19 abril, 2018

Gleisi, al-Jazeera e a ignorância como estratégia


Cheguei atrasado na história do vídeo que a presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, gravou para a Al-Jazeera. Foram memes desencontrados sobre uma eventual confusão entre o gigante midiático catari e a Al-Qaeda (?) que me levaram a desenterrar a narrativa. Pensei que alguém tivesse de fato misturado alhos com bugalhos. Mistura houve. Mas foram outros alhos e outros bugalhos. 

Ana Amélia, senadora pelo PP gaúcho, disse em plenário esperar que a declaração da colega não fosse "um pedido para o 'Exército Islâmico' atuar no Brasil". Considerando que não existe uma entidade chamada "Exército Islâmico", suponho que Ana Amélia estivesse se referindo ao  autoproclamado Estado Islâmico, aquela organização de extrema-direita que emergiu das ruínas do Iraque devastado pela também autoproclamada Guerra ao Terror e tentou erigir um califado sobre os escombros da Síria.

Em seu discurso monocromático, que, por ignorância ou má-fé, divide o mundo ideologicamente entre bons cristãos e maus muçulmanos, Ana Amélia não desata um único nó da intrincada teia de interesses geopolíticos que cobre o Oriente Médio. A Al-Jazeera já foi acusada de oferecer espaço para o fundamentalismo; e não é uma acusação completamente sem sentido. Entre as razões para desconfiança estão o fato de a emissora não usar, ao contrário da mídia europeia, o acrônimo pejorativo Daesh para se referir à milícia sunita, além do fato de ela ter oferecido palanque à Irmandade Muçulmana, antes e durante a conversão da primavera egípcia no longo inverno distópico de Abdel Fattah al-Sissi.

Até aí, a Globo também não chama um Jair Bolsonaro de fascista e a Record é um palanque 24/7 para Igreja Universal, cujas declaradas aspirações totalitárias fazem o projeto teológico da Irmandade Muçulmana parecer uma democracia liberal. O que estou dizendo é que a Al-Jazeera, como qualquer império de mídia, não é um hub de ativismo midiático trabalhando pela revolução - embora seja acusada de ser exatamente isso pelas principais teocracias da região, Israel e Arábia Saudita.

Al-Jazeera, em terra de cego

A al-Jazeera é a maior rede de comunicação do mundo árabe, além de ser a única que se pauta pelos tímidos postulados liberais de "liberdade de expressão" e "imparcialidade". Além da palpável aspiração de Doha em, no pós-guerra, controlar a bilionária reconstrução da Síria e, consequentemente, o abastecimento de petróleo via Turquia para a Europa, este compromisso da Al-Jazeera com o jornalismo livre foi uma das razões pelas quais os "parceiros" da OPEP romperam relações com o Catar em meados do ano passado.

Para entender a cena, basta olhar para o funcionamento da mídia nos demais países da região: toda informação que sai da monarquia wahabista saudita, seja pela agência oficial Sanaa, seja por um blog qualquer, passa pelo crivo da família real. E o crime de desobediência ou desrespeito à elite governante pode acarretar 10 anos de prisão, além de 1000 chibatadas, como aconteceu com o blogueiro Raif Badawi, que cometeu a heresia de defender, em termos moderadíssimos, a laicização do Estado, em 2012.

O vizinho Bahrein fechou o Al-Wasat, seu único jornal independente, em junho de 2017. Antes e depois disso, dissidência - física ou ideológica - ao emirado é caso de prisão perpétua e pena de morte. (Cuidado: terreno irônico a seguir) Pelo menos, o Bahrein ainda persegue a dissidência dentro de algum tipo de moldura legal, ao contrário do Egito, que desde 2013, tem tratado jornalistas com tortura e execuções sumárias. Do ponto de vista jurídico, Cairo determinou em 2015 que só a versão oficial de qualquer "ato terrorista" pode ser publicada. Nada como uma terminologia vaga como "terrorismo" para fantasiar a arbitrariedade de lei: até um jogador de futebol, Mohamed Aboutrika, já foi considerado terrorista pelo regime al-Sissi, depois de declarar simpatia a adversários políticos do presidente-marechal.

Omã e Emirados Árabes Unidos não ficam atrás: nos anos que se seguiram à Primavera Árabe, os dois instauraram a leis de ciber-crimes, que preveem longas sentenças de prisão para jornalistas e blogueiros que "insultem ou difamem" o Estado. Na Turquia, o líder autocrata Recep Tayyip Erdogan está há 15 anos no poder demonstrando seu desprezo pela dissidência (ele chegou inclusive a proibir todas as redes sociais - Wikipedia inclusa - e enquadrou como "terroristas" membros do HDP, partido pró-curdo que faz a única oposição de fato ao seu governo). Em 2016, ele aproveitou uma mal-ajambrada tentativa de golpe de Estado supostamente organizada por seu ex-aliado Fetullah Gülen, para promover a censura em larga escala. De lá para cá, mais de 200 jornalistas foram presos, 25 mil demitidos e 120 veículos de mídia fechados.

Ou seja, o golfo não está para peixe no que diz respeito à liberdade de imprensa. O oásis neste cenário desolador, em que cartéis formados por bilionários do petróleo e líderes autoritários impõem sua narrativa para manter o fluxo de petrodólares livre de aspirações democráticas, é justamente a al-Jazeera. A rede foi criada em 1996 majoritariamente pela equipe editorial da unidade árabe da BBC britânica, que ficou a ver navios depois que a família real saudita decidiu dissolver a sucursal. Se, em 2001, três em cada quatro árabes tinham na al-Jazeera sua fonte primária de informação, este número cresceu exponencialmente durante a cobertura da Primavera Árabe, quando a emissora passou a replicar todos os matizes da revolta popular, em particular no Egito e na Tunísia.

Não, a al-Jazeera não serve para convocar "Exército Islâmico"

A al-Jazeera é o oposto de tudo que o que chamamos genérica e ignorantemente de fundamentalismo islâmico defende. Pergunta se existe liberdade de imprensa na Dabiq, a revista do "califado". Pergunta se diversidade de opinião é um valor encampado pelo "califa" Abu Bakr al-Baghdadi. Não é a al-Jazeera que tem capacidade de convocar o "Exército Islâmico" (sic) em defesa do ex-presidente Lula. Até porque o Daesh é uma seita totalitária, enquanto Lula é tão republicano, que continua acreditando nas instituições democráticas e na Justiça oligárquica, mesmo depois de a democracia ter sido esfacelada por um golpe encampado pelo Judiciário.

Quem se aproxima do "fundamentalismo islâmico" - eu prefiro chamar de extrema-direita wahabista - é quem defende militarização da política, ingerência religiosa no Estado, pena de morte. É por esse tipo de coisa que luta o jihadismo wahabista radical, não pela pluralidade de informações. Tanto que, em seu auge, o grupo Estado Islâmico mantinha ótimas relações comerciais e militares com a Turquia de Erdogan, além do perfeito alinhamento ideológico com a Arábia Saudita, que financia diretamente a promoção desta leitura ultra-conservadora do Alcorão.

A al-Jazeera, como qualquer grande veículo liberal, está longe de ser perfeita. Mas tachar um depoimento ao único órgão midiático plural do mundo árabe de "convocação" à extrema-direita fundamentalista em defesa de um líder social-democrata não pode ser só um contrassenso absurdo. Até porque, me recuso a acreditar que as pessoas que estão vendendo esta narrativa acreditem nela de fato. Me parece uma perigosa estratégia de promoção da ignorância, de instrumentalização do racismo e da xenofobia. É usar a premissa racista de que "todo muçulmano é terrorista" para dizer que quem fala com muçulmano é terrorista.

E, se é uma estratégia, é premeditada. A linha de construção desse pensamento seria mais ou menos a seguinte: "quero classificar o PT de terrorista. Por quê? Porque 'terrorismo' é um tipo jurídico impreciso, que causa pânico na sociedade e me permite imputar qualquer pena a qualquer pessoa ou organização". O escarcéu que a direita está fazendo em cima do vídeo da Gleisi Hoffmann tem muito mais de promoção do terror do que o fato de a presidenta do PT falar com a mídia liberal árabe. Afinal, como mostram claramente Turquia e Arábia Saudita, classificar adversários políticos de "terroristas" é um expediente recorrente das autocracias árabes para eliminar a diversidade política e fertilizar o terreno para o crescimento do chamado fundamentalismo islâmico.

Que erva daninha brotará do totalitarismo brasileiro após o expurgo do PT?
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