Confesso que não gostei quando me vi vítima do spam da equipe de divulgação de "Besouro", filme do diretor de publicidade João Daniel Tikhomiroff, que mistura ação, mitologia e cultura de matriz africana em um épico de capoeira, com direito a coreógrafo chinês - o mesmo de "Matrix" e "O tigre e o dragão", diga-se de passagem" - e tudo. Tá bom: não gostei, mas adorei. Preferia que eles tivessem me sugerido a pauta por email, mas mesmo assim, o fato de terem entrado neste Afroências para criar um buzz em torno do filme foi bacana. Mostra que o blog está virando o que eu pretendo que ele seja: um canal de comunicação e troca de ideias sobre cultura negra.
Besouro (Ailton Carmo) encara os jagunços do Coronel Venâncio (Flavio Rocha). Foto: Paulo MussoiPor praxe, eu teria excluído o spam e deixado o assunto cair no ostracismo. Mas, dias antes de recebê-lo, fui ao cinema ver "Bastardos Inglórios", do Tarantino - aliás, recomendo geral: se existe bom uso pro revisionismo histórico, é esse - e fui sugado pelo pôster do filme. Nele, um negro vestido em calças largas voa sobre um cânion com pinta de Chapada Diamantina. Depois da entrada do negro como força motora do cinema brasileiro, em "Cidade d
e Deus", de Fernando Meirelles, faltava dar este passo além e explorar, com a força imagética dessa nossa nova filmografia, a plasticidade da cultura negra. Faltava dar cara aos orixás e tela à estética da capoeira.
Não vi "Besouro", já adianto. Mas acho que o esforço em retratar esse nosso legado é sempre bacana. A capoeira foi proibida durante boa parte de nossa história pós-abolição por ser uma luta de resistência negra contra a qual o sistema opressivo eurocêntrico não tinha armas. Não que não se pudesse matar a tiro um capoeirista - embora lendas dêem conta de uns ou outros que tinham o tal "corpo fechado"; caso do próprio Besouro. Mas não havia bala que destruísse o que ele representava. Ele não era apenas um negro forte; era um negro forte e consciente de sua força física e cultural. Um lutador, um artista, um cantor, uma força religiosa. Ele era a personificação de um legado do qual este povo oprimido poderia se orgulhar, a ponte entre a vida no pós-escravidão - que tinha mais de escravidão do que de pós - e a história africana pregressa, usurpada pelo tráfico negreiro. Ele era quem inviabilizava que a abolição caísse na letargia e fosse relegada a uma assinatura no papel. Ele era quem forçava a entrada do negro na sociedade brasileira e cobrava pelos anos de trabalho gratuito. Óbvio, ele foi proibido.
e Deus", de Fernando Meirelles, faltava dar este passo além e explorar, com a força imagética dessa nossa nova filmografia, a plasticidade da cultura negra. Faltava dar cara aos orixás e tela à estética da capoeira.Não vi "Besouro", já adianto. Mas acho que o esforço em retratar esse nosso legado é sempre bacana. A capoeira foi proibida durante boa parte de nossa história pós-abolição por ser uma luta de resistência negra contra a qual o sistema opressivo eurocêntrico não tinha armas. Não que não se pudesse matar a tiro um capoeirista - embora lendas dêem conta de uns ou outros que tinham o tal "corpo fechado"; caso do próprio Besouro. Mas não havia bala que destruísse o que ele representava. Ele não era apenas um negro forte; era um negro forte e consciente de sua força física e cultural. Um lutador, um artista, um cantor, uma força religiosa. Ele era a personificação de um legado do qual este povo oprimido poderia se orgulhar, a ponte entre a vida no pós-escravidão - que tinha mais de escravidão do que de pós - e a história africana pregressa, usurpada pelo tráfico negreiro. Ele era quem inviabilizava que a abolição caísse na letargia e fosse relegada a uma assinatura no papel. Ele era quem forçava a entrada do negro na sociedade brasileira e cobrava pelos anos de trabalho gratuito. Óbvio, ele foi proibido.
Hoje, a capoeira é patrimônio do Brasil. É praticada em escolas particulares e tratada mais como dança do que como luta e movimento afrorresistente. Mas é importante que ostentemos a raiz dessa cultura. Até para que nossa sociedade não ouse repetir sobre outras culturas negras o ataque que promoveu à capoeira. Sim, estou falando especificamente - mais uma vez - do candomblé, religião de matriz africana que tem sido acossada pelo aumento das igrejas evangélicas e que corre risco de extinção caso se concretizem as projeções do crescimento geométrico do protestantismo no Brasil dos próximos anos. Exu, um dos orixás menos compreendidos, é um dos protagonistas do filme e, pelo trailer (reproduzido logo abaixo), não parece ser retratado como um demônio, mas como o que de fato é: um orixá.
Bom, reitero que não vi o filme. Por isso, comento apenas os arredores da história e as parcas impressões que tiro do trailer. Depois de assistir, prometo que volto a trocar ideia com vocês, leitores afroentes. Até lá, sem spam, heim? Como havia prometido, vou apagar aquela mensagem agora, certo?












6 Comments:
fiquei bastante animada com o trailer e com a repercussão que o filme está tendo. Esta semana foi capa da Folha e da Ilustrada.
Tomara que compense nossas expectativas!!
Belo post, Ga. Se esse já foi pedrada, imagina o que virá depois de assistir o filme.
Bjs
Oi Gabriel, tudo bom?
Trabalhamos na equipe do filme Besouro e vimos que considerou o release informativo que enviamos para você como conteúdo de spam. Pedimos desculpas.
Tentamos entrar em contato por achar que o Afroências tem afinidade com o tema do filme, e como não conseguimos encontrar no seu site o endereço para contato, deixamos nossas informações para que você entendesse a idéia do projeto e nos retornasse de alguma forma.
Lamento se achou nossa abordagem como spam, nossa idéia era de fecharmos uma parceria entre seu blog e o filme.
Gostaríamos de acrescentar que o seu post foi ótimo.
Muito obrigado, e desculpe-nos pelo mal entendido.
Caso haja alguma dúvida, favor entrar em contato conosco.
Do pé pra cabeça!
Caros amigos da equipe de divulgação do filme Besouro. Chamei de Spam o release que vocês me enviaram, mas foi muito mais uma brincadeira do que qualquer outra coisa. É que na verdade, foi o primeiro comentário em um post e um comentário que não tinha nada a ver com o tema do post. Vamos desmontar esse mal entendido: adorei receber o "spam", como disse logo no início do texto. E, como vocês podem ver, dediquei um belo espaço ao filme. Dois, na verdade, porque reproduzi este texto no www.obaoba.com.br.
Além dos espaços, este texto é uma aposta, já que não vi o filme. Como vocês podem perceber ao longo deste Afroências, a ironia é uma tônica do meu texto. Gostei do release, gostei do contato, gostei de vocês, gostei de receber o spam e espero gostar muito do filme. Mas, como radical que sou - radical no sentido radical (etimológico) da palavra -, chamei o primeiro contato de Spam. Mas, não me levem a mal. Só posso agradecer pelo contato e pela leitura.
Quanto ao contato, vocês têm razão. Achei que tivesse o e-mail publicado no meu perfl, mas não tinha. Falha minha, já corrigida.
Mamorena querida, minha pauteira mais afroente. Aceita meu convite para um cineminha?
o filme deve ser bacana mesmo. li a matéria da folha e vi o trailer. fiquei 'afins'.
experiencia pessoal: tentei fazer capoeira na adolescência, numa academia ali no 'baixo augusta'. mas não aguentei o cheiro de xulé misturado com suor.
ué, marcio, capoeira faz suar o pé?
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