
Negrada... Afroências completou um ano no último dia oito e, fazendo da incompetência lema, estou atrás da notícia. Nem lembrei de comemorar o aniversário do blog. É fato que das últimas vezes que me atrasei - Ilê Aiyê, Ziggy Marley e mais umas ou outras - foi por pura falta de tempo. Ando na maior correria do mundo.
Mas, dessa vez, não. Tive tempo para escrever. Poderia ter me planejado, feito um textinho no fim de semana e mandado bala. Afinal, dia 8 de novembro foi um domingo. "Oito de novembro?" podem se perguntar os mais atentos, já que o primeiro post pintou só no dia dez. Mas foi em 8 de novembro de 2008, um sábado, que me sentei e resolvi que finalmente exporia minhas negrices para o mundo. Foi por euforia. Eu estava em casa, vagando pela internet atrás das repercussões da eleição de Barack Obama - outro post que perdi, deveria ter comemorado um ano do negrão no poder, comentado mudanças de postura frente a Iraque, Afeganistão, América Latina e Guantánamo, Prêmio Nobel, popularidade, internet... Que post seria! Perdi o fio da meada. Ah, sim: euforia! Sim, eu estava lá, eufórico, feliz da vida que tínhamos um negro no mais alto cargo de liderança política do mundo e queria compartilhar essa alegria.
Houve outras vezes em que comecei blogs, mas foi sempre por raiva. O primeiro, por raiva do jornalismo. Estava no segundo ano de faculdade e queria desistir da profissão. Gosto dessa profissão, amo essa profissão. Mas, como Gay Talese, não queria escrever textos para as pessoas lerem no banheiro. E sentia que era isso que faria para o resto da vida. Vários amigos acadêmicos faziam um uníssono preconceituoso contra a minha profissão. Mas meu caso não era preconceito, era frustração. Frustração com um mercado inflado de estagiários, que demitia seus mestres e relegava a qualidade à posição de coadjuvante da velocidade. Um mercado que transformava o jornalismo em moldura da publicidade. Era assim que eu me sentia quanto à profissão - sentia que éramos gente que não queria escrever escrevendo para gente que não queria ler, regidos por patrões que não sabiam ler. Trabalho na internet; pouca coisa mudou. Mas aquele primeiro blog não foi pra frente. Depois de dois ou três textos, eu já tinha tanta raiva do blog quanto do mercado em que trabalhava.
A segunda vez que montei um blog foi no dia seguinte à entrevista do Mano Brown no Roda Viva. Eu estava com raiva de tudo. Principalmente da raiva que tinham determinados intelectuais da postura do próprio Brown no programa. "Ele foi complacente"; "Ele se mostrou ignorante"; "Ele é em cima do muro"; "Ele é contraditório"; "Ele não é o líder da periferia". Não foi isso que li daquele programa. O que vi ali foi um péssimo time de entrevistadores que se dividia entre entusiastas de uma pseudo-revolução promovida pelos Racionais e reação a essa mesma revolução. Metade entrevistou um terrorista, metade entrevistou um Che Guevara do Capão Redondo. Ninguém tentou entrevistar um músico competente, um poeta de mão cheia e um mano da periferia de São Paulo. É isso que Mano Brown é; não é revolucionário, não é líder, não é bandido, não é terrorista. O que se viu ali foi uma projeção de todos os preconceitos - bons e ruins - da classe média sobre um cantor e compositor. Um exercício nítido de péssimo jornalismo, um modelo de como não entrevistar. Vestida de preconceito, a classe média frustrou a si própria com uma entrevista direcionada a quem eles queriam que fosse e não a quem era de fato. O programa perdeu uma ótima entrevista e eu resolvi montar um blog pra dizer isso. Esse durou um post. Hehehehe
Mas eu continuei tentando e inventei o Groovy Tech, cujo esqueleto permanece em algum armário da internet. Sabe? Era um blog legalzinho até. Falava de tecnologia, internet, essas paradas... E não nasceu do ódio! Nasceu de nada... Nasceu do fato de que eu e meus amigos Paulo Planet e Ricardo Infante queríamos dar um complemento online a um site que desenvolvíamos à época. Queríamos estabelecer uma sólida comunidade interativa em que as pessoas trocassem conhecimento, informações, diversão, gostos pessoais e pudessem conhecer umas às outras cultural e socialmente. Era uma ideia bacana pra caramba. Mas não foi pra frente como queríamos. E eu perdi o parco entusiasmo que tinha por aquele blog de tecnologia... Faltou tesão.
Eu, Planet e RicE foi o tesão que não faltou para fazer o Afroências. Para falar a verdade, esse aniversário do Afroências é meio ilusório. O nome surgiu lá em 2004, mas passava longe de blog. O Afroências nasceu no rádio. Eu, Murillo Camarotto e Wander Otoni montamos um piloto para uma rádio pirata na Puc, um programa de música negra que traria a história dos ritmos e a evolução do som desde a tribo até hoje. Eram afroências de fato. Influências, afluências, afroências. Era como se o som, como
Kunta Kinte de Alex Haley, viesse de navio pelo Kambi Bolongo e desembocasse na América com nada além de seu repertório cultural, que sobreviveu a 500 anos de tentativas de genocídio. Era a música como um rio, vindo da África. A polícia fechou a rádio e confiscou os equipamentos depois de dois programas. Paciência. Combinei com o Murillo que faríamos do programa o trabalho de conclusão do curso de jornalismo e nos ativemos a essa ideia até o último ano de faculdade, quando ele espirrou e me deixou a remo no Oceano Atlântico. Mas isso foi ótimo porque ele produziu um trabalho maravilhoso, ao lado de Juliana Vettore - o documentário "Sociedade Secreta", que transformou um usuário do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) em cineasta. Eu não fiz o Afroências. Para falar a verdade, não fiz praticamente nada.
Eu, Murillo e Wander (não consigo ficar de olho aberto, não tem jeito)
Até o ano passado. Estava eufórico e queria comemorar o Obama num espaço preto. Queria exaltar a negrada pela importância do fato. E queria dar continuidade a isso: queria exaltar a negrada sempre e pra sempre. Queria fazer isso por amor, porque precisava ser feito, porque eu acredito nisso. Por incrível que pareça, não me vinha um nome à cabeça. Marina Morena que, além de leitora assídua e pauteira mais afroente, é minha namorada, sugeriu: "Afroências". Pedi autorização para o Murillo - o nome é ideia dele - ele mandou um típico "lógico, trutão!" e a coisa deu certo. Deu muito certo! Mais de 10 mil pessoas passaram por aqui ao longo deste ano e deixaram contribuições inestimáveis não só ao espaço mas a mim mesmo. Não sei se tinha um objetivo claro quando montei esse blog. Mas, depois que recebi da leitora Naiane o comentário que reproduzo abaixo, tenho certeza de que o Afroências cumpriu seu objetivo. Obrigado, Afroentes leitores. Tamo junto!
Gabriel, foi um amigo branco que me falou do seu blog. Eu vim ler e acho sempre foda o que escreve (tb sou exigente viu! rs) Hoje ele me ligou dizendo que seus textos o ajudam com várias questões que tem dúvidas mas não fala comigo porque se sente constrangido. Não tenho o que acrescentar ao seu post, só dizer que sua contribuição é bem maior do que imagina viu. O melhor foi ele dizendo: "Eu entendi!!agora não ficarei mais ofendido quando vc disser que é 100% negra"...rs
Continue nos afroenciando!
Um beijo grande!