Teve uma época que o Afroências deu uma bombada. Lembram? Gente como Pedro Alexandre Sanches e Ricardo Soares dava as caras por aqui, a Radiola Urbana do grande amigo Ramiro Zwetsch eventualmente aproveitava um texto ou outro do blog. A produção do filme "Besouro" tentou formar uma parceria comigo e até a Glória Coelho chegou a pintar por aqui para negar as acusações de racismo que eu fiz a ela. O Afroências chegou a dar uma agitada, né não?
Bom, isso já faz um ano, talvez até um pouco mais. Depois, o trabalho me engoliu e eu larguei esse nosso espacinho crioulo. Força da circunstância, é verdade. Mas uma circunstância atual me recordou que não podemos atribuir às circunstâncias o arrefecimento de nossas eternas batalhas - essas nunca são circunstaciais. Eu não tenho o direito de abandonar o Afroências - não porque ele seja um grande acréscimo à luta por direitos iguais e consciência negra (não sou tão pretensioso), mas simplesmente porque devemos encampar e fortalecer cada mínima conquista. Se eu tenho a possibilidade de fazer e manter um blog, é minha obrigação e compromisso social fazê-lo.
"Certo, negão. Mas até agora, você falou, falou e não disse aonde quer chegar". Bora lá: na semana passada, a cultura negra e periférica sofreu um baque: o "Manos e Minas" foi excluído da grade da TV Cultura, sem que rolasse sequer um comunicado prévio aos profissionais que faziam o programa. Todos souberam da extinção do "Manos e Minas" por uma entrevista que o presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, concedeu ao Estadão. Na mesma conversa, Sayad anunciou o fim do "Login", programa voltado ao público adolescente que estreou neste ano.
"Todo respeito ao 'Login'", como disse um amigo. "Mas 'Manos e Minas' é outra fita". É outra fita MESMO. Manos e Minas foi um programa experimental que conseguiu, pela primeira vez, falar de igual para igual ao público negro da periferia. Diretamente: sem intermediários, sem imposições da macro-estrutura branca. Foi um programa que não tentou impor valores sobre essa periferia - que é periférica tanto física quanto representativamente -, mas colocou na tela os valores que A PRÓPRIA PERIFERIA queria expor. E com isso tudo, que pode ser resumido na palavra "respeito", conseguiu penetrar numa parcela da população que responde pela maior parte do mercado consumidor, em números absolutos.
Se faltou sensibilidade no modo de tratar as pessoas - quem é que quer ser demitido pelo jornal? -, faltou ainda mais sensibilidade econômico-administrativa. Por que o rap gringo, que começou como música de protesto, é hoje o maior case de sucesso comercial da indústria da música? Porque lá nos Estados Unidos, presta-se muita atenção a cor de gente, mas não a cor de dinheiro. O alto empresariado de lá entendeu há muito tempo que mercado consumidor é mercado consumidor, tanto faz se é gente preta ou gente branca. Tem viabilidade comercial, está valendo. O fim do Manos e Minas denota que a administração foi incapaz de entender que, pela primeira vez na história, um veículo de mídia aberta conquistou a confiança do filão que mais cresceu nos últimos anos e que mais vai crescer daqui pra frente: o pobre em ascenção. É o sonho de qualquer diretor de marketing. Se não fosse, a Nike não teria dedicado anos de esforço e dinheiro para patrocinar o Racional Mano Brown.
Aliás, Mano Brown, notoriamente avesso a inserções midiáticas, conversou com o Manos e Minas e ainda prometeu que os Racionais tocariam no programa número 100. Talvez nem todos tenham dimensão do que isso significa, mas os Racionais moldaram boa parte da identidade negra nesse país - principalmente em São Paulo, claro - e, mais do isso, mostraram a uma multidão mantida à margem da sociedade que todos têm o direito de sonhar. É o que toda e qualquer marca quer vender. Ou você acha que a Coca Cola vende refrigerante? Não, vende o mundo de Coca-Cola, que vai do tênis colorido ao Papai Noel; que a Brahma vende cerveja? Não, vende saúde e mulher gostosa - ainda que álcool em excesso deixe o cara gordo e brocha. O capitalismo na era da imagem, da publicidade, sonha vender sonhos. Como vender sonhos para quem perdeu a capacidade de sonhar, diante da aspereza do mundo? Não dá. Então, a construção de auto-estima que grupos como os Racionais capitanearam e que o Manos e Minas encampou muito bem é a base da solidificação de uma sociedade democrática capitalista. É algo que a TV Cultura falha em ver ao colocar o programa lado a lado com o "Login", por exemplo. Ao tratar levianamente as centenas de pessoas que protestaram contra o fim do programa e receberam uma resposta padrão, que dizia que o tipo de assunto que o Manos trata será aproveitado em uma outra produção. Desculpe, mas quem toma chibatada há 500 anos não abraça resposta padrão.
Quem já passou por aqui ou quem já me trombou na rua sabe que eu oscilo ideologicamente entre o socialismo e o anarquismo. Mas qualquer manual capitalista de quinta categoria atesta a viabilidade econômica e social de um "Manos e Minas". E se o argumento humano - a essencial construção da auto-estima da maior parte da população, o reconhecimento da arte dos oprimidos, a compreensão de todo e qualquer brasileiro como parte constituinte e fundamental da nossa sociedade - corre ao largo do que se convencionou chamar de "gestão" e "competência administrativa", que o status quo compreenda a dimensão da conquista econômica que significa o respeito das classes C, D e E.
Enfim, ressuscitei o Afroências nesse momento porque a morte do "Manos e Minas" precisa ser alardeada e combatida. E, se o programa de fato morrer - como parece que vai acontecer mesmo - que isso faça ressurgir todos os nossos pequenos focos de resistência. O Afroências volta à ativa hoje para entrar no coro: Salve o "Manos e Minas"! Argumento é o que não falta.
Bom, isso já faz um ano, talvez até um pouco mais. Depois, o trabalho me engoliu e eu larguei esse nosso espacinho crioulo. Força da circunstância, é verdade. Mas uma circunstância atual me recordou que não podemos atribuir às circunstâncias o arrefecimento de nossas eternas batalhas - essas nunca são circunstaciais. Eu não tenho o direito de abandonar o Afroências - não porque ele seja um grande acréscimo à luta por direitos iguais e consciência negra (não sou tão pretensioso), mas simplesmente porque devemos encampar e fortalecer cada mínima conquista. Se eu tenho a possibilidade de fazer e manter um blog, é minha obrigação e compromisso social fazê-lo.
"Certo, negão. Mas até agora, você falou, falou e não disse aonde quer chegar". Bora lá: na semana passada, a cultura negra e periférica sofreu um baque: o "Manos e Minas" foi excluído da grade da TV Cultura, sem que rolasse sequer um comunicado prévio aos profissionais que faziam o programa. Todos souberam da extinção do "Manos e Minas" por uma entrevista que o presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, concedeu ao Estadão. Na mesma conversa, Sayad anunciou o fim do "Login", programa voltado ao público adolescente que estreou neste ano.
"Todo respeito ao 'Login'", como disse um amigo. "Mas 'Manos e Minas' é outra fita". É outra fita MESMO. Manos e Minas foi um programa experimental que conseguiu, pela primeira vez, falar de igual para igual ao público negro da periferia. Diretamente: sem intermediários, sem imposições da macro-estrutura branca. Foi um programa que não tentou impor valores sobre essa periferia - que é periférica tanto física quanto representativamente -, mas colocou na tela os valores que A PRÓPRIA PERIFERIA queria expor. E com isso tudo, que pode ser resumido na palavra "respeito", conseguiu penetrar numa parcela da população que responde pela maior parte do mercado consumidor, em números absolutos.
Se faltou sensibilidade no modo de tratar as pessoas - quem é que quer ser demitido pelo jornal? -, faltou ainda mais sensibilidade econômico-administrativa. Por que o rap gringo, que começou como música de protesto, é hoje o maior case de sucesso comercial da indústria da música? Porque lá nos Estados Unidos, presta-se muita atenção a cor de gente, mas não a cor de dinheiro. O alto empresariado de lá entendeu há muito tempo que mercado consumidor é mercado consumidor, tanto faz se é gente preta ou gente branca. Tem viabilidade comercial, está valendo. O fim do Manos e Minas denota que a administração foi incapaz de entender que, pela primeira vez na história, um veículo de mídia aberta conquistou a confiança do filão que mais cresceu nos últimos anos e que mais vai crescer daqui pra frente: o pobre em ascenção. É o sonho de qualquer diretor de marketing. Se não fosse, a Nike não teria dedicado anos de esforço e dinheiro para patrocinar o Racional Mano Brown.
Aliás, Mano Brown, notoriamente avesso a inserções midiáticas, conversou com o Manos e Minas e ainda prometeu que os Racionais tocariam no programa número 100. Talvez nem todos tenham dimensão do que isso significa, mas os Racionais moldaram boa parte da identidade negra nesse país - principalmente em São Paulo, claro - e, mais do isso, mostraram a uma multidão mantida à margem da sociedade que todos têm o direito de sonhar. É o que toda e qualquer marca quer vender. Ou você acha que a Coca Cola vende refrigerante? Não, vende o mundo de Coca-Cola, que vai do tênis colorido ao Papai Noel; que a Brahma vende cerveja? Não, vende saúde e mulher gostosa - ainda que álcool em excesso deixe o cara gordo e brocha. O capitalismo na era da imagem, da publicidade, sonha vender sonhos. Como vender sonhos para quem perdeu a capacidade de sonhar, diante da aspereza do mundo? Não dá. Então, a construção de auto-estima que grupos como os Racionais capitanearam e que o Manos e Minas encampou muito bem é a base da solidificação de uma sociedade democrática capitalista. É algo que a TV Cultura falha em ver ao colocar o programa lado a lado com o "Login", por exemplo. Ao tratar levianamente as centenas de pessoas que protestaram contra o fim do programa e receberam uma resposta padrão, que dizia que o tipo de assunto que o Manos trata será aproveitado em uma outra produção. Desculpe, mas quem toma chibatada há 500 anos não abraça resposta padrão.
Quem já passou por aqui ou quem já me trombou na rua sabe que eu oscilo ideologicamente entre o socialismo e o anarquismo. Mas qualquer manual capitalista de quinta categoria atesta a viabilidade econômica e social de um "Manos e Minas". E se o argumento humano - a essencial construção da auto-estima da maior parte da população, o reconhecimento da arte dos oprimidos, a compreensão de todo e qualquer brasileiro como parte constituinte e fundamental da nossa sociedade - corre ao largo do que se convencionou chamar de "gestão" e "competência administrativa", que o status quo compreenda a dimensão da conquista econômica que significa o respeito das classes C, D e E.
Enfim, ressuscitei o Afroências nesse momento porque a morte do "Manos e Minas" precisa ser alardeada e combatida. E, se o programa de fato morrer - como parece que vai acontecer mesmo - que isso faça ressurgir todos os nossos pequenos focos de resistência. O Afroências volta à ativa hoje para entrar no coro: Salve o "Manos e Minas"! Argumento é o que não falta.












4 Comments:
Bem-vindo de volta, Afroências! Os manos e minas agradecem.
Meu blog anda tão abandonado quanto o teu, Gabriel! Êita, vida corrida em busca do pão nosso...
Mas bem-vindo de volta, e continua - quem sabe eu tomo jeito e sigo teu exemplo...
:-)
Meu blog anda tão abandonado quanto o teu, Gabriel! Êita, vida corrida em busca do pão nosso...
Mas bem-vindo de volta, e continua - quem sabe eu tomo jeito e sigo teu exemplo...
:-)
É isso ae Pensa, grande pensador!
Salve o Manos e Minas!
Tamo junto...
E meu blog também está às moscas, se é que tem mosca na internet, rs!
Abração!
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