O comediante Spike Lee

Ontem, eu estava morrendo de sono. Muito mesmo. Por isso, temia ligar a televisão. Eu me dou o luxo de manter TV a cabo no quarto porque sou um tevê-adicto nato e até orgulhoso. O problema é que a TV a cabo tem infinitos canais, é impossível não achar alguma coisa boa. Um dia, é Simpsons, no outro, teipe de um jogo da série C do campeonato de um ano passado, em mais um, um documentário sobre babuínos que têm de lidar com a seca na travessia do deserto africano. Quer dizer, só coisa imperdível.

Mas o pior de tudo é quando é um filme que você já viu. Pior ainda: quando é um filme que você já viu e tem o DVD para assistir a qualquer hora. Foi o que aconteceu ontem: liguei a TV e passava "A hora do show" (Bamboozled, 2000), do Spike Lee, minha Bíblia cinematográfica. Tive que assistir. Até porque a versão que eu tenho é tão pirata que eu mesmo fiz as legendas. Observação importante: eu não compactuo com a pirataria (talvez, só um pouquinho! Hehehehe), mas o DVD nunca foi lançado no Brasil. Bom, minha primeira tentativa de não postergar meu sono em quase três horas foi buscar via controle remoto outros horários de exibição. Não consegui, mas descobri uma coisa engraçada: o filme está classificado como "Comédia".

Eu não sei o que esse povo entende por comédia, mas vamos lá. "A hora do show" conta a história de um roteirista de televisão negro que tenta emplacar sitcoms para classe média afro-americana e sempre esbarra no racismo da emissora. Até que se enche o saco das frequentes batidas de porta e cria um roteiro tão ofensivo e racista que irremediavelmente o leva à demissão. É um show de menestrel, com gente pintada de preto (as famigeradas "blackfaces"), sapateados, estereótipos - Tia Anastácia, Tição e Pai Tomás estão todos lá - e melancias. Um negócio horroroso. O problema é que o programa vira um sucesso de público e crítica. Spike Lee faz uma análise profunda do racismo nos Estados Unidos e, evidentemente, coloca um ponto final trágico na história. Isso é o que eu leio; a Veja usou as palavras "ridículo" e "rebarbativo" pra falar do filme. Mas acho que nem a Veja chamaria de "Comédia".




Essa classificação me lembrou "Crooklin", outra obra-prima de Spike Lee. O nome em inglês é uma junção de "crook" (bandido, ladrão, safado, pilantra) e Brooklin, o tradicional bairro meio negro meio judeu de Nova York. O filme mostra uma família - mãe, pai, quatro meninos e uma menina - que sofre pela falta de grana e perspectivas. Mais uma história trágica que, em português, recebeu o trágico nome de "Uma família de pernas pro ar". Não sei quanto a vocês, mas um título desses me lembra o pior da "Sessão da Tarde", tipo: "Alunos muito loucos", "Uma turma do barulho" e "Loucademia de polícia". Será que eu estou viajando ou a tragédia negra é mesmo muito engraçada?

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

2 Comments:

ronald augusto said...

beleza, grande filme do lee e comentário ligado o seu.

Aline P. said...

Achei ótimo o Bamboozled. É angustiante, toca na ferida exposta do racismo. E quanto à Veja, como disse um professor: o problema é o formato. Deveria vir em rolos para facilitar o uso.

 
Afroências Arte: Gabriel Rocha Gaspar