29 janeiro, 2018

Por que não somos todos Somália?

Homens vasculham escombros em Mogadíscio. Foto: Tobin Jones/Amisom
A Somália sofreu em 14 de outubro de 2017 um dos atentados mais violentos da história. Na segunda-feira seguinte (16), o Twitter ferveu de questionamentos sobre a baixa cobertura midiática e a pouca comoção em torno das mais de 500 vítimas (entre mortos e feridos) do ataque ao centro da capital Mogadíscio. Representantes de ONGs, jornalistas e acadêmicos do mundo todo se perguntaram por que não surgiu rapidamente um Je suis Somália ou coisa do tipo.

Infelizmente, porque culturalmente naturalizamos o sofrimento de pobre, preto, muçulmano e africano. Mas ainda que houvesse forte resposta emocional a tamanha violência politicamente motivada, começaríamos a trilhar o caminho de evitar que ela se repetisse? Certamente, seria melhor do que a indiferença. Mas bastaria? Tendo a achar que precisamos de mais do que nossos corações; precisamos analisar, com a cabeça, como a violência sistêmica, objetiva e perene, se converte em banhos de sangue. Qual o efeito que cada modalidade de violência tem sobre nós e por quê?

A pouca manifestação solidária que houve seguiu um padrão de tentar formar uma corrente empática pela via da exclusão. Como se, incapazes de sentir empatia genuína pelo sofrimento daquelas pessoas histórica e ideologicamente construídas como sub-humanas, tentássemos estabelecer, na repulsa pelo assassino, a ligação com a vítima. Nas declarações de condenação da comunidade internacional – que, via de regra, chegaram com dois dias atraso, como se a empatia também tirasse folga no fim de semana – abunda a palavra “bárbaro”.

Embora hoje, associemos o termo a violento, desumano e cruel, “bárbaro” tem uma etimologia reveladora: vem do grego bárbaros, que quer dizer “estrangeiro”. Ou seja, bárbaro é sempre o “outro”, nunca nós mesmos. Ao atribuir este adjetivo a um atentado ou seu perpetrador, inconscientemente (ou não), o colocamos fora da comunidade humana; ele incorpora a figura do “outro” que, como tal, não é digno de identificação e, logo, empatia. Ou seja, esta comoção opera em chave negativa: a solidariedade com a vítima brota da negação da humanidade do algoz.

Será que o algoz é “outro” de fato? Ou criar o outro é o recurso psicológico que temos para lidar com a violência absoluta e, assim, nos abstermos de procurá-la dentro de nós mesmos? Não estou evocando uma solidariedade cristã do tipo “ame seu inimigo” a quem perpetrou tão covarde ato de violência contra civis inocentes. Estou dizendo que precisamos buscar meios de solidariedade positiva com as vítimas. Por culpa de anos de desconstrução da humanidade dessas pessoas, é possível que ela não venha pela via emocional - o que significa que precisamos construir caminhos intelectuais de desenvolvimento da empatia.

Este exercício depende de uma análise um pouco mais profunda das condições somalis – sabendo que não vamos conseguir, sequer minimamente, apreender a complexidade da colcha de retalhos de descaso, imperialismo, colonialismo, racismo, diplomacia falha, crueldade institucional, ganância e hipocrisia que compõe a história recente da Somália em particular e da África, de forma geral. Trata-se de tentar fazer a solidariedade ultrapassar a comoção inicial para buscar ressignificar intelectual e objetivamente o jogo geopolítico que nos trouxe ao ponto em que estamos agora. Até porque, são grandes as chances de percebermos que o “bárbaro” e sua violência são menos estrangeiros do que parecem.

Al-Shabaab e a marginalização da institucionalidade

O governo local e a comunidade internacional apontaram como responsável pelo atentado a milícia Harakat al-Shabaab al-Mujahideen (“Movimento da Juventude Guerreira”, em tradução livre), conectada à Al-Qaeda no Maghreb Islâmico (Aqmi) e ao grupo nigeriano Boko Haram. Mas, estranhamente, a organização não assumiu a autoria do atentado. De acordo com a rádio pública estadunidense NPR, que tem um correspondente in loco, há suspeitas de que a escala e a comoção causada pelo atentado tenham inibido o grupo, que não pode prescindir completamente das relações públicas em nome da hegemonização de sua leitura fundamentalista do Islã.

Isso porque, diferentemente do grupo Estado Islâmico, que apareceu como um relâmpago e dominou territórios distantes que eram estáveis até pouco antes, a Al-Shabaab foi um importante ator político dentro da precária institucionalidade de seu próprio país, onde a maioria da população nem se lembra do que é ter um governo de fato. Al-Shabaab foi um dos braços da União das Cortes Islâmicas, que governou e coordenou a aplicação da Sharia, (lei islâmica) na maior parte do sul do país durante o ano de 2006.

Claro que para nós, ocidentais, a palavra Sharia causa calafrios. Imediatamente nos lembramos das decapitações, mãos decepadas, apedrejamento de mulheres “infiéis” etc. Mas há uma série de particularidades na história e na geografia da Somália que fizeram com que os tribunais religiosos fossem bastante populares entre a população do sul do país. A primeira, e mais óbvia, reside no fato de que a Somália vive em guerra civil desde 1991 – o que faz da lei (qualquer lei), um luxo.

Depois da queda de Siad Barre – que, com apoio soviético, se aferrou ao poder por mais de 20 anos, até ser derrubado por uma coalizão de grupos armados em 1991 -, o controle político, econômico e militar se dividiu entre chefes de clãs guerreiros. Em meio ao caos, intelectuais, líderes políticos e juristas de cidades importantes como a própria capital Mogadíscio formaram as Cortes Islâmicas para estabelecer algum controle político e social. Uma vez que não existia burocracia que pactuasse uma Constituição legítima, a religião era um ponto de convergência natural.

Como explica Stig Jarle Hansen, no livro Al-Shabaab in Somália, The History and Idelogy of a Militant Islamist Group (Oxford University Press, 2013), o caldo do islamismo militante já vinha fervendo no país desde a crise petrolífera do início dos anos 70, que enriqueceu a Arábia Saudita o suficiente para que Riad financiasse a expansão internacional de sua filosofia jihadista radical, o wahabismo.

Esta vertente do islamismo militante sunita, fundada e financiada pela dinastia Saud, que comanda a Arábia Saudita desde a fundação do país, prega a submissão do planeta inteiro à mais estrita interpretação da lei do profeta. É uma leitura fundamentalista e expansionista da Jihad islâmica, que inspira todas as frentes sunitas radicais, desde a Al-Qaeda até o Daesh ("Estado Islâmico"). Ainda hoje, a Arábia Saudita financia qualquer imã (líder religioso) sunita que se disponha a abrir uma mesquita de linha wahabista, em qualquer parte do mundo.

E, claro, aplica sua filosofia domesticamente com precisão saudita – o que quer dizer que a família real e os negócios estão à margem da ira divina. Duzentas chibatadas é a pena para o consumo de álcool. Homossexualidade e adultério são passíveis de pena de morte. Mas quando o príncipe Majed al Saud infringiu todas as disposições da Sharia, não deu nada. Em setembro de 2015, ele promoveu uma festa regada a prostitutas, álcool e cocaína em Beverly Hills, que incluiu sexo gay, cárcere privado e ameaça de morte contra três funcionárias da mansão onde ele estava, que se recusaram a prestar-lhe favores sexuais.

Parêntese fechado, apesar da onipresença da doutrinação saudita, os petrodólares e o convite à guerra santa não foram suficientes para estabelecer na Somália, islamita milenar, a coesão em torno de uma corrente religiosa tão radicalmente exclusivista. A ainda mais antiga organização social em clãs impedia o pensamento monolítico.

Da estrutura política comunitária às afinidades pessoais, partes importantes da vida social somali passam pela relação patrilinear; pessoas que têm descendentes masculinos em comum se agrupam. Mas essa união em microestruturas é um obstáculo na formação da coesão macro-estrutural. Não à toa, tão logo conseguiu derrubar o presidente Barre, o movimento armado do início dos 90 se dissolveu nas lealdades familiares sem formar governo.

Duas administrações civis frágeis foram estabelecidas e ficou claro que estouraria guerra civil por tempo indeterminado. Com ela, chegou a fome, o risco de genocídio e o êxodo populacional – que gerou no vizinho Quênia, um mar de barracas chamado Dadaab, o maior campo de refugiados do mundo. Sob o pretexto de garantir a distribuição de alimentos da comunidade internacional à população e fazer o trabalho de Deus, nas palavras do então-presidente George Bush (pai), Washington resolveu entrar em ação e comandar a Força Tarefa Unida da ONU no país.

Aproveitando que já estavam no terreno mesmo (e sem nenhuma relação com o fato de que a Somália possui a maior extensão costeira da África Oriental, com saída para o Oceano Índico e o Mar Vermelho), os Estados Unidos tentaram capturar um dos dois auto-proclamados presidentes do país, Mohamed Farrah Adid.

O resultado dessa tentativa improvisada de mudança de regime foi a batalha de Mogadíscio, retratada no filme Falcão Negro em Perigo – que, aliás, merece outro parêntese. Para se ter ideia da carga de ideologia racista contida no longa, não há negros entre os marines; dos negros somalis, ninguém tem nome. Todos respondem pela alcunha skinny (magrelo), apelido no mínimo de mau gosto, em uma operação de combate à fome. 

O fato é que a batalha de Mogadíscio, por mais heroica que pareça pela lente hollywoodiana, foi um fracasso retumbante, que custou dois helicópteros e 18 soldados às forças invasoras. Bill Clinton, que acabara de assumir a Casa Branca, aproveitou a comoção em torno do vexame para retirar as tropas, em março de 1994. Com calculada emoção, o novo mandatário disse que os corpos de soldados que “só queriam dar de comer a pessoas com fome” foram “dessacralizados por gangues de somalis armados”.

Durante o raro e breve período de ausência de ingerência militar externa que se seguiu, as milícias em guerra se dividiram em mais e mais facções, rachando de vez um país já ingovernável. Conforme alguns clãs tentavam criar um Governo Nacional de Transição (GNT), Mogadíscio sofria uma onda descontrolada de estupros, assaltos, saques e assassinatos, que levou à formação de uma força de paz da União Africana, capitaneada pela Etiópia.

Por se tratar um ex-império regional e um rival histórico, a participação etíope foi vista com péssimos olhos pela população, bem como o fato de que o outro governo (Governo Federal de Transição, GFT), tinha sido formado no Quênia, à revelia da população. Apesar de reconhecida pela comunidade internacional, a administração não tinha qualquer legitimidade interna. Percebendo a inquietação do povo, os islamitas impuseram uma política de tolerância zero com o crime e ainda compraram a briga contra a ingerência externa patrocinada pela ONU.

Mais do que a religião, foi este movimento institucionalista que empoderou os wahabistas. Formadas em meio a tamanho caos, as Cortes Islâmicas de aplicação da Sharia conquistaram a população ao virar a coisa mais próxima de um governo, ainda que funcionassem como ditaduras aristocráticas de um Judiciário fundamentalista.

Tão logo essas forças sentiram consolidada alguma hegemonia num país cindido pelos clãs, elas colocaram em prática a parte militante do wahabismo. Formou-se a União das Cortes Islâmicas (UCI). A nova organização engrossou a voz e declarou, no início de 2006, que as tropas de “manutenção da paz” seriam tratadas com hostilidade, fossem quenianas, etíopes, estadunidenses ou europeias. Em poucos meses, a organização já tinha conquistado grande parte do sudeste do país, incluindo Mogadíscio.

Depois de quase um ano de guerra total, tanques etíopes marcharam sobre a capital. No último dia de 2016, a UCI se viu obrigada a recuar em direção à fronteira queniana. A guerra – que contou, já nos estertores, com bombardeios norte-americanos – serviu para dissolver a ditadura das Cortes e restabelecer o Governo Federal de Transição.

Mas, já em fevereiro, ficou claro que, das sombras da clandestinidade, emergia uma guerrilha perigosa, quando cerca de 800 manifestantes saíram às ruas da capital para queimar bandeiras dos Estados Unidos, Etiópia e Uganda. No mesmo ato, homens mascarados fizeram ameaças de ataques a bomba contra Quênia e Etiópia.

Al Shabaab, precursor tático do grupo Estado Islâmico

Era o primeiro sintoma do nascimento da Harakat al-Shabaab, que inauguraria uma nova tendência do wahabismo militante: espalhar o terror de forma transnacional, como estratégia publicitária para reunir muçulmanos sunitas hostilizados e humilhados do mundo inteiro em torno da luta pela formação de um governo islâmico universal. Um califado que limparia o mundo dos infiéis e imporia a toda a humanidade uma interpretação fundamentalista e apocalíptica da lei do profeta.

O sucesso da Al-Shabaab nas relações públicas é inegável e certamente serviu de inspiração para o grupo Estado Islâmico. Prova disso é que, apesar da invisibilidade midiática da jihad violenta na África – à época, ainda mais eclipsada pela Primavera Árabe e pela ascensão de outras milícias wahabistas no Oriente Médio -, sempre houve presença maciça de estrangeiros nas linhas da organização.

Um pesquisador citado por Stig Hansen recenseou militantes feridos em um hospital de Mogadíscio em junho de 2011 e descobriu 38 ocidentais e asiáticos, 125 africanos de outros países, um estadunidense e dois sauditas. Entre os mortos, a diversidade era ainda maior, com gente de Bangladesh às Ilhas Comores, passando por Grã-Bretanha, Bélgica, Suécia e Noruega. Descobriu-se, ainda, que entre as lideranças do grupo, havia veteranos da primeira Guerra do Afeganistão – ou seja, moujahadins ultra-radicais treinados diretamente pelo Pentágono para enfrentar a invasão soviética no final dos anos 70.

Pela metade de 2008, o grupo já havia feito o que o autoproclamado Estado Islâmico faria em 2015, deixando o mundo inteiro boquiaberto: aproveitar o colapso de um Estado para tomar de assalto vastas franjas de território, aliando geopolítica, publicidade, tática de guerrilha e a divulgação de atos de extrema violência pelas redes sociais. No ano seguinte, depois de vários atentados extremamente cruéis e midiatizados, a al-Shabaab seria declarada organização terrorista pelos Estados Unidos.

Apesar da clara ameaça que o grupo representava, apesar do fato de que suas táticas inspirariam outras jihads ultrarradicais, os Estados Unidos optaram por não declarar guerra. A força de ataque seria formada pela União Africana, supervisionada pela ONU e com “apoio tático” estadunidense.

Obama institui assassinato como política de Estado

Só que este “apoio tático” se transformou numa completa subversão das leis internacionais – e mesmo estadunidense – sobre a hostilidade militar. De acordo com a Constituição dos EUA, um presidente não pode iniciar uma ação bélica sem o aval do Congresso; e consta no artigo 50 da Convenção de Genebra que, “se houver dúvida se uma pessoa é ou não combatente, ela deve ser considerada civil”.

O departamento de Estado comandado por Hillary Clinton sob a gestão Obama aproveitou a situação somali – e a pouca atenção que o país desperta da opinião pública internacional – para tirar estes “empecilhos burocráticos” do caminho do império e da indústria armamentista que o sustenta. A Somália, junto com o Iêmen, outro semi-Estado esquecido, virou campo de testes da guerra secreta dos drones.

Embora o nome escolhido pela estratégia de relações públicas de Washington tenha sido clean target killings - ou mortes direcionadas, em tradução livre -, a prática transformou o assassinato em política do Estado americano. Conforme revelou The Intercept, a partir de documentos vazados da inteligência estadunidense, apenas 10% das vítimas dos drones eram alvos designados. Os outros 90%, são absolutos desconhecidos – ou melhor, civis, seguindo a terminologia de Genebra.

Como se não bastasse, este tipo de assassinato é feito em um território contra o qual os Estados Unidos não declararam guerra. Ou seja, eles significam que, potencialmente, o presidente dos EUA pode matar qualquer pessoa do mundo como num jogo de videogame. Depois deste vazamento, Obama foi obrigado a se explicar. Contradizendo abertamente as estatísticas de sua própria administração, admitiu as mortes de 116 civis ao redor do mundo, entre 2009 e 2015. Mas um único ataque em Mogadíscio matou 150.

Além das milhões de implicações éticas desta nova-velha tática de assassinar quem se bem entende, há a questão da imensa insegurança jurídica que ela acarreta. Levando em conta que a Al-Shabaab segue uma lei escrita – por mais cruel que seja sua aplicação da Sharia –, qual o efeito psicossocial do abandono deliberado da mais alta lei internacional (a que impediu o holocausto nuclear durante a Guerra Fria) pelo governo que invade com a promessa restaurar a ordem? E, pior, qual esse efeito no caso da Somália, cujo único período de supremacia do direito foi durante a ditadura das cortes islâmicas?

Movimentações suspeitas às vésperas do atentado

A curto prazo, o efeito provável é o reforço da Al-Shabaab e da retórica wahabista radical. No longo prazo, corre-se o risco da obsolescência completa da legalidade por meio da consolidação da lei do mais forte. Talvez a Somália já esteja nesta segunda etapa, infelizmente. Talvez o silêncio da Al-Shabaab sobre o atentado de sábado seja de fato a constatação calada de um erro estratégico em um momento de possível consolidação social da sua ordem de contorno fascista.

Ou talvez estas sejam duas suposições ingênuas, que perdem de vista – não por preguiça, mas por falta de elementos de análise – o verdadeiro jogo geopolítico em curso. Para quem quiser tentar caçar o pelo do ovo, talvez seja uma boa pesquisar dois acontecimentos aparentemente desconexos. O primeiro é que, na véspera do ataque, o ministro da Defesa da Somália, Abdirashid Abdullahi Mohamed, e o chefe do exército, genera. Mohamed Ahmed Jimale, pediram demissão.

E o outro, talvez mais conspiratório, mas também mais intrigante, é o fato de que a Turquia do autocrata Recep Tayyip Erdogan, primeiro país a disponibilizar leitos e transporte para as vítimas, abriu há apenas 15 dias sua maior base militar internacional, justamente em Mogadíscio.

Especialista em guerra de fachada contra organizações wahabistas, suspeito de ter permitido atentados contra seu próprio povo em nome de interesses políticos e econômicos, Erdogan está investindo US$ 50 milhões no treinamento de 10 mil soldados somalis para enfrentar a Al-Shabaab – que hoje domina apenas 10% do território que já teve. Não há nenhuma insinuação aqui, mas o investimento só retorna se o inimigo existir.

Se a violência vem de todos os lados, por que não nossa indignação?

A pergunta que surge de tudo isso é: se toda a geopolítica global se tornou uma teia de violência crua, por que nos incomoda a violência da Al-Shabaab, da Al-Qaeda e do tal Estado Islâmico enquanto ignoramos a da Arábia Saudita, dos Estados Unidos, da Europa e da Turquia, de onde emana a distopia? Por que vemos imundície completa nos massacres promovidos pelo “outro” imaginário, mas aceitamos que se varra para baixo do tapete a igualmente brutal violência daquele que identificamos como “um de nós”? Um palpite: por preguiça intelectual pré-determinada. Porque estamos exageradamente condicionados a uma leitura não-racional do mundo.

A violência que nos impacta é a que vem de forma subjetiva e sensorial; é aquela que a gente vê, que tem cheiro, que tem lágrima desesperada. Se vier acompanhada de violino, ainda melhor. Choca aquela violência que é ressignificada em nossa cabeça pela emoção e não pela razão. É óbvio que o Al-Shabaab não é o “outro”; a violência dele não está, de forma alguma, isolada deste mundo. Se, para nós ele é o “outro”, é de forma mistificada: estamos usando a existência do não-humano como parâmetro da nossa humanidade. E aí, necessitamos do “outro” como o Batman, aquele playboy fascista, precisa do lúmpen proto-anarquista Coringa. Precisa da desordem completa para justificar seu esforço paranoico-compulsivo de reorganização do mundo.

Por isso, criamos o “não-humano” o tempo inteiro.

Este longo texto pode parecer, mas não é insensível. É um apelo pelo compromisso com o potencial revolucionário da sensibilidade. Não basta que encontremos a melhor hashtag para expressar nossa solidariedade às vítimas do horror que assola a Somália. Precisamos buscar as raízes da nossa falta de compromisso com o estancamento do sangue. Só a partir daí, conseguiremos enfrentar objetiva e intelectualmente a barbárie que nos é inerente.

Texto publicado originalmente no Justificando, a 17 de outubro de 2017
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29 setembro, 2017

Como bilionários usaram as redes para colocar Trump na Casa Branca



Como um trollador do Twitter foi parar na Casa Branca? Quem compôs a base – e o teto – de Donald Trump? Este texto tenta ligar os pontos de uma trama que envolve a desconexão entre o mainstream democrata e o contexto político dos EUA de 2016; a instrumentalização política de um grupo niilista de fãs de videogames e animes por megacorporações de finanças, tecnologia e inteligência militar; a inversão do fluxo de influência entre a grande mídia e a (a)política das redes. Este texto discute, enfim, como se desenvolveu esta nova cepa de infecção fascista que se alastra pelos Estados Unidos, do Vale do Silício a Wall Street, de Minneapolis à Casa Branca. 

A elite liberal obsoleta e o feminismo conjuntural 
Para entender o processo de primárias do Partido Democrata, é preciso analisar como a grande imprensa liberal gastou sua última fatia de credibilidade para enterrar a campanha de Bernie Sanders. Veículos como o Wall Street Journal, o USA Today, LA Times, o inglês The Guardian e até a Vice, que tem um verniz contracultural, foram os principais promotores do termo pejorativo "Bernie Bros", que classificava os homens jovens que seguiam Bernie Sanders como "esquerdomachos" brancos utópicos que, decepcionados com o "realismo" econômico de Barack Obama, apoiavam propostas “absurdas” como universidade gratuita e o salário-mínimo de US$ 15 por hora. A virulência anti-alternativa, que ia da infantilização à hostilidade aberta contra quem se posicionasse do autoproclamado lado socialista da disputa, chegou a patamares absurdos e até contraditórios como quando Gloria Steinem, que foi pioneira do movimento feminista dos anos 60, disse que mulheres só seguiam Bernie Sanders pra impressionar seus companheiros esquerdomachos.

Mas até aí, era o establishment defendendo sua própria conservação com as armas publicitárias do seu tempo. Uma eleição de Hillary Clinton significaria uma manutenção dos mesmos lobbistas em Washington; asseguraria um controle estável sobre a Arábia Saudita; uma guerra militarmente fria, mas comercialmente quente com a China; a demonização da Rússia; a expansão da guerra pelo petróleo e os consequentes contratos militares e energéticos no Oriente Médio... Enfim, uma eleição da Hillary manteria o império fazendo seu business as usual, vestido numa indispensável fantasia liberal. Hillary construiria o muro na fronteira sul, mas sem fazer propaganda; expulsaria mais imigrantes do que Obama (que, aliás, expulsou mais do que qualquer outro presidente), mas pregaria abertura de fronteiras por meio de tratados comerciais; continuaria pregando transparência e perseguindo "whistleblowers" como Edward Snowden, Julian Assange e Chelsea Manning; continuaria fazendo do assassinato, política de Estado com a guerra e drones enquanto pregaria a necessidade de invadir países estrangeiros em nome da democracia; Em suma, Hillary manteria o business as usual.

Mas governar do jeito democrata exige um grau de hipocrisia discursiva que Donald Trump não tem sequer sofisticação para desenvolver. Pelo contrário, ele é o cara que diz que a economia “tem que ser gerida pelos ricos porque, obviamente, eles são bons nisso”. Se você não tem empatia nenhuma, não tem porque ocultar suas intenções numa caixinha humanitária.

O caso de Hillary era diferente. Desde as primárias, o slogan de correção política e renovação sob o qual Hillary esconderia o velho pacote de maldades de Wall Street foi o “feminismo”. Mas, como ter a Arábia Saudita e o Goldman Sachs no topo da lista de doadores de campanha é o tipo da coisa que não combina com feminismo (ou com qualquer filosofia de empoderamento coletivo), foi preciso distorcer o conceito. Do feminismo; não do financiamento, é claro.

A distorção foi tirar do feminismo seu potencial revolucionário, popular, e apostar na ideia de representatividade: a substituição automática de uma coletividade (e dos anseios coletivos) por um indivíduo, com anseios individuais. Isso havia funcionado bem nas duas campanhas de Obama. Hillary apoiava sua retórica na ideia de que ser mulher a transformava em representante universal do sexo feminino e, portanto, sua eleição significaria uma inversão profunda e automática no sistema de opressão social. 

Esse argumento contraria 60 anos de experiência do movimento negro e do movimento feminista, que escancararam o quanto a estratégia de pescar um ou outro representante das massas oprimidas é eficiente para estancar convulsões sociais. Quem mais se renova com a representatividade concedida não é a condição do oprimido, mas o próprio sistema de opressão. 

A estratégia da Hillary de se apresentar como representante universal e incontestável das mulheres tinha o objetivo de blindá-la. Colocá-la acima de críticas. Se criticar Hillary naquele contexto da disputa com o Bernie Sanders era criticar as mulheres, toda crítica a ela, fosse política ou não, seria tratada como misoginia. 

Foi neste contexto de desclassificação identitária da crítica política que a grande mídia estadunidense inventou esse termo Bernie Bros. Que não é uma ideia inédita também. Pouca gente lembra, mas nas primárias de 2008, a imprensa mainstream criou o termo Obama Boy pra definir a ala masculina dos apoiadores do Obama - e em vários casos, como aconteceu com os apoiadores de Sanders, era hipermasculinizada e misógina mesmo. Mas claro que era bem mais difícil colar com o Obama do que com o Sanders porque Obama tinha a carta racial na manga. E, apesar do discursoe aparência outsiders, era um cara do campo majoritário do Partido Democrata. 

Que fique claro que isso não é um manifesto contra a denúncia de comportamento misógino dentro da esquerda. É uma defesa de que ela seja feita seriamente, de maneira crítica e não publicitária. Em outras palavras, que seja feita com um interesse real emerradicar estruturas machistas. Caso contrário, isso não passa da instrumentalização de conceitos progressistas para fins conservadores.
Para quem usava linguagem publicitária para gerar slogans de desclassificação da crítica política à Hillary Clinton, o fim da opressão sistêmica contra as mulheres estava longe da pauta. “Mudança” era um conceito alheio à campanha porque Hillary Clinton era o status quo.Foi um projeto conservador que mobilizou os slogans feministas. E aí, se o fundo é conservador, o discurso feminista é publicitário; ele é uma marca vazia de sentido político, cujo único objetivo é viabilizar comercialmente um determinado produto - no caso, Hillary Clinton. 

Uma vez que a representação identitária, esvaziada de sentido revolucionário ocupasse o lugar da política e do embate de ideias, a candidatura do Sandersestaria enterrada. O que restariaseria uma disputa de imagens: um homem velho, com cara de velho e voz de velho, contra uma mulher que, apesar de velha – tanto no discurso quanto na política –, perto dele, parecia jovial,uma vez que havia feito da aparência de jovialidade, estratégia de campanha. Quer dizer, ao deixar a publicidade dar o tom da campanha, o establishment liberal (mídia + campo majoritário do Partido Democrata) optou pelo esvaziamento da política. Sendo que só a honestidade do embate político poderia salvar uma candidatura democrata num contexto tão polarizado. 

Um elefante na rede 
Só que, enquanto o “campo progressista” (haja aspas!) gastava todas as fichas nessa disputa publicitária; enquanto a esquerda repaginava sua marca para ver quem era mais politicamente correto, a extrema-direita vinha captando a raiva de uma juventude que chegou à adolescência na era Obama e via a esquerda – e sua correção política – como status quo. Era uma juventude branca, silenciosa e anônima que, acima de tudo, entendia o "multiculturalismo politicamente correto",tônica da falácia “pós-racial” da era Obama,como a ferramenta de repressão de seus desejos individualistas de violência física e simbólica. 

Enquanto a esquerda disputava a primazia do politicamente correto, nas redes, o "Politicamente correto" virava alvo de chacota. Anos de desenvolvimento de uma cultura de escracho, humilhação, de humor irônico que vira e mexe degringolava para a crueldade e a violência...Tudo isso passou ao largo da esquerda. Passou ao largo da esquerda o 4Chan: um fórum niilista em que uma maioria de adolescentes geeks brancos, orgulhosamente misóginos, homofóbicos e racistas usava perfis anônimos para postar memes, fotos, vídeos e comentários que iam do humor politicamente incorreto à extrema violência pornográfica. 

Enquanto permanecia enclausurado nas redes, o 4Chan não parecia muito mais do que uma fábrica de memes de mau-gosto. Mas essa comunidade começou a impactar o mundo real de maneira assustadora. Eles promoveram uma campanha nacional pelo suicídio de uma menina de 13 anos que tinha postado um vídeo falando em gíria gangsta. Várias blogueiras - principalmente de videogames - viraram alvo de trollagem pesada, que ia de montagens em fotos pornográficas a ameaças de estupro e morte. 

Até o momento em que crimes de ódio começaram a ser anunciados ou relatados orgulhosamente nos fóruns do 4Chan. Em 2014, pouco antes de ser preso, David Kalac postou no 4Chan fotos do corpo nu da namorada, que ele disse ter assassinado "porque estava de saco cheio". Antes de entrar armado na faculdade e matar nove colegas em outubro de 2015, Chris Mercer aparentemente alertou seus colegas de 4Chan a não irem para a Universidade de Roseburg no dia seguinte. Um mês depois desse caso, cinco ativistas do Black LivesMatter foram baleados em Minneapolis - um crime que também havia sido anunciado no 4Chan

A cada ataque a uma escola, cada foto de mulher agredida, cada tiro em um negro ou latino, alguém perguntava no fórum se a revolução "beta" havia começado. Bom, a revolução beta começou de fato quando um trollador do Twitter, abertamente misógino e racista, bully orgulhoso, anti-politicamente correto, revisionista histórico, apologista da ignorância, darwinista social – enfim, um cara que reunia todas as características dos anti-herois do 4Chan – venceu as primárias republicanas e iniciou sua campanha rumo à Casa Branca. Não foi aà toa que, em outubro de 2015, Donald Trump postou uma caricatura dele mesmo caracterizado como Pepe The Frog, o mascote do 4Chan. 

A politização do niilismo na era do autoritarismo 2.0 
Mas o 4Chan, embora seja a base de sustentação da distopia, não agiu sozinho. Outros sites e colunistas captaram e politizaram essa energia. O principal deles é o Breitbart News, fundado em 2007 por Andrew Breitbart e presidido por ninguém menos que Steve Bannon, que dirigiu a campanha do Donald Trump e foi estrategista-chefe da administração até o mês passado, quando foi demitido e voltou pro Breitbart.

Bannon é uma figura bem peculiar, como mostra o incontornável episódio sobre ele da série documental The Empire Files, da Telesur. Veterano da marinha, fascinado por guerra, com histórico de abuso de mulheres, entusiasta do TeaParty, ex-articulador político no mundo virtual do game World ofWarcraft, ex-analista do Goldman Sachs... e cineasta. Quer dizer, se é que dá pra chamar de cineasta alguém que só faz filme apocalíptico de propaganda de extrema-direita.

Em um dos filmes dele, OccupyUnmasked, ele denuncia os militantes do Occupy Wall Street como uma seita de criminosos “anarco-comunistas” que vieram para destruir a civilização; o mais recente (Torchbearer, 2016), que é apresentado por um texano maluco em uniforme militar, explica como o Estado Islâmico nasceu do abandono da teoria criacionista pelos cristãos. Por causa desse currículo, ele chegou a se comparar a LeniRiefenstahl, a cineasta particular de Adolf Hitler.

Mas, além de usar seus contatos no meio financeiro para capitalizar o Breitbart e transformar esse hub de fakenews numa máquina midiática com mais de 18 milhões de acessos por mês, talvez o papel mais sinistro do Steve Bannon tenha sido como vice-presidente da Cambridge Analytica. A Cambridge Analytica é uma empresa de big data que tem como principal acionista um outro nome fundamental dessa trama: o bilionário Robert Mercer. Mercer é um cientista da computação, pioneiro da inteligência artificial e um gênio das finanças, dono de um fundo de investimentos que cresce quase 72% ao ano, de acordo com o jornal inglês The Guardian.

Coletar dados para mudar comportamentos 
Já a Cambridge Analytica talvez seja a maior ferramenta de subversão da democracia já inventada. No início dos anos 2010, quando ainda se chamava SCL Elections, o negócio da companhia era encontrar vácuos legislativos e aplicar estratégias militares de guerra psicológica (PsyOps) pra eleger seus clientes a cargos executivos em países periféricos como Gana e Quênia. Esse modelo de negócios evoluiu quando a filha do CEO da Alphabet (holding do Google), Eric Schmidt, promoveu o encontro da chefia da empresa com uma companhia do Vale do Silício chamada Palantir, especialista em coleta de dados online. A Palantir, cujo proprietário é Peter Thiel, co-fundador do PayPal e primeiro executivo do Vale do Silício a declarar apoio a Donald Trump, é uma das fornecedoras de informações pessoais nossas para a Agência estadunidense de Segurança Nacional (NSA), por exemplo.

Bom, depois deste contato, a Cambridge Analytica mudou não só de nome, mas de foco. Para fugir da legislação eleitoral dos países em que ela pretendia atuar, ela passou a usar uma companhia domiciliada no Canadá, a AggregateIQ, que tinha a missão de construir perfis psicológicos de eleitores a partir da combinação de dados retirados das redes sociais. Usando a experiência nas estratégias de guerra psicológica, a Cambridge rastreava eleitores ou grupos de eleitores suscetíveis a mudar de opinião.

A Cambridge – cujo slogan é “usar dados para mudar o comportamento do público” - descobriu que era possível determinar, a partir das curtidas de Facebook, se uma pessoa tinha tendência à paranoia, por exemplo. Se esse indivíduo fosse um potencial paranoico, bombardeá-lo com notícias de assaltos perto de seu endereço poderia estimulá-lo a defender uma pauta como a flexibilização da legislação armamentista, por exemplo. Assim, essa pessoa se encaixaria em uma agenda específica da direita - o que permitiria que a Cambridge construísse uma campanha personalizada para ela. E não se trata de uma campanha com informações e anúncios: é uma campanha que aprende a maneira da pessoa pensar e introjeta uma ideia externa como se fosse inata. 

O chefe de pesquisa de uma concorrente da Cambridge disse em entrevista ao New York Times que esse novo mercado de lobby político ultrapassa o compartilhamento de informações. Trata-se do "compartilhamento do pensamento e do sentimento por trás da informação".
O primeiro campo de teste desta nova forma de atuar da Cambridge foi o referendo de saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado Brexit. De acordo com The Guardian, a principal frente pelo Brexit, Vote Leave, investiu 3,9 milhões de libras - mais da metade de seu teto de gastos de 7 milhões - na AggregateIQ, a subsidiária canadense da Cambridge. Os três outros blocos pró-Brexit pagaram mais 757 mil libras para a mesma companhia. Ao que parece, as frentes coordenaram seus investimentos sem declarar orçamento conjunto, o que é proibido pela lei eleitoral britânica. 

Por isso a comissão eleitoral chegou a investigar o caso, como a imprensa britânica noticiou amplamente. Mas a companhia canadense informou que mantinha um acordo de confidencialidade com os clientes. Como estava fora da jurisdição britânica, ficou por isso mesmo.

O fato é que o big data - e, principalmente, o que eles chamam de personal messaging, que é a campanha personalizada para cada perfil psicológico - se mostrou muito mais eficiente do que a legislação britânica. Ainda assim, como a atuação dessas empresas é guardada a sete chaves, é muito difícil determinar qual foi o real impacto dessa estratégia na vitória do Brexit.

Mas o fato é que Steve Bannon que, em 2014, havia aberto um escritório londrino do Breitbart para reforçar a extrema-direita no Reino Unido, ficou muito satisfeito com o resultado. E apresentou a fórmula para o senador texano Ted Cruz nas primárias republicanas. Mas o sistema falhou em Oklahoma, quando metade dos eleitores que a Cambridge havia indicado como favoráveis aCruz votaram em outros candidatos.

Essa parceria foi encerrada e a Cambridge se aproximou de Trump para a disputa contra Clinton. Como o Trump tinha uma retórica bem definida, um público-alvo muito específico e um discurso populista, pseudo-transgressor, muito mais forte do que o da oposição, a estratégia adotada não foi estimular o voto no candidato republicano, mas convencer o eleitor democrata a não sair de casa. Se deu certo ou não, é difícil saber porque, apesar de o comparecimento nas eleições de 2016 ter sido o menor em 20 anos, a abstenção se mostrou uma tendência global. Mas a Cambridge tem se vendido para os clientes como player "fundamental" para a construção do "maior fenômeno político dos Estados Unidos".

Refluxo: a esquerda precisa enterrar cadáver da grande mídia 
Se foi de baixo para cima, com os 4channers, os adolescentes dos fóruns de videogame; ou de cima pra baixo, com bilionários usando inteligência militar para sequestrar a democracia, o fato é que a mídia liberal tradicional perdeu completamente o controle sobre a formação de opinião. No livro “Kill all Normies” (de onde veio a maior parte das informações sobre o 4Chan contidas neste artigo), a socióloga especialista em extrema-direita Angela Nagle lembra que, há apenas dez anos, na primeira eleição de Barack Obama, a imagem mais compartilhada nas redes foi aquele cartaz oficial escrito Hope, que tinha um estêncil do Obama em azul e vermelho. O que aconteceu ali foi a viralização de um conteúdo oficial.

Desta vez, foram os memes criados anonimamente nos confins da internet que deram o tom da campanha. As fake-news, cujo principal propagador era o site administrado pelo chefe de campanha do candidato mais reacionário, tomaram a arena dos debates. E, de repente, Hillary Clinton estava defendendo em rede nacional que seu marido não é um estuprador em série. Barack Obama via-se obrigado a explicar que não foi o fundador do Estado Islâmico - e tudo isso para o deleite da turma da piada politicamente incorreta no 4Chan.

Ainda é cedo para comensurar o impacto deste processo na cultura política. Mas uma coisa é certa: o fluxo de propagação da comunicação se descentralizou. O que antes vinha do mainstream para o underground passou a ir do underground para o mainstream. Esse tipo de subcultura horizontal anônima sempre existiu na internet e chegou a animar alguns teóricos ditos progressistas, como Manuel Castells, que anunciou a chegada de uma sociedade em que velhos modelos hierárquicos de produção cultural seriam substituídos pela sabedoria coletiva.

Quando estouraram as revoltas de massa descentralizadas (Occupy, Indignados, Primavera Árabe etc.) e o hackeamento politizado, do Anonymous ao Wikileaks parecia que esta utopia estava em vias de se concretizar. O problema é que o modelo organizacional e a ética do movimento são inter-relacionados, mas não são a mesma coisa. Se no Egito, a revolta foi parar na Irmandade Muçulmana e depois no golpe militar de Abdel Fattah al-Sissi; o movimento da praça Maidan, na Ucrânia, deu em uma alvorada neonazista. Sob o guarda-chuva da descentralidade das redes, da pseudo-isonomia das opiniões, do controle das massas pelas massas, emergiu uma cultura autoritária, de imposição de valores anti-humanos, racistas, homofóbicos, misóginos.

Além do conservadorismo da esquerda (fazendo a concessão de chamar democrata de “esquerda”) – que não soube apresentar-se como esquerda, mas como um fantoche neoliberal travestindo bandeiras progressistas em slogans politicamente corretos –, a cooptação pela direita dessa inversão no fluxo de propagação ideológica foi fundamental para que o candidato mais autoritário e elitista conseguisse se vender como representante das massas. Claro que, quando o engomadinho de Wall Street fala nos confins do Texas "Eu sou um de vocês", não há identificação imediata. A identificação passa pelo bullying nos fóruns da internet; pela absoluta falta de empatia (vista como uma qualidade transgressora na era do “multiculturalismo” excludente do obamismo); é uma identificação é com o niilismo dessa cultura ultra-autoritária que se livra não só das amarras narrativas dos "formadores de opinião" da mídia mainstream, mas também das restrições éticas e morais à propagação de informação e opinião.

O que podemos começar a aprender com esse conto de terror?
O empoderamento dos trolladores do 4Chan é a ideia de que em meio a uma coletividade anônima, cada indivíduo tem sua própria lei, isento de qualquer contrapartida social.E é isso que Trump promete: nenhum compromisso social. Em outras palavras, a radicalização da liberdade individual. No espaço anônimo da internet, esse conceito central da ética liberal despe sua última camada humanista, que era a ilusão de que ela poderia servir regular “natural” das interações entre as pessoas. Aquela velha máxima liberal atribuída ao filósofo individualista Herbert Spencer de que “minha liberdade acaba onde começa a do outro” não tem mais lugar. Agora, “minha liberdade termina com a eliminação do outro”.

Talvez essa concepção de coletividade como uma ferramenta de empoderamento de desejos individualistas seja uma das bases éticas do fascismo neoliberal. As coletividades, neste ambiente inóspito são conjunturais. Por isso, nosso combate tem necessariamente que refundar radicalmente a concepção de coletividade, em bases duradouras e inegociáveis. A formação da coletividade não pode depender da ocasião. Ela tem de ser um pilar indestrutível da nossa luta.

E talvez isso passe por encarar o outro como parte de nós mesmos; encarar a representação não como um fim em si, mas como uma ferramenta de mudança radical. Se sobra uma lição do fracasso do Partido Democrata, é que o empoderamento individual e a correção política liberal não vão servir para esse fim.

Não só porque são conceitos desprezados pela juventude que vê a esquerda como status quo e direciona sua rebeldia adolescente contra nossas bandeiras. Mas principalmente porque estes conceitos não têm densidade radical. 

A correção política não é uma ideia de eliminação da desigualdade (étnica, de classe, de gênero etc.); ela é a ferramenta de manutenção da aparência de normalidade dentro da macro-estrutura de opressão. Ser "politicamente correto" significa partir do pressuposto de que, em nome da harmonia da sociedade, você precisa conviver com pessoas que não te agradam. Em outras palavras, ter "tolerância". Você tolera um cheiro ruim, tolera um vizinho que faz barulho, tolera coisas desagradáveis que não deveriam existir. 

É um absurdo que a gente fale de "tolerância" a minorias, por exemplo. A gente não tem que "tolerar" transexuais como se fossem uma espécie de mal inevitável da sociedade. Não, temos que integrar os direitos de transexuais à raiz de sua luta. Nossa política econômica, política de saúde, nosso ministério da Pesca, que seja, têm de considerar e integrar meios de promoção dos direitos trans. Dos direitos das mulheres, dos negros... Vale para qualquer categoria oprimida. 

Se acharmos que política econômica é uma coisa e política social é outra, isolaremos os meios de promoção da igualdade – o que significa que ela nunca será integral e integrada a todas as nossas ações. Para usar um termo da moda, temos que ser interseccionais - o que pressupõe que todas as lutas devem correr paralela e concomitantemente, sem hierarquia. Todas as ações devem considerar todas as lutas. É a partir daí que vamos constituir a coletividade inegociável que fará frente à atomização social que serve de combustível para o fascismo neoliberal. 

O jeito de enfrentar o fascismo é não ser hipócrita – e nos colocar como esquerda revolucionária que somos. E a honestidade revolucionária implica não adotar a lógica publicitária. Como ferramenta psicológica de ativar o sentimento de pertencimento social ao incutir necessidades inexistentes de consumo na cabeça população, a publicidade é intrinsecamente hipócrita e autoritária. Logo, este não vai ser o caminho: muito mais importante do que a aparência de mudança - a mulher no cargo X, o negro na propaganda da marca Y - é nosso compromisso real com essa mudança. Não bastauma mulher à frente de uma comissão parlamentar, precisamos de cota de 80% para mulheres no Legislativo. 

Mesmo que a gente não consiga fazer, entre nós, é hora de exigir tudo. Porque o risco de absorver e naturalizar o discurso publicitário, o risco do uso seletivo do individualismo, do apego a microprivilégios de classe, da instrumentalização oportunista das bandeiras emancipatórias. O risco, enfim, de nossa inconsistência ideológica é a consolidação de uma nova categoria de fascismo, em que o 1% instrumentaliza o niilismo da juventude, que deriva da obsolescência do establishment liberal e do esgotamento, pela hipocrisia,das nossas bandeiras históricas. 

Claro que em se tratando de política (ou mesmo de sociedade humana, num sentido mais amplo) nenhum processo se transmuta automaticamente de uma realidade para outra. Mas a história das eleições estadunidenses de 2016 é um caso de estudo obrigatório para que nós, aqui no Brasil, nos armemos – em termos ideológicos, comunicacionais, políticos, tecnológicos e eleitorais – para enfrentar um mundo de demandas individualistas descentralizadas, que percebe rastros de hipocrisia nas nossas bandeiras e vê como ironicamente autêntica a hipocrisia da extrema-direita. Vencer o fascismo neoliberal passa por entender as condições que o fizeram florescer; ou seja, as condições que deram à luz Donald Trump.

Texto originalmente publicado pela Fundação Perseu Abramo, em 18/09/2017
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12 julho, 2017

A caricatura da elite brasileira que a condenação de Lula revela

Lula discursa na Organização das Nações Unidas, em 2008. Foto: Wikipedia

Se você é povo (em outras palavras, se não tem dinheiro em paraíso fiscal) e tá comemorando a condenação do Lula, você tá de chapéu. Não é uma pessoa física que Moro quer tornar inelegível e botar atrás das grades por quase dez anos. É um símbolo.

Quem precisa de provas para condenar um símbolo? A destruição violenta de ícones populares é prática inscrita no DNA das elites ao redor do mundo. Afinal, elas precisam de todo um conjunto simbólico - ora fornecido pela Igreja, ora pela publicidade, ora pelo Partido da Imprensa Golpista, ora por todos os anteriores - para sustentar sua hegemonia insustentável. Só uma ideia simbólica mística (como Deus, por exemplo) pode explicar porque a Paris Hilton merece nascer proprietária de um fundo de investimento de bilhões de dólares enquanto uma criança africana não merece herdar mais do que HIV.

É contra a ideia de que o pobre pode aspirar a algo além do servilismo, a cadeia e a cova rasa que conspira o Judiciário. A condenação do Lula, como a condenação de Rafael Braga, é um ato simbólico. Como foi simbólica a morte de Zumbi dos Palmares, cuja cabeça decepada com o pênis enfiado na boca apodreceu em praça pública no Recife. Ou as decapitações do bando de Lampião. Ou a condenação do líder da revolta da chibata, João Cândido, a ser enterrado vivo em cal, ao lado de outros insurgentes. São tentativas oligárquicas de construir na cabeça do povo o trauma da insurgência.

Lula não é uma pessoa, é um símbolo de auto-estima do povo brasileiro, um símbolo de altivez, um símbolo de um Brasil que se coloca de igual para igual com as grandes potências globais. Esse é o problema.

Lembrei de uma vez que fui cobrir, pela rádio pública francesa RFI, uma visita de Estado de Dilma Rousseff a Paris em 2013.

Lula veio também para falar diante do Legislativo francês e de personalidades importantes da política local, como o ex-primeiro ministro Lionel Jospin e o então presidente socialista François Hollande, que dividia o antebraço da poltrona com seu antecessor conservador, Nicolas Sarkozy. Lula ia discursar por meia hora, já que a voz ainda estava combalida pelo câncer na garganta. Mas, graças a incontáveis copos d'água, ele conseguiu falar por três horas. Como sempre, arrancou gargalhadas - inclusive da mesquinha imprensa brasileira, que cobria o evento como se fosse um fato cotidiano regional - e aplausos efusivos do público em geral.

Todo mundo escreveu suas matérias, sem dar uma linha sobre o discurso, priorizando o pseudo-escândalo do momento, que nem eu lembro mais qual era. Eu, que tinha certa liberdade editorial, falei de outra coisa, falei de como a má relação de Lula com imprensa dentro do Brasil se reproduzia também fora, em espaços onde ele teria a possibilidade de aventar outros temas que não a picuinha nossa de cada dia.

Sei que, no dia seguinte, Lula daria mais uma palestra na Fundação Jean Jaurès. No intervalo pro almoço, conversamos brevemente com o então ministro da Fazenda Guido Mantega sobre algum assunto da economia que também não lembro mais qual era. Aumento da taxa selic, talvez. Sei lá, não lembro mesmo.

Os correspondentes foram todos almoçar juntos, eu fui pra outro lado. Não sou muito fã da conversa corporativista dos jornalistas fora do país. E sempre fico deslocado como único preto e único radical de esquerda. Almocei com um repórter da imprensa francesa. Ele tinha lido as matérias dos colegas brasileiros e estava intrigado. Não conseguia entender por que nossos jornalistas "sabotavam o Brasil", como ele disse.

Não entendia por que davam importância desproporcional a um "escândalo" exageradamente local, inconsistente e sem provas, no dia seguinte a uma palestra em que o homem havia tocado os pontos mais importantes da agenda internacional, de solidariedade petrolífera e erradicação da fome à ausência de órgãos efetivos de regulação internacional da especulação financeira. Isso pra uma plateia de tarimbados dirigentes europeus, quietos e boquiabertos, diante de um peão de fábrica com mais diplomas honoris causa do que todos eles juntos.

O francês me falou uma frase que não esqueço: "O Lula é um patrimônio do Brasil". Para ele, Lula era, internacionalmente, o farol de uma América Latina autônoma e autoconfiante que deixava de obedecer e passava a ensinar um mundo velho e viciado a se reinventar. Lula era o símbolo de um Brasil viável no cenário internacional. "O Brasil não quer ser um ator internacional? Então, destruir o Lula é um boicote ao Brasil!"

Talvez daqui seja difícil ver isso. Mas na Europa, as pessoas tinham a sensação de que o Brasil havia nascido com o Lula. Ninguém sabia o que acontecia por aqui antes do Lula. O Brasil não interessava nem importava pra ninguém, o príncipe que me desculpe. Antes do Lula, a maioria de quem cruzava o oceano Atlântico era playboy que preferia fingir que era europeu do que mostrar nossa cara pra eles. Era gente com vergonha do Brasil. Vergonha da nossa pele escura, do nosso suingue, do nosso sangue mestiço, vergonha até do sol quente que bate aqui.

Ao colocar o Brasil no mapa, Lula não foi sozinho, levou nosso Brasil mestiço na bagagem. E essa é uma diferença que se sente com muita clareza. A elite, com sua força policial capitã do mato e seu poder econômico desaculturado, obriga o pobre a andar cabisbaixo por aí. Mas fora do país, é incrível como a elite tradicional é que andou cabisbaixa nos últimos anos. De peito estufado pelas ruas de Paris estava o povo do Prouni, do Ciências sem Fronteiras, a rapaziada da era PT, que quer que se foda se o gringo vai achar ruim que a gente é preto. É o que a gente é mesmo. E adivinha? Foi aí que o gringo passou a respeitar a gente.

Porque nossa elite não tem o verniz da intelectualidade, que ostenta parte da elite europeia. É uma elite pré-iluminista. E, como tal, não tem mais do que seus próprios preconceitos e autoritarismos em que se aferrar. Quem condena o Lula sem provas, no fundo, é o dono da bola que resolveu acabar com o jogo porque estava perdendo de goleada. É o rico brasileiro que, sem o lastro do dinheiro, da mídia, do Judiciário, do poder político, não tem nada que o diferencie do povo. Só lhe resta lutar para manter essa máscara de branco, cravejada de diamantes para disfarçar sua real matéria-prima: racismo. Para manter a aparência de elite, a elite brasileira rifa o Brasil - devolve, com a reforma trabalhista, a economia nacional a patamares coloniais; encerra, com a submissão à agenda de potências decadentes, nossa perspectiva de autonomia internacional; mata a possibilidade da diversificação dos nossos saberes ao encerrar os programas que permitiam ao grosso da população conhecer o mundo.

Essa condenação de hoje é uma tentativa da elite de não parecer brasileira. Pois nada mais brasileiro do que tentar destruir líderes populares de envergadura histórica em nome de um projeto datado, mesquinho, fadado ao esquecimento. Daqui a 500 anos, Lula será lembrado como o presidente que erradicou a fome do Brasil. A Lava-Jato, se muito, será lembrada como uma operação policialesca com um erro de português no nome.

#LulaInocente
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23 maio, 2017

Violência contra cracolândia é ódio de classe


O que resta de humanidade a alguém capaz de ordenar a demolição de um prédio com gente dentro?
Foto: Fora do Eixo

Eu queria que só por um segundo pensássemos no fascismo/criminalização da pobreza/uso desmedido da força/hipocrisia no tratamento dado à região da famigerada cracolândia. Pra você, de classe média ou rico mesmo, eu tenho uma pergunta: como os viciados (ou, como vocês chamam os seus, "dependentes químicos") são tratados no seu entorno? Quantos milhares de reais você já viu ser gastos em clínicas, terapias, viagens ao exterior?

Aos meus próximos (nem tão ricos para pagar clínicas de luxo nem tão pobres para ser largados nas ruas) também pergunto: O que fazemos pelos nossos? Pode deixar, eu mesma respondo: nós buscamos saída! Falamos com o pastor, líder espiritual, padre do bairro, juntamos dinheiro na família pra pagar o ônibus até a clínica, conversamos. Tentamos de tudo para que aquela pessoa tenha outra chance, veja as coisas de maneira distinta e possa se curar.

O que explica que se trate doença com polícia?

O que explica que a única resposta da prefeitura de São Paulo para pessoas doentes (de alma, de corpo, de mente) seja polícia e não médicos; balas de borracha, bombas e cachorros e não remédios e atendimento psicológico? O que aconteceria se invadíssemos uma festa nos Jardins ou no Morumbi e chegássemos chutando as carreirinhas feitas com cartão de crédito gold sem limites, estourando bombas nos sofás milionários e salpicando balas de borracha nos pés dos viciados, fazendo-os dançar?

Dia desses, li um comentário de um moço que comparava as pessoas (sim, são pessoas) a baratas - o que explicaria, na visão dele, a necessidade de "limpeza" da Cracolândia. Caro amigo, "baratas" são pessoas como Dória e Alckmin que decidem que cidade linda é a cidade que empurra pra baixo do tapete suas mazelas. As mazelas que, por sermos tão pobres, não conseguimos esconder atrás de portões ultra-securitizados e em apartamentos de luxo. Elas acabam expostas assim, no meio da rua, pra quem quiser ver. Baratas são Dória e Alckmin que alimentam a miséria humana para usar os escombros de palanque.
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16 maio, 2017

Freixo, Haddad e Quero Prévias são um passo pra quem precisa de um voo


É bom que possamos discutir um programa de esquerda. Mas ainda somos todos crentes - mais ou menos praticantes - da religião do capital


Ontem, saí satisfeito do debate promovido pelo movimento "Quero Prévias" sobre trabalho, na Casa do Povo, em São Paulo. Fiquei feliz de ver Marcelo Freixo e Fernando Haddad debaterem ideias sem as amarras partidárias, sem o compromisso com um processo eleitoral iminente. E feliz também de ver que o Quero Prévias está conseguindo se libertar de reivindicar lugar numa institucionalidade que desmoronou com o golpe de 2016 e se reinventar em uma coisa mais "Quero programa de esquerda". Ainda me incomoda essa primeira pessoa do singular ("Quero", como se coubesse a um singular "querer" pelo plural), mas acho que, com o debate, o coletivo deu um passo importante em direção ao descolamento entre essa marca imperativa e personalista e o objetivo de oxigenar o campo da esquerda com ideias.

Eu estava satisfeito até com o conteúdo do debate. Aí, nesta mesma noite, Angela Davis apareceu pra mim num sonho e me convenceu de que o debate foi uma merda e nós somos as moscas. Ela me disse que nosso horizonte utópico está entrincheirado em um muro conservador capaz de fechar todas as fronteiras do mundo. Como nós podemos começar a discutir um programa - ou seja, ainda sem o compromisso com a sua realização - se não nos permitirmos sonhar? Este é o único momento na longa estrada do processo eleitoral em que temos direito a sonhos. Mas fazemos como jornalista pejotista da grande imprensa: nos autocensuramos antes que o sistema o faça.
O Freixo falou de como o sistema carcerário é o depósito de uma parcela da população que fica mais e mais inempregável. Sem dizer, ele disse que o aumento da precarização deve ampliar a criminalização da pobreza e, consequentemente, a população carcerária. Ele esqueceu de dizer que o capital já tem solução pra isso: legalizar a escravidão. Um bom campo de testes tem sido os presídios privatizados da Califórnia.

Lá, uma parte expressiva dos detentos cumpre pena por reincidência em tentativa de imigração ilegal. Ou seja, pelo crime de tentar procurar uma vida melhor noutro lugar depois que seu lugar de origem foi destruído pelo Nafta (acordo de livre comércio da América do Norte); ou pelas ditaduras financiadas com capital e poderio yankees; ou pela política neoimperialista de boicote às democracias progressistas do século XXI; enfim, por qualquer uma das consequências nefastas de ter como vizinho o maior império da história da humanidade.

Sem conhecimento do inglês e muito menos do sistema jurídico estadunidense, essas pessoas são obrigadas a barganhar em tribunais fast-food, em que dezenas são julgados ao mesmo tempo. As opções na mesa são: 1) Enfrentar todo o peso da lei - e arriscar décadas de cárcere - ou; 2) aceitar cumprir uma pena menor antes da deportação e poupar o Estado americano de arcar com os custos do processo.
Sistema carcerário tende a legalizar escravidão

Uma vez no sistema carcerário, que gera renda astronômica a empresas como Geo Group e CCA (Corrections Corporation of America), o preso pode optar por fazer exatamente aquilo que ele veio fazer nos Estados Unidos: trabalhar. Com a diferença que, preso, ele trabalha por uma fração do salário mínimo, com um único direito "trabalhista": uma hora de banho de sol por dia. O que é isso senão o restabelecimento do sistema escravocrata, com a sofisticação discursiva que só o neoliberalismo pode te oferecer?

Mas o que incomodou a Angela em mim não foi o fato de Freixo não ter entrado nos detalhes de como o boom carcerário tem reciclado a inempregabilidade crônica em fonte de renda. Foi o fato de que ele parou a discussão antes do horizonte utópico que, obviamente, é a abolição do sistema prisional - e lógico, da polícia. Pra que serve cadeia e polícia? No caso da estrutura social da contemporaneidade capitalista, são ferramentas de controle e gestão da não-distribuição de renda. Em termos de psicologia social, são resquícios da escravidão, cujo efeito mental - e físico - no corpo da sociedade é assustar os que correm o risco de voltar pro pelourinho e tranquilizar aqueles que vão segurar o chicote. Então, por que nem o Freixo, num ambiente favorável e descompromissado como aquele, é capaz de dizer com todas as letras que nosso objetivo na área de segurança pública é a extinção da cadeia e da polícia?

Teve uma hora lá que alguém na roda (não tinha mesa, o que foi muito bom) debochou da renda básica de cidadania - Suplicy que o perdoe. Não porque é um dispositivo social-democrata meio conservador, que visa salvar o capital da sua implosão por meio de uma distribuição apaziguadora da renda que geramos coletivamente. Mas por uma chave moralista ("vamos pagar pro cara ficar em casa jogando videogame").

Sabe que uma organização anarco-feminista chamada FED (o banco central dos EUA) fez uma pesquisa interessante (citada aqui por Daniel Pink) que mostra que as pessoas são mais eficientes em trabalhos intelectuais quando sua principal motivação não é externa. Ou seja, não é o dinheiro que faz com que exploremos o máximo de nossas capacidades humanas. E, em certos níveis de complexidade intelectual das nossas tarefas, o dinheiro chega a ser contraproducente. Se o trampo não é o divisor de águas entre ter ou não ter o que comer, o trabalho sai muito melhor. E daí que meia dúzia fique em casa jogando videogame, se você liberar o pintor que tá varrendo rua para pintar, o filósofo que tá pedindo esmola para pensar, o escritor que tá trampando de fogueteiro para escrever?

"Ah, mas da onde vai vir o dinheiro para isso?" Bom, essa já é uma pergunta conservadora se estamos falando de utopia, mas vá lá: o setor privado não gera riqueza nenhuma sem o apoio do Estado. Seja por meio de incentivos fiscais, seja por meio da inovação que deriva dos institutos públicos de pesquisa ou pela apropriação direta da inteligência coletiva (como no caso de Google, Facebook etc). Por que essa gente que produz com nosso dinheiro, nossa inteligência e nossa força de trabalho não nos devolve nada? Essa seria uma resposta conservadora, ainda dentro das regras do capital.
O que dá valor ao dinheiro é a crença religiosa em seu valor

A resposta sonhadora seria: foda-se da onde vem o dinheiro. Da taxação de grandes fortunas ou até da invenção de um dinheiro não-especulativo de mentirinha. Afinal, o que a gente chama hoje de dinheiro não tem lastro desde 1973 mesmo. A única coisa que dá valor ao dinheiro é a crença religiosa de que ele tem valor. Vamos começar a implodir as bases ideológicas do dinheiro? Se não diretamente, pelo menos em discurso.

Isso me leva a uma outra parada. Quando o Haddad fala de internacionalismo, ele fala de integração dos mercados para o crescimento conjunto da América Latina. Certo. E o povo? Fazer crescer o mercado significa ampliar a atividade especulativa - uma atividade extrativista, altamente poluidora, que arranca o potencial de desenvolvimento humano das populações e não devolve nada -, ampliar o poder das elites estabelecidas e facilitar as condições de exploração do trabalhador. A não ser que você não esteja falando de competir no mercado Internacional - o que definitivamente não era o caso. Se sua ideia é entrar na briga para vencer dentro das regras do capital, integrar mercado significa socializar a exploração em nome do crescimento econômico.

Crescimento econômico... "Eu não vou me aventurar na economia com tantos economistas presentes", disse Freixo. Que traço imenso de ideologia neoliberal, achar que a economia pertence aos técnicos, a pessoas de saber supremo e inatingível. Economia é o primeiro conhecimento de todo mundo, que tá em todas as casas, de quem sabe ler e de quem não sabe. O grande trunfo do liberalismo foi convencer a maioria de nós de que esse é um assunto intocável, uma ciência exata complexa, filhote da matemática aplicada. Não é nem ciência nem exata. É uma invenção humana como qualquer outra, com enormes doses de superstição, misticismo, adivinhação e ideologia.

Por que a gente, como esquerda, precisa defender crescimento econômico, se a medição do crescimento é um índice conservador como o PIB, que aumenta quando acontecem catástrofes humanitárias? A gente devia era estar pensando uma nova maneira de medir riqueza, que levasse em conta a felicidade humana, o grau de realização coletiva, o grau de preservação da natureza. E nada disso se pode medir em números. Ou seja, os modelos matemáticos dos economistas não têm como medir riqueza de fato! Não consigo ver dinheiro como riqueza. As pessoas mais ricas que cruzaram meu caminho, as pessoas que mais me ensinaram nunca tiveram porra nenhuma. Vai dizer que minha vó não foi nada por que não teve nada? Foi a preta velha mais guerreira, mais sábia que conheci. E no atestado de óbito dela, tá lá: "não deixa bem algum". É um atestado de óbito ideológico de direita.
Falar em redução da desigualdade é naturalizar a desigualdade

E aí, eu penso o seguinte: o que aconteceu com a distribuição no discurso da esquerda socialista? Distribuição mesmo, destruição das desigualdades. O Freixo até flertou com isso, mas ainda fala em redução das desigualdades. Eu acho que a gente tem que arrumar um outro vocabulário. Quando falamos em "redução das desigualdades", naturalizamos a desigualdade. O pressuposto dessa expressão é que é normal que haja desigualdade, mas não tanta.

Enfim, esse diabinho Davis aí atinou pra uma ideia simples: a gente perdeu a coragem de exigir o impossível, somos todos conservadores de alguma coisa, todos crentes - mais ou menos praticantes - da religião do capital. A gente pede o que acha que o sistema pode dar. Se o nosso sonho é feito de muros, quem vai construir pontes?
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23 novembro, 2016

Um negro chamado ninguém

Não deixo de ser negro ao falar de temas que não tocam diretamente o negro. Só deixo de ser ouvido.


Primeiramente, além do #ForaTemer, meu lugar de fala: sou negro, sou de esquerda, homem heterossexual (até onde eu sei), de classe média, trabalhador da notícia (para me diferenciar do que se convencionou chamar de jornalista), mestre em literatura, descendente de escravos e nordestinos, vítima de racismo direto e institucional, culturalmente brasileiro, politicamente apátrida e antinacionalista. E escrevo para exigir o direito de não-ser.

Não falo da obrigação de não-ser imposta verticalmente àqueles cuja voz a sociedade descarta, mas do direito de me manifestar fora de meu lugar de fala. O nome do meu site é a reivindicação populista de um lugar de fala, é uma leitura radical da formação afrodescendente de minhas influências. "Afroências" é um clamor por aceitação, é a contradição primordial, fundadora, deste espaço. É o fóssil de minha tentativa de pertencer a um lugar de fala, um lugar negro, que me colocasse ao lado daqueles que tenho como ídolos.

Ser negro é não ter lugar nem fala; não por opção, mas por imposição. Nos impuseram o não-lugar da cultura, arrancada pela escravidão; o não-lugar dos nomes vilipendiados; o não-lugar dos corpos dilacerados; o não-lugar do desemprego, da ausência de direitos. É apenas normal que reivindiquemos um "lugar". O problema é que reivindicamos um salvo-conduto para os espaços tradicionalmente ocupados pelo branco liberal. Eu quero implodir o próprio lugar e sobrar só com a fala - desta vez, por opção e não por imposição.

Isso significa destruir os espelhos, a representatividade, a própria individualidade e exigir o direito de ser ninguém, de ser um problema real para um sistema cuja torre de opressão é fundada na construção do indivíduo e de seu direito inalienável de propriedade. Não quero propriedade de nada, nem do meu próprio nome. Quero ser um pirata de mim mesmo, um ninguém que gera pensamentos. Se nosso sistema econômico foi fundado na escravidão, quero a abolição não só da escravidão, mas da própria lógica que a possibilita. Ou seja, quero revogar a ideia de propriedade, seja de uma pessoa, seja de um discurso. Exigir um "lugar de fala" significa exigir a propriedade sobre um discurso. Quero que o discurso não pertença a ninguém. Quero o direito de ser ninguém.
"Ponha-se no seu lugar" é "reivindico meu lugar de fala" conjugado no imperativo.

Essa posição é perigosa: é muito mais fácil se legitimar a partir de seu lugar de fala. Todo mundo conta com a propriedade de um lugar. Se o branco de direita quer nossa volta à senzala, o branco de esquerda espera que nosso lugar legitime a fala dele. Nos dois casos, "ponha-se no seu lugar" é "reivindico meu lugar de fala" conjugado no imperativo.

Quero falar sem lugar, quero falar sem gueto e quero cota não de 10%, mas de 100% no lugar de fala do branco. Quero que os homossexuais tenham cota de 100% no lugar de fala dos heterossexuais. Quero que as mulheres tenham cota de 100% no lugar de fala dos homens. Quero que o lugar de fala se exploda e ceda espaço ao direito verdadeiramente democrático de falarmos de qualquer lugar, de qualquer assunto - mesmo daquele que pertence à esfera de quem nos oprime.  Nós, oprimidos sob diversos prismas, só seremos verdadeiramente perigosos quando enxergarmos primeiro a opressão e depois o prisma. Do contrário, vamos virar a black face do white power, como foi Barack Obama. Porque, no fundo, quando se diz "lugar de fala", a palavra-chave é "lugar" e não "fala".

Por isso, nossa arma é falar de tudo, ocupar todos os lugares e não nos restringir ao que se espera de nós. Não quero denunciar só o racismo, muito menos numa perspectiva individual. Não quero falar que apanhei da polícia pela primeira vez aos dez anos nem dizer que, tantos idiomas e diplomas depois, ainda me mandam subir por elevador de serviço. Quero discutir política europeia, sim. Quero discutir filosofia clássica, sim. Quero discutir macroeconomia, sim. Sim, quero discutir tudo sem que o filtro seja esse nada que é tudo que cabe em "meu lugar de fala". Não deixo de ser negro ao falar de temas que não tocam diretamente o negro. Só deixo de ser ouvido. Mas prefiro a surdez dos opressores ao sectarismo dos oprimidos.

PS.: Esse texto é contraditório em si. Ele só possibilita criticar o lugar de fala porque reivindica o lugar de fala. E eu tenho certeza que ele vai funcionar não por causa da crítica radical, mas por causa da reivindicação do lugar de fala. Todo mundo vai ler o texto e entender o manifesto porque sou um negro negando meu lugar de fala.
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04 novembro, 2016

Face ao fascismo, temos que ser radicalmente de esquerda

Como se enfrenta a depressão intelectual que emana da fumaça narcótica da fogueira de livros? Como se descobre a beleza do pensamento em meio aos escombros do sonho democrático? Onde se busca o pedestal da Justiça, quando a liquidez da exceção se sobrepõe às fundações do direito? 



O Museu Histórico da Alemanha, em Berlim, é impressionante. Ele retraça a vida cotidiana e política de uma cidade que viveu múltiplas fundações, uma cidade obrigada a se reconstruir de baixo a cima pelos canhões e canetas de autoritarismos diversos. Quando entramos na sala modernista que introduz o século XX, nos deparamos com a ebulição de uma sociedade que se acreditava, pela força da tecnologia e da explosão criativa, destinada a grandes feitos.

Um primeiro fio de gelo corre a espinha quando nos deparamos com o Manifesto Futurista de Filippo Marinetti, exposto em sua impressão original e na versão francesa, que se tornaria célebre na capa da edição de 20 de fevereiro de 1909 do diário conservador Le Figaro. Olhos treinados como os nossos, que as trincheiras, campos de morte e gulags do século XX se encarregaram de engolir, captam rapidamente as palavras-chave do texto, como se fossem hyperlinks para o holocausto: "guerra", "patriotismo", "higiene militar".

Conforme descemos a espiral do autoritarismo, multiplicam-se as legendas: "desaparecido", "exilado", "executado" Depois de glorificar o "escarnecer da mulher", Marinetti promete destruir "os museus, bibliotecas, academias de todo tipo". Poderia ter sido mais um entre os muitos manifestos artísticos daquela era profícua, se não caísse em triste circunstância histórica. Mal sabia ele o quão suja e rápida se faria a higiene militar. Primeiro, na mais mortal de todas as guerras, em que uma geração jovem (não só europeia, mas do planeta inteiro) foi literalmente afundada em lama tóxica.

Apesar da importância histórica da Primeira Guerra, a curadoria do Museu é sagaz ao atalhá-la em uma sala curta, encerrada pelo tratado de Versalhes, que colocou a Alemanha de joelhos. Apresenta-se então um soldado austríaco do fronte alemão, popular entre seus combalidos camaradas de trincheira. Seguro de seu dote para a retórica, ele estuda o texto da rendição e passa a pregar a reascensão mística de um espírito alemão original, purgado do que ele patologicamente acusa todos os males: o "lobby judeu".

Amplamente menosprezado pelas demais forças políticas, o ex-soldado Hitler chega ao posto de chanceler e seu partido Nacional Socialista vira força majoritária no Parlamento alemão. E aí, temos que mudar de andar no museu. Seguem-se quatro lances de escada descendente. A parede frontal do primeiro lance é decorada de artistas, filósofos, empresários, políticos, juristas, poetas e intelectuais da cena berlinense no início dos anos 30. Conforme descemos a espiral do autoritarismo, os retratos começam a escassear, substituídos por legendas: "desaparecido", "exilado", "executado".

Ao chegar no térreo, já não sobram mais do que meia dúzia de retratos. A sinfonia wagneriana que nos acompanhava desde a primeira guerra cede lugar a uma ambientação sonora de murmúrios, palavras de ordem militares e crepitações. Estamos num túnel escuro, cuja única luz, lá no fundo, repousa sobre o último retrato: Adolf Hitler nos encara de cima pra baixo, imponente. Conforme nos aproximamos do führer, percebemos que, debaixo das grades que cobrem o chão, há um interminável lençol de sapatos. Estamos em pleno Holocausto.

O pensamento morreu ou foi exilado. O Judiciário, missionário, serve à causa paranoica do expurgo nacional de judeus, comunistas, deficientes, homossexuais. A indústria produz para a guerra e desenvolve tecnologias de assassinato em massa. A ciência torna-se tóxica e misantrópica. A política padece sob a voz de um homem só. Estamos no porão da história alemã, estamos no porão da humanidade. Somos insensíveis, somos contra-humanos, somos coletivamente suicidas e distópicos.

Não estamos face a um novo Holocausto. Mas vivemos uma ruptura histórica impulsionada por uma Crise comparável a 29 Prever um genocídio em escala industrial no horizonte atual seria colocar o carro na frente dos bois. Por mais que a crise migratória tenha transformado o Mediterrâneo no tumbeiro do século XXI; por mais que o Oriente Médio tenha sucumbido às ruínas sob as ambições de seitas apocalípticas e neoliberais sedentos de petróleo; por mais que o assassinato de minorias seja o modus operandi das polícias americanas (do Brasil aos Estados Unidos, com uma longa escala mexicana); por mais que o Estado turco tenha se convertido na ferramenta genocidária de um financista fanático como Recep Erdogan; por mais que Israel faça da Faixa de Gaza um showroom de aparatos repressivos para exportação; por mais que fundamentalistas cristãos norte-americanos tenham se convertido em lobistas pelo assassinato de homossexuais em Uganda; por mais que uma grave distorção da luta anticolonial nigeriana tenha gerado o Boko Haram... Por mais que possamos, enfim, elencar incontáveis signos de misantropia mundo afora, não estamos face a uma máquina de morte das proporções e do rigor metodológico do Holocausto.

Mas não podemos ignorar que vivemos um momento de ruptura histórica impulsionado por uma crise econômica com C maiúsculo cujo único paralelo na história do capitalismo foi o crash de 1929 - justamente aquele que reuniu as condições para a ascensão democrática do fascismo. E, como naquela época, é inegável que a paixão política está nas mãos da direita mais raivosa. Quem, em sã consciência, pode esperar que, hoje, o tão sonhado colapso do capitalismo abra espaço para um mundo mais justo, solidário e igualitário? Como diz o sempre preciso Yanis Varoufakis, o que se vislumbra hoje pela janela do futuro "faz o filme Matrix parecer um documentário".

No Brasil pós-golpe, sintomas de uma infecção fascista, que se alastra dos três poderes à população em geral (e vice-versa), são claros e evidentes. Das prisões arbitrárias à normalização do assassinato de negros, jovens pobres e mulheres sob a narrativa fluida do inimigo interno, é evidente que nossa insensibilidade atinge níveis perigosos. Some-se a isso a descrença na representação política, simbolizada pela abstenção calamitosa às eleições municipais de outubro de 2016. Descrença que é retroalimentada por um governo que, não-eleito, sequer se preocupa em fingir alguma representatividade: enterra goela abaixo da população as mais impopulares de todas as pautas da Nova República.
Temos coragem de exigir, para além do fim da PM, o fim do sistema prisional? Temos coragem de pedir mais impunidade?
Se não bastasse, a representatividade política não foi a única - e talvez nem a maior - vítima do golpe parlamentar. As próprias instituições da República parecem se desmilinguir. No domingo que antecedeu as eleições municipais, um homem que se apresenta como ministro da burocracia parasitária que se autodenomina governo subverteu princípios básicos da Justiça para anunciar a perseguição de seus adversários políticos pela Polícia Federal. A prisão de Antonio Palocci, na mesma cidade e apenas um dia depois do pronunciamento do pseudoministro, deixou evidente que a Justiça e o aparato repressivo se fundiram numa coisa só. Se não dá mais para falar em independência do Judiciário, não dá mais para falar em independência entre os poderes. Logo, não dá mais para falar em Estado democrático de direito no Brasil. O que vivemos é uma psicopatologia coletiva auto-imune, que cria um ciclo em torno de si mesma ao transformar o próprio tecido social em seu principal inimigo, assim como fez a Alemanha nos anos 30. E a população reage entre punitivismo e apatia.

Precisamos tirar o Brasil da letargia da insensibilidade, um desafio hercúleo se considerarmos que este povo foi obrigado à insensibilidade por 500 anos da mais cruel opressão. Depois de tanta brutalidade, é natural a população ser mais seduzida pela promessa de vingança que pela promessa de Justiça. É missão nossa tirar lenha dessa fogueira. Precisamos nos indignar juntos por todos os injustiçados, por todos os oprimidos, por todos os presos. Não podemos pedir mais punição para nossos inimigos e menos para os nossos amigos; precisamos pensar uma sociedade capaz de se reeducar eticamente, alforriada da catarse moralista da punição. Temos coragem de exigir, para além do fim da PM, o fim do sistema prisional, como defende a neo-abolicionista Angela Davis? Temos coragem de pedir mais impunidade?

Precisamos repensar nossos conceitos mais elementares: o que é riqueza? Por que medimos nossa produção a partir do PIB, um índice que despreza a contrapartida social dos investimentos? Temos muito estudo pela frente. Não podemos nos contentar com a comunicação por memes e textos de 140 caracteres. Para que(m) serve o crescimento econômico, num momento em que nossa atividade ameaça a própria sobrevivência da Terra? Por que não distribuímos riqueza, já que produzimos mais excedentes que todas as gerações anteriores? Por que todas as pessoas não têm uma renda mínima? Por que se explora petróleo? Existe ecologia, feminismo, movimento negro e LGBT dentro do capitalismo? O que é liberdade econômica? Qual o fundo ideológico e geopolítico da nossa posição atual? Por que existem paraísos fiscais? Por que existem bancos? Por que nunca abolimos a escravidão?

Temos muito estudo, muita troca de ideias pela frente. Não podemos nos contentar com a comunicação por memes e textos de 140 caracteres. Esses veículos funcionam tão bem para a publicidade porque são intrinsecamente capitalistas. Faz parte da nossa missão civilizatória desconstruir a absorção publicitária da realidade porque ela é acrítica em si. Mais do que isso, ela é anti-crítica, já que faz suas acepções com base em estudos que determinam com muita precisão os preconceitos médios da sociedade. Não me impressiona nada o fato de que um terço dos nossos homens acha que a vestimenta de uma mulher pode justificar um estupro; como mostram as propagandas de cerveja, feitas sob rigoroso targeting, a maioria dos homens vê as mulheres como objetos descartáveis.

Esse processo se retroalimenta: a propaganda publiciza a mediocridade, que retorna à sociedade como um valor. Quando um conceito crítico é incorporado à sociedade ao ponto de ganhar viabilidade mercadológica, a publicidade trata de subtraí-lo de seu componente crítico e explorar seu potencial comercial. É o que acontece com a representação do negro ou do homossexual, por exemplo. Como hoje eles têm valor mercadológico, eles são engolidos, despidos de suas contradições (as contradições são essencialmente críticas) e atirados de volta ao público no formato de commodities sem alma.

Precisamos ter alma. Precisamos gerar dúvidas e não certezas. É hora de estudar e gerar contradições. Afetos e contradições são o antifascismo em si. Um fascista é aquele cuja certeza paranoica bloqueia a empatia. Só se chega a esse grau de certeza, a esse nível de desconstrução de contradições, por meio do pensamento dogmático. É por isso que, para se instaurar, o fascismo exige um alto grau de transcendência. O pensamento fascista tem de ter estrutura religiosa. Adolf Hitler sabia disso tão bem, que construiu uma poderosa mística em torno de objetos e rituais sagrados.

Tinha, por exemplo, o ritual da Fahnenweihe (algo como "consagração da bandeira"), quando o führer pessoalmente benzia todas as novas insígnias nazistas com uma bandeira ensanguentada. Em tese, o sangue pertencia a um dos homens da SA mortos durante a tentativa fracassada de golpe de estado comandada por Hitler em novembro de 1923. Nunca se soube se a bandeira era mesmo original, mas isso tanto fazia: o importante era a sacralização e ritualização do objeto.

O Brasil de hoje, que é descrente na política e tem no discurso publicitário um filtro preferencial de leitura do mundo, oferece o repertório cultural e a configuração mental acrítica perfeitos para a instalação de uma teologia política fascistoideSe alguém teve a ilusão de que o golpe reforçaria a coesão das esquerdas, pode esquecer. Retrocesso gera retrocesso. - complementada pelo discurso maniqueísta de uma influente franja das igrejas neopentescostais de matriz estadunidense. Memes que representam a direita como Jesus e a esquerda como o demônio exemplificam um processo de re-significação teológica dos antagonismos políticos. Certas igrejas evangélicas transmutam analogicamente ideologia neoliberal - empreendedorismo, desconstrução do Estado, individualismo - em discurso religioso. Elas leram Eduardo Galeano melhor do que nós e teorizaram o Deus-mercado. Dentro da lógica dogmática, isso significa que a justiça social, a diversidade, o igualitarismo etc. foram literalmente para a casa do diabo. Como vamos lutar contra Deus?

Essa representação binária do mundo funciona justamente porque a vida não é binária, mas contraditória o tempo todo. Você é morto pelo Estado sem ter cometido crime; você ganha um salário mínimo e paga mais imposto que um bilionário; a parte que você paga não se reverte em nada e você ainda tem que pagar uma segunda taxação pra milícia ou crime organizado; você terceiriza sua saúde para um médico que não te atende; seu filho rouba uma bolacha e é linchado; o filho do Eike Batista explode um trabalhador e sai de boa.

Sem a possibilidade de um desenvolvimento teórico e intelectual profundo, é apenas natural que surja na sociedade a necessidade de uma explicação atenuante de contradições tão radicais. É necessária uma estrutura transcendente que ordene esse repertório tão vasto de paradoxos. Contradições são terreno fértil para utopias. O problema é que esse espaço é atualmente cooptado pela extrema-direita. É preciso entender como o niilismo pós-morte da representatividade se converte nessa psicopatologia fascista e administrar à sociedade uma bela dose de utopia.

Novos horizontes de sonho são nosso antídoto, já que só a flor do fascismo brota da distopia. Se alguém teve a ilusão de que o golpe no Brasil reforçaria a coesão das esquerdas, pode esquecer. Retrocesso leva a mais retrocesso. E temos uma burguesia, armada de meios de comunicação de massa num país semi-alfabetizado, que promete eleger presidente um homofóbico misógino orgulhosamente favorável à implosão do Ministério da Cultura. Ou seja, precisamos nos levantar antes que o autoritarismo arranque nosso direito à imaginação.

No imaginário social, há campo para o resgate da utopia. Afinal, as únicas duas forças ideológicas que crescem entre os brasileiros hoje são absolutamente utópicas (ou distópicas, já que são o anverso reacionário da utopia): o discurso anticorrupção, envenenado por ideologia neoliberal; e o religioso, que prega vida depois da morte, a maior de todas as utopias.
Google, Twitter, Facebook - Quem produz o conteúdo deles? Por que não temos todos uma gorda parcela de suas ações?
Esse avanço distópico tem boa dose de culpa nossa. Não só no Brasil, mas no mundo, a esquerda majoritária abandonou a ideia de transformação radical da sociedade. Aceitamos o consenso de Washington e a teoria do fim da história e passamos a nos ver como gerentes privilegiados de um futuro inexoravelmente capitalista. Acreditamos que a social-democracia era o sinal de que o capitalismo poderia ser mais ou menos humano, se reduzíssemos gradualmente as contradições, se varrêssemos a luta de classes pra baixo do tapete. Faltou dialética no nosso olhar. Faltou encarar a social-democracia como uma ferramenta econômica, política e ideológica do capitalismo para disputar corações e mentes com o bloco comunista.

Com a queda do muro de Berlim, o capitalismo se desonerou de seu compromisso com o ser humano. Aceitou que tudo funcionaria melhor se dois terços da população simplesmente desaparecessem. Sem o contraponto ideológico comunista, o "lado humano" do capitalismo ficou obsoleto; virou propaganda sem público alvo. Começou um processo enlouquecido de concentração de renda, a financeirização criou mecanismos virtuais de geração de lucro sem valor, surgiram formas sofisticadas de escravidão, como a praticada por empresas como Google e Facebook - afinal, quem produz o conteúdo deles? Por que nós não levamos todos uma gorda parcela de suas ações?

Mesmo diante de tudo isso, achamos que conseguiríamos domar a besta por meio de um precário equilíbrio entre interesses classistas. Bastou uma crise econômica para que o equilíbrio implodisse e os ricos colocassem de volta na mesa a nossa principal carta: a luta de classes. Se a gente esqueceu desse conceito marxista básico, eles não. E querem aproveitar esse momento para ganhar de vez.

Como se enfrenta esse tipo de depressão intelectual, que emana da fumaça narcótica da fogueira de livros? Como se descobre a beleza do pensamento em meio aos escombros do sonho democrático? Onde se busca o pedestal da Justiça, quando a liquidez da exceção se sobrepõe às fundações do direito? Vamos ter que encontrar essas respostas. Ou seremos tragados pelo ralo do fascismo.
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