Gay Talese, FLIP e crise de identidade

"Inspiração não existe", foi a primeira frase que o professor disse em sala de aula, logo depois de escrever versos de Pedro Pedreiro, de Chico Buarque, na lousa. Não gostei daquilo. Já lá, nos anos colegiais, era um estudioso de Bob Marley e sentia-me, por isso, testemunha ocular da inspiração. Claro, tinha fitas dele cantando até no banheiro, criando e compondo. Aquilo ERA inspiração.

Mas o veredicto do professor me intrigou e fui ouvir com mais calma. Vi, pela sequência de fitas, que as músicas se desenvolviam de formas simples a outras mais complexas, que era um trabalho constante, árduo, persistente. E vi também que não havia desistências. Aquelas fitas, passadas de mão em mão por aficionados do mundo inteiro, só sobreviveram porque seu criador optou por preservá-las. Guardou os rascunhos, mesmo que fosse para aprender com seus próprios erros.

Ontem, eu cheguei da FLIP com uma ideia na cabeça: escrever um texto taleseano sobre a festa. Como vocês sabem, sou fã do Gay Talese e minha mãe era fã do Gay Talese antes de mim. Adoro quando ele diz que não escreve para informar ninguém no café da manhã. Escreve textos perenes, que possam ser lidos com o mesmo interesse e fruição estética que se tem à leitura de literatura. Só que Gay Talese é Gay Talese. Eu sou um moleque e minha proposta era pretensiosa demais para ser levada a cabo, como depois eu constatei.

Mesmo assim, rachei minha cabeça para tentar fazer o tal do texto ("sem o benefício da ficção", como diz Talese). Gastei três horas de trabalho, escolhi três vítimas para testá-lo. A primeira, jornalista veterano, mas comprometido comigo pelo sangue, disse ter adorado. A segunda e a terceira, também jornalistas - embora jovens, de altíssimo gabarito - disseram que patinei. Uma disse que não gostava dos tempos verbais e que meu texto havia ficado frio. Outra disse que eu firulei. Passei a concordar com eles.

Hoje, folheava o livro "Vida de Escritor", do Gay Talese, para tentar captar o mistério de suas palavras. Evidentemente, não passei muito perto disso, mas me deparei com uma frase que me fugira aos olhos na primeira leitura: "escrevo com a facilidade de um paciente que expele pedras dos rins". Dentro do mistério das palavras de Talese, encontrei aquele velho professor, que nunca gostou de mim nem eu dele. Juntei tudo com o Bob Marley e resolvi: que se dane. Vou publicar o texto que nunca foi porque inspiração não existe. Fica o rascunho. Quem sabe daqui a alguns anos, ele se torne arte final. Com vocês, meu texto taleseano que não deu certo:

Gay Talese, fonte da inspiração que não existiu

Nascido e criado em Paraty, Edmilson não desceu ao centro da cidade enquanto durou a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). Alugou sua casa a um grupo de paulistanos e se manteve isolado em uma edícula com a mulher, duas filhas e mais de mil passarinhos de competição. "Alguns cantam até 150 vezes entre meio dia e quinze pra uma", se gabou. Observou aquela gente - eu incluso - que ocupava sua casa com naturalidade, sentada em suas cadeiras, usando seus pratos, garfos e facas, cercado de seus quadros, os trofeus de seus passarinhos e as fotos de suas filhas.

"Não gosto dessa festa", disse Edmilson descompromissadamente, enquanto reabastecia a caixa d´água dos turistas e recomendava a mim que moderássemos no uso porque 100 litros não bastariam aos 12 hóspedes. "Bom mesmo é o Festival da Pinga, que acontece em agosto. Todos os alambiques descem para expor no centro, o povo fica louco, louco, louco", contou sorridente. "A FLIP é festa pra quem gosta de estudar, de ler", desdenhou.

Naqueles quatro dias, Edmilson foi um pária em sua cidade-natal. Não por seu gosto declarado pelo álcool. Nesse quesito, a turma que tomou as ruas de Paraty não ficou atrás. O próprio Gay Talese, jornalista americano que foi estrela maior da festa, não passa um dia sem um Dry Martini - que ele mesmo prepara - contou sob condição de anonimato uma fonte que trabalhou próxima ao homem. "Ele desceu em São Paulo e se deu conta de que havia esquecido sua garrafinha de uísque, carregada de gin. Tivemos que sair correndo para comprar a bebida e a garrafa", disse. Beber, na FLIP, todo mundo bebeu. Mas o que excluiu Edmilson foi o fato de ele não ver na leitura qualquer função pós-escolar. Na escola, havia lido o mínimo necessário para passar de ano e não apanhar dos pais. Atingiu idade de trabalho - entre seis e sete anos - e passou a vender bananada aos turistas de Paraty. Adulto, garantiu um emprego público onerado em R$ 2 mil mensais e seguiu a vida. Quando "seu" vereador perdeu as eleições locais, passou a trabalhar na Secretaria de Esportes, a R$ 600 por mês. "Uma merreca, mas dá pra viver. O resto completo com meus passarinhos".

Enquanto Edmilson enchia a caixa d´água, Talese, lenda viva do texto literário não ficcional, encheu os ouvidos de milhares de intelectuais com frases como "as pessoas ordinárias são extraordinárias". Disse que, se tivesse entrevistado Sinatra em sua célebre reportagem de 1966 ("Frank Sinatra está resfriado"), faria um texto ruim. Para ele, as melhores histórias saem da boca de gente comum, que geralmente passa despercebida do faro jornalístico.

"Um bom jornalista deve ser capaz de transitar entre as mais diversas classes sociais e conviver normalmente com gente diferente de si", disse. Reproduzindo ideias de seu mais novo livro, Vida de Escritor (Cia. das Letras, 2009), ele disse acreditar que todas as pessoas têm um primeiro e um segundo andares - imagem inspirada na loja que seu pai mantinha com sua mãe e que ocupava o térreo de sua casa. No primeiro andar, andar do dia e do trabalho, só se falava inglês e o apoio aos Estados Unidos na Segunda Guerra era incondicional, mesmo quando choviam bombas americanas sobre a Itália, terra natal de seu pai. No segundo andar, da intimidade, o italiano imperava e o velho Talese mostrava preocupação com a invasão aliada na Itália. Um andar era das convenções, o outro, da vida pessoal. Como em Platão, um da prática, um das ideias.

Pois a FLIP do primeiro andar foi de vento em popa: em uma coletiva de imprensa, o diretor geral da Festa, Mauro Munhoz, disse que pelo menos R$ 5 milhões foram injetados na economia de Paraty. Enquanto a festa literária custou cerca de R$ 3,7 milhões, mais de R$ 1,3 milhão foi destinado a programas sociais, urbanísticos e educacionais, como a Flipinha (atividade para crianças que se desenvolve ao longo do ano) e a FLIPZona (cobertura jornalística do evento feita por 200 jovens da cidade). Os dois projetos levaram a um aumento de 30% do público do evento. É um resultado de se orgulhar. Mas, no segundo andar platônico taleseano da FLIP, mora uma discussão complexa que (não) abriga o Edmilson dos passarinhos e foi encampada logo no início de FLIP, no lançamento do Manifesto por um Brasil Literário, de autoria do poeta Bartolomeu Campos de Melo.

Por que o Brasil não lê? Mesmo alguém que trabalha em um órgão público de uma cidade que recebe milhões de reais anuais graças à literatura não dá importância alguma a ela. O problema está na base, nas escolas, nas crianças? Ou é uma chaga que se perpetua de geração em geração? Como fazer para aproximar a periferia do centro intelectual? E mais: como aproveitar o choque cultural entre o literato e o semi-analfabeto? Gay Talese dá uma fórmula certeira: "hang out" (enturmar-se, em tradução anarquicamente livre).

terça-feira, 7 de julho de 2009

13 Comments:

Flor de raposa said...

Ahhh gabriel. Que saudade desse professor...
:)
E pára de sumir. Humpf.
Beijocas

Gabriel Rocha Gaspar said...

Hahahahahaha! Flor de Raposa, também tenho uma saudadezinha desse professor, mesmo que a gente não se bicasse. Carrego as coisas que ele me ensinou até hoje...

Eu tenho sumido????

Beijo!

Marina Morena said...

Por que o Brasil não lê? Sendo que apenas 25% da população consegue compreender o que lê, é difícil que as pessoas se interessem pela literatura.
O problema está na base, na escola. O País deveria ter um projeto educacional tão ambicioso e bem patrocinado quanto os investimentos econômicos.
PAC na educação já!!!

Márcia W. said...

Gabriel-ô,
O que ficou pairando na minha cabeça depois de ler o teu post foi uma questão de arquitetura social (?):
os dois andares do Talese
Um andar era das convenções, o outro, da vida pessoal e os dois andares no Brasa, o dazelite e o do povão. Elevador djá!

Fatima said...

Minino!
Gostei! Vc tem futuro na arte de escrever.
Como não sou jornalista, gosto de vc mesmo sem te conhecer e escrevo muito razoalvelmente, não sei se vc vai levar em conta meu comentário, mas é verdadeiro viu?!
"Preocupação"!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Bjs.

Gabriel Rocha Gaspar said...

Verdade, Marina... Eu acho que o problema está na base também. Mas, como bem disse meu amigo Murillo - que alegou desconhecimento do tema pra não deixar comentário aqui -, "o tema é espinhoso. Acho que num tenho bagagem suficiente pra dar um diagnóstico respeitável da educação no Brasil".

PAC na educação ajudaria, certeza. Mas como o Governo deveria investir esse dinheiro já são outros quinhentos... Pelo menos, dessa vez, o Pinotti não vai meter o bedelho (piada desinfeliz)...

Gabriel Rocha Gaspar said...

Pô, Márcia, pelo seu comentário, passo a achar que esse texto não tá tão ruim assim; era exatamente isso que eu queria debater! Foi na mosca...

Bem vinda de volta ao Afro. Juro que pensei que, depois do vexame no bar, tivesse perdido uma leitora de peso! Hahahahahaha! Valeu por não desistir!

Gabriel Rocha Gaspar said...

Valeu, Fatima! Fico contente que você tenha gostado!

Márcia W. said...

Gabriel,
vexame? que vexame, rapaz? Leitora de peso... hahahahahhaha.
Então vamos verificar se o mesmo se encontra no andar e debater esses elevadores?
Um cheiro!

Anônimo said...

adoro seus textos, hehe! e percebo cada vez mais q ano q vem eu vou na flip!!!
a propósito, o professor é quem eu estou pensando mesmo, de redação?
beijos, luisa

marcio gaspar said...

o texto tá ótimo. é uma recorte 'talesiano' da flip, bem concebido e bem executado. uma fotografia metafórica do micro que tangencia o macro. e sem empáfia, sem 'siachar'. na mosca!

Tiago Ferreira da Silva said...

Salve Gabriel,

Não sou lá muito fã da FLIP por intrigância minha mesmo. Mas o Talese é embaçado! Só de ler o "Frank Sinatra HAS a Cold" você já sente seu poder de influência.

Ele veio no MASP aqui também, anteontem se não me engano. Fui até lá, mas vi uma fila tão das enormes, que desisti na hora - esmo porque não sou lá muito fã de palestras e afins...

Mas, quanto ao lance da incentivação à leitura do brasileiro, isso foi algo que a burguesia regou lá atrás. Não dá pra exigir mudanças tão drásticas, querer impor algo que, definitivamente, não está calcado na nossa cultura.

Creio que a educação, como a Marina disse, não é essas maravilhas, mas o que falta mesmo, realmente, é oportunidade. E isso é consequência de um sistema falho que deve começar a pensar em reparos.

Quer dizer, vou sublinhar teu amigo, o Murillo: eu não tenho esse diagnóstico também!

Ah, e ficou legal eu texto sim mano. Sem palavras para as tuas!!
Aquele abraço!

Marina Morena said...

Adoro ler os comentários do Afroências!!!!
Parabéns, Ga!
Seu espaço é uma delícia. Bacana "trocar ideia" por aqui!

 
Afroências Arte: Gabriel Rocha Gaspar