Quando tenho que recorrer a "A Hora do Show", do Spike Lee, é que a coisa tá feia. Já viram esse filme? Uma obra prima produzida no ano 2000, talvez um dos melhores de Spike Lee - curiosamente nunca lançado em DVD no Brasil. Bom, assim por cima, ele conta a história de um produtor de televisão negro que tenta seguidamente emplacar um sitcom para classe média negra em uma grande emissora. Frustração atrás de frutstração, ele surge com a tese de que a emissora é racista e não quer mostrar gente negra com dignidade. Para provar a teoria, ele recorre a um expediente perigoso - montar um piloto extremamente racista, que tope de frente com as raízes da tensão racial americana. Ele resolve criar um show de menestrel.
O show de menestrel era um tipo de atração muito popular entre as famílias americanas do pós-abolição. Era mais ou menos o seguinte: atores com a cara pintada de preto com carvão, reforçada apenas pelo batom vermelho bombeiro e pelos olhos que saltavam às órbitas de tão arregalados, interpretavam personagens clássicos da dramaturgia afrodegradante. Tinha Tia Anastácia, Selvagem de osso na cabeça, "Little Black Sambo" (um neguinho burro e pobre que fazia a alegria da garotada em livros didáticos confederados), presidiário e daí por diante. Quer dizer: um show para toda a família.
Sequência final de "A Hora do Show" com uma magnífica compilação de estereótipos
Nem é preciso dizer que, conforme os direitos civis ascenderam nos Estados Unidos dos anos 60, esse tipo de coisa começou a ficar... Deselegante, digamos. As poucas manifestações da "black face" foram justamente defenestradas como herança de um período em que a Constituição dos Estados Unidos estipulava - com todas as letras - que o negro representava um quarto de ser humano.
Aqui no Brasil, a black face também teve uma sobrevida lamentável na novela "A cabana do Pai Tomás", exibida pela TV Globo entre julho de 1969 e março de 1970. A trama era encabeçada por Sergio Cardoso, branco pintado de preto, com algodões na boca - pra dar aquele efeito zifiu à voz - e tocos de rolha nas narinas. À época, o maior crítico do papelão de Cardoso foi o dramaturgo Plínio Marcos, que chegou a escrever um artigo dizendo que havia se perdido uma grande oportunidade de colocar um negro na tela em papel de destaque. A emissora contra-argumentou que não havia um negro à altura do personagem. Plínio respondeu de bate-pronto - "Milton Gonçalves" - e a discussão descambou para bravatas do tipo: "O senhor busca inventar racismo onde não há! Somos uma sociedade plural! Bla bla bla".
Enfim. Quando a black face era dada por morta e enterrada, a moda decide lançar moda. A edição deste mês da Vogue francesa causou mal estar no mundo todo com uma sessão de fotos em que a modelo Lara Stone, branca como leite, aparece pintada de preto, à moda dos coon-faces de outrora. "Ora, é arte! Você é um radical! Isso é coisa do passado!"; já dá pra ouvir a enxurrada de contrassenso que vem por aí. Acontece que me assusta a facilidade com que os neo-neo-neo-neo-novos-vanguardistas cospem na história. Por que o negro pode usar camisa "100% negro" e o branco não? Por que negrão americano se cumprimenta "Yo, nigger" e cobre de porrada o primeiro branco que falar isso? Por que Spike Lee pode pintar um ator de preto e a Vogue não pode fazer o mesmo com a modelo? 1) Porque 500 anos de história nos separam; 2) Porque esses que brincam com o legado da escravidão são os descendentes dos algozes de nossos ancestrais. Que necrofilia é essa? Essa gente precisa de um psiquiatra...
PS: Agradeço ao colega jornalista Felipe Gil pela pauta












6 Comments:
Gagabirô
grapevine is busy: felicidades hoje e na nova revolução solar.
Nossa, tomei um susto quando vi o "span" e até esqueci o que ia dizer aqui. Me interessei pelo filme, vou entrar lá no site que colocaram aqui.
Quanto à Vogue... blécati, que mau gosto...
Nossa!!! Achei demais o trailer do "Besouro"!!!
Posta aqui, Ga!
Turma do Besouro... Não tolero spam neste espaço. E vocês devem se perguntar por que o anúncio está aí até hoje. Bom, porque eu boto fé no filme - e pretendo escrever um post sobre ele em breve. Assim que o fizer, excluo o spam. Até lá, recomendo a todos que vejam o trailer do filme e não propaguem spam! hehehehe
Márcia, volte sempre! E obrigado pelos parabéns!
Postarei, Marina! Pode deixar! Beijo
Post a Comment