Mais impunidade, por favor

Sem comentários pro pelourinho do Aterro do Flamengo. É uma aberração. É ilegal, imoral, antiético e traz uma memória amarga de um tempo em que pretos - culpados ou não - eram atados em praças públicas e dilacerados diante dos olhos de "cidadãos de bem".

O Brasil tem de rever com urgência esse seu fervor punitivo. Precisamos de mais impunidade e não menos. Precisamos de menos cadeias e não mais. Reduzir a maioridade penal é uma proposta tão sem nexo do ponto de vista da segurança pública, que eu prefiro ignorar também.

O que acontece é que transformamos nosso sistema judiciário em uma caça às bruxas, que já não tem nada a ver com reparação ou justiça social. E isso vai do Mensalão a esse rapaz que, como disse Jean Wyllys em sua coluna na Carta Capital, foi despido de sua roupa e dignidade por um grupo de linchadores. Queremos punição, queremos sangue, queremos vingança.

Não queremos que Daniel Dantas devolva os bilhões que faturou dos cofres públicos. Queremos que ele sofra. O mesmo pros condenados do Mensalão, um julgamento cujo resultado foi muito mais guiado por esse mesmo fervor punitivo - que por óbvios cálculos políticos foi incensado pela grande mídia - do que pela consistência das provas contra os réus.

Usamos nosso sistema punitivo como purgante para nossas frustrações. Adoramos a violência em Pedrinhas. Procuramos no Google Imagens os corpos decapitados daqueles coitados. Dá esse gosto de vingança contra a delinquência.

Neste contexto, que tiro no pé deu o Governo Federal ao cancelar, sob a alegação sem-vergonha de problemas de agenda, a cúpula da ONU para revisão das regras mínimas para o tratamento de detentos, que deveria ter ocorrido há duas semanas, em Brasília. Era a oportunidade de trazer para  nosso território especialistas em segurança pública de renome internacional.

Podíamos, naquela oportunidade, ter aberto o debate para compreender porque nossas cadeias só fazem aumentar a criminalidade. Podíamos ter procurado enteder porque nas nossas grandes cidades, serviços públicos de suma importância como o transporte têm facções criminosas como acionistas majoritários.

Tudo isso remete a essa nossa mentalidade punitiva estúpida. Achamos o linchamento uma coisa linda, nos divertimos, comentamos no bar, torcemos pra que o próximo seja avisado pelo Facebook. O problema é que ele mata só nossa sede de sangue e não repara nenhum mal. Nem aquele que foi cometido pelo linchado.

Cornos e medíocres
Mas ao invés de ouvir as análises dos experts de 60 países que comporiam a reunião da ONU, deixamos falar Raquel Sherazade. O discurso dela é medíocre sob qualquer ponto de vista. Primeiro, no tom. Uma imitação vagabunda do Arnaldo Jabor, um cara que não merece ser imitado.

Depois, no público alvo. Ela visa o mediano revoltado e escolhe todos os lugares-comuns possíveis para atingi-lo. É o "cidadão de bem", esse que em qualquer classe social que esteja, sente-se classe média. A classe média é assustada, fanática por segurança pública e se sente ameaçada por todos os lados. Ela adora ver a mediocridade tomar o poder e oprimir quem ela acha que a oprime: sejam governos que aumentam impostos para distribuir renda, seja um moleque preto que lembra qualquer outro moleque preto que a tenha feito passar segundos de pânico num semáforo qualquer.

Por fim, a essência do discurso é medíocre, porque não tem nenhum posicionamento político. Não chega nem a ser de direita. A direita clássica - tomemos o Geraldo Alckmin por exemplo - manda a polícia descer a porrada sem dó nem piedade. Mas quando aparece um vídeo mostrando a polícia cumprindo ordens, o comando diz que "os excessos serão apurados". E taca soldadinho de chumbo no xadrez. É um discurso hipócrita, mas que atende a um projeto político de militarização do Estado e criminalização da pobreza.

A Sherazade não chega a essa complexidade, ainda que seja muito eficiente em fazer cara de revoltada. A revolta dela aponta exclusivamente para a manutenção do status quo. "Cidadão de bem" espancando negro no pelourinho é o DNA da nossa sociedade escravocrata. Não tem nada de novo nisso. Mas Raquel Sherazade - e o SBT, que a confia um cargo de editorialista - dá a entender que as coisas chegaram a um nível tal de desordem que a classe média é obrigada a "fazer justiça com as próprias mãos".

E não tem nada mais medíocre do que esta frase. Porque não é preciso ser um jurista para entender que "justiça" e "vingança" são conceitos diametralmente opostos. Vingança é a justiça do corno. Sabe aquele cara que não come a própria mulher há dez anos e chega um belo dia em casa e encontra ela com o Ricardão? Ele mata os dois na facada, vai pro bar, toma uma pinga e conta o quanto foi macho: "passei os dois na faca". Os amigos dele, tão sherazade quanto ele, respondem: "muito justo!"

É isso que queremos virar? Uma nação de cornos, vingando nos ricardões dos outros os males que nossos ricardões nos causaram?

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O que é do preto, o branco não toma

Já percebeu que o branco acha que nossas conquistas são concessão dele? Foi assim até com a abolição. Houve meia dúzia de branco abolicionista, uma princesinha acuada que assinou um papel e pronto: esquece-se levante dos malês, esquece-se Palmares, esquece-se toda a rebeldia negra na Bahia do Século XVII - que incendiava igrejas e prédios públicos, assentava quilombos urbanos e decapitava, à luz do dia, padres, capatazes e policiais. E celebra-se a liberdade em 13 de maio, dia da concessão da princesa. Falar em 20 de novembro feriado ainda soa ofensivo em vários ciclos, alguns até relativamente esclarecidos. Por quê? Porque é uma data que coloca nossa liberdade - ainda em processo de conquista - na esteira histórica da resistência. Sai a princesa boazinha, entra o negrão inflamado, que invadiu Recife e tentou estabelecer um estado negro separatista dentro do Brasil.

Aposto que tem muita universidade por aí que encara as cotas desse jeito também, como uma bondade feita aos pobres pretos sem acesso a educação. Ignoram que a história remete à resistência dos anos 60. É o black power, que é mais do que cabelo armado, embora cabelo armado tenha muito o que dizer. É preto armado, de punho fechado e - no caso Pantera Negra - doze na mão. Poder para o povo preto é o poder de ter a estética que quiser, a comunidade que quiser, de reger a própria vida e sair das barbas da concessão do branco.

A síntese maior do black power é o programa de dez pontos dos Panteras Negras, que trazia, entre outros itens, propostas como "liberdade incondicional a todos os negros seguros em prisões municipais, estaduais ou federais, porque nenhum deles recebeu julgamento de um júri de iguais", premissa inalienável da Constituição Americana. Ou senão, "queremos que todo negro seja isento do serviço militar" - enquanto não tivermos total cidadania dentro de nossas próprias fronteiras, não temos porque defender essa pátria além mares. Se foi o branco que arrumou a guerra, problema dele: nós não vamos pra lá ser bucha de canhão. Ou ainda mais importante, no caso das cotas, "queremos uma educação para nosso povo que exprima a real natureza dessa sociedade americana decadente. Queremos uma educação que nos ensine nossa verdadeira história e nosso verdadeiro papel na sociedade atual". Esse ponto é o embrião da política de cotas. Afinal, o negro não podia confiar a seu grande algoz a tarefa de trazer à tona "a real natureza da sociedade", logo ele que escravizou, destruiu culturas, ciências, formações políticas e conhecimentos gerais e se miscigenou pelo estupro. Era preciso forçar um mecanismo que obrigasse a formação de professores e profissionais negros, capazes de rever a história e criar novas metodologias e linhas de pesquisa, que trouxessem à tona o papel que foi suprimido por anos de opressão e lavagem cerebral. Era preciso criar cotas.

Os brancos não cederam as cotas aos negros. Assim como no caso da escravidão, a ebulição social chegou a tal ponto que era ceder ou sofrer uma explosão política, social e econômica. Afinal, o negro sempre teve participação econômica importante - a gente é maioria, rapaziada! - e tê-lo fora do mercado de consumo seria crise. Foi o que pensou a Coroa Inglesa quando resolveu abolir o tráfico negreiro: eles precisavam de mercados para seus excedentes industriais e o sistema escravocrata atrapalhava a lógica do novo capitalismo, a lógica da inserção. Só que inserção econômica é uma coisa, inserção política e social significam muito mais do que o dinheiro negro entrando pela cozinha: é negro na sala de estar. Eis porque as cotas são tão duramente combatidas.

O problema de aceitarmos o ponto de vista de que nossos espaços políticos são concessões do branco é que isso dá ao branco a premissa de nos tirar espaço a seu bel-prazer. Mais ou menos como Hugo Chávez fez com a RCTV em maio de 2007. Só que ali, queira ou não, era de fato uma concessão do estado, reconhecida juridicamente como tal. E era direito do presidente renovar a concessão ou não, ao término do contrato. Nossas conquistas estão aí para ficar, até que nós mesmos resolvamos revogá-las. Os Estados Unidos vêm abolindo as cotas gradualmente porque, depois de duas gerações sob a imposição da ação afirmativa, os patamares de competição começam a se igualar. Aí, vale o mérito; aí, consolida-se a democracia. Que mérito tem o corredor que vence uma corrida depois de sair cinquenta metros na frente de um adversário que, além de correr descalço, não tem uma perna? É mais ou menos a condição de disputa entre o negro e o branco depois de quinhentos anos de escravidão.

Acho que hoje vivemos o movimento de uma nova vanguarda. A primeira chegou de cabelo black e punho cerrado e colocou o preto no mapa. A segunda subverteu a lógica capitalista e colocou o preto na frente de tudo que é tendência, tudo que é moda, tudo que é da hora, tudo que é classe A, cabuloso, cavernoso, enfim... A segunda vanguarda foi a vanguarda do rap, que pegou música gravada e gravou em cima e transformou um produto de consumo em um outro produto de consumo - e lucrou mais ainda em cima disso. Foi a vanguarda que trouxe o discurso contundente do passado para a forma de letra e transformou uma atitude negra, agressiva e resistente em fonte de renda, consciência e auto-estima. Mais ou menos como o Ilê Aiyê fez em 74. Agora, nossa cara é segurar esses espaços. A terceira vanguarda tem a missão de consolidar as conquistas. O branco acha que foi ele que concedeu, acha que ele pode tirar. Não! A conquista é nossa e a gente derruba se - e quando - quiser.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Manos e Minas está só começando...


Teve uma época que o Afroências deu uma bombada. Lembram? Gente como Pedro Alexandre Sanches e Ricardo Soares dava as caras por aqui, a Radiola Urbana do grande amigo Ramiro Zwetsch eventualmente aproveitava um texto ou outro do blog. A produção do filme "Besouro" tentou formar uma parceria comigo e até a Glória Coelho chegou a pintar por aqui para negar as acusações de racismo que eu fiz a ela. O Afroências chegou a dar uma agitada, né não?

Bom, isso já faz um ano, talvez até um pouco mais. Depois, o trabalho me engoliu e eu larguei esse nosso espacinho crioulo. Força da circunstância, é verdade. Mas uma circunstância atual me recordou que não podemos atribuir às circunstâncias o arrefecimento de nossas eternas batalhas - essas nunca são circunstaciais. Eu não tenho o direito de abandonar o Afroências - não porque ele seja um grande acréscimo à luta por direitos iguais e consciência negra (não sou tão pretensioso), mas simplesmente porque devemos encampar e fortalecer cada mínima conquista. Se eu tenho a possibilidade de fazer e manter um blog, é minha obrigação e compromisso social fazê-lo.

"Certo, negão. Mas até agora, você falou, falou e não disse aonde quer chegar". Bora lá: na semana passada, a cultura negra e periférica sofreu um baque: o "Manos e Minas" foi excluído da grade da TV Cultura, sem que rolasse sequer um comunicado prévio aos profissionais que faziam o programa. Todos souberam da extinção do "Manos e Minas" por uma entrevista que o presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, concedeu ao Estadão. Na mesma conversa, Sayad anunciou o fim do "Login", programa voltado ao público adolescente que estreou neste ano.

"Todo respeito ao 'Login'", como disse um amigo. "Mas 'Manos e Minas' é outra fita". É outra fita MESMO. Manos e Minas foi um programa experimental que conseguiu, pela primeira vez, falar de igual para igual ao público negro da periferia. Diretamente: sem intermediários, sem imposições da macro-estrutura branca. Foi um programa que não tentou impor valores sobre essa periferia - que é periférica tanto física quanto representativamente -, mas colocou na tela os valores que A PRÓPRIA PERIFERIA queria expor. E com isso tudo, que pode ser resumido na palavra "respeito", conseguiu penetrar numa parcela da população que responde pela maior parte do mercado consumidor, em números absolutos.

Se faltou sensibilidade no modo de tratar as pessoas - quem é que quer ser demitido pelo jornal? -, faltou ainda mais sensibilidade econômico-administrativa. Por que o rap gringo, que começou como música de protesto, é hoje o maior case de sucesso comercial da indústria da música? Porque lá nos Estados Unidos, presta-se muita atenção a cor de gente, mas não a cor de dinheiro. O alto empresariado de lá entendeu há muito tempo que mercado consumidor é mercado consumidor, tanto faz se é gente preta ou gente branca. Tem viabilidade comercial, está valendo. O fim do Manos e Minas denota que a administração foi incapaz de entender que, pela primeira vez na história, um veículo de mídia aberta conquistou a confiança do filão que mais cresceu nos últimos anos e que mais vai crescer daqui pra frente: o pobre em ascenção. É o sonho de qualquer diretor de marketing. Se não fosse, a Nike não teria dedicado anos de esforço e dinheiro para patrocinar o Racional Mano Brown.

Aliás, Mano Brown, notoriamente avesso a inserções midiáticas, conversou com o Manos e Minas e ainda prometeu que os Racionais tocariam no programa número 100. Talvez nem todos tenham dimensão do que isso significa, mas os Racionais moldaram boa parte da identidade negra nesse país - principalmente em São Paulo, claro - e, mais do isso, mostraram a uma multidão mantida à margem da sociedade que todos têm o direito de sonhar. É o que toda e qualquer marca quer vender. Ou você acha que a Coca Cola vende refrigerante? Não, vende o mundo de Coca-Cola, que vai do tênis colorido ao Papai Noel; que a Brahma vende cerveja? Não, vende saúde e mulher gostosa - ainda que álcool em excesso deixe o cara gordo e brocha. O capitalismo na era da imagem, da publicidade, sonha vender sonhos. Como vender sonhos para quem perdeu a capacidade de sonhar, diante da aspereza do mundo? Não dá. Então, a construção de auto-estima que grupos como os Racionais capitanearam e que o Manos e Minas encampou muito bem é a base da solidificação de uma sociedade democrática capitalista. É algo que a TV Cultura falha em ver ao colocar o programa lado a lado com o "Login", por exemplo. Ao tratar levianamente as centenas de pessoas que protestaram contra o fim do programa e receberam uma resposta padrão, que dizia que o tipo de assunto que o Manos trata será aproveitado em uma outra produção. Desculpe, mas quem toma chibatada há 500 anos não abraça resposta padrão.

Quem já passou por aqui ou quem já me trombou na rua sabe que eu oscilo ideologicamente entre o socialismo e o anarquismo. Mas qualquer manual capitalista de quinta categoria atesta a viabilidade econômica e social de um "Manos e Minas". E se o argumento humano - a essencial construção da auto-estima da maior parte da população, o reconhecimento da arte dos oprimidos, a compreensão de todo e qualquer brasileiro como parte constituinte e fundamental da nossa sociedade - corre ao largo do que se convencionou chamar de "gestão" e "competência administrativa", que o status quo compreenda a dimensão da conquista econômica que significa o respeito das classes C, D e E.

Enfim, ressuscitei o Afroências nesse momento porque a morte do "Manos e Minas" precisa ser alardeada e combatida. E, se o programa de fato morrer - como parece que vai acontecer mesmo - que isso faça ressurgir todos os nossos pequenos focos de resistência. O Afroências volta à ativa hoje para entrar no coro: Salve o "Manos e Minas"! Argumento é o que não falta.

domingo, 8 de agosto de 2010

Bob Marley não morreu

Caríssimos, afroentíssimos leitores. Ó nóis aqui outra vez. Não, eu não falei do Haiti. Não, eu não falei do alagamento. Eu não falei da sucessão presidencial, não falei de nada. O Afroências começou dois mil e dez completamente mudo, coitado. Mas, aos poucos, vou destravando os dedos, a mente e o coração para continuar a dividir com vocês essa experiência maravilhosa que é falar das nossas negrices - ou não.

E pra começar, como já é tradição, vou falar de Bob Marley. Não que precise de gancho pra isso mas, já que tem, por que não usar? O homem teria feito 65 anos no último sábado e seu último disco completa 30 anos em 2010. Quer dizer, teje enganchado seu Bob Marley. Tão bom voltar à ativa! Salve, meus caros. Feliz 2010 para todo mundo e bora escurecer!

Bob Marley, em foto de Roger Steffens, 1979

Bob Marley não morreu


Ele só mudou de banda, largou a gravadora, foi para a África e toca MPB

Em 1982, Bob Marley está recuperado do câncer e promete voltar à ativa. Ele havia anunciado, pelo rádio, diretamente da clínica do Dr. Joseph Issels, na Bavária, que em 1981, estaria "de volta na estrada, gravando e se apresentando para os fãs que tanto amamos. Esse é Bob falando com vocês, não tenham dúvida, seen? One love!". Os planos foram um pouco otimistas demais, mas Bob conseguiu se recuperar - com um aninho de atraso. Não tem a magreza cadavérica que delatavam fotos de paparazzo de 1981, mas os dreadlocks dão lugar a uma careca, oculta por uma boina verde, amarela e vermelha.

Não foi só o visual que mudou. Depois de 12 anos, ele troca a base rítmica dos Wailers, que agora se apresentam sem Carlton (bateria) e Aston Barett (baixo). Em sua primeira coletiva como popstar pós-câncer, Bob está tranquilo e meditativo, embora mais alerta. Diz que não ter brigado com os companheiros de longa data. "Só estou à procura de um som mais internacional". Isso fica nítido no novo disco - lançado não mais pela Island Records, mas pelo Shout Afrik, seu selo indepentente recém-fundado -, que traz a bossa nova "Pray for me" e uma forte pegada afrobeat, inspirada por Fela Kuti, em faixas como "Jungle fever", "Vexation" e a releitura do velho clássico "Soul Shakedown Party", rebatizado "Shake up". Bob renasceu e está ansioso por desbravar novos mundos. A base não é mais Londres ou Kingston, como sempre, mas Gana. "Montei um estúdio na África para lançar hit atrás de hit", diz, animado. "Then we laugh! (Depois, a gente dá risada)".

Infelizmente, não foi isso o que aconteceu. Bob Marley morreu em 11 de maio de 1981, vítima de um câncer no cérebro. Mas se ele estivesse vivo para completar 65 anos neste sábado, 6 de feveiro, a história acima bem poderia ser verdade. Conta Marco Virgona, um dos fundadores da Bob Marley Magazine - maior fonte de informação sobre o Rei do Reggae na internet - "que muita gente diz que Bob, em 1980, queria mudar seu som, trocar alguns membros da banda e a gravadora para a qual trabalhava. Poderia ter pintado uma série de novidades em 1981". "Pray for Me", a bossa do disco hipotético, de fato existe, embora nunca tenha sido lançada oficialmente. Ela foi encontrada num baú na casa de Cedella Booker, mãe de Bob, pelo colecionador, jornalista e historiador do reggae Roger Steffens. "Ele estava definitivamente olhando além", conta Steffens em uma entrevista por e-mail, concedida ao !ObaOba numa pausa de sua rotina de apresentações multimídia sobre a vida de Bob Marley. "Ele explorou todos os tipos de música ao longo de sua carreira. Não tenho dúvida de que ele exploraria o afrobeat de Fela Kuti bem como outros ritmos africanos e internacionais". O funk "Vexation" surgiu do mesmo baú e uma versão do afrobeat "Jungle Fever" circula entre colecionadores, oriunda da mesma sessão de estúdio que, em 1979, gerou a famosa "Could you be loved", de nítidos ecos funkeiros.


Ouça aqui "Pray for Me", a bossa que Bob fez no Brasil

"Could you be loved" aliás, foi outro sintoma do que estava por vir. Ela pintou no último álbum de estúdio de Bob Marley, Uprising, que completa 30 anos em 2010, e embora persistisse na guitarrinha abafada que marca o contratempo de qualquer reggae, começava em afrobeat com um presente aos ouvidos mais atentos: uma cuíca. Sim, Bob esteve no Brasil pouco antes do lançamento do álbum e, além de jogar futebol com Chico Buarque, ensinar um cozinheiro de Copacabana a fazer sashimi e tietar Paulo César Caju, ele se deliciou pelas lojas de instrumentos. Voltou para a Jamaica de mala e cuíca. E pandeiro. E agogô. E tamborim. E berimbau. E... Uma vontade louca de mudar o som.

Uprising já estava pronto para sair do forno e seria diferente de tudo o que Bob havia feito em sua carreira. Mas essa viagem deixou o homem com uma pulga atrás da orelha. Na onda do que "poderia ter sido, mas não foi" que acompanha esse texto, Bob quase fez um showzinho voz e violão para os sortudos que estavam numa festa no Morro da Urca. Entre eles, Zezé Motta, Luiz Melodia, Marina Lima e Moraes Moreira. Só Jah sabe o que poderia ter saído dessa jam session. Não rolou porque Bob, embora fosse contratado da Island, veio ao Brasil a convite da BMG/Ariola. Daí a ideia de que ele poderia se tornar independente e tocar onde quisesse, quando quisesse. Na África, principalmente. "Definitivamente, o futuro dele era na África, para onde ele ansiava tanto por retornar", acredita Roger Steffens, que conviveu com Bob durante a turnê Survival, em 1979. "Mas ele ficou terrivelmente aborrecido com que viu em sua única visita à Etiópia, em 1978. Então, não há como dizer em que lugar da África ele teria ido parar".

Mas a África era um sonho distante e o melancólico Bob Marley de 1980 sabia disso. O guitarrista Junior Marvin que o diga. Depois de uma breve sessão de estúdio, ele desplugou a guitarra e ia saindo quando ouviu Bob Marley dizer calmamente: "Não saia. Eu não tenho muito tempo". Essa história está no livro Catch a fire, do jornalista americano Timothy White. Parêntese necessário: se você procurar por Catch a fire no Brasil, não encontrará, já que a editora teve a infeliz ideia de traduzir o título para Queimando tudo, que nada tem a ver com o termo original. A expressão "Catch a fire" poderia ser traduzida como "Estou p... da vida". Voltando a 1980: Steffens acredita que o álbum fala basicamente da morte. "Bob era um profeta e sabia que não viveria muito mais. Seu último álbum foi repleto de presságios e despedidas, da visão do trem do Sião (´Zion Train´) vindo em sua direção, a ´Bad Card´, ´We and Dem´ e ´Real Situation´" - em que, contrariando o otimismo que lhe era peculiar, Bob diz que a "total destruição é a única solução". Para preencher o muro das lamentações, Uprising traz "Work" - faixa que, curiosamente, encerrou seu último show -, em que há uma contagem regressiva: "Five days to go, working for the next day, four days to go, three days to go... (Cinco dias para acabar, trabalhando para o próximo dia, quatro dias para acabar...)".

Mas isso tudo, é claro, são apenas suposições. Afinal, Bob não está aqui para comemorar seus 65 anos e, se Uprising foi uma despedida, ele nos deu tchau há 30 anos. Sobram a mensagem, o legado e, é claro, as especulações das mentes férteis dos fãs.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Chama o síndico: Tim Maia

Não, isso não é uma sessão espírita, nem um encontro extraterreno preparado pelo Racional Superior. Muito menos uma viagem triatlética de baurets com brizola e goró. O Afroências orgulhosamente apresenta uma entrevista inédita com o mestre do soul brasileiro, Tim Maia.

"Voltou Clarear", autografado no Rio, em 28 de abril

Esse papo entre Tim, Marcio Gaspar e Lauro Lisboa Garcia rolou em São Paulo, curiosamente às nove da manhã de 28 de maio de 1995. À época, Marcio escrevia para a efêmera revista de música Qualis, tão efêmera que não sobreviveu até a publicação da entrevista; Lauro reportava para o Jornal da Tarde e publicou uma materinha sobre o assunto. Curta, infelizmente, porque Tim Maia andava meio "quatro-quatro-meia" (gíria dele mesmo, "uma fração, que não chega a ser cinco") no mercado. Tinha acabado de lançar "Voltou Clarear", um disco a la Tim Maia, meio "mela-cueca", meio "esquenta-sovaco", mas tachado imediatamente de brega. E estava numa onda esquisita - pra variar - chamada Nova Era Glacial. Dizia que o mundo, ao contrário do que imaginavam alguns cientistas, estava esfriando. Havia até feito um disco dedicado a essa ideia. Bom, disco é exagero: tinha o nome de "Nova era glacial", uma música falando do assunto e fim de papo. O resto era o bom e velho Tim, mezza romântico, mezza dançante.

Pouco se sabe sobre a entrevista. Nenhum dos dois lembra direito. Marcio conta que Tim recebeu os repórteres vestido em um agasalho esportivo azul-turquesa. Só. E, embora a fita - que recuperei com árduo esforço - esteja datada de 28 de maio, encontrei uma cópia de "Voltou Clarear", com autógrafo e dedicatória ao Marcio, escritos no Rio de Janeiro, em 28 de abril. Pelo menos é o que diz o manuscrito espalhafatoso de Tim. Marcio jura de pé junto que não esteve no Rio em abril de 1995, muito menos com Tim Maia. De repente, o síndico esqueceu que estava num apart hotel de São Paulo, um mês adiante. Ou senão foram seres intraterrenos, extraterrenos ou mesmo lunares que misturaram essa entrevista no tempo. Talvez seja efeito do esfriamento global ou culpa de algum ETA (Explorador de Talento Alheio em Tim Maiês) safado...

Mas chega de lero-lero. Curta o áudio da entrevista na íntegra abaixo. Para ouvir os trechos, basta clicar no ícone "play" dos tocadores, depois que a barrinha de tempo ficar cinza. Para ler a conversa na íntegra, corra às bancas e compre a Revista Brasileiros - sim, o Afroências entrou na era das parcerias. Aperte os cintos e boa viagem; você está entrando no mundo de Tim Maia.

Importante: o plugin de áudio funciona melhor no Firefox

Galo velho empoleira cedo












Embora gostasse de dizer o contrário - neste trecho, por exemplo - Tim Maia não era muito de acordar cedo. Ou não dormia, ou acordava a qualquer hora. E quando aparecia cedo, era problema, como conta o empresário André Midani em seu livro "Música, ídolos e poder - do vinil ao download". As duas vezes em que aparecem os hábitos matinais do síndico são catastróficas: numa, uma ameaça de morte, reação ao disco do Casseta & Planeta "Preto com um buraco no meio" ("se você não retirar essa merda do mercado, vai ter um francês com um buraco no meio da testa"); na outra, uma ligação de Nova York, cancelando um contrato de gravação com ninguém menos que os lendários J.B.s, banda de James Brown. Depois de gravadas bases do mais fino funk, Tim resolveu que não gravaria voz nenhuma se não recebesse um "levado" extra ("Se não me der esse dinheiro, você pode fazer o que quiser com essas bases. Inclusive..."). Mesmo assim, Tim Maia gostava de dizer que acordava cedo. Mais do que isso, se definia como um cara que acordava cedo. Em uma entrevista clássica à revista Playboy, em julho de 1991, disse que Tim Maia "é um sujeito que, em vez de estar dormindo com uma Miss Brasil maravilhosa até as 9 da manhã, acorda às 6h43 com uma prostituta que sai correndo e ainda leva quinzinho".

Os reis do grilo














Tim Maia, Cassiano e Hyldon foram o "segundo time", como diz o próprio Tim nesta entrevista. Isso porque o primeiro foi aquele que surgiu na Haddock Lobo esquina com Matoso - esquina que aliás, virou música no disco "Nuvens" -, quando Tim Maia (na época, só Tião), Roberto e Erasmo Carlos brincavam de tocar bossas e rocks em pseudo-inglês. Mas o primeiro tinha pouco de time. Tim vivia dizendo que os outros o sacanearam sempre que puderam. Mais pra frente nessa entrevista, diz inclusive que Roberto lhe deu botas dois números menores que seu pé naquelas primeiras apresentações de TV da Jovem Guarda. Com Hyldon e Cassiano foi bem diferente: até onde se sabe, Tim não teve nenhuma rusga com eles, embora tenha detestado a capa de "Tim Maia, Cassiano e Hyldon - Velhos camaradas", reproduzida aí ao lado.

Persona non grata














Nem é preciso dizer que Tim Maia era um cara inconstante. Reza a lenda que foi banido da TV Globo depois de marcar uma participação no Domingão do Faustão e sumir sem dar satisfação - perdoem a rima pobre. Mas os problemas vinham desde os tempos da Cultura Racional, quando ele se apresentava todo de branco, cercado de gente também de branco, propagandeando uma seita preparatória para a chegada dos ETs. Um pouco demais para a Globo. Marcio Gaspar, um dos autores dessa entrevista, foi encarregado pela Warner Music de tentar uma reaproximação entre Tim Maia e a Globo. Marcou uma visita de Tim ao Projac. Viajou para o Rio de Janeiro. Chegou ao aeroporto Santos Dummont, ligou pro síndico: "Tim, tô aí em 20 minutos". "Pode vir", ecoou o trovão do outro lado. Em 20 minutos, caminhava pela lendária rua Vitória Régia. Tocou a campainha, atendeu um carinha qualquer. "Tim Maia não está". "Como não está? Falei com ele agora há pouco". Marcio deu uma espiadela pra dentro e viu Tim sentado numa varanda. "Pô, tô vendo ele ali. Ô Tim!". Tim nem levantou os olhos. Disse só: "Não vou fazer porra nenhuma. Solta os cachorros atrás desse filho da puta". Dito e feito - Marcio saiu correndo, pulou um muro e quase matou do coração uma pobre senhora ao entrar desarvorado pela cozinha.

Jabaculê é que nem chifre...













...todo mundo tem, mas ninguém quer dizer. Pois é, só que o Tim Maia falava e eu, pra falar a verdade, também vou falar. Quando trabalhava com assessoria de imprensa de artistas, pude ver de perto como a prática dos subornos a DJs e programadores de rádio molda o mercado. A começar pelos divulgadores específicos. Enquanto basicamente qualquer pessoa pode divulgar um artista para imprensa ou televisão - com mais ou menos sucesso, dependendo do poder de barganha e da lábia -, é preciso ser um certo tipo de negociador astuto para fazer divulgação em rádio. Um tipo de negociador que carrega uma mala. O jabá não só existe, como é a moeda do mercado. Tem emissora que emite até nota fiscal da tal "taxa de divulgação". Tem bandinha da moda aí que desembolsou R$ 7 mil por uma semana de execução numa grande rádio de São Paulo.

Caçulinha














João Gilberto, extremamente bem-humorado, tocou o mais fino de seu repertório. Tocou "Rosinha", "Isaura", "Palpite infeliz", "Corcovado", tudo; chegou até a convidar o público a pedir músicas. E, pasmem: acatou as sugestões. Um show lindíssimo. Mas quem aguçou os ouvidos ficou com a pulga atrás da orelha. Era viagem ou havia um tênue som de piano acompanhando os acordes do violão de João? Parecia que um pianinho baixinho, um playback inspirado acompanhava o show todo. Mas não era possível que o playback pudesse acompanhar - e muito bem, diga-se de passagem - até os ensejos da plateia. Ao finalzinho de "Aquarela do Brasil", já no segundo bis, uma cortina à direita do palco se abriu e revelou o genial Caçulinha, talentoso a ponto de acompanhar João Gilberto numa noite inspirada. Não era a toa que Tim Maia andava tão injuriado com Fausto Silva.

Mais grave, mais retorno, mais tudo













Quisesse ver um técnico de som tremer igual vara verde, bastava dizer que Tim Maia tocaria na casa. Dono do tal ouvido absoluto, Tim fazia questão de que o som entrasse no eixo. E não bastava que soasse bem - tinha que soar como as big bands americanas de soul. Os metais deveriam ficar claros e bem-definidos, sem entretanto atrapalhar os backing vocals, cuja timbragem era semelhante. O baixo deveria soar grave, no exato tom do bumbo da bateria, enquanto as guitarras e teclados dividiam o campo dos agudos sem nunca se sobrepor uns aos outros. Instrumentos percussivos deveriam ter tonalidades específicas que servissem não apenas para enfeitar o som, mas para marcar a cozinha rítmica. Por fim, a voz do próprio Tim deveria soar clara e nítida, sobressalente no campo sonoro, mas sem ofuscar nenhum instrumento. E ele só queria era que tudo isso aparecesse no retorno. Pô, é pedir demais?

Músico, advogado e pedreiro é foda














Nesta entrevista, Tim acabou absolvendo o pedreiro. Talvez porque seu contato com músico e advogado fosse mais constante. Um levava ao outro, já que era praxe entre os músicos que saíam da Vitória Régia processar Tim Maia. Embora ele próprio se dissesse vítima de conspirações absurdas de gente inescrupulosa, não dá pra tirar dessa gente todos os motivos. Por exemplo, na biografia "Vale Tudo", o jornalista, produtor e compositor Nelson Motta conta que Tim pagava quem queria, quando queria e até como queria. Ele adorava o slogan "Vitória Régia - a única que paga aos domingos após as 21 horas". Mas era só um slogan. Teve um certo músico que foi buscar seu levadinho e saiu com duzentos gramas de fumo. "Pô, esse é do bom, mermão!", argumentou o síndico. "Mas eu não fumo, Tim..."; "Quem falou que é pra fumar? Isso aí é dinheiro. Tu vende e fica com a grana!"

50 mescalinas e uma religião














Gilberto Gil partiu para a macrobiótica, Caetano Veloso, paz, amor e liberdade, Roberto Carlos virou beato, os Mutantes pegaram seu cometa e partiram para país dos baurets. Tim Maia cortou barba e bigode, largou misto quente (skank com haxixe), goró (bebida) e brizola (cocaína), jogou todos os brinquedos dos filhos no lixo, doou os móveis da casa, se vestiu de branco e foi esperar pela chegada dos seres extraterrenos. Era a tal da Cultura Racional, uma seita mística encabeçada por Manoel Jacintho Coelho, que prometia - em livros herméticos de tão mal escritos - preparar os homens para o encontro com o Racional Superior, uma espécie de força criadora independente e antagônica à matéria. Pela primeira vez, Tim Maia revela que entrou na "fase mística" depois de tomar 50 mescalinas.

Pararraio de pilantra














Empresários musicais, donos de gravadoras, programadores de rádio, músicos, prostitutas, traficantes. Tinha toda espécie de gente querendo tirar uma casquinha do Tim Maia. Em entrevista à Playboy, Tim conta que certa vez recebeu um telefonema de uma moça, que disse: "Nasceu! Mas ela está fraquinha a nenenzinha, coitada". Tomou um susto: "Nasceu o que, se a gente nunca transou?". E ouviu a história insólita: "Sabe aquele carinho que eu te fiz com a mão? Então, peguei 'o negócio' e botei 'lá'". Outro susto: "Que negócio, minha filha?"; "O esperma".

Os ETs e o esfriamento global















Enquanto o mundo começava a se preocupar com o efeito estufa e o aumento geral da temperatura da Terra, o visionário Tim Maia preparava os casacos para uma nova era glacial. Se os cientistas acreditavam que a humanidade já havia encarado um congelamento, Tim Maia garantia que já passavam de quatro. Ou mais. Ele também alertava para a existência de seres extra e intraterrenos - os lunares, brancos porque nunca viam o sol -, gente do futuro vivendo entre nós e até mesmo um motel para ETs, que ficava numa imensa propriedade rural em Nova Iguaçu. Isso porque seu interesse era apenas na ufologia, "o estudo de uma coisa que ninguém sabe o que é". Talvez venha daí o lema filosófico que Tim propagou até o fim da vida: "Tudo é tudo e nada é nada".

Sai "I love you", entra "Leia o livro"














Boa parte das músicas que entraram nos dois volumes de Tim Maia Racional já havia sido composta previamente. Mas, para entrar no disco, por ordem de Manoel Jacintho Coelho, as letras tiveram de ser reescritas, sob a ótica absurda do Racional Superior. Os temas de festa "We're gonna rule the world" e "Que beleza" ganharam estrofes messiânicas como "Read the book Universe in Desenchantment" e "Leia o livro e você saberá a verdade". Até a história do bêbado regenerado de "Bom senso" ("Já fiz muita coisa errada/Já pedi ajuda/Já dormi na rua") se "racionalizou". Até a hora em que Tim Maia caiu na real e largou o Racional do mesmo jeito que aderiu a ele: da noite pro dia sem explicar nada para ninguém.

These are the songs














Com 19 anos, morando nos Estados Unidos, Tim Maia tinha um inglês impecável, sem qualquer sotaque que denunciasse a origem tupiniquim. No máximo, achariam um resquiciozinho de Bronx, Brooklin ou outra periferia negra de Nova York. Tanto que, frequentemente, conseguia acertar aluguéis de quartos por telefone - tarefa inglória para latinos. O problema era que não importava quão bom fosse o inglês; quando chegava aquele preto gordinho de cabelo alisado, a coisa ficava esquisita. E ele ouvia todo tipo de bizarrice: "O quarto acabou de ser alugado", "há uma goteira sobre a cama", "alguém acabou de ser assassinado lá". Mas, na volta ao Brasil, o inglês virou um trunfo do qual Tim Maia se orgulhou até o fim da vida. O pessoalzinho da Jovem Guarda era muito bom, obrigado, mas todo mundo cantava rock em português - ninguém arriscava encarar o inglês. Exceto o Tim. Quando ele partiu para a bossa nova, resolveu cantar em inglês. Não que não gostasse das letras em português; gostava até mais do que em inglês - sempre achou esnobe esse negócio de "Quiet nights of quiet stars". Mas queria porque queria sacanear João Gilberto. Para ele, "um ótimo cantor que não canta porra nenhuma".

Tombo na chola














Final dos anos 60, comecinho dos 70. André Midani estava atrás de um artista à espera de ser descoberto, um gênio escondido por aí, com um som ao mesmo tempo original e vendável. Queria um diamante bruto. Foi atrás dos Mutantes: "Tem um tal de Tim Maia, muito louco, mas genial". Perguntou pro Erasmo: "Tem que conhecer o Tim Maia, muito louco, mas genial". Caçou o tal do Tim Maia e encontrou a figura - gordinho invocado, antes conhecido como Tião Marmiteiro, porque carregava as marmitas que seu pai preparava e dava conta de devorá-las antes da entrega. Assinou um contrato de gravação com o cara, ele entrou no estúdio e saiu com "Primavera", sucesso absoluto. E abandonou o alisamento a base de queimadura, que ele mesmo chamava de "tombo na chola".

Elis, Marisa e regravações













Reza a lenda que a música "Chocolate" é uma declaração de amor à maconha. Tim Maia nunca confirmou o boato. Afinal, ele não bebia, não fumava, não cheirava. Só mentia um pouquinho. Mas ele ficou pê da vida quando viu Marisa Monte escancarar a apologia em sua versão. Para ele, quando ela cantou "Não quero cocaína, me liguei no chocolate", feriu o espírito da música. Coisa que Elis Regina jamais faria. Elis era perfeita, não exagerava, não errava, não era fraca, tinha emoção forte, sabia se expressar, tinha cabeça boa. E mesmo quando entrava em disputas musicais - como nos casos do dueto com Hermeto Pascoal, no Festival de Montreux; e na clássica parceria com o próprio Tim, em "These are the songs" -, era elegante e precisa. Ah, como Tim Maia queria ter cantado mais com ela...

Tim, em foto de divulgação do "Nova Era Glacial"

Vende mais porque é fresquinho ou...













Erasmo disse ter comido mais de mil mulheres. Roberto deve estar por aí. Erasmo ganhou milhões - torrou vários outros milhões. Roberto ganhou milhões e transformou em bilhões. Tim Maia não comeu tanto, não ganhou tanto. Mas ainda ficou melhor do que os grilos Cassiano e Hyldon. Por que uma turma se deu bem e a outra nem tanto? Tim Maia não sabe, mas repara em algumas "curiosidades" acerca dos velhos companheiros.

Vovôs na pista













Em 1995, Jorge Ben Jor embarcou para Nova York e trouxe na bagagem o disco "Ben Jor World Dance", além de um novo bonezinho virado para trás. Embaixo de cada música, havia legendas como "club dance version" e "radio version", mas as músicas eram as de sempre: "Fio Maravilha", "País tropical", "Taj Mahal" etc. A diferença eram as batidonas eletrônicas. Lulu Santos também entrou numas de fazer dance e trocou a guitarra pelo batidão. Tim Maia continuou Tim Maia, alternando mela-cueca com esquenta-sovaco, mas ganhou a pecha de brega. Pelo menos pode se orgulhar de não ter virado um velho tentando passar por menino. Teve gente que até mentiu a idade!

Rap calango













Na Jamaica dos anos 60, nenhuma gravadora se atrevia a lançar artistas de reggae, muito menos rastafáris. Por isso, todo mundo saía em compacto simples - desde gente muito grande como Bob Marley e Jimmy Cliff até artistas menos famosos como Lloyd Parks e Jackie Opel. Enquanto um lado do disco tocava a música completa, com harmonia e vocais, no B, os produtores colocavam instrumentais viajandões para o povo curtir enfumaçado de ganja. Era assim, até que um ou outro DJ teve a ideia de animar a festa improvisando rimas sobre as bases de dub. Surgiu o ritmo e poesia, surgiram os MCs e o povo começou a acelerar as rimas. Os primeiros passos do rap nacional seguiram as pegadas da rima americana e não das raizes jamaicanas. Por isso, Tim Maia desce o pau no rap e no funk. Para ele, um calanguinho vagabundo.

Triatlo














Tim Maia não sabia nada de droga. Afinal, como a gente já disse lá em cima, ele não fumava, não bebia e não cheirava. Só mentia um pouquinho. E, quando não mentia, parecia mentira. Era triatleta profissional. Não, natação, ciclismo e corrida não passavam nem perto do cantor de 160 quilos. O triatlo dele consistia em uísque, maconha e cocaína em quantidades exorbitantes. Mas nada descontrolado: a brizola era de primeira linha; a maconha, apelidada de misto quente, era uma mistura insólita de skank e haxixe; e o uísque, só de 12 anos para cima. E houve fases em que iam cinco garrafas em três dias. Pelo menos, o Tim Maia só bebia quando fazia shows ou andava de avião.

Roberto, Erasmo e Ed Motta? Não conheço.














Sempre que perguntavam a Tim Maia se ele gostava do Roberto Carlos, ele lançava um claro e retumbante "não". A mágoa vem desde os tempos de Jovem Guarda, quando o Tião Maconheiro - que largou a marmita tão logo se apaixonou pela cannabis - voltou deportado dos Estados Unidos, depois de "uma etapa" de oito meses em cana gringa. Tim precisava de um apoio dos velhos colegas, de uma forcinha para se levantar. Ela não veio. Tim não conseguiu se juntar a turma que, de acordo com ele, "tinha medo da revolução do soul", e, quando conseguiu, entrou no palco com botinhas dois números menor que seu pé, que o deixava ainda mais desengonçado, mais desajeitado e mais inseguro. Erasmo, o Tremendão, era boa gente, mas sempre manteve uma certa distância - "Nem conheço os filhos dele". E por falar em não conhecer, Tim teve um herdeiro "meio quatro-quatro-meia": Ed Motta, cantor jovem e talentoso de 150 quilos, mas que curtia falar mal do tio. Talvez não tanto quanto o tio curtia falar mal dele. Mas Tim Maia é Tim Maia, né?

Tim Maia, em foto de Divulgação do "Nova era glacial"

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Andrade, mais um primeiro negro a...

Estereótipos. Nossos maiores inimigos são os estereótipos. Na autobiografia de Malcolm X, escrita por Alex Haley, há uma passagem muito interessante sobre estereótipos. Malcolm, então Little, então estudante do primeiro grau, fala a um professor que sonha ser advogado. Ele é um dos melhores da turma do colégio, de maioria branca. O professor pede que ele fique depois da aula e desestimula a ideia. "Por que você não escolhe ser marceneiro, mecânico, atleta, músico, garçom...? São todas boas profissões, exercidas por gente honesta. E são mais adequadas a sua raça. Os negros têm mãos grandes, enorme habilidade física, são de fato privilegiados. E isso é muito bom, algo de que você deveria se orgulhar. Por que tentar ser advogado?"

Malcolm X, depois de cumprir os desígnios da raça

O discurso soa absurdo. "Que coisa racista!", pensamos, acostumados a nossa experiência empírica de que não há componentes raciais que determinem o que alguém pode ou não fazer. Pois é. Mas se pegarmos a prática, os mínimos cargos de comando são reservados aos brancos. Já que o futebol explica o mundo, como diria o jornalista americano Franklin Foer, é nele que caço exemplos dessa terrível verdade. Dizem que um bom time começa com um bom goleiro. Afinal, o goleiro não é simplesmente o cara que tem o privilégio das mãos - em terra de pé, quem tem mão é rei -; o goleiro é o princípio organizacional de um time de futebol. Ele orienta a defesa, ele tem a visão máxima do jogo, ele define se um time avança ou recua. O goleiro tem mais tempo para observar do que os outros jogadores, já que sua participação com a bola dominada é limitada a situações extremas. O goleiro é uma extensão do técnico em campo.

Não me lembro do futebol de 1950 - que frase ridícula, né? Mas é verdade, não saberia comensurar quanto o jogo evoluiu ou mudou de lá pra cá. Mas sei que a seleção brasileira tinha o goleiro negro Barbosa, que entrou para a história como o vilão do Maracanazzo. Já vi o lance do gol de Gigghia - aquele que calou 200 mil pessoas no Maracanã - milhares de vezes e juro que não consigo enxergar a falha clamorosa de Barbosa. Mas ele morreu idoso, ainda se desculpando por ser o maior vilão da história futebolística brasileira. Se a tragédia pessoal de Barbosa não é suficientemente comovente, basta olharmos para seu impacto social. Foram precisos 56 anos para que outro goleiro negro voltasse a defender a meta da seleção brasileira. Dida foi o cara. Ao longo deste tempo, no Brasil da democracia racial, ninguém falava, como o professor de Malcolm X, que os negros eram inaptos a esse cargo pseudo-intelectual. Mas não deram a nenhum a oportunidade de refutar a tese.

Barbosa toma o gol que decreta fracasso brasileiro em 1950

Se o cargo de goleiro - extensão campal do técnico - já esbarra no estereótipo, que dirá o de técnico propriamente dito. Ontem, pela primeira vez, um técnico negro foi campeão brasileiro. Brasileiro, não alemão. Brasil, sabe? Aquele país que tem dois terços de população negra? Pois é: neste modo de Brasileirão, que acontece desde 1971, nunca houve um técnico negro campeão. Andrade, do Flamengo, é o primeiro. É a queda do estereótipo de que o negro não tem competência para o trabalho intelectual? Não. Ainda não. Mas, cada exceção que aparece faz com que a próxima seja um pouco menos exceção. Até que o estranho vire normal. Aí sim, temos uma verdadeira conquista social rumo à igualdade. Então, parabéns ao Andrade por essa conquista, maior até do que a de Campeão Brasileiro.

Andrade, uma vez Flamengo...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

(Vídeo) Afropapo com Steel Pulse

Foi só deixar o saguão do aeroporto Santos Dumont, na sempre maravilhosa cidade do Rio de Janeiro, que o Steel Pulse veio à cabeça: "You can’t stand the heat (você não aguenta o calor)". A letra dessa faixa de 1989, gravada sob encomenda para a trilha de Faça a coisa certa, de Spike Lee, martelava a cabeça como o sol, culpado pelos 42 graus que marcava o termômetro. Em São Paulo, Marina havia lembrado um outro som dos caras, "Drug Squad". É que, ao passar pelos detectores de metal, ela cantarolou: "Ain't got nothing to declare! (não tenho nada a declarar)".


Embora tivéssemos tempo, afligia-me o fato de não ter uma pauta completa. Dentro de algumas horas, tinha de ter na ponta da língua uma breve entrevista com o Steel Pulse. O problema era justamente o "breve". Os caras têm 35 anos de carreira, já dividiram palco com Bob Marley e Stevie Wonder (só para ficar na superfície), tocaram em toda parte do mundo, levantaram diversas bandeiras de consciência negra, resgataram heróis como Steve Biko (revolucionário sul-africano) e George Jackson (pantera negra), gravaram quase 20 álbuns impecáveis e estão em estúdio pra fazer mais um. Para piorar (ou melhorar), era 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Quer dizer, um dia inteiro não esgotaria o papo.

E havia mais um agravante: o fato de eu ser fã de carteirinha da banda. Quem trabalha com isso sabe como é complicado entrevistar ídolos. Por um lado, você sabe tudo sobre o cara; por outro, a chance de frustração é imensa já que, frequentemente, o artista não é tão interessante quanto a obra. Não é o caso de David Hinds, Selwyn Brown e companhia. Eles calharam de tocar no Rio exatamente no Dia da Consciência negra... E chegaram aqui afinadíssimos com a luta negra por aqui. Basta ver a propriedade com que David Hinds fala de Zumbi no vídeo abaixo!



O show? Bom, o show foi como uma segunda resposta à entrevista: eles tocaram "Drug Squad", "Can't Stand It" e fecharam com "Vote Obama". Na escolha dessas duas últimas para o repertório, acho que tivemos influência direta! Hehehehe

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

 
Afroências Arte: Gabriel Rocha Gaspar