30 abril, 2018

Abandonar Lula é abandonar a luta de classes


Foto (Mídia Ninja): Última Assembléia e Marcha Povo Sem Medo por Lula Livre, em São Bernardo do Campo, no dia 08 de abril de 2018.

Por Maria Fernanda Novo, Laura Luedy e Fábio Nolasco*

Desde 8 de abril, subtraíram o corpo do ex-presidente Lula da cena política brasileira, aprisionando-o em Curitiba. Lula deixou de ser público, mas não deixou de participar do horizonte político que tem nas eleições de outubro o cenário menos previsível desde a redemocratização. Tal como anunciado na missa organizada em homenagem a Marisa Letícia, evento que iniciou o dia de sua prisão, os elementos de uma muito necessária transubstanciação já estavam à disposição. Lula se fez ideia. Aos líderes da esquerda, aos movimentos sociais e ao povo reunido em São Bernardo, é legada a responsabilidade pelo afrontamento da extrema direita e do liberalismo que se instala vertiginosamente pelo país.

Ao transubstanciar-se – não exatamente em pão e vinho, mas em churrasco, pagode e multidão – Lula se põe de acordo com o curso dos fatos: a ideia, o conceito e a forma da luta de classes no Brasil não cabe mais na singularidade Lula. Contudo, a nova figura representativa da luta de classes também não poderá, de maneira alguma, deixar de conter em si essa singularidade que lhe serviu de veículo por pelo menos três décadas. Isso porque o conceito e a realidade da luta de classes não operam por saltos bruscos, mas acumulam pacientemente, suspendem e conservam seu próprio caminho e história – porque, em suma, é memória acumulada da história dos oprimidos.

A luta de classes no Brasil, em toda a complexidade da noção, não vai adiante sem Lula – e por isso é urgente que ele seja posto em liberdade. Isto é, para que a tal transubstanciação possa seguir seu curso e ir além do passe de mágica católico operado naquele sábado, na pia batismal de São Bernardo. Ela tampouco se dá, agora, apenas com o ex-presidente – e isso é incontornável, posto que estamos diante do restabelecimento do projeto brasileiro de luta de classes como um todo, a ganhar, enfim (e já tarde demais), nova figura quatro décadas depois.

Mas seria a luta de classes a única ideia na qual Lula se transformou? Duas são as possíveis respostas a essa pergunta - uma mais sombria, outra mais potente. Devemos ter coragem para encarar a resposta sombria como quem faz uma autocrítica, sem jogar pérolas aos porcos e sem nos constranger como se os equívocos grosseiros do desenvolvimentismo fossem um flagelo insuperável. Por outro lado, a necessária renovação se fará apenas se os processos de mudança não forem rifados à lógica da aliança com o atraso.

Em primeiro lugar, não se pode negar que a história de Lula tenha feito dele uma personalidade. Ele próprio explora imensamente essa faceta na sua ação sobre o público. No discurso que precedeu a prisão, quem aparecia como o grande responsável por diminuir a mortalidade infantil e levar estudantes da periferia para as melhores universidades do país não era um conjunto de pessoas, mas uma pessoa só - o próprio Lula. Há, assim, o risco de que a ideia que Lula se tornou seja, em grande medida, a ideia da grande personalidade auto-suficiente e superpotente - e isso tem pouco valor para os fins reais da esquerda no país.

A segunda resposta e o outro lado da ideia correspondem, justamente, a Lula enquanto um indivíduo que carrega algo que o ultrapassa e faz dele uma potência incontornável da esquerda brasileira. Lula é, sem dúvida, uma figura efetiva da ideia da luta de classes. Diante de São Paulo, foi o imigrante nordestino. Diante do processo de favelização do polo industrial do ABC, produto do “milagre econômico” da ditadura, foi o articulador da resistência trabalhadora.

Tratou-se, é certo, sempre de uma força que se mantinha no jogo porque também cedia. Isso se torna muito evidente, primeiro, em sua posição conciliatória no final crítico da greve do ABC de 1979. Como retratou o cineasta Leon Hirszman, no filme ABC da greve, Lula defendeu que os trabalhadores acatassem uma contraproposta da direção da fábrica, aquém das demandas grevistas. Para o então presidente do sindicato dos metalúrgicos, o aumento proposto pelos empresários representava uma vitória ao movimento sindical, que realizava uma greve sem precedentes em plena expansão da industrialização.

A figura conciliatória se manteve mais tarde, na administração da economia que fez em seu governo – administração que foi, em muitos aspectos, agradável ao neoliberalismo, embora haja sido também marcada por alguma intenção distributiva que apaziguou a miséria, mas não a exploração do trabalho e dos recursos naturais. De todo modo, ninguém que assista aos atuais desmontes da coisa pública e dos direitos básicos dos trabalhadores sob a administração do golpe deixará de olhar com saudades para a expansão do Bolsa Família, do salário mínimo e do ensino público no país.

Enquanto pessoa que carrega a figura da luta de classes, Lula é uma força da esquerda e não simplesmente enquanto personalidade. É isso o que justifica nossa mobilização contra sua prisão, e dificilmente tal fato é ignorado por Lula, pelo PT e pelos que se reuniram em torno dele no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo nos dias 7 e 8 de abril.

A deadline que Moro & Co. impuseram à história do país talvez tenha sido a maior responsável, aliás, por fazer disso que deveria ter sido um processo social de transubstanciação, um improviso carismático. A República de Curitiba, assim, tentou lançar veneno num processo de passagem essencial para nossa eterna tentativa de constituição enquanto povo diante do Estado e das forças da elite.

Trata-se do modus operandi tradicional que, desde sempre, desgoverna o Brasil, qual seja, a tática sempre vencedora de desarticular precisamente os momentos cruciais do passamento, adiá-los mediante violência e coerção, encarcerar ou assassinar covardemente (como no caso Marielle Franco) aqueles que portam e atuam a ideia da justiça social no país.

Nossos processos de passagem sempre sofrem, nos momentos cruciais, interferências, interrupções abruptas, e daí que nossas reviravoltas tenham sido sempre saltos bruscos, no mais das vezes meramente nominais, sem passamento nenhum (vide a abolição da escravidão, a modernização no período ditadura e a própria redemocratização). Os momentos de passagem revelam sempre, especialmente no Brasil, a atuação antecipatória de elites exclusivamente preocupadas em impedir que as mãos “impuras” dos oprimidos imponham o sentido, o ritmo e a agenda do processo de alteração social.

Avançar um projeto de esquerda que não abandone Lula nem nos impeça de realizar mais amplamente a reconfiguração da luta de classes no Brasil é reivindicar o direito de operarmos nossa história a partir dos elementos que de fato a constituíram. É resistir e denunciar o golpe em curso.

*Maria Fernanda Novo é doutoranda em Filosofia pela Unicamp
Laura Luedy é doutoranda em sociologia pela Unicamp e feminista autônoma
Fábio Nolasco é doutor em filosofia pela Unicamp
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2 afroências:

Natalia Costa Rugnitz disse...

Texto muito lúcido e oportuno, ainda mais por ter sido publicado no 1 de Maio. Muitas ideias interessantes. A ideia de "transubstanciação", suscitada pelo próprio Lula no discurso de 7 de Abril passado, é poderosíssima, embora suscite também uma grande perplexidade. O viés resgatado pelos autores ajuda a compreender parte do significado difuso - e, principalmente, do APELO PRÁTICO - contido nessa ideia. Não se trata tanto de hipostasiar a figura do SUJEITO Lula (disso, a história mesma dará conta), mas de incorporar a sua trajetória e o seu IDEÁRIO "em carne própria". Isto é: a renovação da esquerda, evidentemente urgente no momento atual, passa não só pela renovação das figuras chave do partido, mas também pela apropriação lúcida e explícita, no meio do "churrasco e do pagode" (rsss), dos valores que guiam o "modo de ser de esquerda" da enorme massa de cidadãos que seguem essas figuras chave, ou seja, do conjunto enorme e vertiginosamente VARIADO que constitui o corpo mil. Trata-se, em outras palavras, de esclarecer e trazer à consciência o que significa ser de esquerda hoje. A "ideia Lula" simboliza, antes que nada (mas entre outras muitas coisas), a rebeldia perante as injustiças implícitas no "modo de ser" capitalista e neo-liberal, e o compromisso por fazer uma diferença REAL em prol da justiça social e em contra dessa "tendência magna" que, lamentavelmente, não para de retrasar o desenvolvimento da democracia e que hoje ameaça especialmente o Brasil com a sua "interferência" reacionária. Democracia é, de fato, outro conceito inseparável do legado de Lula, e que precisa ser incorporado na consciência e na carne de um modo mais radical que até agora.

De uma maneira mais específica, os autores colocam sobre a mesa o conceito fundamental de luta de classes como forma pontual, se bem interpreto, de "incorporar em carne própria" e efetivar a transubstanciação de Lula. Vale citar: "A ideia, o conceito e a forma da luta de classes no Brasil não cabe mais na singularidade Lula". Eis uma lucidez fortíssima e capaz de dar combustível à ação futura. De novo: a história dará conta do resto. E este é o ponto que me parece necessário enfatizar: o tempo atual exige ação EFICAZ, dedicação PONTUAL a objetivos ESPECÍFICOS. Para tal, as prioridades na agenda devem ser muito cuidadosamente estipuladas - por última vez: a história dará conta da grandeza da figura de Lula como sujeito biográfico; nós, na nossa "minúscula" praxis cotidiana, temos uma energia limitada. Penso que poderemos colaborar melhor com esse processo não nos dedicando a "erguer um altar", mas a alimentar, esclarecer e divulgar os valores subjazentes à essa luta, ou seja: trabalhando para que esses valores deixem de ser, justamente, "subjazentes".

Cabe a nós retomar, tanto na praxis quanto na teoria (que é também uma forma de praxis), todos estes conceitos-guia.

Nessa linha, perguntaria aos autores: em que consiste a "luta de classes" da qual estão a falar no horizonte do momento presente?

Laura Luedy disse...

Natália,
Muito obrigada pela leitura atenta e generosa. A meu ver, seu comentário foi muito certeiro em vários pontos
em primeiro lugar, em frisar que a ideia da transubstanciação que o próprio Lula sugeriu e aplicou a si guarda um ambiguidade interessante -por um lado, nos causa estranheza, por outro, prova ter uma força política que não podemos ignorar;
em segundo lugar, no que conclama a nós, da esquerda, a traçar objetivos específicos e eficazes nesse momento (o que não significa esquecer questões de conjuntura mais genérica, eu acho, mas sim evitar que nos perdamos agora, nesse momento que requer ação urgente, em pautas pouco determinadas, que nos perdamos "secando gelo");
em terceiro, por lembrar que há uma importância na tarefa de divulgar os valores subjacentes à nossa luta, bem como que a teoria também é prática (nós, acadêmicos, e outros produtores culturais precisamos ter isso, o poder de nosso ofício diário, muito nítido para nós e não nos isentar de atualizar a nossa maior potência nesse momento).
Foram esses os pontos que se destacaram em minha leitura de sua contribuição. Espero que eu não haja sido injusta na reprodução livre.
Quanto à pergunta sobre a luta de classes, muito obrigada por ela. Nós tínhamos feito uma tentativa de definí-la no texto, mas como nós três não chegamos em um acordo, deixamos isso em aberto - e você, como boa leitora, notou a lacuna!
Bom, minha resposta talvez contemple, portanto, meus outros colegas. Mas aí vai:
Muito sumariamente, eu consigo começar a apresentar o que eu pessoal entendo por luta de classes nesse caso partindo de uma definição com 4 destaques:
A luta de classes para mim é, em sua forma e em seu fim,
1. anti-hierárquica - ou seja, creio que ela visa ao desmonte de toda e qualquer hierarquia e, inclusive, recuso que ela deva ou possa se valer de formações hierárquicas (ponto que pode ser polêmico)
2. sensível às diferentes modulações que a hierarquia assume na história e nos locais (p.ex. desde as mais genéricas como classe econômica, raça, gênero, até as mais específicas, como a situação de nordestinos no brasil, migrantes ou não, bolivianos, prostitutas, idosos, periféricos de são paulo etc.)
3. algo que se contrapõe a que certos sujeitos (pessoas ou instituições) "tomem as rédeas" das vidas de outros, mas que não advoga em lugar disso autonomia (a propriedade de si, a relação consigo e com os outros nessa chave individualista, egoísta, mercantil etc.), mas sim a experiência radicalmente desarticuladora e rearticuladora do público, da política. (ponto inspirado nos últimos livros de Vladimir Safatle).
Para mim, é isso. Espero que haja algum interesse nisso para todos e que sigamos rumo à superação dos atuais ataques e desmontes.


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