24 outubro, 2016

Em Calais, Banksy ataca maneira como Europa lida com migração


 Na "Selva" de Calais, Stevie Jobs é só mais um imigrante. Foto: Philippe Huguen/AFP

Neste fim de semana, a cidade de Calais, que se tornou símbolo da crise migratória, acordou decorada por três obras do artista de rua britânico Banksy. Um dos grafites, no coração do acampamento onde vivem 4,5 mil migrantes em condições precárias, mostra Steve Jobs vestido como refugiado, carregando uma trouxa e um velho computador Macintosh. Em um raro comunicado publicado em seu site, o grafiteiro lembrou que o fundador da Apple, morto em 2011, era filho de um imigrante sírio.

"Sempre tentam nos fazer acreditar que a imigração representa perda de recursos para os países, mas Steve Jobs era filho de um imigrante sírio. A Apple é a empresa mais lucrativa do mundo, paga mais de US$ 7 bilhões anuais em impostos e só existe porque a entrada (nos Estados Unidos) de um jovem natural de Homs foi permitida", escreveu o artista.

Além do retrato de Jobs, que se mistura às barracas improvisadas dos moradores da "Jungle (Selva)", como o lugar é conhecido, os outros dois grafites feitos em Calais alertam para o drama dos migrantes, mas por meio da intertextualidade com outras obras de arte. No centro da cidade, Banksy parodiou "A balsa da Medusa", a mais célebre tela do pintor francês Théodore Géricault, e um dos marcos da iconografia ocidental. A ironia do trabalho do artista britânico não está só na frase que acompanha a obra ("não estamos todos no mesmo barco") ou na substituição do navio Argus retratado no quadro de 1819 por uma representação do ferryboat que atravessa confortavelmente o Canal da Mancha várias vezes ao dia.



Um barco na contramão
 
Banksy, ao substituir os náufragos do quadro original por imigrantes "ilegais", reverte a lógica da opressão e remonta à Colonização que é, em última instância, a raiz histórica da crise migratória. Isso porque a tela original retrata, em proporções magnânimas (4m x 7m), a balsa que leva os sobreviventes do naufrágio da fragata Medusa, em 1816. A embarcação atravessava justamente o mar Mediterrâneo - principal rota da atual migração econômica para a Europa -, em uma missão colonizadora francesa rumo ao Senegal.

Além de soldados, oficiais do governo, burocratas e suas famílias, a fragata transportava escravos e condenados à deportação. Quando o barco veio a pique, em consequência de um erro de cálculo, os brancos subiram nos poucos botes disponíveis e conseguiram ser resgatados pelo Argus. Agora, num rodapé do centro de Calais, Banksy chama de volta à responsabilidade europeia o problema da crise migratória, lembrando que, na maior parte da história, foram europeus que cruzaram o Mediterrâneo para tentar nova vida em terras africanas e não o inverso. Afinal, o que foi a colonização, senão uma migração econômica em larga escala?
 
Abutre à espreita

A terceira obra, realizada em um posto de segurança da praia de Calais, representa uma garotinha de cabelos ao vento, que espia a costa britânica através de uma luneta. Um imenso abutre repousa sobre a luneta, em referência direta à famosa fotografia "Vulture Stalking a Child (Abutre perseguindo uma criança)", de Kevin Carter. Em março de 1993, o fotógrafo registrou uma garotinha esquelética, quase inerte, com a testa colada no chão de um vilarejo devastado no sul do Sudão. Ao fundo, um abutre espreita, pacientemente.

A fotografia, vendida ao New York Times, foi considerada uma metáfora da situação de abandono da África pós-colonial. Mas, tão logo estampou as páginas do jornal, desencadeou uma enxurrada de críticas. Os leitores, que queriam saber o destino da garotinha, se revoltaram ainda mais depois de uma entrevista em que Carter assumiu que aguardou por 20 minutos que o urubu abrisse as asas, o que não aconteceu. A atitude dele de assistir impassível à lenta agonia desta criança acabou obrigando o diário a pedir desculpas públicas. O fotógrafo chegou a se dizer arrependido da própria passividade. Três meses depois da publicação, ele se suicidou.

Com estas três obras, Banksy estampou em Calais uma crítica ampla à maneira como a Europa resolveu lidar com a crise. A menininha representa a lenta agonia que os migrantes sofrem na Selva; a balsa, a crueldade da discriminação entre seres humanos de primeira classe e seres humanos simplesmente descartáveis. O grafite de Steve Jobs ilustra como o preconceito prejudica os próprios preconceituosos.

Mas, talvez, a grande ironia deste novo trabalho de Banksy tenha se concretizado na reação das autoridades de Calais: a prefeitura anunciou que vai proteger as obras para que não sejam depredadas. Afinal, a assinatura de Banksy vale muitos milhões no mercado especulativo da arte. O grafiteiro queria sensibilizar em relação ao drama humano, mas as autoridades são mais sensíveis ao dinheiro. Como o próprio artista escreveu, "não estamos todos no mesmo barco".

Matéria publicada originalmente pela Radio France Internationale, a 14 de dezembro de 2015
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