12 julho, 2017

A caricatura da elite brasileira que a condenação de Lula revela

Lula discursa na Organização das Nações Unidas, em 2008. Foto: Wikipedia

Se você é povo (em outras palavras, se não tem dinheiro em paraíso fiscal) e tá comemorando a condenação do Lula, você tá de chapéu. Não é uma pessoa física que Moro quer tornar inelegível e botar atrás das grades por quase dez anos. É um símbolo.

Quem precisa de provas para condenar um símbolo? A destruição violenta de ícones populares é prática inscrita no DNA das elites ao redor do mundo. Afinal, elas precisam de todo um conjunto simbólico - ora fornecido pela Igreja, ora pela publicidade, ora pelo Partido da Imprensa Golpista, ora por todos os anteriores - para sustentar sua hegemonia insustentável. Só uma ideia simbólica mística (como Deus, por exemplo) pode explicar porque a Paris Hilton merece nascer proprietária de um fundo de investimento de bilhões de dólares enquanto uma criança africana não merece herdar mais do que HIV.

É contra a ideia de que o pobre pode aspirar a algo além do servilismo, a cadeia e a cova rasa que conspira o Judiciário. A condenação do Lula, como a condenação de Rafael Braga, é um ato simbólico. Como foi simbólica a morte de Zumbi dos Palmares, cuja cabeça decepada com o pênis enfiado na boca apodreceu em praça pública no Recife. Ou as decapitações do bando de Lampião. Ou a condenação do líder da revolta da chibata, João Cândido, a ser enterrado vivo em cal, ao lado de outros insurgentes. São tentativas oligárquicas de construir na cabeça do povo o trauma da insurgência.

Lula não é uma pessoa, é um símbolo de auto-estima do povo brasileiro, um símbolo de altivez, um símbolo de um Brasil que se coloca de igual para igual com as grandes potências globais. Esse é o problema.

Lembrei de uma vez que fui cobrir, pela rádio pública francesa RFI, uma visita de Estado de Dilma Rousseff a Paris em 2013.

Lula veio também para falar diante do Legislativo francês e de personalidades importantes da política local, como o ex-primeiro ministro Lionel Jospin e o então presidente socialista François Hollande, que dividia o antebraço da poltrona com seu antecessor conservador, Nicolas Sarkozy. Lula ia discursar por meia hora, já que a voz ainda estava combalida pelo câncer na garganta. Mas, graças a incontáveis copos d'água, ele conseguiu falar por três horas. Como sempre, arrancou gargalhadas - inclusive da mesquinha imprensa brasileira, que cobria o evento como se fosse um fato cotidiano regional - e aplausos efusivos do público em geral.

Todo mundo escreveu suas matérias, sem dar uma linha sobre o discurso, priorizando o pseudo-escândalo do momento, que nem eu lembro mais qual era. Eu, que tinha certa liberdade editorial, falei de outra coisa, falei de como a má relação de Lula com imprensa dentro do Brasil se reproduzia também fora, em espaços onde ele teria a possibilidade de aventar outros temas que não a picuinha nossa de cada dia.

Sei que, no dia seguinte, Lula daria mais uma palestra na Fundação Jean Jaurès. No intervalo pro almoço, conversamos brevemente com o então ministro da Fazenda Guido Mantega sobre algum assunto da economia que também não lembro mais qual era. Aumento da taxa selic, talvez. Sei lá, não lembro mesmo.

Os correspondentes foram todos almoçar juntos, eu fui pra outro lado. Não sou muito fã da conversa corporativista dos jornalistas fora do país. E sempre fico deslocado como único preto e único radical de esquerda. Almocei com um repórter da imprensa francesa. Ele tinha lido as matérias dos colegas brasileiros e estava intrigado. Não conseguia entender por que nossos jornalistas "sabotavam o Brasil", como ele disse.

Não entendia por que davam importância desproporcional a um "escândalo" exageradamente local, inconsistente e sem provas, no dia seguinte a uma palestra em que o homem havia tocado os pontos mais importantes da agenda internacional, de solidariedade petrolífera e erradicação da fome à ausência de órgãos efetivos de regulação internacional da especulação financeira. Isso pra uma plateia de tarimbados dirigentes europeus, quietos e boquiabertos, diante de um peão de fábrica com mais diplomas honoris causa do que todos eles juntos.

O francês me falou uma frase que não esqueço: "O Lula é um patrimônio do Brasil". Para ele, Lula era, internacionalmente, o farol de uma América Latina autônoma e autoconfiante que deixava de obedecer e passava a ensinar um mundo velho e viciado a se reinventar. Lula era o símbolo de um Brasil viável no cenário internacional. "O Brasil não quer ser um ator internacional? Então, destruir o Lula é um boicote ao Brasil!"

Talvez daqui seja difícil ver isso. Mas na Europa, as pessoas tinham a sensação de que o Brasil havia nascido com o Lula. Ninguém sabia o que acontecia por aqui antes do Lula. O Brasil não interessava nem importava pra ninguém, o príncipe que me desculpe. Antes do Lula, a maioria de quem cruzava o oceano Atlântico era playboy que preferia fingir que era europeu do que mostrar nossa cara pra eles. Era gente com vergonha do Brasil. Vergonha da nossa pele escura, do nosso suingue, do nosso sangue mestiço, vergonha até do sol quente que bate aqui.

Ao colocar o Brasil no mapa, Lula não foi sozinho, levou nosso Brasil mestiço na bagagem. E essa é uma diferença que se sente com muita clareza. A elite, com sua força policial capitã do mato e seu poder econômico desaculturado, obriga o pobre a andar cabisbaixo por aí. Mas fora do país, é incrível como a elite tradicional é que andou cabisbaixa nos últimos anos. De peito estufado pelas ruas de Paris estava o povo do Prouni, do Ciências sem Fronteiras, a rapaziada da era PT, que quer que se foda se o gringo vai achar ruim que a gente é preto. É o que a gente é mesmo. E adivinha? Foi aí que o gringo passou a respeitar a gente.

Porque nossa elite não tem o verniz da intelectualidade, que ostenta parte da elite europeia. É uma elite pré-iluminista. E, como tal, não tem mais do que seus próprios preconceitos e autoritarismos em que se aferrar. Quem condena o Lula sem provas, no fundo, é o dono da bola que resolveu acabar com o jogo porque estava perdendo de goleada. É o rico brasileiro que, sem o lastro do dinheiro, da mídia, do Judiciário, do poder político, não tem nada que o diferencie do povo. Só lhe resta lutar para manter essa máscara de branco, cravejada de diamantes para disfarçar sua real matéria-prima: racismo. Para manter a aparência de elite, a elite brasileira rifa o Brasil - devolve, com a reforma trabalhista, a economia nacional a patamares coloniais; encerra, com a submissão à agenda de potências decadentes, nossa perspectiva de autonomia internacional; mata a possibilidade da diversificação dos nossos saberes ao encerrar os programas que permitiam ao grosso da população conhecer o mundo.

Essa condenação de hoje é uma tentativa da elite de não parecer brasileira. Pois nada mais brasileiro do que tentar destruir líderes populares de envergadura histórica em nome de um projeto datado, mesquinho, fadado ao esquecimento. Daqui a 500 anos, Lula será lembrado como o presidente que erradicou a fome do Brasil. A Lava-Jato, se muito, será lembrada como uma operação policialesca com um erro de português no nome.

#LulaInocente
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3 afroências:

O Justo disse...

Texto interessante. Mas, é sério mesmo que voce está colocando Lampião junto com João Cândido e Zumbi??? Lampião foi um bandido assassino. Ou vai me dizer que a gangue que assaltou, matou e estuprou durante meses (ou anos) deveria ser canonizada? Tiveram o que mereceram. Matar e roubar não é uma opção.
Outra coisa, "Lula inocente" é devido à obra de Lula para com o povo brasileiro (que sim, foi boa e revolucionária, no ponto de vista social, mas não econômico pois rolou uma dívida que há de ser paga) ou você acredita que depois de meses de investigação do ministério público apresentando provas, ele é inocente? Mais uma coisa: Mensalão existiu? Petrolão existiu? Zé Dirceu (ex-ministro do PT), Palocci (ex-ministro do PT) e Genoino (ex-presidente do PT)são culpados ou inocentes? Ou tudo foi algo orquestrado pela grande mídia brasileira?
Perceba que tudo que escrevi foram perguntas (menos a parte de Lampião, que pra mim, foi ladrão e assassino mesmo e não merece honraria de ser colocado ao lado de Zumbi e João Cândido) que gostaria que pudessem ser respondidas por você. Obrigado.

Gabriel Rocha Gaspar disse...

Querido, obrigado pelo comentário.

Vamos lá. Eu não canonizo ninguém - não acredito na dicotomia entre bem e mal. Acho que é nas nuances que o mundo acontece. Quando falei do bando de Lampião, falei da virulência da reação elitista contra sua revolta popular (que não estou julgando moralmente, para o bem ou para o mal). Estupradores, ladrões e assassinos, temos de sobra em nossa História, a começar por Pedro Álvares Cabral.

A questão é que aqueles que servem propósitos oligárquicos, aqueles que muito fazem para nada mudar, não são decapitados. Borba Gato, cuja estátua gigantesca (des)orna uma das principais avenidas de São Paulo, cujo nome batiza ruas, estradas e avenidas por todo o Brasil, comandou uma bandeira pelo interior do Mato Grosso em que 1 milhão de índios foram assassinados. Raposo Tavares disputa com números de igual vulto. Esses viraram estátua. Os que tinham caráter de classe, foram decapitados, esquartejados, serviram de "exemplo".

Veja que minha leitura não é moral. É uma leitura marxista, uma leitura que parte da premissa da luta de classes. Portanto, não são as ações individuais, mas as estruturais que me interessam neste texto.

Quanto às provas contra o Lula, se existissem, o depoimento dele ao juiz Moro não precisaria durar as seis horas que durou. Bastava a apresentação das provas. O fato é que a condenação se baseia num documento sem assinatura e no depoimento de um sujeito que afirmava a inocência do ex-presidente até ser pressionado por um instrumento de tortura psicológica chamado eufemisticamente de "delação premiada". Isso não configura prova em nenhum manual de direito. Quando a justiça é incapaz de apresentar provas contra o réu, só há uma palavra para chamá-lo: inocente.

E, de novo, não estou falando do ponto de vista moral - estou falando do ponto de vista jurídico. O que a Lava-Jato fez (e isso muito me preocupa) é inverter um preceito básico do direito, que é a presunção de inocência. É uma operação policial que se pauta pela presunção da culpa. E isso é característica de Estados de exceção, em que o poder Judiciário é instrumentalizado como ferramenta de perseguição política.

Mensalão, Petrolão... São consequências da estrutura política composta no Brasil, da relação promíscua que se estabelece, desde o primeiro pau brasil arrancado deste solo, entre o poder oligárquico privado e o poder oligárquico público. Não é condenando indivíduos que se combate este tipo de mazela - é restruturando a política de forma que os interesses populares possam entrar no gabinete em pé de igualdade com os outros interesses. Isso aconteceu, ainda que de maneira muito mais tímida do que eu desejaria, no governo Lula. O resultado foi Bolsa Família, Prouni, Fome Zero... O resultado foi o pobre em condições de comer, pensar, viver.

Já com relação à sua pergunta sobre Dirceu, Palocci e Genoíno, ela é uma pergunta moral. Você espera que eu te diga se eu "acho" que eles, como pessoas físicas, são inocentes ou culpados. Não acho nada. Não sei. Mas isso também não interessa, porque vive na esfera privada. E também não conheço profundamente seus julgamentos para te dar uma resposta estrutural. Agora, sei que Dirceu foi condenado com base na teoria do domínio do fato, que é justamente o melhor exemplo da inversão da presunção da inocência de que falei: o juiz declara culpa baseado na convicção de que, ocupando a posição que o réu ocupava, não havia como ele não saber o que acontecia. Desculpe, mas a opinião do juiz só ganha valor de prova, repito, em regimes autoritários. Portanto, do ponto de vista jurídico, acho o julgamento inconsistente o que me leva à conclusão de que, tecnicamente, José Dirceu é inocente. Moralmente, não sei. Mas, como não há como saber, não interessa saber.

Agradeço de novo pela oportunidade de responder as suas perguntas. Apareça sempre que quiser, o Afroências é uma casa aberta.

Abraços

O Justo disse...

Olá Gabriel,

Obrigado pelo seu tempo em me responder. Gostei bastante do que voce escreveu e aceito suas respostas. Há aqui, alguns apontamentos.

E já deixo meu elogio sobre a matéria dos "vídeos propaganda" realizados pelos Daesh. Muito bom o texto. Parece que na Europa é consenso não fazer propaganda de algo que eles não são: nem um Estado, nem representação do Islã, coisa que fazemos aqui no Brasil e nos EUA.

Voltando ao tema: Voce quer dizer que pobre assassino é decapitado como exemplo e rico assassino vira estátua como exemplo? É isso?

Para voce entender meu ponto de vista: eu era um grande fã da extrema esquerda, da esquerda. Mas deixei de ser. Tornei-me um social-democrata (Pelo amor de Deus, sem comparações com PSDB ou similares). Social-democrata no sentido de usar a economia para o bem de todos, ou seja, gerar e repartir as riquezas, mas não socializar a pobreza (Votei no Partido Verde, por exemplo). Não tenho partido, tenho candidato (não sei se é mais certo ou mais errado). Gosto bastante de Cristovam Buarque (apesar dele ter votado a favor do impedimento da Dilma, porém, discursando a favor da mudança da estrutura politica que reinava na época (ou reina).

Vi Lula, em seus mandatos, fazendo coisas inacreditáveis assim como voce escreveu (Fome zero, ProUni, Bolsa Família). Porém, os baques do Mensalão (e mais tarde o Petrolão) me afetaram e afetaram meus amigos de esquerda também, que votaram na seguinte eleição para outro, porém, ainda são de esquerda. Veja que há outros partidos de esquerda, não só o PT. Mas, como muitos fazem, votam no outro grande para ter um combate de igual para igual (azar do Brasil ingessado em PT e PSDB).
Lula, como o líder do Brasil na época, deveria ter feito a reforma política como prometeu, mas percebeu que aquela situação era cômoda e vantajosa para ele e manteve o que estava. Ele tinha a maioria de Brasília em seu apogeu. Passaria tudo.

Como sou limitado tecnicamente na parte jurídica que voce mencionou, não posso dar uma tréplica ao tema da condenação do Lula, pois tudo que li foi através da mídia, que pode ou pôde deturpar facilmente o significado da sentença do Lula àqueles que, como eu, são leigos no assunto.

Porém escutei e li nas mídias que Dirceu foi condenado por vários crimes diferentes e não só pelo domínio do fato, mas por receber e ordenar o pagamento de propinas. Condenações estas, que saíram em 2016 e 2017 também. Provou-se também que ele recebia propina mensal quando estava preso. Se é verdade ou não, também não sei.

Resumindo: nesta sua maneira de pensar sobre reestruturar a política e não condenar os indivíduos, Temer deve ser condenado/impedido (sem entrar nos méritos do Golpe anterior)?

Sugestão: seria legal um texto com sua visão sobre o "jeitinho brasileiro".

Obrigado novamente.

Abraços e parabéns pelo Blog.

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