Já percebeu que o branco acha que nossas conquistas são concessão dele? Foi assim até com a abolição. Houve meia dúzia de branco abolicionista, uma princesinha acuada que assinou um papel e pronto: esquece-se levante dos malês, esquece-se Palmares, esquece-se toda a rebeldia negra na Bahia do Século XVII - que incendiava igrejas e prédios públicos, assentava quilombos urbanos e decapitava, à luz do dia, padres, capatazes e policiais. E celebra-se a liberdade em 13 de maio, dia da concessão da princesa. Falar em 20 de novembro feriado ainda soa ofensivo em vários ciclos, alguns até relativamente esclarecidos. Por quê? Porque é uma data que coloca nossa liberdade - ainda em processo de conquista - na esteira histórica da resistência. Sai a princesa boazinha, entra o negrão inflamado, que invadiu Recife e tentou estabelecer um estado negro separatista dentro do Brasil.Aposto que tem muita universidade por aí que encara as cotas desse jeito também, como uma bondade feita aos pobres pretos sem acesso a educação. Ignoram que a história remete à resistência dos anos 60. É o black power, que é mais do que cabelo armado, embora cabelo armado tenha muito o que dizer. É preto armado, de punho fechado e - no caso Pantera Negra - doze na mão. Poder para o povo preto é o poder de ter a estética que quiser, a comunidade que quiser, de reger a própria vida e sair das barbas da concessão do branco.
A síntese maior do black power é o programa de dez pontos dos Panteras Negras, que trazia, entre outros itens, propostas como "liberdade incondicional a todos os negros seguros em prisões municipais, estaduais ou federais, porque nenhum deles recebeu julgamento de um júri de iguais", premissa inalienável da Constituição Americana. Ou senão, "queremos que todo negro seja isento do serviço militar" - enquanto não tivermos total cidadania dentro de nossas próprias fronteiras, não temos porque defender essa pátria além mares. Se foi o branco que arrumou a guerra, problema dele: nós não vamos pra lá ser bucha de canhão. Ou ainda mais importante, no caso das cotas, "queremos uma educação para nosso povo que exprima a real natureza dessa sociedade americana decadente. Queremos uma educação que nos ensine nossa verdadeira história e nosso verdadeiro papel na sociedade atual". Esse ponto é o embrião da política de cotas. Afinal, o negro não podia confiar a seu grande algoz a tarefa de trazer à tona "a real natureza da sociedade", logo ele que escravizou, destruiu culturas, ciências, formações políticas e conhecimentos gerais e se miscigenou pelo estupro. Era preciso forçar um mecanismo que obrigasse a formação de professores e profissionais negros, capazes de rever a história e criar novas metodologias e linhas de pesquisa, que trouxessem à tona o papel que foi suprimido por anos de opressão e lavagem cerebral. Era preciso criar cotas.
Os brancos não cederam as cotas aos negros. Assim como no caso da escravidão, a ebulição social chegou a tal ponto que era ceder ou sofrer uma explosão política, social e econômica. Afinal, o negro sempre teve participação econômica importante - a gente é maioria, rapaziada! - e tê-lo fora do mercado de consumo seria crise. Foi o que pensou a Coroa Inglesa quando resolveu abolir o tráfico negreiro: eles precisavam de mercados para seus excedentes industriais e o sistema escravocrata atrapalhava a lógica do novo capitalismo, a lógica da inserção. Só que inserção econômica é uma coisa, inserção política e social significam muito mais do que o dinheiro negro entrando pela cozinha: é negro na sala de estar. Eis porque as cotas são tão duramente combatidas.
O problema de aceitarmos o ponto de vista de que nossos espaços políticos são concessões do branco é que isso dá ao branco a premissa de nos tirar espaço a seu bel-prazer. Mais ou menos como Hugo Chávez fez com a RCTV em maio de 2007. Só que ali, queira ou não, era de fato uma concessão do estado, reconhecida juridicamente como tal. E era direito do presidente renovar a concessão ou não, ao término do contrato. Nossas conquistas estão aí para ficar, até que nós mesmos resolvamos revogá-las. Os Estados Unidos vêm abolindo as cotas gradualmente porque, depois de duas gerações sob a imposição da ação afirmativa, os patamares de competição começam a se igualar. Aí, vale o mérito; aí, consolida-se a democracia. Que mérito tem o corredor que vence uma corrida depois de sair cinquenta metros na frente de um adversário que, além de correr descalço, não tem uma perna? É mais ou menos a condição de disputa entre o negro e o branco depois de quinhentos anos de escravidão.
Acho que hoje vivemos o movimento de uma nova vanguarda. A primeira chegou de cabelo black e punho cerrado e colocou o preto no mapa. A segunda subverteu a lógica capitalista e colocou o preto na frente de tudo que é tendência, tudo que é moda, tudo que é da hora, tudo que é classe A, cabuloso, cavernoso, enfim... A segunda vanguarda foi a vanguarda do rap, que pegou música gravada e gravou em cima e transformou um produto de consumo em um outro produto de consumo - e lucrou mais ainda em cima disso. Foi a vanguarda que trouxe o discurso contundente do passado para a forma de letra e transformou uma atitude negra, agressiva e resistente em fonte de renda, consciência e auto-estima. Mais ou menos como o Ilê Aiyê fez em 74. Agora, nossa cara é segurar esses espaços. A terceira vanguarda tem a missão de consolidar as conquistas. O branco acha que foi ele que concedeu, acha que ele pode tirar. Não! A conquista é nossa e a gente derruba se - e quando - quiser.











6 Comments:
Tava com saudades dos posts do Afroências, sempre com história, informação e emoção.
Continue que a conquista é sua e é nossa, de todos os leitores que são abençoados com cada palavra sua.
beijo, Luisa.
Salve Afroências. Até me assustei quando vi uma atualização do seu blog no Feed, rsrsrs!!
Brincadeira, tava com saudade tbm das tuas postagens. Esta então, veio como um editorial da retomada do blog. Senti firmeza agora!
(Já que está no clima de renovação, bem que vc podia lançar aquele layout que tinha planejado há cerca de um anoa trás hein.... seria uma boa, apesar de gostar bastante das cores azul e negra que estão aqui.)
Quanto à sua postagem, não tem nem o que falar. Eu mesmo sou um miscigenado com muito mais influência black do que europeia ou caucasiana. Sou mais Jamaica que Inglaterra. Mais Nigéria que França. Mais Brasil que Estados Unidos. E este espaço vem contribuindo para que a influência negra continue pulsante. Afinal, a revolução é contínua, como você mesmo vive argumentando.
Grande abraço parceiro, e continue nesta caminhada. Manter um blog é treta, eu mesmo bem sei disso. Mas a caminhada continua.
Abs,
Tiago
Ola,
Parabéns pelo afroências...
Estamos juntos na luta contra o racismo. Acesse:
http://oladonegrodamoda.blogspot.com/
Não soul nem nunca apoei racismo ate porque em muinto casos o racismo se dar por rasão social cor ou formação.se voçê é rico não inporta a cor,se é bem sucedido na vida tudo bem,vem de uma familia bem sucedida,tudo bem a cor não inporta.,fico triste quando vejo falar em cota para negros nas univercidades onde na verdade deveria valer acapacidade da pessoa.por enquanto é só,eu Izaiassouza.,email.izaiascriolosanguebom@hotmail.com
Tem preto tão racista quanto branco facista. Fato.
Quanta hipocrisia...
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