"Ela é uma modelo rica, não representa a população negra brasileira", disse-me Kokumo, sob o sol escaldante do Rio de Janeiro, na última sexta-feira. Kokumo (foto ao lado) é jamaicano, radicado na Inglaterra, poeta dub da turma de Linton Kwesi Johnson e Benjamin Zephaniah. E eu respondi: "Mas demorou sessenta anos para que tivéssemos uma protagonista preta na novela das oito". Ele deu uma risadinha de canto de boca: "É, já é alguma coisa".
É, já é alguma coisa. Mas concordo com Kokumo que é pouco. Ele seguiu o papo dizendo que respeita os negros americanos, que conseguiram construir uma identidade com a própria força. Verdade; eu também. Mas o fato disso precisar ser dito pressupõe um porém. Acho que o porém deve ser o "bling bling", o fascínio que causam metais tilintantes nos artistas negros americanos de hoje em dia. Há exceções, é claro. Mas, via de regra, o negócio deles é quanto mais ouro, melhor.
A gente está a anos-luz de pecar pela ostentação. No fim da primeira década do novo milênio, o preto brasileiro comemora a primeira protagonista negra de um programa de televisão que é exibido ininterruptamente - com breves variações de roteiro - há seis décadas. Entendo a frustração de Kokumo com a personagem. Mas entendo também que o Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão - se é que aboliu. E é o país da "democracia racial" (haja aspas!) e do senso que computa igual número de negros, mulatos, pardos, marrons-bombons e chocolates sensuais.
Travamos essa conversa em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Pelo menos, era o que comemorávamos lá no Rio. Estivéssemos em Goiânia, não comemoraríamos nada. Afinal, a cidade aboliu o feriado antes mesmo que acontecesse pela primeira vez para não prejudicar "diversos setores produtivos". Desde 2003, Porto Alegre, Santa Maria e Pelotas também não têm Dia da Consciência Negra. E, pasmem: naquele mesmo momento, em Salvador, o povo - 85% negro - trabalhava. Lá também não tem 20 de novembro. Engraçado que não há muitos esforços para abolir feriados no Brasil, né? Por que será que há tantas vozes contra esse, especificamente? Se der a resposta aqui, vou parecer aquele negão perseguido, que vê racismo em tudo.
Voltando ao assunto: estamos muito longe. Longe dos americanos, longe dos jamaicanos, dos ingleses, dos africanos. Quando falamos em Consciência Negra, precisamos explicar que sim, existem negros no Brasil - embora eu ache que se você colocar negros e brancos numa parede e falar pra polícia definir quem é quem, você encontra a resposta rapidinho. Por isso tudo, acho que devemos comemorar a Taís Araújo na novela das oito. Não só pelo papel, mas pelos 31 anos, que ela completou ontem. Hehehehe. Parabéns. E devemos exigir mais, como sugere Kokumo e minha mãe, que disse outro dia na televisão que ficará satisfeita quando puder falar dos modelos pretos - modelos de vida, não de passarela - sem citar nomes.
PS: Pulga atrás da orelha - a semana da Consciência Negra começou com a personagem de Taís Araújo de joelhos tomando tapa na cara de uma branca. Pode ser uma coincidência infeliz, embora eu tenda a acreditar mais em MV Bill do que em conto da carochinha: "Novela de escravo, a emissora gosta. Mostra os pretos chibatados pelas costas".












9 Comments:
Gabriel,
Acho que a atuação de uma negra pela primeira vez na novela das 8 causa uma mudança muito grande no comportamento do espectador. Primeiro, porque ele está acostumado a ver os brancos assumirem os papeis principais. E, Gabriel, quando falo mudança de comportamento, digo tanto dos brancos que a assistem quanto os negros.
Mas não é um assunto que chega a ser discutido, por exemplo, no Fastão. É algo, pelo menos mais visível nos espectadores brancos, meio que subconsciente. Aparentemente, tudo está normal, a polícia pega os bandidos certos, não há preconceito racial...
Mas o preconceito rola sim. Talvez, por soar assim tão 'natural' aos desatentos olhos brasileiros, a atuação de uma negra na novela é uma conquista e tanto. Mas, como seu brother disse, é pouca coisa. Mais elementos da cultura negra devem ser trazidos para o popular, como James Brown fez com a música e Marthin Luther King com a política. Vejo esse como um caminho possível para o estreitamento da desigualdade racial.
Quanto ao comportamento que citei acima, é realmente por conta da novidade. Esse espanto, que pode ter resquícios de preconceito, deve ser reduzido com a presença maior do negro na cultura popular brasileira. Um espanto que pode parecer nocivo à primeira vista, mas que pode ser dissipado quando realmente a representatividade negra estiver condizente com a população negra do país.
OBS: cara, realmente admiro como você defende sua causa. Pesquisar aniversário de atriz global? Brincadeira... só quero dizer que você realmente está atento à tudo.
Grande abraço!
Esse vídeo da bofetada é contribuição minha!!! Fiquei chocada com a cena e te contei por telefone logo depois.
Acho que preta ou não, a Helena de Manoel Carlos tomaria aquela bofetada da Tereza naquele momento da trama. Faz parte do dramanhão do cara. Mas que foi uma puta coincidência infeliz e uma cena que remete à escravidão, isso ninguém tira da minha cabeça.
Ótimo post!
Absurdo total o Dia da Consciência Negra não ser feriado em Salvador. A cidade literalmente para quando o Ilê toma as praças com seu colorido e aquela batida contagiante. É de arrepiar todos os pelos do corpo. E a coisa mais linda de se ver, é o Ile Ayiê!
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
Pois é, Tiaguinho! Eu fui pesquisar o aniversário da Taís Araújo. E quer saber de um agravante? Fiz isso já faz muito tempo, quando estreou a novela. Era um post programadíssimo. Mas é óbvio que a conversa com Kokumo, pouco antes da publicação, veio a calhar.
Quanto à questão da representatividade que você levantou, concordo contigo em número, gênero e grau. Acho que seria ótimo que não causasse espanto a presença do negro no centro de uma trama de novela das oito. Mas já que causa, melhor que cause logo. Quanto mais adiamos nossas conquistas, mais anestesiada fica a sociedade para encará-las, né não? E acho que o mesmo vale para todos os setores produtivos, intelectuais, artísticos. Tudo, de Taís Araújo a Obama, é conquista. Se tiver que chocar, paciência. É só nossa cara.
Valeu, Tiaguinho. Abraço!
Sim, é contribuição sua, neguinha. A pauteira mais afroente! hehehehehe
Também acho que remete à escravidão. Não queria dizer isso com todas as letras, mas certos comportamentos têm que ser diferentes pra brancos e negros. Essa cena não podia aparecer na semana da Consciência Negra, por mais que fosse importante para a trama. É a subjugação do negro pelo branco. É tudo contra o que Zumbi lutou.
"Ah, mas a Helena não representa todos os negros". Ela não é todos os negros mas, sim, ela representa todos os negros! Infelizmente, somos tão poucos que, cada um que chega em algum lugar carrega o estigma de todos. Ela não é só a protagonista da novela; ela é a primeira protagonista negra.
Beijo, neguinha!
Ainda há muito o que se fazer, mas admito e você certamente sabe que o fato dela estar no papel feminino mais importante da maior produtora de novelas do mundo não reflete o começo da luta do povo negro e sim apenas um resultado simbólico dessa mesma luta que ganhou enorme proporção a séculos passados com ele, Zumbi. Nós que estamos engajados na luta precisamos alertar o povo que que essa conquista não celebra o fim da luta como eles vem pensando, precisamos salientar que no máximo essa luta muda de nível e emerge sobre novos aspectos.
Meu velho, declaro aqui meu axé, Eu e você sabemos que todo dia é dia da mulher, dia das mães, dia da consciência negra, mas é ai que eu conto com você, precisamos levar essa verdade para todos aqueles que estão perto de nós.
Gosto muito daqui, abraços!
hehe... acho que esse nego aí da foto tá bebo...
Gabriel, ainda há muito o que se fazer sim. Eu, pessoalmente não gostei de ver a Tais de joelhos em plena semana da consciência negra e registrei isso lá no meu blog. Quando puder, passa lá - http://brsoulsista.blogspot.com/2009/11/tais-de-joelhos-no-horario-nobre-e.html
Gostei do espaço aqui. Muita coisa pra se pensar! Valeu!
Forte abraço, Fabiana.
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