24 outubro, 2016

Mais respeito: Lula é um patrimônio internacional do Brasil




 Foto: Agência Brasil
Tá faltando ar no Brasil! Abre a janela, rapaziada - de preferência, fora do horário de panelaço porque branco batucando ninguém merece. Mas abre a janela, pelamor, que nem de longe o ar do Brasil tá dando pra respirar. Nem pela direita, nem pela esquerda.

Vi o segundo papo do ex-presidente Lula com os blogueiros anti-golpistas e me senti sufocado. Que adianta ter a oportunidade de conversar com o Lula livre da sana golpista da grande mídia, e perguntar sobre operação Lava-Jato? Lembrei de uma vez que fui cobrir pela rádio pública francesa RFI, uma visita de Estado de Dilma Rousseff a Paris em 2013.

Lula veio também para falar diante do Executivo francês e de personalidades importantes da política daqui, como o ex-primeiro ministro Lionel Jospin e o ex-presidente Nicolas Sarkozy. Ele ia discursar por meia hora, já que a voz ainda andava combalida pelo câncer na garganta. Mas, graças a incontáveis copos d'água, ele conseguiu falar por três horas. Como sempre, arrancou de gargalhadas - inclusive da imprensa brasileira - a aplausos efusivos do público em geral.

Todo mundo escreveu suas matérias, sem dar uma linha sobre o discurso, priorizando o pseudo-escândalo do momento, que nem eu lembro mais qual era. Eu, que tinha certa liberdade editorial, falei de outra coisa, falei de como a má relação de Lula com imprensa dentro do Brasil se reproduzia também fora, em espaços onde ele teria a possibilidade de aventar outros temas que não a picuinha nossa de cada dia. Engraçado que o staff do presidente ficou injuriado comigo... rs Acho que eles também estavam mais preparados para a picuinha do que pruma discussão crítica.

Sei que, no dia seguinte, Lula daria mais uma palestra na Fundação Jean Jaurès, depois dos discursos sonolentos de Dilma e do presidente francês, François Hollande. No intervalo pro almoço, conversamos brevemente com o então ministro da Fazenda Guido Mantega sobre algum assunto da economia que também não lembro mais qual era. Aumento da taxa selic, talvez. Sei lá, não lembro mesmo.

Os correspondentes foram todos almoçar juntos, eu fui pra outro lado. Não sou muito fã da conversa corporativista dos jornalistas fora do país. E sempre fico deslocado como único preto e único radical de esquerda. Almocei com um colega da imprensa francesa. Ele tinha lido as matérias dos meus colegas e estava intrigado. Não conseguia entender por que nossos jornalistas "sabotavam o Brasil", como ele disse.

Não entendia por que davam importância desproporcional a um "escândalo" exageradamente local, inconsistente e sem provas, no dia seguinte a uma palestra em que o homem havia tocado os pontos mais importantes da agenda internacional, de solidariedade petrolífera e erradicação da fome à ausência de órgãos efetivos de regulação internacional da especulação financeira. Isso pra uma plateia de tarimbados dirigentes europeus, quietos e boquiabertos, diante do peão de fábrica com mais diplomas honoris causa do que todos eles juntos.

O francês me falou uma frase que não esqueço: "O Lula é um patrimônio do Brasil". Para ele, Lula era, internacionalmente, o farol de uma América Latina autônoma e autoconfiante que deixava de obedecer e passava a ensinar um mundo velho e viciado a se reinventar. Lula era o símbolo de um Brasil viável no cenário internacional. "O Brasil não quer ser viável internacionalmente? Destruir o Lula é um boicote ao Brasil!"

Concordo com ele. A gente devia prezar um pouco mais o homem que abriu as portas do imaginário internacional para nosso país. Aqui na Europa, as pessoas têm a sensação de que o Brasil começou com o Lula. Ninguém sabe o que acontecia por aí antes do Lula. O Brasil não interessava nem importava pra ninguém, o príncipe que me desculpe. Antes do Lula, só vinha pra cá playboy que preferia fingir que era europeu do que mostrar pra eles o que era o Brasil. Até porque essa playboyzada tem é vergonha do Brasil. Tem vergonha da nossa pele escura, do nosso suingue, do nosso sangue mestiço, tem vergonha até do sol quente.

O Lula não veio pra cá sozinho, ele trouxe o Brasil mestiço na bagagem. E essa é uma diferença que se sente com muita clareza. A elite, com sua força policial capitã do mato e seu poder econômico desaculturado, obriga o pobre a andar cabisbaixo por aí. Mas fora do país, é incrível como a elite tradicional é que anda cabisbaixa. E a última leva, o povo do Prouni, do Ciência sem Fronteiras, a rapaziada da era PT, quer que se foda se o gringo vai achar ruim que a gente é preto. É o que a gente é mesmo. E adivinha? É aí que o gringo passa a respeitar.

Enfim, o que eu tô dizendo, desse jeito confuso e prolixo, é que a gente fica muito preso nas pautas bomba do Eduardo Cunha e nas pautas bomba de uma imprensa retrógrada azeitada por uma elite analfabeta, que acha que Lobão é cultura, que Olavo de Carvalho é filósofo, que Veja é jornalismo, que linchamento é justiça e por aí vai. E talvez o melhor escudo para o bombardeio que o presidente Lula sofre hoje no Brasil esteja fora.

Esteja no fato de que ele foi o primeiro a negociar com o Irã o acordo nuclear que os Estados Unidos tanto festejaram no ano passado. Lula é um líder de projeção internacional e reduzi-lo à esfera local é fazer o jogo de uma elite que quer destruí-lo não pelas suas falhas como presidente - e tem várias - mas porque ele é o símbolo de um brasil que não depende da elite.

Tem temas internacionais que deveriam ser a pauta da esquerda no mundo inteiro. Até porque, a direita está pensando globalmente. De Donald Trump à Viktor Orban, de Benjamin Netanyahu a Recep Erdogan, existe uma escalada uníssona de um discurso que promete a ultraliberalização da economia e o extermínio dos pobres. O Jair Bolsonaro tem esse mesmo discurso. Só que a gente olha tanto pra dentro, que começa a achar que ele é original.

É urgente sair do casulo: a esquerda grega quase conseguiu impor uma derrota a essa política fascio-financista e perdeu por falta de solidariedade internacional. Neste exato momento, existe uma iniciativa de democracia direta que está no olho do furacão no Curdistão sírio. A experiência mais progressista do mundo hoje está lá: uma república anarco-feminista, em que mulheres com treinamento militar anti-estupro enfrentam o Estado Islâmico e o exército turco em uma guerra pelo direito de existir. A própria América Latina vive um recuo importante das forças progressistas e cada esquerda está falando sozinha. O fascismo tomando o mundo e a gente perguntando pro Lula sobre apartamento no Guarujá. Se a ideia do inimigo é dividir pra conquistar, eles estão ganhando.

PS.: Antes que nego pense que eu ando tendo lapsos governistas, é o seguinte: a gente precisa pensar estrategicamente. E precisa ser solidário com o cara que foi o primeiro trabalhador a presidir o país. Graças ao Lula e ao PT, a gente consegue ver o próprio Lula e o próprio PT como menos progressistas do que gostaríamos. Não pretendo votar no Lula em 2018, mas deixar que o enterrem é acabar com a possibilidade de que surja uma opção viável verdadeiramente de esquerda.

Texto publicado originalmente em 16 de fevereiro de 2016
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