Afroências atrás da notícia. Literalmente - essa notícia no caso está atrasada 35 anos e dois dias. Mas são os dois dias que pegam: eu queria começar este mês da Consciência Negra com uma série fina de posts, dedicada a eventos importantes da história negra. Mas, trabalhei, trabalhei, trabalhei e o Afroências ficou numa gaveta angustiada nos últimos dois dias. Por isso, peço a vocês, meus afroentes leitores, um esforço de imaginação: vamos fingir que hoje não é 3 de novembro, mas dia 1º. Vamos fingir que o feriado não foi ontem, mas será amanhã. E sejamos mais felizes pois (dentro dessa nossa ficção) começa hoje o mês da Consciência Negra.
Há (quase) exatos 35 anos, em 1º de novembro de 1974, nasceu no Curuzu, em Salvador, o Ilê Aiyê, não só o mais importante bloco afro do País, mas um dos principais movimentos de inclusão social do negro. Sergios Bianchis e afins dirão que "bater lata não é inclusão social". Pois isso passa longe de definir o Ilê Aiyê.Na verdade, quando o bloco irrompeu as ruas da capital pela primeira vez no Carnaval de 1975 causou um incômodo. O bloco cantava a África, cantava as revoltas negras - a própria Bahia concentrou ao longo da história alguns dos principais levantes anti-escravidão -, forçava goela abaixo a auto estima negra. O grito de guerra? "Que bloco é esse/Eu quero saber/É o mundo negro/Que viemos mostrar pra você". Essa música de Paulinho Camafeu, que depois ganhou o Brasil e o mundo nas vozes de Gilberto Gil e O Rappa, enfureceu o Brasil da democracia racial.
O site oficial do Ilê reproduz um artigo do jornal "A Tarde" sobre essa insurreição afro que foi a primeira aparição do bloco. Peço licença para reproduzi-lo aqui:
Conduzindo cartazes onde se liam inscrições tais como: "Mundo Negro", "Black Power", "Negro para Você", etc., o Bloco Ilê Aiyê, apelidado de "Bloco do Racismo", proporcionou um feio espetáculo neste carnaval. Além da imprópria exploração do tema e da imitação norte-americana, revelando uma enorme falta de imaginação, uma vez que em nosso país existe uma infinidade de motivos a serem explorados, os integrantes do "Ilê Aiyê" - todos de cor - chegaram até a gozação dos brancos e das demais pessoas que os observavam do palanque oficial. Pela própria proibição existente no país contra o racismo é de esperar que os integrantes do "Ilê" voltem de outra maneira no próximo ano, e usem em outra forma a natural liberação do instinto característica do Carnaval.
Não temos felizmente problema racial. Esta é uma das grandes felicidades do povo brasileiro. A harmonia que reina entre as parcelas provenientes das diferentes etnias, constitui, está claro, um dos motivos de inconformidade dos agentes de irritação que bem gostariam de somar aos propósitos da luta de classes o espetáculo da luta de raças. Mas, isto no Brasil, eles não conseguem. E sempre que põem o rabo de fora denunciam a origem ideológica a que estão ligados. É muito difícil que aconteça diferentemente com estes mocinhos do Ilê Aiye.
Esse artigo é muito interessante. A começar pelo "apelidado Bloco do racismo". Apelidado por quem, cara pálida? Ou melhor: por qual cara pálida? Depois vem essa história de democracia racial que é dura de engolir. Segue com a acusação de comunismo ("somar aos propósitos da luta de classes...") e fecha, ironicamente, com um racismo importado dos Estados Unidos. Afinal, aquele WASP de extrema direita dos estados do sul tem mania de chamar o negro de "boy", mesmo que ele tenha 60 anos. Em 1975, o Vovô do Ilê já era vovô demais pra ser chamado de "mocinho".
Mas enfim, se for bater esse artigo ponto a ponto, vou longe demais e perco o foco, que é o Ilê. Acho que o importante dessa reprodução é mostrar como surgem aparelhos de opressão fortemente armados a cada vez que o negro tenta - mesmo de forma não violenta, como no caso do Ilê - ser negro. Esse texto aí em cima me lembra as reações agressivas que esse blog já recebeu, como daquele Anônimo - esse Anônimo tá em todas, né? - que disse que isso aqui é um espaço de macacos. O problema é que ali em cima, era 1974, em plena ditadura militar. Não tinha Dia da Consciência Negra, não tinha rap, não tinha Ilê e, se acreditarmos na mídia tradicional, não tinha racismo! Dá pra entender tamanho reacionarismo. Impressionante é ver que passados 35 anos, ainda tem quem não acredite em racismo, quem se ofenda com 100% negro, com o cabelo da Taís Araújo na novela, com as afirmações de identidade negra. Quer dizer, passados 35 anos, com todos os méritos, o Ilê Aiyê encara o mesmo desafio da época da fundação: o fortalecimento da identidade negra no Brasil.











19 Comments:
É lindo ver o Ilê! Eles nunca desistiram mesmo apanhando tanto em todos os anos... Ali no Curuzu, no bairro da Liberdade, em Salvador, eles também criaram uma escola chamada Mãe Hilda, que além de ser a mainha de toda a comunidade é mãe do Vovô, o presidente. Através de apostilas criadas por eles, a escola ensina a história do povo negro, aquela q a gente normalmente só aprende por conta própria. E assim, eles transformaram a vergonha em orgulho. Acho q é por isso q incomoda tanto: é a negrada mudando a história. Vale conferir! Ô gente bonita! bjs, Luisa.
Uau, Lu! Que belíssima contribuição você deu a este post. Principalmente por essa frase: "eles transformaram a vergonha em orgulho". Acho que, na verdade, esse é o papel do Ilê, o seu, o meu e de todo o negro. Com o pouco que a gente tem, a gente precisa colher os cacos para entender nosso próprio legado. Se dependesse da história oficial, a gente sequer estaria no mês da Consciência Negra. Teríamos simplesmente aquele treze de maio pra festejar o dia em que o branco deixou a gente ser livre, né? Mas graças ao Ilê e a cada negro que se preocupou em resgatar nosso legado, sabemos que a verdade é bem mais embaixo. Valeu pelo comentário e força pra Mãe Hilda, a escola de negritude, o Ilê e todos nós! Beijo
Muito bonito o post sobre o Ilê, com um complemento perfeito da Luisa. Lendo o texto do jornal A Tarde, fiquei com a sensação de que não foi escrito há 35 anos, mas sim há mais de 100.
Hoje as pessoas se escondem na internet, todos com aquela sensação de que “ninguém ta (me) vendo”. São os que dizem que o Afroências é espaço de macaco. São os que criticam com veemência o trabalho da Thaís Araújo na novela; da garota que faz a irmã; do namorado dela; da mãe... coincidentemente, todos do núcleo negro da história. Não estou dizendo que são os melhores atores do mundo, mas estão muito bem pra quem até pouquíssimo tempo só tinha espaço na TV pra fazer doméstica, babá, motorista, biscateiro – isso numa TV que já é sexagenária.
Estes críticos também estão nos jornais. Mas, ali são menos virulentos, procuram dar um ar científico/filosófico/econômico na defesa de suas idéias. Papo furado. Só estou esperando o painel do leitor da Folha publicar carta de leitor indignado com o feriado de 20 de novembro – o que acontece todo ano, desde que foi instituído. E, na coluna Tendências/Debates, um texto do Demetrio Magnoli contra as cotas. Salve o Ilê, salve o 20 de novembro.
Bjs,
Maria Amélia
Gabriel,
gostei de saber desses trabalhos do Ilê. E bacana ver que aparecem uns anônimos também bacana por aqui.
E prá quem chama a gente de macacada só gostaria de lembrar, que sobretudo no Brasil, quem propõe que cada macaco no seu galho, esquece que estamos na mesma árvore, não dá prá fugir!
Cara muito bom aqui! Certamente um ótimo espaço de comunicação, prepare-se, pois estarei sempre por aqui!
http://do-hiphop-rua.blogspot.com/
Olha, sou morena clara, branca por falta de sol, não sei se sou descendente negros, mas com certeza devo ser em algum nível, talvez de índios também, não tenho como saber.
E se tem coisa que me dá raiva é branco/mestiço negando o racismo! O racismo no Brasil é evidente (mesmo que velado por causa da lei), só não vê quem não quer, quem não tem interesse! É muita cegueira mental pro meu gosto, não entendo. Sempre acho que é comodismo e má fé, não dá pra conceber.
Se acho ridículo esse comportamento HOJE, fico imaginando como tinham a cara de pau de negar o racismo na década de 70 com esse argumento bobo de democracia racial(democracia racial? uma ova). Essas pessoas não questionam o status quo e tapam o sol com uma peneira. Me dá nojo.
Adoro o blog, tá nos meus feeds.
Já PRESENCIEI preconceito com o cabelo da Táis Araújo. Disseram que o cabelo dela era "ruim". A lavagem cerebral desse padrão de beleza "tem que ter" cabelo liso (no máximo ondulado) é incrível e muito forte.
Na Caras e Bocas tem outra atriz usando o cabelo natural, a Sheron Menezes. Na Caminho das Índias tinha a Juliana Alves (linda aliás).
Tem gente que acha esse assunto fútil, eu não acho, pois auto-estima é super importante. E é evidente o desprezo pelo o que é tipicamente negro nessa sociedade que não se acha racista.
ótimo post e ótimos comentários. e quero complementar propondo uma homenagem ao grande neguinho do samba. fosse americano, o cara seria louvado em prosa e verso. aliás, michael jackson e paul simon, p.ex., foram ao pelourinho 'bater cabeça' pro neguinho...
Tão bom ter Mamélia por aqui! Pois é, é engraçado como o racismo soa anacrônico, né? É que essas coisas ficam hibernando na sociedade, quase caladas, quase mortas. E voltam em formato de turba, tipo o caso da Uniban, maior expressão de machismo dos últimos tempos. Hoje, na Folha, Contardo Calligaris pediu desculpas às mulheres que militam ou militaram no feminismo. Disse assim: "Ainda recentemente, pensei (...) que o feminismo tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica. Em particular, eu acreditava que, depois de 40 anos de luta feminista, ao menos um objetivo tivesse sido atingido: o reconhecimento pelos homens de que as mulheres (também) desejam. Pois é, os fatos provam que eu estava errado". Que bom seria se os atiradores de bananas, os Ali Kamels e Demétrios Magnolis da vida tivessem a mesma humildade, né?
Valeu pelo comentário, Mainha! Salve Ilê, salve 20 de novembro!
Pelo menos a árvore furada não enche d'água, né, Márcia? Macaco não sabe nadar... Hehehehehhe
Sempre, Rodriguez! Só chegar, nego!
Legal, Andréia! Obrigado pela presença, pela leitura e pelos comentários. Também acho impressionantes as expressões do racismo nas décadas passadas. Juntando os dois temas num só: você já viu um documentário chamado "A negação do Brasil", do Joel Zito Araújo? É muito bom. Conta a trajetória dos negros pela teledramaturgia brasileira, com alguns episódios estarrecedores, como aquele da Cabana do Pai Tomás, quando a Rede Globo optou por colocar um branco pintado de preto ao invés de um negro de verdade para viver o protagonista; ou um outro em que a Zezé Motta foi quase espancada na rua por ter dado o primeiro beijo birracial da história da nossa televisão. Vale a pena!
Quanto à questão da auto-estima, Andréia, assino embaixo. É fundamental! É por isso que dedico vários posts desse blog à moda. Não sou nenhum fashionista, mas quando o assunto envolve a negrada, não tenho como me omitir. Valeu pelos comentários!
Verdade, Marcinho. Pra quem não sabe, Neguinho do Samba foi uma figura fundamental na história da música afrobaiana, inventor do samba-reggae. Ele morreu na semana passada aos 54 anos e foi enterrado terça-feira. E o Marcio tem razão: fosse gringo, sua morte parava o mundo.
Pra acrescentar a sua lista: Jimmy Cliff não batia um tambor sem pedir licença pro Neguinho. Que ele esteja bem agora, iluminando a negrada com sua inspiração.
Caetano Veloso andou falando umas bobagens por aí sobre o Lula, mas não tem importância. Preferi ficar atenta para uma outra coisa que ele disse: nos shows que faz neste final de semana em São Paulo ia relembrar a música "O Estrangeiro" em que cita Claude Lévi-Strauss. Pensando melhor, resolveu cantar músicas do Neguinho do Samba, menos famoso, mas tão importante para a cultura nacional e para os negros quanto o grande antropólogo que morreu esta semana. Exagerado? Pode ser, mas eu adorei.
Salve Pensa,
Da hora esse lance do Ilê Aiyê, não sei se ando desinformado da vida ou enclausurado na metrópole, mas juro que nem conhecia esse bloco mano...
Quanto ao texto do jornal "A Tarde", sinceramente, não me espantaria se tivesse sido escrito no ano de 2009. Como os próprios comentaristas citaram, a imprensa está lotada de caras pálidas que acham que o debate acerca do preconceito racial é arcaico.
Tem uma citação de uma música do Bob Dylan que é perfeita para descrever o que ocorre no Brasil: "Something is happening here,but you don't know what it is"
Será que os caras pálidas sabem??
Bem loko o post mano, boa semana a todos os Afroentes.
Abraços!!!!!
Pois, é. Não tem como ser feminista e não se interessar pela questão do racismo, que precisa tanto ser combatido, né? Você conhece o blog da Lola (Escreva Lola Escreva)? Ela fala muito por uma ótica feministas, mas sempre fala um pouco sobre racismo ou sobre homofobia. Ela tem um post sobre privilégios brancos, parecido com um do Alex Castro (Liberal, Libertário, Libertino).
Vou dar uma procurada sobre esse documentário! Sério que a Zezé Motta foi quase espancada na rua? Nossa, não sabia dessa. Mas eu tenho outro pra indicar. É um que eu vi no blog da Marjorie Rodrigues, também feminista e que já abordou o assunto muitas vezes. Tá aqui o link: http://marjorierodrigues.wordpress.com/2009/07/01/cafe-com-leite-ou-agua-e-azeite/.
Depois se tiver tempo e interesse dê uma olhada nos posts desses três blogs. Acho que vai gostar. Valeu! ;]
Eu ia deixar alguns links de posts da Marjorie, mas o blogspot tem uma mania chata de "comer" os links. Então vou te indicar pelos títulos, já que lá tem sistema de busca: Cozidão (sobre Danilo Gentilli), Beleza branca, Assvertising: o diploma que embranquece, O apartheid do elevador e Assvertising: cachorrada. Esse último é sobre uma propaganda com Sérgio Loroza, aparentemente inocente, onde ele e Carol Castro são comparados à cachorros e o único branco e homem não, o Evandro Mesquita. Marjorie não acha que é coincidência.
Até a próxima.
(Tem muito post feminista lá, se te interessar e outros sobre racismo, escolhi os que eu achei mais rápido).
Desculpa deixar tantos comentário separados, mas estava relendo alguns posts e achei um em que a Marjorie cita o documentário que você me indicou (e fiquei na dúvida é um documentário em formato de livro? ou também tem em video?). O nome do post é "Passos de Formiga" e fala sobre a cota de 10% de modelos negros no São Paulo Fashion Week.
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