(Vídeo) Afropapo com Steel Pulse

Foi só deixar o saguão do aeroporto Santos Dumont, na sempre maravilhosa cidade do Rio de Janeiro, que o Steel Pulse veio à cabeça: "You can’t stand the heat (você não aguenta o calor)". A letra dessa faixa de 1989, gravada sob encomenda para a trilha de Faça a coisa certa, de Spike Lee, martelava a cabeça como o sol, culpado pelos 42 graus que marcava o termômetro. Em São Paulo, Marina havia lembrado um outro som dos caras, "Drug Squad". É que, ao passar pelos detectores de metal, ela cantarolou: "Ain't got nothing to declare! (não tenho nada a declarar)".


Embora tivéssemos tempo, afligia-me o fato de não ter uma pauta completa. Dentro de algumas horas, tinha de ter na ponta da língua uma breve entrevista com o Steel Pulse. O problema era justamente o "breve". Os caras têm 35 anos de carreira, já dividiram palco com Bob Marley e Stevie Wonder (só para ficar na superfície), tocaram em toda parte do mundo, levantaram diversas bandeiras de consciência negra, resgataram heróis como Steve Biko (revolucionário sul-africano) e George Jackson (pantera negra), gravaram quase 20 álbuns impecáveis e estão em estúdio pra fazer mais um. Para piorar (ou melhorar), era 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Quer dizer, um dia inteiro não esgotaria o papo.

E havia mais um agravante: o fato de eu ser fã de carteirinha da banda. Quem trabalha com isso sabe como é complicado entrevistar ídolos. Por um lado, você sabe tudo sobre o cara; por outro, a chance de frustração é imensa já que, frequentemente, o artista não é tão interessante quanto a obra. Não é o caso de David Hinds, Selwyn Brown e companhia. Eles calharam de tocar no Rio exatamente no Dia da Consciência negra... E chegaram aqui afinadíssimos com a luta negra por aqui. Basta ver a propriedade com que David Hinds fala de Zumbi no vídeo abaixo!



O show? Bom, o show foi como uma segunda resposta à entrevista: eles tocaram "Drug Squad", "Can't Stand It" e fecharam com "Vote Obama". Na escolha dessas duas últimas para o repertório, acho que tivemos influência direta! Hehehehe

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Helena negra na Tróia brasileira

"Ela é uma modelo rica, não representa a população negra brasileira", disse-me Kokumo, sob o sol escaldante do Rio de Janeiro, na última sexta-feira. Kokumo (foto ao lado) é jamaicano, radicado na Inglaterra, poeta dub da turma de Linton Kwesi Johnson e Benjamin Zephaniah. E eu respondi: "Mas demorou sessenta anos para que tivéssemos uma protagonista preta na novela das oito". Ele deu uma risadinha de canto de boca: "É, já é alguma coisa".

É, já é alguma coisa. Mas concordo com Kokumo que é pouco. Ele seguiu o papo dizendo que respeita os negros americanos, que conseguiram construir uma identidade com a própria força. Verdade; eu também. Mas o fato disso precisar ser dito pressupõe um porém. Acho que o porém deve ser o "bling bling", o fascínio que causam metais tilintantes nos artistas negros americanos de hoje em dia. Há exceções, é claro. Mas, via de regra, o negócio deles é quanto mais ouro, melhor.

A gente está a anos-luz de pecar pela ostentação. No fim da primeira década do novo milênio, o preto brasileiro comemora a primeira protagonista negra de um programa de televisão que é exibido ininterruptamente - com breves variações de roteiro - há seis décadas. Entendo a frustração de Kokumo com a personagem. Mas entendo também que o Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão - se é que aboliu. E é o país da "democracia racial" (haja aspas!) e do senso que computa igual número de negros, mulatos, pardos, marrons-bombons e chocolates sensuais.

Travamos essa conversa em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Pelo menos, era o que comemorávamos lá no Rio. Estivéssemos em Goiânia, não comemoraríamos nada. Afinal, a cidade aboliu o feriado antes mesmo que acontecesse pela primeira vez para não prejudicar "diversos setores produtivos". Desde 2003, Porto Alegre, Santa Maria e Pelotas também não têm Dia da Consciência Negra. E, pasmem: naquele mesmo momento, em Salvador, o povo - 85% negro - trabalhava. Lá também não tem 20 de novembro. Engraçado que não há muitos esforços para abolir feriados no Brasil, né? Por que será que há tantas vozes contra esse, especificamente? Se der a resposta aqui, vou parecer aquele negão perseguido, que vê racismo em tudo.

Taís Araújo na pele de Helena, de Viver a Vida

Voltando ao assunto: estamos muito longe. Longe dos americanos, longe dos jamaicanos, dos ingleses, dos africanos. Quando falamos em Consciência Negra, precisamos explicar que sim, existem negros no Brasil - embora eu ache que se você colocar negros e brancos numa parede e falar pra polícia definir quem é quem, você encontra a resposta rapidinho. Por isso tudo, acho que devemos comemorar a Taís Araújo na novela das oito. Não só pelo papel, mas pelos 31 anos, que ela completou ontem. Hehehehe. Parabéns. E devemos exigir mais, como sugere Kokumo e minha mãe, que disse outro dia na televisão que ficará satisfeita quando puder falar dos modelos pretos - modelos de vida, não de passarela - sem citar nomes.

PS: Pulga atrás da orelha - a semana da Consciência Negra começou com a personagem de Taís Araújo de joelhos tomando tapa na cara de uma branca. Pode ser uma coincidência infeliz, embora eu tenda a acreditar mais em MV Bill do que em conto da carochinha: "Novela de escravo, a emissora gosta. Mostra os pretos chibatados pelas costas".

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O comediante Spike Lee

Ontem, eu estava morrendo de sono. Muito mesmo. Por isso, temia ligar a televisão. Eu me dou o luxo de manter TV a cabo no quarto porque sou um tevê-adicto nato e até orgulhoso. O problema é que a TV a cabo tem infinitos canais, é impossível não achar alguma coisa boa. Um dia, é Simpsons, no outro, teipe de um jogo da série C do campeonato de um ano passado, em mais um, um documentário sobre babuínos que têm de lidar com a seca na travessia do deserto africano. Quer dizer, só coisa imperdível.

Mas o pior de tudo é quando é um filme que você já viu. Pior ainda: quando é um filme que você já viu e tem o DVD para assistir a qualquer hora. Foi o que aconteceu ontem: liguei a TV e passava "A hora do show" (Bamboozled, 2000), do Spike Lee, minha Bíblia cinematográfica. Tive que assistir. Até porque a versão que eu tenho é tão pirata que eu mesmo fiz as legendas. Observação importante: eu não compactuo com a pirataria (talvez, só um pouquinho! Hehehehe), mas o DVD nunca foi lançado no Brasil. Bom, minha primeira tentativa de não postergar meu sono em quase três horas foi buscar via controle remoto outros horários de exibição. Não consegui, mas descobri uma coisa engraçada: o filme está classificado como "Comédia".

Eu não sei o que esse povo entende por comédia, mas vamos lá. "A hora do show" conta a história de um roteirista de televisão negro que tenta emplacar sitcoms para classe média afro-americana e sempre esbarra no racismo da emissora. Até que se enche o saco das frequentes batidas de porta e cria um roteiro tão ofensivo e racista que irremediavelmente o leva à demissão. É um show de menestrel, com gente pintada de preto (as famigeradas "blackfaces"), sapateados, estereótipos - Tia Anastácia, Tição e Pai Tomás estão todos lá - e melancias. Um negócio horroroso. O problema é que o programa vira um sucesso de público e crítica. Spike Lee faz uma análise profunda do racismo nos Estados Unidos e, evidentemente, coloca um ponto final trágico na história. Isso é o que eu leio; a Veja usou as palavras "ridículo" e "rebarbativo" pra falar do filme. Mas acho que nem a Veja chamaria de "Comédia".




Essa classificação me lembrou "Crooklin", outra obra-prima de Spike Lee. O nome em inglês é uma junção de "crook" (bandido, ladrão, safado, pilantra) e Brooklin, o tradicional bairro meio negro meio judeu de Nova York. O filme mostra uma família - mãe, pai, quatro meninos e uma menina - que sofre pela falta de grana e perspectivas. Mais uma história trágica que, em português, recebeu o trágico nome de "Uma família de pernas pro ar". Não sei quanto a vocês, mas um título desses me lembra o pior da "Sessão da Tarde", tipo: "Alunos muito loucos", "Uma turma do barulho" e "Loucademia de polícia". Será que eu estou viajando ou a tragédia negra é mesmo muito engraçada?

Feliz aniversário, Afroências!


Negrada... Afroências completou um ano no último dia oito e, fazendo da incompetência lema, estou atrás da notícia. Nem lembrei de comemorar o aniversário do blog. É fato que das últimas vezes que me atrasei - Ilê Aiyê, Ziggy Marley e mais umas ou outras - foi por pura falta de tempo. Ando na maior correria do mundo.

Mas, dessa vez, não. Tive tempo para escrever. Poderia ter me planejado, feito um textinho no fim de semana e mandado bala. Afinal, dia 8 de novembro foi um domingo. "Oito de novembro?" podem se perguntar os mais atentos, já que o primeiro post pintou só no dia dez. Mas foi em 8 de novembro de 2008, um sábado, que me sentei e resolvi que finalmente exporia minhas negrices para o mundo. Foi por euforia. Eu estava em casa, vagando pela internet atrás das repercussões da eleição de Barack Obama - outro post que perdi, deveria ter comemorado um ano do negrão no poder, comentado mudanças de postura frente a Iraque, Afeganistão, América Latina e Guantánamo, Prêmio Nobel, popularidade, internet... Que post seria! Perdi o fio da meada. Ah, sim: euforia! Sim, eu estava lá, eufórico, feliz da vida que tínhamos um negro no mais alto cargo de liderança política do mundo e queria compartilhar essa alegria.

Houve outras vezes em que comecei blogs, mas foi sempre por raiva. O primeiro, por raiva do jornalismo. Estava no segundo ano de faculdade e queria desistir da profissão. Gosto dessa profissão, amo essa profissão. Mas, como Gay Talese, não queria escrever textos para as pessoas lerem no banheiro. E sentia que era isso que faria para o resto da vida. Vários amigos acadêmicos faziam um uníssono preconceituoso contra a minha profissão. Mas meu caso não era preconceito, era frustração. Frustração com um mercado inflado de estagiários, que demitia seus mestres e relegava a qualidade à posição de coadjuvante da velocidade. Um mercado que transformava o jornalismo em moldura da publicidade. Era assim que eu me sentia quanto à profissão - sentia que éramos gente que não queria escrever escrevendo para gente que não queria ler, regidos por patrões que não sabiam ler. Trabalho na internet; pouca coisa mudou. Mas aquele primeiro blog não foi pra frente. Depois de dois ou três textos, eu já tinha tanta raiva do blog quanto do mercado em que trabalhava.

A segunda vez que montei um blog foi no dia seguinte à entrevista do Mano Brown no Roda Viva. Eu estava com raiva de tudo. Principalmente da raiva que tinham determinados intelectuais da postura do próprio Brown no programa. "Ele foi complacente"; "Ele se mostrou ignorante"; "Ele é em cima do muro"; "Ele é contraditório"; "Ele não é o líder da periferia". Não foi isso que li daquele programa. O que vi ali foi um péssimo time de entrevistadores que se dividia entre entusiastas de uma pseudo-revolução promovida pelos Racionais e reação a essa mesma revolução. Metade entrevistou um terrorista, metade entrevistou um Che Guevara do Capão Redondo. Ninguém tentou entrevistar um músico competente, um poeta de mão cheia e um mano da periferia de São Paulo. É isso que Mano Brown é; não é revolucionário, não é líder, não é bandido, não é terrorista. O que se viu ali foi uma projeção de todos os preconceitos - bons e ruins - da classe média sobre um cantor e compositor. Um exercício nítido de péssimo jornalismo, um modelo de como não entrevistar. Vestida de preconceito, a classe média frustrou a si própria com uma entrevista direcionada a quem eles queriam que fosse e não a quem era de fato. O programa perdeu uma ótima entrevista e eu resolvi montar um blog pra dizer isso. Esse durou um post. Hehehehe

Mas eu continuei tentando e inventei o Groovy Tech, cujo esqueleto permanece em algum armário da internet. Sabe? Era um blog legalzinho até. Falava de tecnologia, internet, essas paradas... E não nasceu do ódio! Nasceu de nada... Nasceu do fato de que eu e meus amigos Paulo Planet e Ricardo Infante queríamos dar um complemento online a um site que desenvolvíamos à época. Queríamos estabelecer uma sólida comunidade interativa em que as pessoas trocassem conhecimento, informações, diversão, gostos pessoais e pudessem conhecer umas às outras cultural e socialmente. Era uma ideia bacana pra caramba. Mas não foi pra frente como queríamos. E eu perdi o parco entusiasmo que tinha por aquele blog de tecnologia... Faltou tesão.

Eu, Planet e Ric

E foi o tesão que não faltou para fazer o Afroências. Para falar a verdade, esse aniversário do Afroências é meio ilusório. O nome surgiu lá em 2004, mas passava longe de blog. O Afroências nasceu no rádio. Eu, Murillo Camarotto e Wander Otoni montamos um piloto para uma rádio pirata na Puc, um programa de música negra que traria a história dos ritmos e a evolução do som desde a tribo até hoje. Eram afroências de fato. Influências, afluências, afroências. Era como se o som, como Kunta Kinte de Alex Haley, viesse de navio pelo Kambi Bolongo e desembocasse na América com nada além de seu repertório cultural, que sobreviveu a 500 anos de tentativas de genocídio. Era a música como um rio, vindo da África. A polícia fechou a rádio e confiscou os equipamentos depois de dois programas. Paciência. Combinei com o Murillo que faríamos do programa o trabalho de conclusão do curso de jornalismo e nos ativemos a essa ideia até o último ano de faculdade, quando ele espirrou e me deixou a remo no Oceano Atlântico. Mas isso foi ótimo porque ele produziu um trabalho maravilhoso, ao lado de Juliana Vettore - o documentário "Sociedade Secreta", que transformou um usuário do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) em cineasta. Eu não fiz o Afroências. Para falar a verdade, não fiz praticamente nada.

Eu, Murillo e Wander (não consigo ficar de olho aberto, não tem jeito)

Até o ano passado. Estava eufórico e queria comemorar o Obama num espaço preto. Queria exaltar a negrada pela importância do fato. E queria dar continuidade a isso: queria exaltar a negrada sempre e pra sempre. Queria fazer isso por amor, porque precisava ser feito, porque eu acredito nisso. Por incrível que pareça, não me vinha um nome à cabeça. Marina Morena que, além de leitora assídua e pauteira mais afroente, é minha namorada, sugeriu: "Afroências". Pedi autorização para o Murillo - o nome é ideia dele - ele mandou um típico "lógico, trutão!" e a coisa deu certo. Deu muito certo! Mais de 10 mil pessoas passaram por aqui ao longo deste ano e deixaram contribuições inestimáveis não só ao espaço mas a mim mesmo. Não sei se tinha um objetivo claro quando montei esse blog. Mas, depois que recebi da leitora Naiane o comentário que reproduzo abaixo, tenho certeza de que o Afroências cumpriu seu objetivo. Obrigado, Afroentes leitores. Tamo junto!

Gabriel, foi um amigo branco que me falou do seu blog. Eu vim ler e acho sempre foda o que escreve (tb sou exigente viu! rs) Hoje ele me ligou dizendo que seus textos o ajudam com várias questões que tem dúvidas mas não fala comigo porque se sente constrangido. Não tenho o que acrescentar ao seu post, só dizer que sua contribuição é bem maior do que imagina viu. O melhor foi ele dizendo: "Eu entendi!!agora não ficarei mais ofendido quando vc disser que é 100% negra"...rs
Continue nos afroenciando!
Um beijo grande!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ilê Aiyê para abrir o mês da consciência negra

Afroências atrás da notícia. Literalmente - essa notícia no caso está atrasada 35 anos e dois dias. Mas são os dois dias que pegam: eu queria começar este mês da Consciência Negra com uma série fina de posts, dedicada a eventos importantes da história negra. Mas, trabalhei, trabalhei, trabalhei e o Afroências ficou numa gaveta angustiada nos últimos dois dias. Por isso, peço a vocês, meus afroentes leitores, um esforço de imaginação: vamos fingir que hoje não é 3 de novembro, mas dia 1º. Vamos fingir que o feriado não foi ontem, mas será amanhã. E sejamos mais felizes pois (dentro dessa nossa ficção) começa hoje o mês da Consciência Negra.


Há (quase) exatos 35 anos, em 1º de novembro de 1974, nasceu no Curuzu, em Salvador, o Ilê Aiyê, não só o mais importante bloco afro do País, mas um dos principais movimentos de inclusão social do negro. Sergios Bianchis e afins dirão que "bater lata não é inclusão social". Pois isso passa longe de definir o Ilê Aiyê.

Na verdade, quando o bloco irrompeu as ruas da capital pela primeira vez no Carnaval de 1975 causou um incômodo. O bloco cantava a África, cantava as revoltas negras - a própria Bahia concentrou ao longo da história alguns dos principais levantes anti-escravidão -, forçava goela abaixo a auto estima negra. O grito de guerra? "Que bloco é esse/Eu quero saber/É o mundo negro/Que viemos mostrar pra você". Essa música de Paulinho Camafeu, que depois ganhou o Brasil e o mundo nas vozes de Gilberto Gil e O Rappa, enfureceu o Brasil da democracia racial.

O site oficial do Ilê reproduz um artigo do jornal "A Tarde" sobre essa insurreição afro que foi a primeira aparição do bloco. Peço licença para reproduzi-lo aqui:

"Bloco racista, nota destoante"

Conduzindo cartazes onde se liam inscrições tais como: "Mundo Negro", "Black Power", "Negro para Você", etc., o Bloco Ilê Aiyê, apelidado de "Bloco do Racismo", proporcionou um feio espetáculo neste carnaval. Além da imprópria exploração do tema e da imitação norte-americana, revelando uma enorme falta de imaginação, uma vez que em nosso país existe uma infinidade de motivos a serem explorados, os integrantes do "Ilê Aiyê" - todos de cor - chegaram até a gozação dos brancos e das demais pessoas que os observavam do palanque oficial. Pela própria proibição existente no país contra o racismo é de esperar que os integrantes do "Ilê" voltem de outra maneira no próximo ano, e usem em outra forma a natural liberação do instinto característica do Carnaval.

Não temos felizmente problema racial. Esta é uma das grandes felicidades do povo brasileiro. A harmonia que reina entre as parcelas provenientes das diferentes etnias, constitui, está claro, um dos motivos de inconformidade dos agentes de irritação que bem gostariam de somar aos propósitos da luta de classes o espetáculo da luta de raças. Mas, isto no Brasil, eles não conseguem. E sempre que põem o rabo de fora denunciam a origem ideológica a que estão ligados. É muito difícil que aconteça diferentemente com estes mocinhos do Ilê Aiye.

Esse artigo é muito interessante. A começar pelo "apelidado Bloco do racismo". Apelidado por quem, cara pálida? Ou melhor: por qual cara pálida? Depois vem essa história de democracia racial que é dura de engolir. Segue com a acusação de comunismo ("somar aos propósitos da luta de classes...") e fecha, ironicamente, com um racismo importado dos Estados Unidos. Afinal, aquele WASP de extrema direita dos estados do sul tem mania de chamar o negro de "boy", mesmo que ele tenha 60 anos. Em 1975, o Vovô do Ilê já era vovô demais pra ser chamado de "mocinho".

Mas enfim, se for bater esse artigo ponto a ponto, vou longe demais e perco o foco, que é o Ilê. Acho que o importante dessa reprodução é mostrar como surgem aparelhos de opressão fortemente armados a cada vez que o negro tenta - mesmo de forma não violenta, como no caso do Ilê - ser negro. Esse texto aí em cima me lembra as reações agressivas que esse blog já recebeu, como daquele Anônimo - esse Anônimo tá em todas, né? - que disse que isso aqui é um espaço de macacos. O problema é que ali em cima, era 1974, em plena ditadura militar. Não tinha Dia da Consciência Negra, não tinha rap, não tinha Ilê e, se acreditarmos na mídia tradicional, não tinha racismo! Dá pra entender tamanho reacionarismo. Impressionante é ver que passados 35 anos, ainda tem quem não acredite em racismo, quem se ofenda com 100% negro, com o cabelo da Taís Araújo na novela, com as afirmações de identidade negra. Quer dizer, passados 35 anos, com todos os méritos, o Ilê Aiyê encara o mesmo desafio da época da fundação: o fortalecimento da identidade negra no Brasil.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Besouro dá ares épicos à estética da capoeira

Confesso que não gostei quando me vi vítima do spam da equipe de divulgação de "Besouro", filme do diretor de publicidade João Daniel Tikhomiroff, que mistura ação, mitologia e cultura de matriz africana em um épico de capoeira, com direito a coreógrafo chinês - o mesmo de "Matrix" e "O tigre e o dragão", diga-se de passagem" - e tudo. Tá bom: não gostei, mas adorei. Preferia que eles tivessem me sugerido a pauta por email, mas mesmo assim, o fato de terem entrado neste Afroências para criar um buzz em torno do filme foi bacana. Mostra que o blog está virando o que eu pretendo que ele seja: um canal de comunicação e troca de ideias sobre cultura negra.

Besouro (Ailton Carmo) encara os jagunços do Coronel Venâncio (Flavio Rocha). Foto: Paulo Mussoi

Por praxe, eu teria excluído o spam e deixado o assunto cair no ostracismo. Mas, dias antes de recebê-lo, fui ao cinema ver "Bastardos Inglórios", do Tarantino - aliás, recomendo geral: se existe bom uso pro revisionismo histórico, é esse - e fui sugado pelo pôster do filme. Nele, um negro vestido em calças largas voa sobre um cânion com pinta de Chapada Diamantina. Depois da entrada do negro como força motora do cinema brasileiro, em "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, faltava dar este passo além e explorar, com a força imagética dessa nossa nova filmografia, a plasticidade da cultura negra. Faltava dar cara aos orixás e tela à estética da capoeira.

Não vi "Besouro", já adianto. Mas acho que o esforço em retratar esse nosso legado é sempre bacana. A capoeira foi proibida durante boa parte de nossa história pós-abolição por ser uma luta de resistência negra contra a qual o sistema opressivo eurocêntrico não tinha armas. Não que não se pudesse matar a tiro um capoeirista - embora lendas dêem conta de uns ou outros que tinham o tal "corpo fechado"; caso do próprio Besouro. Mas não havia bala que destruísse o que ele representava. Ele não era apenas um negro forte; era um negro forte e consciente de sua força física e cultural. Um lutador, um artista, um cantor, uma força religiosa. Ele era a personificação de um legado do qual este povo oprimido poderia se orgulhar, a ponte entre a vida no pós-escravidão - que tinha mais de escravidão do que de pós - e a história africana pregressa, usurpada pelo tráfico negreiro. Ele era quem inviabilizava que a abolição caísse na letargia e fosse relegada a uma assinatura no papel. Ele era quem forçava a entrada do negro na sociedade brasileira e cobrava pelos anos de trabalho gratuito. Óbvio, ele foi proibido.

Sergio Laurentino na pele de Exu. Foto: Christian Cravo

Hoje, a capoeira é patrimônio do Brasil. É praticada em escolas particulares e tratada mais como dança do que como luta e movimento afrorresistente. Mas é importante que ostentemos a raiz dessa cultura. Até para que nossa sociedade não ouse repetir sobre outras culturas negras o ataque que promoveu à capoeira. Sim, estou falando especificamente - mais uma vez - do candomblé, religião de matriz africana que tem sido acossada pelo aumento das igrejas evangélicas e que corre risco de extinção caso se concretizem as projeções do crescimento geométrico do protestantismo no Brasil dos próximos anos. Exu, um dos orixás menos compreendidos, é um dos protagonistas do filme e, pelo trailer (reproduzido logo abaixo), não parece ser retratado como um demônio, mas como o que de fato é: um orixá.

Bom, reitero que não vi o filme. Por isso, comento apenas os arredores da história e as parcas impressões que tiro do trailer. Depois de assistir, prometo que volto a trocar ideia com vocês, leitores afroentes. Até lá, sem spam, heim? Como havia prometido, vou apagar aquela mensagem agora, certo?




quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Marge Simpson é negrona na Playboy

Minha mãe sempre achou que os Simpsons eram pretos. E eu tinha um pé atrás com essa teoria. "Pô", eu pensava, "preto é o Carl, aquele cara que trabalha com o Homer na usina". Mas ela jurava de pé junto que era tudo negrada: "Bart tem cabelo duro; Lisa e Maggie, idem; Homer, mó beição; e Marge é black power!". Vá lá: Lisa é instrumentista de jazz, Bart gravou uns dois clipes de rap - com direito a produção de Quincy Jones e tudo.


Na última sexta-feira, Marge Simpson apareceu nua na Playboy americana. Vanguardista que só, é a primeira mulher de desenho animado a estampar a capa da revista. Mas o que me chama atenção nessa história não é o fato em si - que, cá entre nós, tem um quê de bizarrice -; é que a capa é uma reprodução (em cartoon) da célebre edição de outubro de 1971, em que a modelo Darine Stern se tornou a primeira mulher negra a aparecer numa capa de Playboy.


Bom, se a teoria de minha mãe vale ou não, não sei. Mas é certo que Matt Groening dá todas as bases pra ela...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

 
Afroências Arte: Gabriel Rocha Gaspar