Foi só deixar o saguão do aeroporto Santos Dumont, na sempre maravilhosa cidade do Rio de Janeiro, que o Steel Pulse veio à cabeça: "You can’t stand the heat (você não aguenta o calor)". A letra dessa faixa de 1989, gravada sob encomenda para a trilha de Faça a coisa certa, de Spike Lee, martelava a cabeça como o sol, culpado pelos 42 graus que marcava o termômetro. Em São Paulo, Marina havia lembrado um outro som dos caras, "Drug Squad". É que, ao passar pelos detectores de metal, ela cantarolou: "Ain't got nothing to declare! (não tenho nada a declarar)".
Embora tivéssemos tempo, afligia-me o fato de não ter uma pauta completa. Dentro de algumas horas, tinha de ter na ponta da língua uma breve entrevista com o Steel Pulse. O problema era justamente o "breve". Os caras têm 35 anos de carreira, já dividiram palco com Bob Marley e Stevie Wonder (só para ficar na superfície), tocaram em toda parte do mundo, levantaram diversas bandeiras de consciência negra, resgataram heróis como Steve Biko (revolucionário sul-africano) e George Jackson (pantera negra), gravaram quase 20 álbuns impecáveis e estão em estúdio pra fazer mais um. Para piorar (ou melhorar), era 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Quer dizer, um dia inteiro não esgotaria o papo.
E havia mais um agravante: o fato de eu ser fã de carteirinha da banda. Quem trabalha com isso sabe como é complicado entrevistar ídolos. Por um lado, você sabe tudo sobre o cara; por outro, a chance de frustração é imensa já que, frequentemente, o artista não é tão interessante quanto a obra. Não é o caso de David Hinds, Selwyn Brown e companhia. Eles calharam de tocar no Rio exatamente no Dia da Consciência negra... E chegaram aqui afinadíssimos com a luta negra por aqui. Basta ver a propriedade com que David Hinds fala de Zumbi no vídeo abaixo!
O show? Bom, o show foi como uma segunda resposta à entrevista: eles tocaram "Drug Squad", "Can't Stand It" e fecharam com "Vote Obama". Na escolha dessas duas últimas para o repertório, acho que tivemos influência direta! Hehehehe











10 Comments:
Que legal!! Que oportunidade bacana de entrevistar esses caras e ótimo registro. Sabe que eu lembro de, na minha passagem relampago pela WEA discos, sair com muitos LPs deles debaixo do braço? Som bom e repoter 10. Que boas outras e novas venham por sua busca e merecimento, bjs, meu querido! pat gas.
Pensa,
tô vendo que a sua viagem ao Rio rendeu hein?
Olha só, eu vi esse link e lembrei de você:
http://www.mayslesinstitute.org/cinema/calendar.html
É uma sala de cinema no Harlem, que é do Maysles Institute (que, por sua vez, é do Albert Maysles, documentarista foda, dirigiu junto com o irmão Gimme Shelter, sobre um show do Stones - aquele dos seguranças dos Hell's Angels e que deu em morte). Nesse momento, pelo que entendi, tá rolando um ciclo sobre 69 e esses dias vão passar vários filmes sobre os panteras negras. Achei que pudesse ser uma boa referência...
Deixo também o link do meu brógue (até eu?), que eu andei ressucitando e onde vou falar dos Maysles já já.
beijão
muito boa a entrevista e o som também. steel pulse é contemporâneo do third world, né não? essa outra banda jamaicana (3rd world) era bem legal, será que ainda estão na ativa? e o filme 'gimme shelter' não foi dirigido pelo hal ashby (o mesmo do 'ensina-me a viver')?
maravilhosa conexão muito boa matéria adorei ver algumas imagens da passagem de som e a ideia é sempre positive vibes, jah bless!!!!
ficou demais mesmo! matéria, edição, entrevistas...
o q estraga um pouco é a parte que me cabe neste vídeo. Descobri que, realmente, não dá para filmar um show sem tremer, por mais que a gente segure a respiração e apoie o cotovelo na barriga. Aprendi também que, se vc sai filmando sem fazer um reconhecimento de território antes, pode tropeçar no pé da grade de proteção do palco!
Desculpem a filmagem estilo "câmera nervosa"! Quando assisti o vídeo até suei frio vendo os tropeços.
Nossa, que legal, Pat! Esses LPs ainda existem? Sei que tem um - Earth Crisis, se não me engano - na casa do meu pai. Eu até queria levar pra pegar uma canetada... Ué, que que tem? Vocês nunca tietaram?! Hehehehe. Bom, eu queria. Mas não levei, levei um CD no lugar. E, quando fui para a entrevista, esqueci o CD no apê da Bá (essa do comentário aí em cima). Bom, paciência. Outras oportunidades virão! Bjs!
Nossa, Bá! Interessante esse lance do Maysles... Vou dar uma estudada. Sempre tive profundo interesse nos Panteras Negras. É uma pena que a filmografia sobre este movimento comunista tão importante seja esparsa e difícil de encontrar. A bibliografia é extensa mas não há praticamente nada em português. Se não me engano, as únicas obras de Panteras Negras traduzidas para nossa língua são "Ao vivo do corredor da morte", do Mumia Abu-Jamal e "Alma no exílio", do Eldridge Cleaver. Falta traduzir "Soledad Brother", do George Jackson, "To die for the people", do Huey Newton, "Revolutionary suicide", "Rocks", da Angela Davis. Tipo, falta tudo, né?
Quanto ao blog, me aguarde que logo mais tô por lá! Beijo!
Valeu pelos elogios, Marcio! Sim, o Steel Pulse é contemporâneo do Third World e inclusive eles têm uma proximidade musical grande, naquela mistura do reggae com o pop e o rock. O uso das baterias eletrônicas, dos sintetizadores, do samplers...
O Third World continua na ativa, fazendo shows e gravando discos. Só que eu confesso que desde "96 degrees in the shade", eu não ouço nada deles. Vou dar uma pesquisada e volto com mais info. Quem sabe até um postzinho, por que não?
Quanto ao Gimme Shelter, vou pedir pra Bá vir aqui te dar a resposta. Realmente, eu não sei! hehehehe
Abs!
"Lei di Dai aqui do lado Leste de São Paulo..." Essa figura que honra o afro com sua presença é ninguém menos que a Rainha do Dancehall no Brasil. Dai, é um prazer tê-la por aqui. Volte sempre e mantenhas as boas vibes sempre. Recomendo a todos aqui que conheçam o trabalho dessa negra style, queimando e incendiando toda bad vibe!
Ah, neguinha! Eu adorei a filmagem. Achei que ficou tudo a ver com o clima da parada. Teve gente que me perguntou se o câmera estava dançando... Achei que ficou bem mais legal do que Bruxa de Blair, por exemplo, em que a "câmera nervosa" é deliberada. Eu te contrataria para camera-girl fácil, fácil! Beijão!
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