Andrade, mais um primeiro negro a...

Estereótipos. Nossos maiores inimigos são os estereótipos. Na autobiografia de Malcolm X, escrita por Alex Haley, há uma passagem muito interessante sobre estereótipos. Malcolm, então Little, então estudante do primeiro grau, fala a um professor que sonha ser advogado. Ele é um dos melhores da turma do colégio, de maioria branca. O professor pede que ele fique depois da aula e desestimula a ideia. "Por que você não escolhe ser marceneiro, mecânico, atleta, músico, garçom...? São todas boas profissões, exercidas por gente honesta. E são mais adequadas a sua raça. Os negros têm mãos grandes, enorme habilidade física, são de fato privilegiados. E isso é muito bom, algo de que você deveria se orgulhar. Por que tentar ser advogado?"

Malcolm X, depois de cumprir os desígnios da raça

O discurso soa absurdo. "Que coisa racista!", pensamos, acostumados a nossa experiência empírica de que não há componentes raciais que determinem o que alguém pode ou não fazer. Pois é. Mas se pegarmos a prática, os mínimos cargos de comando são reservados aos brancos. Já que o futebol explica o mundo, como diria o jornalista americano Franklin Foer, é nele que caço exemplos dessa terrível verdade. Dizem que um bom time começa com um bom goleiro. Afinal, o goleiro não é simplesmente o cara que tem o privilégio das mãos - em terra de pé, quem tem mão é rei -; o goleiro é o princípio organizacional de um time de futebol. Ele orienta a defesa, ele tem a visão máxima do jogo, ele define se um time avança ou recua. O goleiro tem mais tempo para observar do que os outros jogadores, já que sua participação com a bola dominada é limitada a situações extremas. O goleiro é uma extensão do técnico em campo.

Não me lembro do futebol de 1950 - que frase ridícula, né? Mas é verdade, não saberia comensurar quanto o jogo evoluiu ou mudou de lá pra cá. Mas sei que a seleção brasileira tinha o goleiro negro Barbosa, que entrou para a história como o vilão do Maracanazzo. Já vi o lance do gol de Gigghia - aquele que calou 200 mil pessoas no Maracanã - milhares de vezes e juro que não consigo enxergar a falha clamorosa de Barbosa. Mas ele morreu idoso, ainda se desculpando por ser o maior vilão da história futebolística brasileira. Se a tragédia pessoal de Barbosa não é suficientemente comovente, basta olharmos para seu impacto social. Foram precisos 56 anos para que outro goleiro negro voltasse a defender a meta da seleção brasileira. Dida foi o cara. Ao longo deste tempo, no Brasil da democracia racial, ninguém falava, como o professor de Malcolm X, que os negros eram inaptos a esse cargo pseudo-intelectual. Mas não deram a nenhum a oportunidade de refutar a tese.

Barbosa toma o gol que decreta fracasso brasileiro em 1950

Se o cargo de goleiro - extensão campal do técnico - já esbarra no estereótipo, que dirá o de técnico propriamente dito. Ontem, pela primeira vez, um técnico negro foi campeão brasileiro. Brasileiro, não alemão. Brasil, sabe? Aquele país que tem dois terços de população negra? Pois é: neste modo de Brasileirão, que acontece desde 1971, nunca houve um técnico negro campeão. Andrade, do Flamengo, é o primeiro. É a queda do estereótipo de que o negro não tem competência para o trabalho intelectual? Não. Ainda não. Mas, cada exceção que aparece faz com que a próxima seja um pouco menos exceção. Até que o estranho vire normal. Aí sim, temos uma verdadeira conquista social rumo à igualdade. Então, parabéns ao Andrade por essa conquista, maior até do que a de Campeão Brasileiro.

Andrade, uma vez Flamengo...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

5 Comments:

Andréia Freire said...

"Mas, cada exceção que aparece faz com que a próxima seja um pouco menos exceção. Até que o estranho vire normal. Aí sim, temos uma verdadeira conquista social rumo à igualdade."

Gostei, por isso que eu acho que poder ser até pior quando a grande mídia fica alardeando: "primeira protagonista negra no filme x", "primeiro negro a fazer y". Porque é como se falassem: "olha aqui, a grande exceção!" A igualdade vai estará plena quando a cor das personalidades for algo realmente banal. Quando uma novela ter uma protagonista negra for algo comum. Quando a protagonista do desenho da Disney ser negra for algo irrelevante, no sentido de normal.

Não que não seja importante, mas dizer o primeiro presidente negro dos Eua, Barack Obama, pode ser um meio de dizer que aquilo não é o normal, que é um desvio. Quando um presidente é branco ninguém fala da cor dele.

Não sei se me fiz entender, hahaha. =)

Gabriel Rocha Gaspar said...

Sim, claro que você se fez entender, Andréia! Mas acho inevitável que a mídia alardeie os "primeiros negros a..." e não vejo isso como algo necessariamente ruim. Acho que isso é apenas um sintoma da nossa própria exclusão.

E, pra mim, melhor que os sintomas da exclusão venham à tona do que sejam esquecidos. O esquecimento nos leva ao mito da democracia racial. "Negro lá é normal". Não, ainda não. Algum dia há de ser e, quando for, poderemos simplesmente ignorar o fato. Mas, até lá, melhor noticiar para que a gente possa encarar nossos próprios fantasmas.

Acho que em algum post passado, cheguei a dizer que é preciso reconhecer o corpo para poder enterrá-lo. Bom, continuo com a mesma opinião... Mas entendo o seu ponto de vista: vai ser lindo quando negros em posição de comando não forem surpresa pra ninguém!

Obrigado pelo comentário e pela presença!

Bjs, GRG

Marina Morena said...

muito bom o post! não tinha visto essa abordagem em nenhum lugar. Coisas de afroências!
;)
Bjs

Gabriel Rocha Gaspar said...

Valeu, neguinha!

Andréia Freire said...

Sim, enfatizar é super importante. Acho que meu post ficou meio confuso, mas você entendeu perfeitamente:

"Mas entendo o seu ponto de vista: vai ser lindo quando negros em posição de comando não forem surpresa pra ninguém!"

Exatamente. É o futuro que queremos!

Seria bem legal se a frequência dos posts fosse maior (e isso não é reclamação, é elogio). Mas, a vida é corrida, né? Por exemplo, o post sobre o Tim Maia tá enorme, eu não li ainda. Tá aqui salvo pra eu ler depois (e ouvir as músicas com calma), hahaha.

Bom ano-novo! =)

 
Afroências Arte: Gabriel Rocha Gaspar