Motown 50 anos: The Supremes

Dias antes da cerimônia do Oscar de 2007, a Paramount e a Dreamworks publicaram um pedido de desculpas em duas páginas do Los Angeles Sentinel. O recado era endereçado a Berry Gordy e Smokey Robinson que, desde o lançamento de Dreamgirls vinham protestando contra o que diziam ser uma "inaceitável distorção na história da Motown". No anúncio, as produtoras diziam: '"Dreamgirls" é uma obra de ficção, além de ser uma homenagem à Motown. Usamos muitas das maravilhosas conquistas que pertencem à rica história da Motown. Por qualquer confusão que tenha resultado de nosso trabalho ficcional, pedimos desculpas ao sr. Gordy e todas as incríveis pessoas que fizeram parte deste grande legado. É fundamental que o público compreenda que a verdadeira história da Motown ainda está por ser contada". Berry aceitou publicamente as desculpas e ficou tudo bem. Tudo bem? Nada. O buraco é muito mais embaixo. Chegamos à história mais intrincada que a Motown viveu.

Talvez a história não tenha começado com Florence Ballard, como o filme dá a entender (a suposta gordinha que tinha mais voz do que Diana Ross). Mas a confusão certamente sim. Smokey Robinson jura de pé junto que Ballard nunca foi líder das Supremes, posto reservado a Ross - com muita justiça, diga-se de passagem. Mas é fato que a voz mais forte e mais encorpada do grupo era mesmo de Florence Ballard. E é fato também que o primeiro single delas - ainda como Primettes - a obter algum destaque ("Buttered Popcorn") era liderado por Florence. Então, quando e como Florence Ballard foi relegada à posição de alcoólatra, encrenqueira e desertora? Se Berry Gordy não tentar fechar o Afroências (hahahahahahahahahaha, falou, neguinho enjoado!), me encorajo a contar o que sei e o que deduzi dessa história.



O fato é que as Supremes são o case de negócio perfeito da Motown. Elas são exatamente o que Berry Gordy idealizou desde que entrou no mercado musical: um grupo negro que misturava consistentemente números musicais e coreografias e que agradava tanto a audiências negras quanto brancas. E a chave para a integração racial foi também a semente da cizânia dentro das Supremes. Enquanto a maledicência acusa Berry Gordy de ter privilegiado Diana Ross por causa de seu caso amoroso com ela, ele próprio tem uma explicação que me parece mais plausível (considerando que ele é um empresário sagaz e empresário sagaz é foda). "Diana tinha uma voz mais aveludada, menos identificada com o padrão de voz negro. Achei que ela teria mais apelo com o público branco". Verdade ou mentira, Berry Gordy acertou. Quanto ao critério ser a beleza, é contestável, já que Florence Ballard não era nem tão gorda nem tão feita quanto retratada no filme. E outra coisa interessante: Diana Ross, magra até para os padrões atuais, não era padrão estético na época; as mulheres um pouco mais gordinhas faziam mais sucesso do que as magrelas.

As Supremes saindo da escola: Diana Ross, Mary Wilson e Florence Ballard

Por outro lado, há um esforço por parte de Gordy e Robinson para mostrar que a história foi às mil maravilhas, quando não foi. Se fosse, Florence Ballard não teria morrido bêbada e pobre aos 32 anos, enquanto via suas ex-colegas despontarem para o estrelato mundial. Ela era sim uma cantora talentosa e ela não apenas liderou as Primettes, como foi fundadora do grupo. Foi ela quem chamou Diana Ross para participar do então quarteto vocal. E, por anos, elas foram amigas íntimas que dividiram as durezas da vida no gueto fabril de Detroit, de amores mal sucedidos e toda sorte de tristezas. Mas, desde que realizaram o sonho máximo de assinar com a Motown, Florence sentiu-se excluída e renegada.



Faltou a boa, velha e simples psicologia: fazer a moça entender que seu posto agora era fundamental, mas não mais principal. Ao invés disso, Berry Gordy e Smokey Robinson optaram por apagar o passado e fingir que o grupo sempre havia sido liderado por Diana Ross. Sem que Ross percebesse direito o que acontecia, Florence entrou em uma disputa meio doente com ela: passou a cantar mais alto com sua potente voz de tenor, fazendo a parceira desaparecer de palcos e gravações. Quem desapareceu de cena foi ela própria - foi demitida da Motown por Berry Gordy, casou-se com o motorista da empresa que, da noite pro dia, tornou-se também produtor e empresário. Caiu em depressão, definhou, morreu. Sobrou a "história que ainda está por ser contada". Por enquanto, só podemos tentar adivinhar.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

10 Comments:

Marcio Gaspar said...

entendo que o filme - até por ser um filme - tenha romanceado a história real e 'carregado nas tintas' aqui e ali, mas basicamente o lance foi aquilo mesmo. imperdoável o que fizeram com a florence... pesando pós e contras, o hômi lá em cima deve até agora estar na dúvida se manda o barry gordy pro céu ou pro inferno, hehe... e musicalmente, convenhamos: as supremes eram boas, mas de tudo o que gravaram, se formos bem rigorosos, deve sobrar de bom mesmo umas 5 ou 6 músicas. o resto é baba. não dá pra botar no mesmo nível de um marvin gaye, de um smokey robinson, ou mesmo dos temptations.

Gabriel Rocha Gaspar said...

Vixe, concordo 100%, sem tirar nem por. Tanto que se você for ver, esse post fala muito mais de intriga do que de música. Os outros são mais musicais... As Supremes são um excelente case de negócio em música, são o ápice do business da Motown. É na esteira (mercadológica) delas que vêm todos esses fenômenos black-pop, de Mariah Carey a 50 Cent!

Márcia W. said...

Também acho as supremes não tavam com essa bola toda, mas não posso perder nenhum capítulo dessa novela, né Gabriel? E falando em intrigas e tal, não é a Diana a ídola máxima do Máicon ou tô confundindo?

Marcio Gaspar said...

marcia, reza a lenda que a diana ross 'violentou o michael', mais ou menos naquela época em que fizeram uma refilmagem do mágico de oz. coitado do garoto: surrado e abusado sexualmente na infância, comido por uma 'devoradora de homens' na adolescência. deu no que deu.

Márcia W. said...

Marcio,
que babado hein? E a Liz Taylor ficou amiga do garoto depois....

Gabriel Rocha Gaspar said...

Pois é... Mamãe avisou: cuidado com as más companhias!

Ramiro said...

Salve família Gaspar! Recomendo a audição do álbum "Let The Sunshine In", das Supremes, apenas como provocação à cruel estatística de "5 ou 6 músicas" realmente boas... Hehehe... Mas, de fato, as meninas foram a grande jogada de marketing da Motown e deixaram um legado anos luz aquém de Stevie Wonder, Marvin Gaye, etc... Chega a ser covardia! E, Gabriel, conforme combinado, surrupiei seus três textos e os reuni em um só aqui: http://www.radiolaurbana.com.br/index.asp?Fuseaction=Conteudo&ParentID=9&Menu=16&Materia=2269
Sampleado e creditado, como combinamos. Abraços!
Ramiro

Gabriel Rocha Gaspar said...

Valeu, Ramiro! E de onde surgiu esse vídeo precioso da audiência do Jackson 5??? Genial! Nunca tinha visto isso. Grande contribuição. Hoje deve rolar Marvin Gaye aqui pelo Afroências, dá um pulo aqui mais tarde! Abração!

Marina Morena said...

hahahaha!
Demais os textos e os comentários! Tá bão o negócio aqui no Afroências.
Eu adorei saber mais da história das moças. Não conheço muito o legado das Supremes, mas as músicas do Dreamgirls eram muito boas (melhores do que as do grupo?). E cheias de dramatismo, hahahahaha!
bjs!

Anônimo said...

Olhem, vamos falar o que é justo: A "soul music" deve muito ao Barry Gordy e a Motown. Sua história se divide em antes da Motown e depois da Motown. Até porque os (desculpe o palavreado) escrotos dos branquelos americanos não davam espaço para a 'black music' na mídia e o cara teve peito p/ encarar e jogar com as armas que conhecia. Sinto pela Florence, mas, negócios são negócios e cabeça de empresário funciona assim, fazer o quê?!

 
Afroências Arte: Gabriel Rocha Gaspar