Cotas para negros: um afropapo com... comigo mesmo

Bom, antes que vocês, meus caros e afroentes leitores, pensem que eu fiquei maluco e entrei numa egotrip doente, deixem-me explicar a origem desse post. Como vocês têm acompanhado, um camarada chamado Julio pintou aqui no Afroências e contestou algumas das ideias que são comumente aceitas pelo público desse blog. Gostei bastante do fato desse cara ter tido a coragem de, sozinho, contestar todo mundo aqui e, com respeito e humildade, vir debater suas ideias conosco. Estimulo isso no Afroências e acho, inclusive, que esse é um dos maiores e mais importantes propósitos desse blog.

Em seu último comentário, Julio fez quatro perguntas em relação a um tipo específico de ação afirmativa, que é a cota para negros em universidades e cargos públicos. Vou tentar respondê-las abaixo, da melhor maneira possível. Depois, todos estão convidados a debatê-las em nosso espaço de comentários. Então, vai lá meu Afropapo comigo mesmo! hahahahahahaha

Obs: Ao longo do post, pus fotos de algumas pessoas que só se tornaram o que se tornaram, direta ou indiretamente, por causa de Ações afirmativas.

Você é a favor das cotas para negros? Porque você acha isso?

Sim. Sou a favor das cotas porque existe uma dívida histórica deste país com a população negra. Afinal, foram seus braços que, em 400 anos de escravidão, ergueram o país. Durante séculos, toda a economia do Brasil foi baseada no tráfico e exploração do povo de origem africana. Para se ter uma ideia, de acordo com o livro "A Guerra dos Escravos", de Décio Freitas, as condições da escravidão brasileira eram tão hostis que os engenhos tinham de renovar um quinto de sua força de trabalho anualmente - 20% de todos os negros do país morriam em um ano. Segundo a mesma fonte, as taxas de mortalidade infantil entre eles variavam entre 70% e 80% e o termo médio de vida de um escravo era de cinco anos. Depois disso, ele simplesmente morria ou era aposentado por invalidez e entregue à mendicância. A legislação que tratava dos escravos era a mesma que regulava o trato de animais ou bens pessoais. A tortura era sistemática para que o negro esquecesse sua humanidade e aceitasse sua condição de máquina de trabalho. E o Brasil foi a última nação da Terra a abolir essa crueldade. Esse micropanorama da nossa escravidão serve apenas para dizer que o papel assinado pela princesa Isabel foi insuficiente para desenraizar a cultura de coisificação do negro. O negro saiu da escravidão da mesma maneira que deixavam as fazendas aqueles que se invalidavam no trabalho de construção da economia e da nação brasileiras - completamente inaptos para a vida "livre". Haja aspas para esse livre. Ele saiu desempregado, marginalizado e, embora tenha sido o responsável pela construção do país, não se viu dono de uma mínima parte que fosse. O negro não ganhou uma mula sequer para começar sua vida. A gente não começou do zero a vida livre nessa nação. A gente começou do menos mil. Analfabeto, desempregado, abandonado, sem identidade, sem mãe, sem pai, sem história, sem pátria, sem língua, sem nada. E isso não se resolve em 100 anos. Os judeus demoraram 5 mil. O problema é que nós não temos 5 mil anos para nos incluir no mundo; temos que resolver isso agora. E como se resolve o problema de um povo que não tem oportunidade porque não tem autoestima e não tem autoestima porque não tem conhecimento? Com educação. Precisamos de educação e precisamos urgentemente. Precisamos saber quem somos, precisamos aprender de onde viemos, precisamos saber que nossa história não é vexatória como contam os livros da escola. Precisamos escrever nossos livros, salvar nossa história enquanto há tempo. Precisamos cobrar nossa imensa parte na construção deste país para podermos recomeçar, sem rancor, a construir a história das próximas gerações em patamar de igualdade com os brancos.

Você não acha que, no sentido figurado, "dar um empurrãozinho" aos negros, o que seriam as cotas, é achar que os negros são menos intelectualmente capazes que os brancos, então eles precisam desse "empurrãozinho"?
Bom, acho que minha primeira resposta serve para essa pergunta. Não somos menos intelectualmente capazes. Só estamos 500 anos atrasados na escola.

Qual sua opinião sobre racismo contra os brancos que é bem comum hoje em dia?
Não consigo detectar um único caso de racismo contra brancos, pra te falar a verdade. Os casos que brancos me descreveram como extremos me pareceram pura e simplesmente auto-defesa de gente muito judiada. Nunca vi, por exemplo, caso de branco que foi preso por ser branco. Pra te falar a verdade, nunca ouvi um caso de agressão racista contra brancos. Por isso, não consigo elaborar uma resposta satisfatória sobre isso.


Você não acha que essa conversa de, ter orgulho de ser negro/branco, ou dar vantagens para os negros, como as cotas, ou ser obrigatório ter funcionários negros em uma empresa, é uma coisa que deveria ser deixada no passado, e começar a pensar em uma sociedade com pessoas iguais, independente de cor, sexo ou religião? Eu penso isso, o que você pensa sobre isso?
Cara... Quero cotas agora para que no futuro, elas sejam coisa do passado, entendeu? Quero que um dia, a gente não precise delas para ver negros professores, médicos, advogados. Quero que as cotas coloquem negros em situação de igualdade. Hoje existem cotas: os cargos mais importantes de nosso país tem cotas de 100% para brancos. E isso é porque a gente vive numa sociedade que foi tão opressora com o negro, que tirou da maior parte da população negra o direito de sonhar. Eu quero cotas para que, nas próximas gerações, o filho de um profissional negro possa sonhar ser advogado, artista plástico, professor universitário, o que ele quiser. A ideia é que essa próxima geração tenha o leque aberto diante de si; que ela não precise se ver restrita às únicas três carreiras de destaque que o negro médio brasileiro pode ambicionar: música, futebol e crime. Além disso, imagine quantos cérebros nosso país já perdeu por falta de uma oportunidade na base? Quantos engenheiros, arquitetos e artistas enviesaram pelo crime porque não tinham talento para a música e para o futebol e não conheciam nenhuma outra alternativa? Como você, Julio, eu acredito na igualdade. O problema é que ainda falta muito para o negro ficar em igualdade de oportunidades com o branco.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

20 Comments:

Anônimo said...

vc falou tudo e tão bonito e correto q não tenho nada a acrescentar. só um "do caralho"!!
hehehe!
beijos, Luisa

Naiane said...

Faço coro com a Luísa: do caralho! Agora tenho um jeito super educado de responder quando me perguntarem (de novo!)sobre o tal do racismo contra os brancos. Antes eu gastava todo o meu sociologuês pra dizer que somos os dominados e que os dominantes não sofrem opressão e blá blá blá...Agora é pá pum! "Não consigo elaborar uma resposta, pois não detecto casos como esses..."
Tô adorando receber esses posts no e-mail, aí passo aqui pra fuçar...rs
Abraço!

Neil Son said...

é... nada mesmo a acrescentar. esse tal de gabriel é brilhante. vixi!

Márcia W. said...

Gabriel,
gostei principalmente da apertada na tecla "pressa".
No mais, um afro-beijo.

Márcia W. said...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tiago Ferreira da Silva said...

Sem palavras para as suas.

Muito legal estimular esse debate. Como comentarista assíduo, venho cá também dar minha contribuição: hoje, na Folha de S. Paulo, saiu um artigo interessante de um sociólogo, que pode ser lido aqui

Abraços!

Priscilla Arantes said...

Elogiar seu texto é redundância. Me identifico não só com a sua capacidade inteligente de argumentação, sem o famoso "encher linguiça" (sem tremas, né?) e concordo com você em gênero, número e grau. PARABÉNS! e com vc merece mais do que confetes, aqui vai mais informação, segura essa proeza da Microsoft: http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL1280711-6174,00-MICROSOFT+PEDE+DESCULPAS+APOS+TROCAR+CABECA+DE+NEGRO+EM+FOTO.html

Priscilla Arantes said...

AGORA EDITADO

Elogiar seu texto é redundância. Me identifico não só com a sua capacidade inteligente de argumentação, sem o famoso "encher linguiça" (sem tremas, né?), mas concordo com você em gênero, número e grau. PARABÉNS! E como vc merece mais do que confetes, aqui vai mais informação, segura essa proeza da Microsoft:
http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL1280711-6174,00-MICROSOFT+PEDE+DESCULPAS+APOS+TROCAR+CABECA+DE+NEGRO+E

Gabriel Rocha Gaspar said...

Luisa: valeu, Neguinha! É nóis!

Gabriel Rocha Gaspar said...

Pô, Naiane... Fiquei felicíssimo com seu comentário. Acho que um dos propósitos desse blog é encontrar algumas soluções cotidianas para os pretos modernos. Sinto que, quando a gente debate abertamente as questões do nosso universo, a gente acaba chegando a essas soluções. Fico honrado por ter-lhe poupado algumas horas de discussões infrutíferas! Hahahahaahha Valeu pela visita, pelo comentário e volte sempre!

Gabriel Rocha Gaspar said...

Neil! Sessão corujão! hahahahaha Valeu!

Gabriel Rocha Gaspar said...

Pois é, né, Marcia? Cinco mil anos é tempo demais para esperar... Vamos resolver essa questão da desigualdade logo?

Gabriel Rocha Gaspar said...

Pô, Tiaguinho! Valeu pela contribuição, recomendo a leitura a todos. O texto joga uma luz filosófica/jurídica sobre as ações afirmativas. Enquanto o Afro aqui é muito emotivo (Hahahahaha) tem quem pense na questão de forma mais objetiva. Ainda bem!

Gabriel Rocha Gaspar said...

Salve, Priscilla! a Marina Morena, minha ghost pauteira me passou isso ontem. Confesso que eu dei muita risada: até eu sou melhor do que o photoshopeiro da Microsoft! Hahahahahahahaha Se não bastasse a bizarrice do transplante de cabeça em si, o cara ainda teve a incompetência de esquecer da mão! Os racistas já foram melhores do que isso... Hahahahahahaha

Ah, e gostei muito da sua casa, viu? Já está devidamente linkada no "Quem me afroencia"!

Pedro Alexandre Sanches said...

Genial, Gabriel!!!

(assinado, um branquelo)

Anônimo said...

Grande Gabriel, parabens pelo site, muito bom!

Queria muito trocar uma ideia com vc, como não encontrei seu email por aqui, te passo o meu marceloditilandia@gmail.com, se puder entrar em contato, seria bacana...

Abs!

Gabriel Rocha Gaspar said...

Hahahahahahaha! Salve, PAS! Só agradeço!

Gabriel Rocha Gaspar said...

Valeu pelo elogio, Marcelo. Abraço

Fabiano Vitório said...

Olá jovens intelectuais negros, venho aqui como um afro-brasileiro mostrar que podemos sim mudar nossa realidade, pois vivemos em um mundo de possibilidade e não de determinismo, mas confesso que fiquei friamente confuso quando ao fazer a inscrição para um concurso público para professor e observei em um canto você quer concorrer a vaga de negros? sim ou não?
Num primeiro momento optei por sim, mas logo em seguida mudei de opinião, primeiro por que é apenas 1 vaga e na universal trata-se de 13 vagas.
Outro ponto já que estou em uma universidade pública e estudo com pessoas brancas e estudamos os mesmos conteúdos o por que de cotas para entrar em cargos públicos de nível superior?
Cotas na universidade sou a favor no entanto, para o concurso público não, pois já que somos profissionais formados, temos todas as condições de concorrer com quem quer que seja, não quero entrar em uma escola ou universidade para ministrar por que sou negro, mas sim por que tenho conhecimentos para estar naquele cargo, estudei muito, me dediquei, e não por que sou negro. Esta discussão é muito séria e precisa de maior participação de toda a sociedade principalmente a negra sobre esta questão de cotas. Gabriel suas considerações sobre cotas são coerentes não posso negar que para entrar na universidade seja sim preciso cotas, mas para cargos público em nível superior ai não, sou contra e posso argumentar mais sobre isso.
Este é a minha contribuição espero poder estar sempre aqui para que possamos discutir sobre a nossa história, lutas e progressos.

Abraços

Fabiano

Anamyself said...

Gá,

você deveria escrever um livro. De verdade.
Você tem muito a acrescentar nessa discussão, como se vê por esse excelente texto.

 
Afroências Arte: Gabriel Rocha Gaspar