Agradeçam ao racista: ele me tirou de uma certa letargia afroente. Não que eu tivesse desistido do blog nem que um comentário débil mental fosse motor de algo construtivo. Como diria Bob Marley, "Babylon ain't got no fruits". Mesmo assim, vou colher post desse fruto da babilônia.
Essa era a introdução do post que eu publicaria na semana passada, depois que recebi um comentário de um gremista injuriado porque nesse país de macacos, pode-se chamar loira de vagabunda, puta e um ou outro adjetivo mais que ele usou, mas chamar preto de macaco é crime inafiançável. Se vocês quiserem ler o comentário dele, fiquem à vontade, não excluí. Só acho que é meio perda de tempo...
Essa era a introdução do post que eu publicaria na semana passada, depois que recebi um comentário de um gremista injuriado porque nesse país de macacos, pode-se chamar loira de vagabunda, puta e um ou outro adjetivo mais que ele usou, mas chamar preto de macaco é crime inafiançável. Se vocês quiserem ler o comentário dele, fiquem à vontade, não excluí. Só acho que é meio perda de tempo...

Ainda bem que não escrevi essa besteira. Afinal, um racistinha injuriado não faz primavera, muito menos afroência. Mas um racistão bem humorado faz, isso faz. O CQC Danilo Gentili é um humorista de H maiúsculo, cara que faz piada e fica sério, se faz de morto pra comer o ... do coveiro. É dos bons mesmo. Ele é o cara daquele quadro do repórter inexperiente, é figurinha carimbada no congresso nacional, o terror da alta política brasileira. O campeão de fazer perguntas sérias como se fossem triviais e perguntas triviais como se fossem sérias.
Bom, nesse fim de semana, o cara postou no Tuíter uma pergunta muito da séria como se fosse trivial. E eu, como trivial que sou, me arrisco a responder. Antes de mais nada, à historinha: Danilo Gentili não estava fazendo nada no sábado à noite, quando trombou com King Kong passando no Telecine. E postou: “Agora no TeleCine King Kong, um macaco q depois q vai p/ cidade e fica famoso pega 1 loira. Quem ele acha q é? Jogador de futebol?”, como informa Mauricio Stycer, do iG.
Sinceramente, achei boa a piada. E não vi nada de racista até aqui. O problema é que um monte de gente caiu de pau e ele, ao invés de responder que a piada não tinha nada de racista, escorregou na banana do macaco e fez a mesma pergunta que o injuriado gremista louronacionalista: “Alguém pode me dar 1 explicação razoável pq posso chamar gay de veado, gordo de baleia, branco de lagartixa mas nunca um negro de macaco?”.
Bom, nesse fim de semana, o cara postou no Tuíter uma pergunta muito da séria como se fosse trivial. E eu, como trivial que sou, me arrisco a responder. Antes de mais nada, à historinha: Danilo Gentili não estava fazendo nada no sábado à noite, quando trombou com King Kong passando no Telecine. E postou: “Agora no TeleCine King Kong, um macaco q depois q vai p/ cidade e fica famoso pega 1 loira. Quem ele acha q é? Jogador de futebol?”, como informa Mauricio Stycer, do iG.
Sinceramente, achei boa a piada. E não vi nada de racista até aqui. O problema é que um monte de gente caiu de pau e ele, ao invés de responder que a piada não tinha nada de racista, escorregou na banana do macaco e fez a mesma pergunta que o injuriado gremista louronacionalista: “Alguém pode me dar 1 explicação razoável pq posso chamar gay de veado, gordo de baleia, branco de lagartixa mas nunca um negro de macaco?”.
À historinha, mais uma vez. Era uma vez um negrinho muito simpático chamado Kunta Kinte. Kinte gostava de correr, brincar de luta, ouvir histórias. Não era muito dado aos estudos - tinha tanta dificuldade para entender as letras do alcorão como tinha facilidade em ler as palavras dos tambores da tribo -, mas era um moleque inteligente. Aos sete anos de idade fez fama em toda região do Kambi Bolongo depois de criar uma armadilha de extrema eficácia contra predadores de ovelhas. Era uma promessa para a vida adulta e seu pai, Omoro, se orgulhava disso. Um dia, com quinze anos recém-completos, ele saiu pra buscar madeira e sumiu. Ninguém nunca mais ouviu falar dele. A vida que ele esperava ter se dividia em quatro etapas: infância, idade adulta, velhice e morte. Continuaram quatro etapas, mas elas mudaram de nome e ordem: liberdade, morte, carga e mercadoria.
Kinte passou pela morte e embarcou como carga em um navio negreiro. E lá, conheceu uma coisa chamada racismo. Enquanto para o alto comando do capitalismo mercantil, não passava de um ardil para justificar à Igreja a escravidão negra, para aqueles marinheiros brancos, chucros e mal-cheirosos, era fato consumado. Os negros eram inferiores porque assim quis Deus: subdesenvolvidos, falantes de dialetos primitivos, viviam nus em árvores como macacos.Isso tudo era mentira, lógico. O dialeto e a língua são diferenciados por seu uso oficial - como as línguas africanas não tinham uso oficial para o mundo branco, todas eram chamadas de dialetos, mesmo que tivessem gramáticas complexas e bem-estruturadas. Os negros não eram subdesenvolvidos nem pelos moldes eurocêntriocs e impérios como o Zulu e o Ashanti são prova disso. E por fim, acreditar que o negrão no calor da África subsaariana vai se cobrir de pano como o europeu é uma viagem absurda. Enfim, morre o fato, fica o mito.
E o mito se perpetua há 500 anos. O mito faz com que a polícia dê tapa na minha e na sua cara e não dê tapa na cara do branco. O mito faz com que sejamos a maior parte da população carcerária. O mito faz com que encabecemos todas as estatísticas de assassinatos de jovens. O mito faz com que não consigamos emprego e, quando conseguimos, somos menos remunerados que brancos na mesma posição. O mito faz com que cotas para negros sejam tratadas por racismo às avessas, enquanto as cotas de 100% brancos que se praticam hoje sejam tidas por normais. O mito faz com que sejamos associados ao feio, ao sujo, ao vagabundo. É por isso, gremista anônimo e Danilo Gentili, que não se pode chamar o negro de macaco. Porque nossa sociedade foi cunhada no racismo predatório do negro e sofre com seus ecos até hoje. A cada vez que um Gentili, um Ali Kamel ou mesmo um anônimo ressuscita essas ideias, o mundo dá um passo atrás. E isso não é o politicamente correto que deixa o mundo mais chato, é só uma tentativa de sobrevivência.
Em tempo: o colega jornalista Felipe Gil me mandou o link de um post do Casseta Hélio De La Peña sobre o mesmo assunto. Vale a leitura, a começar pelo excelente título "A coisa ficou afrodescendente para o humor negro"!











23 Comments:
Gabriel,
O que acontece é que a ideia de democracia acaba dando margem para que comentários desta natureza sejam sustentados.
Calma, não sou totalitarista, vou explicar. Nascemos no final do século XX, era em que a abolição da escravatura ainda faz parte de um longínquo periodo colegial. Esquecem-se que esta praga ainda se faz presente.
Então, muitos acabam caindo no equívoco de que a posição do negro na sociedade está consolidada, em igual patamar aos brancos, indígenas, amarelos, etc. E daí surgem os contumazes críticos das cotas raciais nas universidades e colégios particulares.
Mas há um pequeno desvio: os negros ainda são minoria nas universidades (3%) e nos cargos mais bem assalariados - e permanecem maioria irredutível nas favelas, das quais associam-se à violência, suscitando em mais preconceito.
Como já cansamos de argumentar: 500 anos se passou e quase nada mudou. A posição racial do negro, hoje em dia, infelizmente deu lugar à degradação de sua posição social. E essa posição social, obviamente, é a consequência mais grave do preconceito racial de outrora.
Não existe esse ideal de que todos estamos nos mesmos patamares. Isso é uma utopia das brabas! A batalha e as adversidades que os negros já passaram são prova de que, por mais que algo relativamente tenha melhorado em relação à 120 anos atrás, a sociedade ainda não superou o vírus do preconceito racial.
Vale lembrar que, antes disso, os negros sofreram quase quatro séculos de escravidão. Creio que superar isso pode levar mais tempo.
Portanto, Gentili, anônimo e alguns gremistas, quando você chama algum negro de macaco está esquecendo de quanto esse termo deturpa todo o processo histórico que deixou o negro um pouco menos distante da posição social dos brancos.
Cair na ilusão de que todos somos iguais é o mesmo que acreditar que a liberdade existe, que a democracia funciona ou que o Papai Noel existe.
Mais que racismo, chamar um negro de 'macaco' é um desrespeito à história de seu país - creio que, pelo menos nacionalistas vocês devam ser.
OBS: particularmente acho o Gentili sem graça nenhuma; suas piadas são típicas daquela que meus tios fazem quando não tem o que falar no churrasco de domingo. Mas compartilho da mesma opinião que você, Gabriel. Está no topo dos humoristas. E, escorregou na argumentação, o que prova que ele não é mais esperto que alguns representantes do nosso povo, algo que ele tanto tenta provar no CQC. Pra mim, ele não passa de um demagogo metido à piadista! Mas o respeito pela posição humorística que conquistou no âmbito televisivo.
Adorei o post!
http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=41956748&tid=5363149658521490843&start=1
Olá muito bom texto. Já caminhei antes por aqui... Postei na comunid.do orkut, com os devidos creditos.
Elis
e-lis@uol.com.br
Ótimo texto Gabriel!
Vou apresentar na aula de amanhã pra turma de Direito que me fez a mesma pergunta estes dias. Expliquei mais ou menos o que vc escreveu, mas o seu texto ficou melhor.
Bjs.
Bravo, Gabriel!
no ponto, sempre..!
beijos, Luisa
pra mim o cara escorregou na casaca da banana desde o comentário inicial, que vc não considerou racista. eu considerei SIM! e a justificativa, comparando com gay, com obeso e etc, é ridícula e só mostra que o preconceito do cara é amplo. nunca vi o CQC e não sei se o cara é bom humorista ou não. mas agora é que não vou ver mesmo... e o seu post, mais uma vez, matou a pau! seria bom ele dar uma de 'gloria coelho' e aparecer por aqui pra levar bordoada, hehe...
casaca de banana? hehe, é claro que é CASCA!
Gabriel,
ainda bem que ainda tem coisas que te tiram da malemolência. Como já disseram antes de mim, você matou a banana e mostrou a casca.
Uau! quantas afroências! Vcs tavam com saudade, heim, rapaziada? Bom, vamos lá. Tiaguinho, tem nem por onde começar, meu filho. Você tocou em vários pontos importantes. concordo que haja uma ilusão quanto à ideia de democracia. É o que acontece quando a sociedade se divide em partes completamente antagônicas: o branco não faz a mais vaga ideia do que é a vida do negro, o negro não sabe da do branco, o pobre não sabe do rico, o rico não sabe do pobre e por aí vai. Quer dizer, vira uma roda de medo e suposições - campo fértil para a proliferação de preconceitos.
Um deles é achar que as oportunidades são iguais. Ah, se eles pudessem passar um dia na pele de um negro para saber... As oportunidades não são iguais, o tratamento não é igual, não tem essa. Lembrei de uma história: outro dia, eu fui almoçar em restaurante na Alameda Santos, aqui perto do meu trabalho. Quando entrei, a recepcionista loira me perguntou: "Pois não?". "Quero almoçar", respondi. Respostas cretinas para perguntas imbecis. Quer dizer, quem entra num restaurante no horário do almoço provavelmente não quer pagar as contas ou tirar carta de motorista. De qualquer forma, deixei que ela me indicasse uma mesa no canto. Mas não quis ficar na porta do banheiro e disse que preferia me sentar à janela. Na hora de trazer a comida, ela colocou os pratos a uma distância que eu tivesse de me levantar para me servir. Quando você conta uma história dessas, muita gente diz que você exagera, que é perseguido, que procura pelo em ovo. É gente que acredita nessa democracia parca que você citou. Gente que diz que racismo existe, mas duvida de um caso concreto. Gente que quando você conta que foi enquadrado pela polícia pergunta: "Mas o que você estava fazendo?". E levanta a sobrancelha quando você responde "nada".
Pra citar Bob Marley de novo, "dig my head but lack my feelings". Quer dizer: entende meu pensamento, mas não meus sentimentos.
Obrigado, "Eu"!
Obrigado também, Elis!
Uau, Fátima! Que honra! Virei acadêmico por tabela... Demais!
PAS e Luisa: obrigado! Duas opiniões de peso - e bota peso nisso!
É, Marcio. Eu ficaria feliz se ele desse as caras por aqui. Sabe que tem um produtor do CQC que às vezes aparece no Afro... Quem sabe o Gentili também não faz sua intervenção, né? Mas não vou dar bordoada nele, não. Afinal, como disse o Stycer, mas não eu - digo agora, falha minha consertada agora - ele apagou essas mensagens posteriormente. Sinal de um legítimo e muito justificável arrependimento.
Hahahahahahahahhaahhahahahahaha Matou a banana e mostrou a casca foi boa! Pô, tava com saudades desse Afroências tão saudável, viu?
eu tinha entendido pelo texto do Stycer que o Gentili apagou outras tantas mensagens que escreveu, mas não essas duas.
"O humorista ainda postou outros comentários sobre o assunto no Twitter, mas os apagou posteriormente. Vários blogueiros registraram essas frases de Gentili, mas não vou reproduzi-las aqui. Se os retirou do ar é sinal que se arrependeu do que disse, no que está no seu inteiro direito"
Não fui lá conferir...
Mas de qualquer forma, ótimo texto, Ga!
Se eu fosse tão boa pauteira no trabalho como sou pro Afroências, tava subindo na carreira! ooops!
Que beleza!
beijão
Gabriel, é mesmo um espetáculo a sua maneira de discorrer com elegancia e sabedoria sobre as coisas. Esse texto tá bárbaro. Parabéns e... colaaaaaaaaaaco!
Na mosca! Azul(u)!
abç
Sabia que vc ia dar seu pitaco a respeito. Eu tb não aguentei. Tive q falar tb, mas não tão bem como vc o fez!
Pra variar arrebentou!
Bjos criolinho difícil!
Bacana o Blog! E muito equilibrada a sua visão.
Acho que está na hora de começarmos a avaliar estas questões com mais equilíbrio. Até agora ser irascível era necessário. Era necessária uma pressão de baixo pra cima pra não ser esmagado. Agora vamos respirar. Está chegando o momento de desprezar o racismo como a coisa desprezível que o é.
O amigo Paulo Maurutto disse que devemos desprezar o racismo como a coisa desprezível que é.Então, temos que desprezar o conceito de raça, para acabar com o racismo.
Quanto você disse do garoto negro(Kinte) e que não se pode tratar o negro como outros estereótipos(gay-viado) você leva em conta o contexto racial.
Realmente os negros sofreram muito, e muitos gostam e tem orgulho do que é.Mas tenha orgulho do que você é como pessoa, e não do que foi a suposta "raça".
Uma pergunta:Se algum negro fizesse a piada acima vocês se sentiriam ofendidos?
Esse trecho do post do Helio talvez responda um pouco pro comentário anterior:
"Danilo publicou um texto no seu blog sobre o assunto. Ali argumenta que quem chama um preto de macaco é crucificado. E afirma que “eu mesmo cresci ouvindo que sou uma girafa”. E que muitos gordos são apelidados de “baleia”ou “elefante”. O problema é que ninguém parado numa blitz foi xingado de girafa pelos canas. Também não ouvi falar de um porteiro que tenha dito a um gordo: “Sobe pelo elevador de serviço, baleia.” Associar o homem preto a um macaco não é novidade no anedotário e causa desconforto aos homens pretos."
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