24 outubro, 2016

Concurso de malandragem na Europa: o vencedor é Vladimir Putin



Este fim de semana foi entremeado por duas importantíssimas visitas vindas do leste para a Europa ocidental. O primeiro, que se encontrou ontem com o presidente francês François Hollande, em Paris, foi o líder russo Vladimir Putin. E o outro, que se reunirá com a cúpula das instituições europeias na próxima segunda-feira, é o chefe do Estado turco, Recep Tayyip Erdogan. Atualmente, esses dois mandatários de biografias controversas e relações tensas com as potências ocidentais, podem ser os mais importantes atores na crise migratória de proporções bíblicas que o continente enfrenta.

O vespertino francês Le Monde traz a fotografia de um François Hollande constrangido, que aperta a mão de Putin no Palácio do Eliseu, sem olhar para o colega. Os dois, que deveriam discutir a aplicação do tratado de Minsk pela paz na Ucrânia, acabaram falando por mais de uma hora sobre a Síria. Isso porque, na quarta-feira, Moscou começou a bombardear posições no país governado por seu aliado, Bashar al-Assad. Apesar de o Kremlin alegar que estes ataques estão em perfeita conformidade com o direito internacional, o ocidente desconfia que o objetivo dos russos não é impedir o avanço do autoproclamado Estado Islâmico mas, simplesmente, assegurar al-Assad. Prova disso é que, durante dois dias, os russos não efetuaram nenhum disparo contra zonas dominadas pelos jihadistas, mas atacaram outros opositores do presidente sírio, inclusive grupos sunitas moderados, com um custo de ao menos 40 civis mortos.

Esta ofensiva, que Moscou já anunciou que deve se intensificar e se estender por pelo menos três meses, também joga um balde de água fria nos planos da Turquia. Ankara usa a guerra contra o grupo Estado Islâmico como pretexto para atacar as forças ligadas ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que são justamente as tropas que obtiveram as maiores vitórias militares contra os jihadistas.

Na real, enfrentar o Estado Islâmico está longe de ser prioridade para o presidente turco. Erdogan colaborou ou colabora descaradamente com a organização: comprou petróleo e matéria prima por atacado, vendeu armas e fez vista grossa para travessias diárias dos gângsters do "Daech" (como o grupo é conhecido em árabe) de sua fronteira com a Síria.

Neste contexto de discursos velados e hipocrisia escancarada, a Europa, incapaz de encontrar uma solução conjunta para lidar com a crise migratória, ofereceu aos vizinhos da Síria - dos quais a Turquia é a mais poderosa - uma doação de 1 bilhão de euros. Não é pra realizar o sonho da casa própria, mas para que estes países acolham e selecionem os migrantes antes que eles cruzem as fronteiras europeias.

A primeira malandragem é que, se a Turquia aceita essa ideia, a Europa ganha um dispositivo jurídico para expulsar migrantes que cheguem por essa rota. Pra isso, bastaria incluir a Turquia na lista dos "países seguros", prevista pela Convenção de Dublin. Quem veio de um país "seguro", que não está em guerra, não tem direito a pedir asilo político. A outra malandragem é que o PKK é classificado como organização terrorista pela Turquia, pela Otan e pelos EUA. Ou seja: Erdogan tem carta branca pra matar seus militantes, sem que isso seja chamado de guerra. Ele pode também matar qualquer um que julgue ter associação com o PKK. Enfim, ele pode matar qualquer curdo. Mas, pela Convenção de Dublin, a Turquia poderia ser considerada "segura" para os migrantes curdos.

Só que, justamente de olho nos curdos, Ankara fez uma contraproposta: construir três cidades em uma "zona de segurança", na fronteira entre Turquia e Síria, em que esses migrantes seriam alojados. Assim, Recep Erdogan, que é mais malandro que o gato, mataria dois coelhos com uma cajadada só, já que uma zona turca militarizada naquela região bloquearia o avanço das forças curdas, que levam a luta contra o grupo Estado Islâmico mais a oeste, em direção ao norte de Aleppo. O problema é que a Rússia pôs água no chope do Erdogan: Moscou está alinhada com Damasco e, portanto, não vai aceitar uma intervenção turca que ameace a integridade territorial da Síria, o que certamente aconteceria com a criação dessa zona de segurança.

Isso significa que os curdos poderão continuar a enfrentar os jihadistas. E enfrentar os jihadistas era o que todo mundo dizia querer, não? Só que, como a hipocrisia impera e ninguém diz o que quer dizer nem faz o que diz, o resultado é que ninguém está satisfeito. Só o Vladimir Putin, que se formou em malandragem na KGB.

Texto publicado originalmente em 3 de outubro de 2015
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