente motivada, começaríamos a trilhar o caminho de evitar que ela se repetisse? Certamente, seria melhor do que a indiferença. Mas bastaria? Tendo a achar que precisamos de mais do que nossos corações; precisamos analisar, com a cabeça, como a violência sistêmica, objetiva e perene, se converte em banhos de sangue. Qual o efeito que cada modalidade de violência tem sobre nós e por quê?

A pouca manifestação solidária que houve seguiu um padrão de tentar formar uma corrente empática pela via da exclusão. Como se, incapazes de sentir empatia genuína pelo sofrimento daquelas pessoas histórica e ideologicamente construídas como sub-humanas, tentássemos estabelecer, na repulsa pelo assassino, a ligação com a vítima. Nas declarações de condenação da comunidade internacional – que, via de regra, chegaram com dois dias atraso, como se a empatia também tirasse folga no fim de semana – abunda a palavra “bárbaro”.

Embora hoje, associemos o termo a violento, desumano e cruel, “bárbaro” tem uma etimologia reveladora: vem do grego bárbaros, que quer dizer “estrangeiro”. Ou seja, bárbaro é sempre o “outro”, nunca nós mesmos. Ao atribuir este adjetivo a um atentado ou seu perpetrador, inconscientemente (ou não), o colocamos fora da comunidade humana; ele incorpora a figura do “outro” que, como tal, não é digno de identificação e, logo, empatia. Ou seja, esta comoção opera em chave negativa: a solidariedade com a vítima brota da negação da humanidade do algoz.

Será que o algoz é “outro” de fato? Ou criar o outro é o recurso psicológico que temos para lidar com a violência absoluta e, assim, nos abstermos de procurá-la dentro de nós mesmos? Não estou evocando uma solidariedade cristã do tipo “ame seu inimigo” a quem perpetrou tão covarde ato de violência contra civis inocentes. Estou dizendo que precisamos buscar meios de solidariedade positiva com as vítimas. Por culpa de anos de desconstrução da humanidade dessas pessoas, é possível que ela não venha pela via emocional - o que significa que precisamos construir caminhos intelectuais de desenvolvimento da empatia.

Este exercício depende de uma análise um pouco mais profunda das condições somalis – sabendo que não vamos conseguir, sequer minimamente, apreender a complexidade da colcha de retalhos de descaso, imperialismo, colonialismo, racismo, diplomacia falha, crueldade institucional, ganância e hipocrisia que compõe a história recente da Somália em particular e da África, de forma geral. Trata-se de tentar fazer a solidariedade ultrapassar a comoção inicial para buscar ressignificar intelectual e objetivamente o jogo geopolítico que nos trouxe ao ponto em que estamos agora. Até porque, são grandes as chances de percebermos que o “bárbaro” e sua violência são menos estrangeiros do que parecem.

Al-Shabaab e a marginalização da institucionalidade

O governo local e a comunidade internacional apontaram como responsável pelo atentado a milícia Harakat al-Shabaab al-Mujahideen (“Movimento da Juventude Guerreira”, em tradução livre), conectada à Al-Qaeda no Maghreb Islâmico (Aqmi) e ao grupo nigeriano Boko Haram. Mas, estranhamente, a organização não assumiu a autoria do atentado. De acordo com a rádio pública estadunidense NPR, que tem um correspondente in loco, há suspeitas de que a escala e a comoção causada pelo atentado tenham inibido o grupo, que não pode prescindir completamente das relações públicas em nome da hegemonização de sua leitura fundamentalista do Islã.

Isso porque, diferentemente do grupo Estado Islâmico, que apareceu como um relâmpago e dominou territórios distantes que eram estáveis até pouco antes, a Al-Shabaab foi um importante ator político dentro da precária institucionalidade de seu próprio país, onde a maioria da população nem se lembra do que é ter um governo de fato. Al-Shabaab foi um dos braços da União das Cortes Islâmicas, que governou e coordenou a aplicação da Sharia, (lei islâmica) na maior parte do sul do país durante o ano de 2006.

Claro que para nós, ocidentais, a palavra Sharia causa calafrios. Imediatamente nos lembramos das decapitações, mãos decepadas, apedrejamento de mulheres “infiéis” etc. Mas há uma série de particularidades na história e na geografia da Somália que fizeram com que os tribunais religiosos fossem bastante populares entre a população do sul do país. A primeira, e mais óbvia, reside no fato de que a Somália vive em guerra civil desde 1991 – o que faz da lei (qualquer lei), um luxo.

Depois da queda de Siad Barre – que, com apoio soviético, se aferrou ao poder por mais de 20 anos, até ser derrubado por uma coalizão de grupos armados em 1991 -, o controle político, econômico e militar se dividiu entre chefes de clãs guerreiros. Em meio ao caos, intelectuais, líderes políticos e juristas de cidades importantes como a própria capital Mogadíscio formaram as Cortes Islâmicas para estabelecer algum controle político e social. Uma vez que não existia burocracia que pactuasse uma Constituição legítima, a religião era um ponto de convergência natural.

Como explica Stig Jarle Hansen, no livro Al-Shabaab in Somália, The History and Idelogy of a Militant Islamist Group (Oxford University Press, 2013), o caldo do islamismo militante já vinha fervendo no país desde a crise petrolífera do início dos anos 70, que enriqueceu a Arábia Saudita o suficiente para que Riad financiasse a expansão internacional de sua filosofia jihadista radical, o wahabismo.

Esta vertente do islamismo militante sunita, fundada e financiada pela dinastia Saud, que comanda a Arábia Saudita desde a fundação do país, prega a submissão do planeta inteiro à mais estrita interpretação da lei do profeta. É uma leitura fundamentalista e expansionista da Jihad islâmica, que inspira todas as frentes sunitas radicais, desde a Al-Qaeda até o Daesh ("Estado Islâmico"). Ainda hoje, a Arábia Saudita financia qualquer imã (líder religioso) sunita que se disponha a abrir uma mesquita de linha wahabista, em qualquer parte do mundo.

E, claro, aplica sua filosofia domesticamente com precisão saudita – o que quer dizer que a família real e os negócios estão à margem da ira divina. Duzentas chibatadas é a pena para o consumo de álcool. Homossexualidade e adultério são passíveis de pena de morte. Mas quando o príncipe Majed al Saud infringiu todas as disposições da Sharia, não deu nada. Em setembro de 2015, ele promoveu uma festa regada a prostitutas, álcool e cocaína em Beverly Hills, que incluiu sexo gay, cárcere privado e ameaça de morte contra três funcionárias da mansão onde ele estava, que se recusaram a prestar-lhe favores sexuais.

Parêntese fechado, apesar da onipresença da doutrinação saudita, os petrodólares e o convite à guerra santa não foram suficientes para estabelecer na Somália, islamita milenar, a coesão em torno de uma corrente religiosa tão radicalmente exclusivista. A ainda mais antiga organização social em clãs impedia o pensamento monolítico.

Da estrutura política comunitária às afinidades pessoais, partes importantes da vida social somali passam pela relação patrilinear; pessoas que têm descendentes masculinos em comum se agrupam. Mas essa união em microestruturas é um obstáculo na formação da coesão macro-estrutural. Não à toa, tão logo conseguiu derrubar o presidente Barre, o movimento armado do início dos 90 se dissolveu nas lealdades familiares sem formar governo.

Duas administrações civis frágeis foram estabelecidas e ficou claro que estouraria guerra civil por tempo indeterminado. Com ela, chegou a fome, o risco de genocídio e o êxodo populacional – que gerou no vizinho Quênia, um mar de barracas chamado Dadaab, o maior campo de refugiados do mundo. Sob o pretexto de garantir a distribuição de alimentos da comunidade internacional à população e fazer o trabalho de Deus, nas palavras do então-presidente George Bush (pai), Washington resolveu entrar em ação e comandar a Força Tarefa Unida da ONU no país.

Aproveitando que já estavam no terreno mesmo (e sem nenhuma relação com o fato de que a Somália possui a maior extensão costeira da África Oriental, com saída para o Oceano Índico e o Mar Vermelho), os Estados Unidos tentaram capturar um dos dois auto-proclamados presidentes do país, Mohamed Farrah Adid.

O resultado dessa tentativa improvisada de mudança de regime foi a batalha de Mogadíscio, retratada no filme Falcão Negro em Perigo – que, aliás, merece outro parêntese. Para se ter ideia da carga de ideologia racista contida no longa, não há negros entre os marines; dos negros somalis, ninguém tem nome. Todos respondem pela alcunha skinny (magrelo), apelido no mínimo de mau gosto, em uma operação de combate à fome. 

O fato é que a batalha de Mogadíscio, por mais heroica que pareça pela lente hollywoodiana, foi um fracasso retumbante, que custou dois helicópteros e 18 soldados às forças invasoras. Bill Clinton, que acabara de assumir a Casa Branca, aproveitou a comoção em torno do vexame para retirar as tropas, em março de 1994. Com calculada emoção, o novo mandatário disse que os corpos de soldados que “só queriam dar de comer a pessoas com fome” foram “dessacralizados por gangues de somalis armados”.

Durante o raro e breve período de ausência de ingerência militar externa que se seguiu, as milícias em guerra se dividiram em mais e mais facções, rachando de vez um país já ingovernável. Conforme alguns clãs tentavam criar um Governo Nacional de Transição (GNT), Mogadíscio sofria uma onda descontrolada de estupros, assaltos, saques e assassinatos, que levou à formação de uma força de paz da União Africana, capitaneada pela Etiópia.

Por se tratar um ex-império regional e um rival histórico, a participação etíope foi vista com péssimos olhos pela população, bem como o fato de que o outro governo (Governo Federal de Transição, GFT), tinha sido formado no Quênia, à revelia da população. Apesar de reconhecida pela comunidade internacional, a administração não tinha qualquer legitimidade interna. Percebendo a inquietação do povo, os islamitas impuseram uma política de tolerância zero com o crime e ainda compraram a briga contra a ingerência externa patrocinada pela ONU.

Mais do que a religião, foi este movimento institucionalista que empoderou os wahabistas. Formadas em meio a tamanho caos, as Cortes Islâmicas de aplicação da Sharia conquistaram a população ao virar a coisa mais próxima de um governo, ainda que funcionassem como ditaduras aristocráticas de um Judiciário fundamentalista.

Tão logo essas forças sentiram consolidada alguma hegemonia num país cindido pelos clãs, elas colocaram em prática a parte militante do wahabismo. Formou-se a União das Cortes Islâmicas (UCI). A nova organização engrossou a voz e declarou, no início de 2006, que as tropas de “manutenção da paz” seriam tratadas com hostilidade, fossem quenianas, etíopes, estadunidenses ou europeias. Em poucos meses, a organização já tinha conquistado grande parte do sudeste do país, incluindo Mogadíscio.

Depois de quase um ano de guerra total, tanques etíopes marcharam sobre a capital. No último dia de 2016, a UCI se viu obrigada a recuar em direção à fronteira queniana. A guerra – que contou, já nos estertores, com bombardeios norte-americanos – serviu para dissolver a ditadura das Cortes e restabelecer o Governo Federal de Transição.

Mas, já em fevereiro, ficou claro que, das sombras da clandestinidade, emergia uma guerrilha perigosa, quando cerca de 800 manifestantes saíram às ruas da capital para queimar bandeiras dos Estados Unidos, Etiópia e Uganda. No mesmo ato, homens mascarados fizeram ameaças de ataques a bomba contra Quênia e Etiópia.

Al Shabaab, precursor tático do grupo Estado Islâmico

Era o primeiro sintoma do nascimento da Harakat al-Shabaab, que inauguraria uma nova tendência do wahabismo militante: espalhar o terror de forma transnacional, como estratégia publicitária para reunir muçulmanos sunitas hostilizados e humilhados do mundo inteiro em torno da luta pela formação de um governo islâmico universal. Um califado que limparia o mundo dos infiéis e imporia a toda a humanidade uma interpretação fundamentalista e apocalíptica da lei do profeta.

O sucesso da Al-Shabaab nas relações públicas é inegável e certamente serviu de inspiração para o grupo Estado Islâmico. Prova disso é que, apesar da invisibilidade midiática da jihad violenta na África – à época, ainda mais eclipsada pela Primavera Árabe e pela ascensão de outras milícias wahabistas no Oriente Médio -, sempre houve presença maciça de estrangeiros nas linhas da organização.

Um pesquisador citado por Stig Hansen recenseou militantes feridos em um hospital de Mogadíscio em junho de 2011 e descobriu 38 ocidentais e asiáticos, 125 africanos de outros países, um estadunidense e dois sauditas. Entre os mortos, a diversidade era ainda maior, com gente de Bangladesh às Ilhas Comores, passando por Grã-Bretanha, Bélgica, Suécia e Noruega. Descobriu-se, ainda, que entre as lideranças do grupo, havia veteranos da primeira Guerra do Afeganistão – ou seja, moujahadins ultra-radicais treinados diretamente pelo Pentágono para enfrentar a invasão soviética no final dos anos 70.

Pela metade de 2008, o grupo já havia feito o que o autoproclamado Estado Islâmico faria em 2015, deixando o mundo inteiro boquiaberto: aproveitar o colapso de um Estado para tomar de assalto vastas franjas de território, aliando geopolítica, publicidade, tática de guerrilha e a divulgação de atos de extrema violência pelas redes sociais. No ano seguinte, depois de vários atentados extremamente cruéis e midiatizados, a al-Shabaab seria declarada organização terrorista pelos Estados Unidos.

Apesar da clara ameaça que o grupo representava, apesar do fato de que suas táticas inspirariam outras jihads ultrarradicais, os Estados Unidos optaram por não declarar guerra. A força de ataque seria formada pela União Africana, supervisionada pela ONU e com “apoio tático” estadunidense.

Obama institui assassinato como política de Estado

Só que este “apoio tático” se transformou numa completa subversão das leis internacionais – e mesmo estadunidense – sobre a hostilidade militar. De acordo com a Constituição dos EUA, um presidente não pode iniciar uma ação bélica sem o aval do Congresso; e consta no artigo 50 da Convenção de Genebra que, “se houver dúvida se uma pessoa é ou não combatente, ela deve ser considerada civil”.

O departamento de Estado comandado por Hillary Clinton sob a gestão Obama aproveitou a situação somali – e a pouca atenção que o país desperta da opinião pública internacional – para tirar estes “empecilhos burocráticos” do caminho do império e da indústria armamentista que o sustenta. A Somália, junto com o Iêmen, outro semi-Estado esquecido, virou campo de testes da guerra secreta dos drones.

Embora o nome escolhido pela estratégia de relações públicas de Washington tenha sido clean target killings - ou mortes direcionadas, em tradução livre -, a prática transformou o assassinato em política do Estado americano. Conforme revelou The Intercept, a partir de documentos vazados da inteligência estadunidense, apenas 10% das vítimas dos drones eram alvos designados. Os outros 90%, são absolutos desconhecidos – ou melhor, civis, seguindo a terminologia de Genebra.

Como se não bastasse, este tipo de assassinato é feito em um território contra o qual os Estados Unidos não declararam guerra. Ou seja, eles significam que, potencialmente, o presidente dos EUA pode matar qualquer pessoa do mundo como num jogo de videogame. Depois deste vazamento, Obama foi obrigado a se explicar. Contradizendo abertamente as estatísticas de sua própria administração, admitiu as mortes de 116 civis ao redor do mundo, entre 2009 e 2015. Mas um único ataque em Mogadíscio matou 150.

Além das milhões de implicações éticas desta nova-velha tática de assassinar quem se bem entende, há a questão da imensa insegurança jurídica que ela acarreta. Levando em conta que a Al-Shabaab segue uma lei escrita – por mais cruel que seja sua aplicação da Sharia –, qual o efeito psicossocial do abandono deliberado da mais alta lei internacional (a que impediu o holocausto nuclear durante a Guerra Fria) pelo governo que invade com a promessa restaurar a ordem? E, pior, qual esse efeito no caso da Somália, cujo único período de supremacia do direito foi durante a ditadura das cortes islâmicas?

Movimentações suspeitas às vésperas do atentado

A curto prazo, o efeito provável é o reforço da Al-Shabaab e da retórica wahabista radical. No longo prazo, corre-se o risco da obsolescência completa da legalidade por meio da consolidação da lei do mais forte. Talvez a Somália já esteja nesta segunda etapa, infelizmente. Talvez o silêncio da Al-Shabaab sobre o atentado de sábado seja de fato a constatação calada de um erro estratégico em um momento de possível consolidação social da sua ordem de contorno fascista.

Ou talvez estas sejam duas suposições ingênuas, que perdem de vista – não por preguiça, mas por falta de elementos de análise – o verdadeiro jogo geopolítico em curso. Para quem quiser tentar caçar o pelo do ovo, talvez seja uma boa pesquisar dois acontecimentos aparentemente desconexos. O primeiro é que, na véspera do ataque, o ministro da Defesa da Somália, Abdirashid Abdullahi Mohamed, e o chefe do exército, genera. Mohamed Ahmed Jimale, pediram demissão.

E o outro, talvez mais conspiratório, mas também mais intrigante, é o fato de que a Turquia do autocrata Recep Tayyip Erdogan, primeiro país a disponibilizar leitos e transporte para as vítimas, abriu há apenas 15 dias sua maior base militar internacional, justamente em Mogadíscio.

Especialista em guerra de fachada contra organizações wahabistas, suspeito de ter permitido atentados contra seu próprio povo em nome de interesses políticos e econômicos, Erdogan está investindo US$ 50 milhões no treinamento de 10 mil soldados somalis para enfrentar a Al-Shabaab – que hoje domina apenas 10% do território que já teve. Não há nenhuma insinuação aqui, mas o investimento só retorna se o inimigo existir.

Se a violência vem de todos os lados, por que não nossa indignação?

A pergunta que surge de tudo isso é: se toda a geopolítica global se tornou uma teia de violência crua, por que nos incomoda a violência da Al-Shabaab, da Al-Qaeda e do tal Estado Islâmico enquanto ignoramos a da Arábia Saudita, dos Estados Unidos, da Europa e da Turquia, de onde emana a distopia? Por que vemos imundície completa nos massacres promovidos pelo “outro” imaginário, mas aceitamos que se varra para baixo do tapete a igualmente brutal violência daquele que identificamos como “um de nós”? Um palpite: por preguiça intelectual pré-determinada. Porque estamos exageradamente condicionados a uma leitura não-racional do mundo.

A violência que nos impacta é a que vem de forma subjetiva e sensorial; é aquela que a gente vê, que tem cheiro, que tem lágrima desesperada. Se vier acompanhada de violino, ainda melhor. Choca aquela violência que é ressignificada em nossa cabeça pela emoção e não pela razão. É óbvio que o Al-Shabaab não é o “outro”; a violência dele não está, de forma alguma, isolada deste mundo. Se, para nós ele é o “outro”, é de forma mistificada: estamos usando a existência do não-humano como parâmetro da nossa humanidade. E aí, necessitamos do “outro” como o Batman, aquele playboy fascista, precisa do lúmpen proto-anarquista Coringa. Precisa da desordem completa para justificar seu esforço paranoico-compulsivo de reorganização do mundo.

Por isso, criamos o “não-humano” o tempo inteiro.

Este longo texto pode parecer, mas não é insensível. É um apelo pelo compromisso com o potencial revolucionário da sensibilidade. Não basta que encontremos a melhor hashtag para expressar nossa solidariedade às vítimas do horror que assola a Somália. Precisamos buscar as raízes da nossa falta de compromisso com o estancamento do sangue. Só a partir daí, conseguiremos enfrentar objetiva e intelectualmente a barbárie que nos é inerente.

Texto publicado originalmente no Justificando, a 17 de outubro de 2017
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29 setembro, 2017

Como bilionários usaram as redes para colocar Trump na Casa Branca



Como um trollador do Twitter foi parar na Casa Branca? Quem compôs a base – e o teto – de Donald Trump? Este texto tenta ligar os pontos de uma trama que envolve a desconexão entre o mainstream democrata e o contexto político dos EUA de 2016; a instrumentalização política de um grupo niilista de fãs de videogames e animes por megacorporações de finanças, tecnologia e inteligência militar; a inversão do fluxo de influência entre a grande mídia e a (a)política das redes. Este texto discute, enfim, como se desenvolveu esta nova cepa de infecção fascista que se alastra pelos Estados Unidos, do Vale do Silício a Wall Street, de Minneapolis à Casa Branca. 

A elite liberal obsoleta e o feminismo conjuntural 
Para entender o processo de primárias do Partido Democrata, é preciso analisar como a grande imprensa liberal gastou sua última fatia de credibilidade para enterrar a campanha de Bernie Sanders. Veículos como o Wall Street Journal, o USA Today, LA Times, o inglês The Guardian e até a Vice, que tem um verniz contracultural, foram os principais promotores do termo pejorativo "Bernie Bros", que classificava os homens jovens que seguiam Bernie Sanders como "esquerdomachos" brancos utópicos que, decepcionados com o "realismo" econômico de Barack Obama, apoiavam propostas “absurdas” como universidade gratuita e o salário-mínimo de US$ 15 por hora. A virulência anti-alternativa, que ia da infantilização à hostilidade aberta contra quem se posicionasse do autoproclamado lado socialista da disputa, chegou a patamares absurdos e até contraditórios como quando Gloria Steinem, que foi pioneira do movimento feminista dos anos 60, disse que mulheres só seguiam Bernie Sanders pra impressionar seus companheiros esquerdomachos.

Mas até aí, era o establishment defendendo sua própria conservação com as armas publicitárias do seu tempo. Uma eleição de Hillary Clinton significaria uma manutenção dos mesmos lobbistas em Washington; asseguraria um controle estável sobre a Arábia Saudita; uma guerra militarmente fria, mas comercialmente quente com a China; a demonização da Rússia; a expansão da guerra pelo petróleo e os consequentes contratos militares e energéticos no Oriente Médio... Enfim, uma eleição da Hillary manteria o império fazendo seu business as usual, vestido numa indispensável fantasia liberal. Hillary construiria o muro na fronteira sul, mas sem fazer propaganda; expulsaria mais imigrantes do que Obama (que, aliás, expulsou mais do que qualquer outro presidente), mas pregaria abertura de fronteiras por meio de tratados comerciais; continuaria pregando transparência e perseguindo "whistleblowers" como Edward Snowden, Julian Assange e Chelsea Manning; continuaria fazendo do assassinato, política de Estado com a guerra e drones enquanto pregaria a necessidade de invadir países estrangeiros em nome da democracia; Em suma, Hillary manteria o business as usual.

Mas governar do jeito democrata exige um grau de hipocrisia discursiva que Donald Trump não tem sequer sofisticação para desenvolver. Pelo contrário, ele é o cara que diz que a economia “tem que ser gerida pelos ricos porque, obviamente, eles são bons nisso”. Se você não tem empatia nenhuma, não tem porque ocultar suas intenções numa caixinha humanitária.

O caso de Hillary era diferente. Desde as primárias, o slogan de correção política e renovação sob o qual Hillary esconderia o velho pacote de maldades de Wall Street foi o “feminismo”. Mas, como ter a Arábia Saudita e o Goldman Sachs no topo da lista de doadores de campanha é o tipo da coisa que não combina com feminismo (ou com qualquer filosofia de empoderamento coletivo), foi preciso distorcer o conceito. Do feminismo; não do financiamento, é claro.

A distorção foi tirar do feminismo seu potencial revolucionário, popular, e apostar na ideia de representatividade: a substituição automática de uma coletividade (e dos anseios coletivos) por um indivíduo, com anseios individuais. Isso havia funcionado bem nas duas campanhas de Obama. Hillary apoiava sua retórica na ideia de que ser mulher a transformava em representante universal do sexo feminino e, portanto, sua eleição significaria uma inversão profunda e automática no sistema de opressão social. 

Esse argumento contraria 60 anos de experiência do movimento negro e do movimento feminista, que escancararam o quanto a estratégia de pescar um ou outro representante das massas oprimidas é eficiente para estancar convulsões sociais. Quem mais se renova com a representatividade concedida não é a condição do oprimido, mas o próprio sistema de opressão. 

A estratégia da Hillary de se apresentar como representante universal e incontestável das mulheres tinha o objetivo de blindá-la. Colocá-la acima de críticas. Se criticar Hillary naquele contexto da disputa com o Bernie Sanders era criticar as mulheres, toda crítica a ela, fosse política ou não, seria tratada como misoginia. 

Foi neste contexto de desclassificação identitária da crítica política que a grande mídia estadunidense inventou esse termo Bernie Bros. Que não é uma ideia inédita também. Pouca gente lembra, mas nas primárias de 2008, a imprensa mainstream criou o termo Obama Boy pra definir a ala masculina dos apoiadores do Obama - e em vários casos, como aconteceu com os apoiadores de Sanders, era hipermasculinizada e misógina mesmo. Mas claro que era bem mais difícil colar com o Obama do que com o Sanders porque Obama tinha a carta racial na manga. E, apesar do discursoe aparência outsiders, era um cara do campo majoritário do Partido Democrata. 

Que fique claro que isso não é um manifesto contra a denúncia de comportamento misógino dentro da esquerda. É uma defesa de que ela seja feita seriamente, de maneira crítica e não publicitária. Em outras palavras, que seja feita com um interesse real emerradicar estruturas machistas. Caso contrário, isso não passa da instrumentalização de conceitos progressistas para fins conservadores.
Para quem usava linguagem publicitária para gerar slogans de desclassificação da crítica política à Hillary Clinton, o fim da opressão sistêmica contra as mulheres estava longe da pauta. “Mudança” era um conceito alheio à campanha porque Hillary Clinton era o status quo.Foi um projeto conservador que mobilizou os slogans feministas. E aí, se o fundo é conservador, o discurso feminista é publicitário; ele é uma marca vazia de sentido político, cujo único objetivo é viabilizar comercialmente um determinado produto - no caso, Hillary Clinton. 

Uma vez que a representação identitária, esvaziada de sentido revolucionário ocupasse o lugar da política e do embate de ideias, a candidatura do Sandersestaria enterrada. O que restariaseria uma disputa de imagens: um homem velho, com cara de velho e voz de velho, contra uma mulher que, apesar de velha – tanto no discurso quanto na política –, perto dele, parecia jovial,uma vez que havia feito da aparência de jovialidade, estratégia de campanha. Quer dizer, ao deixar a publicidade dar o tom da campanha, o establishment liberal (mídia + campo majoritário do Partido Democrata) optou pelo esvaziamento da política. Sendo que só a honestidade do embate político poderia salvar uma candidatura democrata num contexto tão polarizado. 

Um elefante na rede 
Só que, enquanto o “campo progressista” (haja aspas!) gastava todas as fichas nessa disputa publicitária; enquanto a esquerda repaginava sua marca para ver quem era mais politicamente correto, a extrema-direita vinha captando a raiva de uma juventude que chegou à adolescência na era Obama e via a esquerda – e sua correção política – como status quo. Era uma juventude branca, silenciosa e anônima que, acima de tudo, entendia o "multiculturalismo politicamente correto",tônica da falácia “pós-racial” da era Obama,como a ferramenta de repressão de seus desejos individualistas de violência física e simbólica. 

Enquanto a esquerda disputava a primazia do politicamente correto, nas redes, o "Politicamente correto" virava alvo de chacota. Anos de desenvolvimento de uma cultura de escracho, humilhação, de humor irônico que vira e mexe degringolava para a crueldade e a violência...Tudo isso passou ao largo da esquerda. Passou ao largo da esquerda o 4Chan: um fórum niilista em que uma maioria de adolescentes geeks brancos, orgulhosamente misóginos, homofóbicos e racistas usava perfis anônimos para postar memes, fotos, vídeos e comentários que iam do humor politicamente incorreto à extrema violência pornográfica. 

Enquanto permanecia enclausurado nas redes, o 4Chan não parecia muito mais do que uma fábrica de memes de mau-gosto. Mas essa comunidade começou a impactar o mundo real de maneira assustadora. Eles promoveram uma campanha nacional pelo suicídio de uma menina de 13 anos que tinha postado um vídeo falando em gíria gangsta. Várias blogueiras - principalmente de videogames - viraram alvo de trollagem pesada, que ia de montagens em fotos pornográficas a ameaças de estupro e morte. 

Até o momento em que crimes de ódio começaram a ser anunciados ou relatados orgulhosamente nos fóruns do 4Chan. Em 2014, pouco antes de ser preso, David Kalac postou no 4Chan fotos do corpo nu da namorada, que ele disse ter assassinado "porque estava de saco cheio". Antes de entrar armado na faculdade e matar nove colegas em outubro de 2015, Chris Mercer aparentemente alertou seus colegas de 4Chan a não irem para a Universidade de Roseburg no dia seguinte. Um mês depois desse caso, cinco ativistas do Black LivesMatter foram baleados em Minneapolis - um crime que também havia sido anunciado no 4Chan

A cada ataque a uma escola, cada foto de mulher agredida, cada tiro em um negro ou latino, alguém perguntava no fórum se a revolução "beta" havia começado. Bom, a revolução beta começou de fato quando um trollador do Twitter, abertamente misógino e racista, bully orgulhoso, anti-politicamente correto, revisionista histórico, apologista da ignorância, darwinista social – enfim, um cara que reunia todas as características dos anti-herois do 4Chan – venceu as primárias republicanas e iniciou sua campanha rumo à Casa Branca. Não foi aà toa que, em outubro de 2015, Donald Trump postou uma caricatura dele mesmo caracterizado como Pepe The Frog, o mascote do 4Chan. 

A politização do niilismo na era do autoritarismo 2.0 
Mas o 4Chan, embora seja a base de sustentação da distopia, não agiu sozinho. Outros sites e colunistas captaram e politizaram essa energia. O principal deles é o Breitbart News, fundado em 2007 por Andrew Breitbart e presidido por ninguém menos que Steve Bannon, que dirigiu a campanha do Donald Trump e foi estrategista-chefe da administração até o mês passado, quando foi demitido e voltou pro Breitbart.

Bannon é uma figura bem peculiar, como mostra o incontornável episódio sobre ele da série documental The Empire Files, da Telesur. Veterano da marinha, fascinado por guerra, com histórico de abuso de mulheres, entusiasta do TeaParty, ex-articulador político no mundo virtual do game World ofWarcraft, ex-analista do Goldman Sachs... e cineasta. Quer dizer, se é que dá pra chamar de cineasta alguém que só faz filme apocalíptico de propaganda de extrema-direita.

Em um dos filmes dele, OccupyUnmasked, ele denuncia os militantes do Occupy Wall Street como uma seita de criminosos “anarco-comunistas” que vieram para destruir a civilização; o mais recente (Torchbearer, 2016), que é apresentado por um texano maluco em uniforme militar, explica como o Estado Islâmico nasceu do abandono da teoria criacionista pelos cristãos. Por causa desse currículo, ele chegou a se comparar a LeniRiefenstahl, a cineasta particular de Adolf Hitler.

Mas, além de usar seus contatos no meio financeiro para capitalizar o Breitbart e transformar esse hub de fakenews numa máquina midiática com mais de 18 milhões de acessos por mês, talvez o papel mais sinistro do Steve Bannon tenha sido como vice-presidente da Cambridge Analytica. A Cambridge Analytica é uma empresa de big data que tem como principal acionista um outro nome fundamental dessa trama: o bilionário Robert Mercer. Mercer é um cientista da computação, pioneiro da inteligência artificial e um gênio das finanças, dono de um fundo de investimentos que cresce quase 72% ao ano, de acordo com o jornal inglês The Guardian.

Coletar dados para mudar comportamentos 
Já a Cambridge Analytica talvez seja a maior ferramenta de subversão da democracia já inventada. No início dos anos 2010, quando ainda se chamava SCL Elections, o negócio da companhia era encontrar vácuos legislativos e aplicar estratégias militares de guerra psicológica (PsyOps) pra eleger seus clientes a cargos executivos em países periféricos como Gana e Quênia. Esse modelo de negócios evoluiu quando a filha do CEO da Alphabet (holding do Google), Eric Schmidt, promoveu o encontro da chefia da empresa com uma companhia do Vale do Silício chamada Palantir, especialista em coleta de dados online. A Palantir, cujo proprietário é Peter Thiel, co-fundador do PayPal e primeiro executivo do Vale do Silício a declarar apoio a Donald Trump, é uma das fornecedoras de informações pessoais nossas para a Agência estadunidense de Segurança Nacional (NSA), por exemplo.

Bom, depois deste contato, a Cambridge Analytica mudou não só de nome, mas de foco. Para fugir da legislação eleitoral dos países em que ela pretendia atuar, ela passou a usar uma companhia domiciliada no Canadá, a AggregateIQ, que tinha a missão de construir perfis psicológicos de eleitores a partir da combinação de dados retirados das redes sociais. Usando a experiência nas estratégias de guerra psicológica, a Cambridge rastreava eleitores ou grupos de eleitores suscetíveis a mudar de opinião.

A Cambridge – cujo slogan é “usar dados para mudar o comportamento do público” - descobriu que era possível determinar, a partir das curtidas de Facebook, se uma pessoa tinha tendência à paranoia, por exemplo. Se esse indivíduo fosse um potencial paranoico, bombardeá-lo com notícias de assaltos perto de seu endereço poderia estimulá-lo a defender uma pauta como a flexibilização da legislação armamentista, por exemplo. Assim, essa pessoa se encaixaria em uma agenda específica da direita - o que permitiria que a Cambridge construísse uma campanha personalizada para ela. E não se trata de uma campanha com informações e anúncios: é uma campanha que aprende a maneira da pessoa pensar e introjeta uma ideia externa como se fosse inata. 

O chefe de pesquisa de uma concorrente da Cambridge disse em entrevista ao New York Times que esse novo mercado de lobby político ultrapassa o compartilhamento de informações. Trata-se do "compartilhamento do pensamento e do sentimento por trás da informação".
O primeiro campo de teste desta nova forma de atuar da Cambridge foi o referendo de saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado Brexit. De acordo com The Guardian, a principal frente pelo Brexit, Vote Leave, investiu 3,9 milhões de libras - mais da metade de seu teto de gastos de 7 milhões - na AggregateIQ, a subsidiária canadense da Cambridge. Os três outros blocos pró-Brexit pagaram mais 757 mil libras para a mesma companhia. Ao que parece, as frentes coordenaram seus investimentos sem declarar orçamento conjunto, o que é proibido pela lei eleitoral britânica. 

Por isso a comissão eleitoral chegou a investigar o caso, como a imprensa britânica noticiou amplamente. Mas a companhia canadense informou que mantinha um acordo de confidencialidade com os clientes. Como estava fora da jurisdição britânica, ficou por isso mesmo.

O fato é que o big data - e, principalmente, o que eles chamam de personal messaging, que é a campanha personalizada para cada perfil psicológico - se mostrou muito mais eficiente do que a legislação britânica. Ainda assim, como a atuação dessas empresas é guardada a sete chaves, é muito difícil determinar qual foi o real impacto dessa estratégia na vitória do Brexit.

Mas o fato é que Steve Bannon que, em 2014, havia aberto um escritório londrino do Breitbart para reforçar a extrema-direita no Reino Unido, ficou muito satisfeito com o resultado. E apresentou a fórmula para o senador texano Ted Cruz nas primárias republicanas. Mas o sistema falhou em Oklahoma, quando metade dos eleitores que a Cambridge havia indicado como favoráveis aCruz votaram em outros candidatos.

Essa parceria foi encerrada e a Cambridge se aproximou de Trump para a disputa contra Clinton. Como o Trump tinha uma retórica bem definida, um público-alvo muito específico e um discurso populista, pseudo-transgressor, muito mais forte do que o da oposição, a estratégia adotada não foi estimular o voto no candidato republicano, mas convencer o eleitor democrata a não sair de casa. Se deu certo ou não, é difícil saber porque, apesar de o comparecimento nas eleições de 2016 ter sido o menor em 20 anos, a abstenção se mostrou uma tendência global. Mas a Cambridge tem se vendido para os clientes como player "fundamental" para a construção do "maior fenômeno político dos Estados Unidos".

Refluxo: a esquerda precisa enterrar cadáver da grande mídia 
Se foi de baixo para cima, com os 4channers, os adolescentes dos fóruns de videogame; ou de cima pra baixo, com bilionários usando inteligência militar para sequestrar a democracia, o fato é que a mídia liberal tradicional perdeu completamente o controle sobre a formação de opinião. No livro “Kill all Normies” (de onde veio a maior parte das informações sobre o 4Chan contidas neste artigo), a socióloga especialista em extrema-direita Angela Nagle lembra que, há apenas dez anos, na primeira eleição de Barack Obama, a imagem mais compartilhada nas redes foi aquele cartaz oficial escrito Hope, que tinha um estêncil do Obama em azul e vermelho. O que aconteceu ali foi a viralização de um conteúdo oficial.

Desta vez, foram os memes criados anonimamente nos confins da internet que deram o tom da campanha. As fake-news, cujo principal propagador era o site administrado pelo chefe de campanha do candidato mais reacionário, tomaram a arena dos debates. E, de repente, Hillary Clinton estava defendendo em rede nacional que seu marido não é um estuprador em série. Barack Obama via-se obrigado a explicar que não foi o fundador do Estado Islâmico - e tudo isso para o deleite da turma da piada politicamente incorreta no 4Chan.

Ainda é cedo para comensurar o impacto deste processo na cultura política. Mas uma coisa é certa: o fluxo de propagação da comunicação se descentralizou. O que antes vinha do mainstream para o underground passou a ir do underground para o mainstream. Esse tipo de subcultura horizontal anônima sempre existiu na internet e chegou a animar alguns teóricos ditos progressistas, como Manuel Castells, que anunciou a chegada de uma sociedade em que velhos modelos hierárquicos de produção cultural seriam substituídos pela sabedoria coletiva.

Quando estouraram as revoltas de massa descentralizadas (Occupy, Indignados, Primavera Árabe etc.) e o hackeamento politizado, do Anonymous ao Wikileaks parecia que esta utopia estava em vias de se concretizar. O problema é que o modelo organizacional e a ética do movimento são inter-relacionados, mas não são a mesma coisa. Se no Egito, a revolta foi parar na Irmandade Muçulmana e depois no golpe militar de Abdel Fattah al-Sissi; o movimento da praça Maidan, na Ucrânia, deu em uma alvorada neonazista. Sob o guarda-chuva da descentralidade das redes, da pseudo-isonomia das opiniões, do controle das massas pelas massas, emergiu uma cultura autoritária, de imposição de valores anti-humanos, racistas, homofóbicos, misóginos.

Além do conservadorismo da esquerda (fazendo a concessão de chamar democrata de “esquerda”) – que não soube apresentar-se como esquerda, mas como um fantoche neoliberal travestindo bandeiras progressistas em slogans politicamente corretos –, a cooptação pela direita dessa inversão no fluxo de propagação ideológica foi fundamental para que o candidato mais autoritário e elitista conseguisse se vender como representante das massas. Claro que, quando o engomadinho de Wall Street fala nos confins do Texas "Eu sou um de vocês", não há identificação imediata. A identificação passa pelo bullying nos fóruns da internet; pela absoluta falta de empatia (vista como uma qualidade transgressora na era do “multiculturalismo” excludente do obamismo); é uma identificação é com o niilismo dessa cultura ultra-autoritária que se livra não só das amarras narrativas dos "formadores de opinião" da mídia mainstream, mas também das restrições éticas e morais à propagação de informação e opinião.

O que podemos começar a aprender com esse conto de terror?
O empoderamento dos trolladores do 4Chan é a ideia de que em meio a uma coletividade anônima, cada indivíduo tem sua própria lei, isento de qualquer contrapartida social.E é isso que Trump promete: nenhum compromisso social. Em outras palavras, a radicalização da liberdade individual. No espaço anônimo da internet, esse conceito central da ética liberal despe sua última camada humanista, que era a ilusão de que ela poderia servir regular “natural” das interações entre as pessoas. Aquela velha máxima liberal atribuída ao filósofo individualista Herbert Spencer de que “minha liberdade acaba onde começa a do outro” não tem mais lugar. Agora, “minha liberdade termina com a eliminação do outro”.

Talvez essa concepção de coletividade como uma ferramenta de empoderamento de desejos individualistas seja uma das bases éticas do fascismo neoliberal. As coletividades, neste ambiente inóspito são conjunturais. Por isso, nosso combate tem necessariamente que refundar radicalmente a concepção de coletividade, em bases duradouras e inegociáveis. A formação da coletividade não pode depender da ocasião. Ela tem de ser um pilar indestrutível da nossa luta.

E talvez isso passe por encarar o outro como parte de nós mesmos; encarar a representação não como um fim em si, mas como uma ferramenta de mudança radical. Se sobra uma lição do fracasso do Partido Democrata, é que o empoderamento individual e a correção política liberal não vão servir para esse fim.

Não só porque são conceitos desprezados pela juventude que vê a esquerda como status quo e direciona sua rebeldia adolescente contra nossas bandeiras. Mas principalmente porque estes conceitos não têm densidade radical. 

A correção política não é uma ideia de eliminação da desigualdade (étnica, de classe, de gênero etc.); ela é a ferramenta de manutenção da aparência de normalidade dentro da macro-estrutura de opressão. Ser "politicamente correto" significa partir do pressuposto de que, em nome da harmonia da sociedade, você precisa conviver com pessoas que não te agradam. Em outras palavras, ter "tolerância". Você tolera um cheiro ruim, tolera um vizinho que faz barulho, tolera coisas desagradáveis que não deveriam existir. 

É um absurdo que a gente fale de "tolerância" a minorias, por exemplo. A gente não tem que "tolerar" transexuais como se fossem uma espécie de mal inevitável da sociedade. Não, temos que integrar os direitos de transexuais à raiz de sua luta. Nossa política econômica, política de saúde, nosso ministério da Pesca, que seja, têm de considerar e integrar meios de promoção dos direitos trans. Dos direitos das mulheres, dos negros... Vale para qualquer categoria oprimida. 

Se acharmos que política econômica é uma coisa e política social é outra, isolaremos os meios de promoção da igualdade – o que significa que ela nunca será integral e integrada a todas as nossas ações. Para usar um termo da moda, temos que ser interseccionais - o que pressupõe que todas as lutas devem correr paralela e concomitantemente, sem hierarquia. Todas as ações devem considerar todas as lutas. É a partir daí que vamos constituir a coletividade inegociável que fará frente à atomização social que serve de combustível para o fascismo neoliberal. 

O jeito de enfrentar o fascismo é não ser hipócrita – e nos colocar como esquerda revolucionária que somos. E a honestidade revolucionária implica não adotar a lógica publicitária. Como ferramenta psicológica de ativar o sentimento de pertencimento social ao incutir necessidades inexistentes de consumo na cabeça população, a publicidade é intrinsecamente hipócrita e autoritária. Logo, este não vai ser o caminho: muito mais importante do que a aparência de mudança - a mulher no cargo X, o negro na propaganda da marca Y - é nosso compromisso real com essa mudança. Não bastauma mulher à frente de uma comissão parlamentar, precisamos de cota de 80% para mulheres no Legislativo. 

Mesmo que a gente não consiga fazer, entre nós, é hora de exigir tudo. Porque o risco de absorver e naturalizar o discurso publicitário, o risco do uso seletivo do individualismo, do apego a microprivilégios de classe, da instrumentalização oportunista das bandeiras emancipatórias. O risco, enfim, de nossa inconsistência ideológica é a consolidação de uma nova categoria de fascismo, em que o 1% instrumentaliza o niilismo da juventude, que deriva da obsolescência do establishment liberal e do esgotamento, pela hipocrisia,das nossas bandeiras históricas. 

Claro que em se tratando de política (ou mesmo de sociedade humana, num sentido mais amplo) nenhum processo se transmuta automaticamente de uma realidade para outra. Mas a história das eleições estadunidenses de 2016 é um caso de estudo obrigatório para que nós, aqui no Brasil, nos armemos – em termos ideológicos, comunicacionais, políticos, tecnológicos e eleitorais – para enfrentar um mundo de demandas individualistas descentralizadas, que percebe rastros de hipocrisia nas nossas bandeiras e vê como ironicamente autêntica a hipocrisia da extrema-direita. Vencer o fascismo neoliberal passa por entender as condições que o fizeram florescer; ou seja, as condições que deram à luz Donald Trump.

Texto originalmente publicado pela Fundação Perseu Abramo, em 18/09/2017
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12 julho, 2017

A caricatura da elite brasileira que a condenação de Lula revela

Lula discursa na Organização das Nações Unidas, em 2008. Foto: Wikipedia

Se você é povo (em outras palavras, se não tem dinheiro em paraíso fiscal) e tá comemorando a condenação do Lula, você tá de chapéu. Não é uma pessoa física que Moro quer tornar inelegível e botar atrás das grades por quase dez anos. É um símbolo.

Quem precisa de provas para condenar um símbolo? A destruição violenta de ícones populares é prática inscrita no DNA das elites ao redor do mundo. Afinal, elas precisam de todo um conjunto simbólico - ora fornecido pela Igreja, ora pela publicidade, ora pelo Partido da Imprensa Golpista, ora por todos os anteriores - para sustentar sua hegemonia insustentável. Só uma ideia simbólica mística (como Deus, por exemplo) pode explicar porque a Paris Hilton merece nascer proprietária de um fundo de investimento de bilhões de dólares enquanto uma criança africana não merece herdar mais do que HIV.

É contra a ideia de que o pobre pode aspirar a algo além do servilismo, a cadeia e a cova rasa que conspira o Judiciário. A condenação do Lula, como a condenação de Rafael Braga, é um ato simbólico. Como foi simbólica a morte de Zumbi dos Palmares, cuja cabeça decepada com o pênis enfiado na boca apodreceu em praça pública no Recife. Ou as decapitações do bando de Lampião. Ou a condenação do líder da revolta da chibata, João Cândido, a ser enterrado vivo em cal, ao lado de outros insurgentes. São tentativas oligárquicas de construir na cabeça do povo o trauma da insurgência.

Lula não é uma pessoa, é um símbolo de auto-estima do povo brasileiro, um símbolo de altivez, um símbolo de um Brasil que se coloca de igual para igual com as grandes potências globais. Esse é o problema.

Lembrei de uma vez que fui cobrir, pela rádio pública francesa RFI, uma visita de Estado de Dilma Rousseff a Paris em 2013.

Lula veio também para falar diante do Legislativo francês e de personalidades importantes da política local, como o ex-primeiro ministro Lionel Jospin e o então presidente socialista François Hollande, que dividia o antebraço da poltrona com seu antecessor conservador, Nicolas Sarkozy. Lula ia discursar por meia hora, já que a voz ainda estava combalida pelo câncer na garganta. Mas, graças a incontáveis copos d'água, ele conseguiu falar por três horas. Como sempre, arrancou gargalhadas - inclusive da mesquinha imprensa brasileira, que cobria o evento como se fosse um fato cotidiano regional - e aplausos efusivos do público em geral.

Todo mundo escreveu suas matérias, sem dar uma linha sobre o discurso, priorizando o pseudo-escândalo do momento, que nem eu lembro mais qual era. Eu, que tinha certa liberdade editorial, falei de outra coisa, falei de como a má relação de Lula com imprensa dentro do Brasil se reproduzia também fora, em espaços onde ele teria a possibilidade de aventar outros temas que não a picuinha nossa de cada dia.

Sei que, no dia seguinte, Lula daria mais uma palestra na Fundação Jean Jaurès. No intervalo pro almoço, conversamos brevemente com o então ministro da Fazenda Guido Mantega sobre algum assunto da economia que também não lembro mais qual era. Aumento da taxa selic, talvez. Sei lá, não lembro mesmo.

Os correspondentes foram todos almoçar juntos, eu fui pra outro lado. Não sou muito fã da conversa corporativista dos jornalistas fora do país. E sempre fico deslocado como único preto e único radical de esquerda. Almocei com um repórter da imprensa francesa. Ele tinha lido as matérias dos colegas brasileiros e estava intrigado. Não conseguia entender por que nossos jornalistas "sabotavam o Brasil", como ele disse.

Não entendia por que davam importância desproporcional a um "escândalo" exageradamente local, inconsistente e sem provas, no dia seguinte a uma palestra em que o homem havia tocado os pontos mais importantes da agenda internacional, de solidariedade petrolífera e erradicação da fome à ausência de órgãos efetivos de regulação internacional da especulação financeira. Isso pra uma plateia de tarimbados dirigentes europeus, quietos e boquiabertos, diante de um peão de fábrica com mais diplomas honoris causa do que todos eles juntos.

O francês me falou uma frase que não esqueço: "O Lula é um patrimônio do Brasil". Para ele, Lula era, internacionalmente, o farol de uma América Latina autônoma e autoconfiante que deixava de obedecer e passava a ensinar um mundo velho e viciado a se reinventar. Lula era o símbolo de um Brasil viável no cenário internacional. "O Brasil não quer ser um ator internacional? Então, destruir o Lula é um boicote ao Brasil!"

Talvez daqui seja difícil ver isso. Mas na Europa, as pessoas tinham a sensação de que o Brasil havia nascido com o Lula. Ninguém sabia o que acontecia por aqui antes do Lula. O Brasil não interessava nem importava pra ninguém, o príncipe que me desculpe. Antes do Lula, a maioria de quem cruzava o oceano Atlântico era playboy que preferia fingir que era europeu do que mostrar nossa cara pra eles. Era gente com vergonha do Brasil. Vergonha da nossa pele escura, do nosso suingue, do nosso sangue mestiço, vergonha até do sol quente que bate aqui.

Ao colocar o Brasil no mapa, Lula não foi sozinho, levou nosso Brasil mestiço na bagagem. E essa é uma diferença que se sente com muita clareza. A elite, com sua força policial capitã do mato e seu poder econômico desaculturado, obriga o pobre a andar cabisbaixo por aí. Mas fora do país, é incrível como a elite tradicional é que andou cabisbaixa nos últimos anos. De peito estufado pelas ruas de Paris estava o povo do Prouni, do Ciências sem Fronteiras, a rapaziada da era PT, que quer que se foda se o gringo vai achar ruim que a gente é preto. É o que a gente é mesmo. E adivinha? Foi aí que o gringo passou a respeitar a gente.

Porque nossa elite não tem o verniz da intelectualidade, que ostenta parte da elite europeia. É uma elite pré-iluminista. E, como tal, não tem mais do que seus próprios preconceitos e autoritarismos em que se aferrar. Quem condena o Lula sem provas, no fundo, é o dono da bola que resolveu acabar com o jogo porque estava perdendo de goleada. É o rico brasileiro que, sem o lastro do dinheiro, da mídia, do Judiciário, do poder político, não tem nada que o diferencie do povo. Só lhe resta lutar para manter essa máscara de branco, cravejada de diamantes para disfarçar sua real matéria-prima: racismo. Para manter a aparência de elite, a elite brasileira rifa o Brasil - devolve, com a reforma trabalhista, a economia nacional a patamares coloniais; encerra, com a submissão à agenda de potências decadentes, nossa perspectiva de autonomia internacional; mata a possibilidade da diversificação dos nossos saberes ao encerrar os programas que permitiam ao grosso da população conhecer o mundo.

Essa condenação de hoje é uma tentativa da elite de não parecer brasileira. Pois nada mais brasileiro do que tentar destruir líderes populares de envergadura histórica em nome de um projeto datado, mesquinho, fadado ao esquecimento. Daqui a 500 anos, Lula será lembrado como o presidente que erradicou a fome do Brasil. A Lava-Jato, se muito, será lembrada como uma operação policialesca com um erro de português no nome.

#LulaInocente
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