"Todo dia existem casos de racismo, vamos acabar com essa hipocrisia. Isso é apenas um jogo de futebol. A gente deveria se preocupar com coisa mais séria". Certeza, seu Paulo Autuori. O fato de seu atacante Maxi Lopez ter chamado o colega de profissão cruzeirense Elicarlos de macaco, no jogo que aconteceu ontem no Mineirão, válido pela semifinal da Libertadores da América, não merece lá muita atenção. É "apenas" um jogo de futebol. É mesmo?
Gay Talese é um cara que nem gosta de futebol. Mas partiu em uma viagem à China para tentar uma entrevista com a jovem futebolista da seleção nacional chinesa que perdeu o pênalti que definiu a favor dos Estados Unidos a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 1999. Pouco interessavam a ele as repercussões esportivas do caso. O fato é que poucos meses antes, uma incursão americana havia destruído - alegadamente sem querer - a embaixada chinesa em Belgrado, causando três mortes e prejuízos da ordem de US$ 28 milhões. Isso gerou reação: a embaixada americana em Beijing foi atacada com pedras e coquetéis molotov. A tensão política crescia entre os dois países, que se acusavam mutuamente de espionagem, violação dos direitos humanos e outros bichos.
Tudo isso estava na marca do cal, em território americano. E a China perdeu a guerra política em campo, por culpa de uma única jogadora, a volante Liu Ying, que bateu um penal fraco, no meio do gol, fácil para a corpulenta goleira americana. Agora, essa chinesinha que acabara de cruzar a adolescência deveria voltar para casa e encarar a família, os conhecidos, os colegas de profissão, os capos do regimão. E ela, sozinha, era a imagem do fracasso chinês. Aquilo não era "apenas" um jogo de futebol.
Tudo isso ajudou a moldar nossa sociedade, nossos valores, nossos sonhos, orgulhos, tristezas, complexos. Boa parte do que somos deriva do futebol. E, se há racismo até num campo de futebol, cercado de câmeras e mais câmeras, comentaristas, juízes, torcedores, imagine o que acontece nos becos do Brasil e do mundo? Isso não é "apenas um jogo de futebol", Paulo Autuori; é um retrato preocupante do nosso mundo e uma oportunidade de debates.











6 Comments:
Gabriel,
Mano, o que há errado com o Brasil? Por que logo no futebol, onde supostamente deveria prevalecer a igualdade entre os seres que jogam bola, há essa discrepância? A atenção, o enfoque da partida não tinha que estar direcionada às redes daquelas benditas traves nos flancos dos gramados?
O pior que não é só o Brasil... no exterior parece que a coisa é pior! Quantos mulatos nossos não já sofreram com ataques perniciosos de torcedores e adversários em campo!
Disso, só não entendo uma coisa: por que mesmo no âmbito esportivo, que deveria simbolizar a paz, alegria e parcimônia, a praga do preconceito persiste?
Obs: relaxa, não espero que você responda!!
Gabriel,
sempre quando acontece estes fatos eu fico questionando: cadê a reação dos movimentos negros do nosso país?
Bjs.
Tiago, acho que a resposta a sua segunda pergunta não é tão difícil: o futebol é um jogo complexo, que reflete os paradigmas da sociedade. Apesar das regras próprias e das condutas éticas pré-estabelecidas, o que acontece dentro de campo é um espelho espontâneo dos conceitos que existem fora. Acho que, no futebol, isso é mais forte do que em todos os esportes por um fato simples: ele é o único esporte "não-natural". Vou explicar: a chave da evolução humana é o polegar opositor; tudo o que a gente construiu no mundo partiu das mãos.
Quer dizer, o futebol é a contramão da evolução. Não é natural do homem trabalhar com os pés. E acho que isso desperta no jogador, no torcedor, em todo mundo, um outro tipo de instinto. Acho inclusive que é por isso que a torcida de futebol é a mais poderosa de todas. Uma torcida a favor pode MESMO fazer um time ganhar. E um torcida contra também tem igual influência. Mesmo que as torcidas ajudem nos outros esportes, acho que o racionalismo no uso das mãos é muito maior.
Por isso tudo, acredito que o futebol desperta certo ímpetos animalescos. Simplesmente porque a modus operandi do jogo agride nosso processo evolutivo.
Agora que você já leu tudo isso: isso é o que eu acho, com base em nada! hehehehehe Sei lá, mas a teoria é boa, falae?
Abraço!
Fatima, por incrível que pareça, eu achei sua pergunta mais difícil que as do Tiago. E só tenho uma resposta: não sei. Não sei mesmo onde o Movimento Negro vai parar nessas horas. Vou tentar descobrir se houve alguma reação e te dou um feedback, tá?
Gabriel,
Acho que manos que nem você, que nem eu, que nem uma porrada de gente que tem página na internet bloga por isso: para expor suas teorias e alavancar discussões.
É bem válida tua posição. Até brisei um pouco na filosofia de Hegel: "A contradição move o mundo". Será que tem a ver??
Mas uma vez vc foi brilhante na análise, e na analogia feita. meu caro parceiro.
Tá tudo muito pacato, tudo muito quieto, aceitamos com muita calma tudo que nos rodeia. Será até quando? Quando vamos explodir, quando vamos dizer um basta a tudo isso? Um basta verdadeiro, sem enrolação. Apesar de ser fã confesso de Paulo Autuori e sua calma futibolística, e apesar de concordar (em parte) com a análise dele, quando ele diz que isso acontece aos montes por aí, por "pessoas importantes", que nós deveríamos ser mais sérios... Tem razão seu P.A, e que tal começarmos a seriedade punindo um profissional, estrangeiro, racista, criminoso e sem educação?
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