Motown 50 anos: Marvin Gaye

- Nem fodendo. Este é o pior single que eu já ouvi.
- Você não vai me deixar gravar?
- Jamais. Isso é uma merda.
- Então, passa para cá a rescisão do contrato.
- Mas...
- Mas nada. Passa pra cá a porra do contrato. Se você não vai gravar, tem quem grave.
- Calma, vamos conversar.
- Estamos conversados, dá essa merda para cá!

Aquela discussão a portas fechadas no QG da Motown foi uma avalanche de palavrões. Do lado de fora do escritório, Mary Wells se acotovelava com Stevie Wonder e Smokey Robinson para tentar captar alguma coisa. Nem Robinson, maior compositor da Motown e braço direito de Berry Gordy, ousava interferir. Nem precisou. A porta foi aberta com violência, derrubando os enxeridos no chão. Todo mundo se levantou e Smokey partiu atrás do homem que ganhava a rua pisando o chão com ira. “Marvin!”, chamou. O outro parou recostado em seu Cadillac, tirou as chaves do paletó branco e sorriu. “Ele vai gravar”, disse em resposta a não-pergunta e entrou no carro. Fitou o outro por cima dos óculos escuros, inquiriu com os olhos: “Não falei?”; e partiu acelerado.

Smokey Robinson ia começar a rir, quando viu Gordy apoiado na porta, bufando. “Filho da puta teimoso. Vem, Smokey, a gente tem uma música de merda pra vender”. Os dois entraram no escritório e todo mundo – até o cego Stevie – fingiu que estava fazendo alguma coisa. Marvin Pentz Gay Jr. era dado a estouros desde moleque. Mas a coisa havia piorado desde que fora constatado câncer no cérebro de sua parceira musical – e, rezam línguas afiadas, amante – Tammi Terrell. Marvin passara dois anos sem gravar; pensara em desistir da música; se opusera a lançar “Heard it Through the Grapevine”, um single que seria hit na certa; tentara tornar-se jogador de futebol americano. Houve quem dissesse que um dos maiores hit makers da Motown estava louco. Tammi Terrell morreu em 16 de março de 1970.



Agora, passados três meses do enterro, ele estava de volta, ávido por gravar aquele single entristecido, diferente de tudo que fizera até então. Ameaçou até largar a Motown! Mas só um louco deixaria Marvin Gaye ir embora pela porta da frente assim, sem mais nem porquê. E Berry Gordy não tinha nada de louco. Pelo contrário. Ele deixaria que o homem lançasse aquela porcaria se isso fizesse sua estrela recuperar o juízo. A estratégia foi não divulgar o disco. Em janeiro de 1971, o single chegou discretamente às prateleiras. Mas houve quem encontrasse a nova faixa de Marvin Gaye perdida entre “Ain’t no Sunshine” (Bill Whiters) e “I’ll Be There”, dos Jackson Five. Foi o suficiente. No boca a boca, Marvin Gaye passou cinco semanas no topo do Top 100 da Billboard. Anos depois, a faixa seria considerada a quarta melhor de todos os tempos pela revista Rolling Stone.

De volta à Motown em tempo integral, Marvin foi chamado ao escritório de Berry Gordy:

- Você já tem um nome pro long play que vai gravar nesse seu novo estilo?
- Claro, é o mesmo nome do single: “What’s Going On”.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

17 Comments:

Marcio Gaspar said...

'what's going on' entra fácil na minha lista dos 10 melhores LPs de todos os tempos. marvin, o gigante de voz doce e aveludada, era também mestre do suingue. e ainda compôs e gravou algumas das músicas mais sensuais da história, como 'let's get it on', 'inner city blues' e 'sexual healing'.

Gabriel Rocha Gaspar said...

Pois é, Marcio. Na minha também. Já pensou que tragédia seria se o Berry Gordy tivesse de fato conseguido barrar o single?

Marina Morena said...

hahahaha! quando a gente tem certeza q é bom, tem q teimar mesmo.
ótima essa sequência da motown. Parabéns!
eu ia dizer que merece repercussão, mas eu soube que já tá sendo repercutida por aí!! ;)
bom demais, ga!

Anônimo said...

Seu texto é supervisual. Daria um ótimo curta-metragem, com a trilha rolando ao fundo, já antecipando a grande cag... quer dizer, mancada, que o Berry Gordy ia dar. Adorei. Bjs,
Maria Amélia

Marina Morena said...

Conta mais! Conta mais!

Anônimo said...

Gabriel:
Tudo em familia.
Tenho sempre lido seu blog.
Não tenho escrito porque você posta tão bem que quando penso em qualquer comentário me encaminho ao grande,enorme, Joe Cocker(vide You Are So Beautful,YouTube).O mágico nêle é a nota que não sai.É a nota de Deus.Me lembra Michelangelo na pintura da Criação:Deus tocou ou não tocou em Adão?
Suas análises são tão procedentes que às vêzes passam como matérias.
Tô na sua bota,bora Gabriel,que a sua juventude vai dar o caminho de um grande jornalista.

Na fita

Günther

Marcio Gaspar said...

ô cara! abandonou o blog? faça isso não...

fernando said...

ôxe cade o gabriel..que carnaval longo...

abraço a todos
gilgariba

Gabriel Rocha Gaspar said...

Nossa, que belíssima enxurrada de comentários! Agradeço a todos, de coração. Primeiro, à questão mais urgente: eu não desisti do Afroências, não vou desistir jamás! Também não emendei o carnaval, hahahahahaha! A questã em questã é que estou trabalhando muito, mas muito mesmo, agora que mudei de trampo. E estou completamente sem tempo de postar neste espacinho tão privilegiado. Espero voltar em breve mas, já adianto que não terei nenhuma condição de manter o ritmo de atualizações que o blog tinha. É uma pena porque eu acredito que blog, pra funcionar tem que estar atualizado. Acho que vou fazer um esquema de postagens semanais, não sei...

Günther: só posso agradecer... Mas comparado a Michelangelo e Joe Cocker, eu sou uma criança! Hahahahaha

Maria Amélia: estou à caça da equipe de produção do curta! Alguém se candidata?

É, Marina! Você viu que a Motown foi parar lá na Radiola Urbana? Também achei bem legal... Graças ao nosso caro amigo e leitor Ramiro!

Abraços a todos e até o próximo post (que eu espero que venha em breve)!

fernando said...

SERÁ QUE EXISTE ALGUMA INSTITUIÇÃO QUE DEVEMOS PROCURAR PARA DENUNCIAR ABANDONO DE BLOG BONS???/RSRSRS

abraço a todos
gilgariba

Gabriel Rocha Gaspar said...

Oh, meu pai do céu! O último post tem um mês e oito dias! Olhem só, meus caríssimos e revoltados leitores: entrem neste mesmo Afroências nesta quinta-feira, às 22h. Juro sobre minha sepultura que vai ter post novo aqui - e dos bons! Agora tchô voltar pra labuta que o pelourinho me sorri! Valeu, afroentes. Logo mais é nóis aí na pista outra vez!

Tiaguinho said...

Mais atrasado que tartaruga pra subir ladeira mas vá lá.É que eu não tinha lido este post, hehehe!!!

Sei lá, através de umas percepções que tive escutando o belíssimo "What's Going On", muitas coisas me inculcam:

Tipo, como um cara como o Marvin, que tinha uma relação afetiva meio perturbadora com o pai, perdeu por aqueles tempos o parceiro de dueto Tarrel e vivia caindo em desilusões idealistas, conseguiu fazer uma música tão madura, tão consciente (e consistente) pra cativar multidões?

Digo isso porque a música de Marvin é universal, é de mobilizar mesmo, de cair em lágrimas no quarto enquanto se contempla o vazio.

Mas, ao mesmo tempo, em suas canções não estão intrínsecas sua trajetória, seus problemas pessoais, suas angústias. É isso que faz com que Marvin Gaye seja duplamente foda, porque geralmente os artistas se baseiam em sua trajetória pessoal para compor boas canções sentimentais.

Tá bom, vá, talvez a única frase na canção que ele deve ter colocado algum empirismo foi aqui: "Father, we don't need to escalate", da faixa-título do álbum.

Mas, sinceramente, o dom do cara é tão gigantesco, que parecem palavras de um superior suspirando sabedoria nos ouvidos dos reles ouvintes.

Desculpa comentar só agora esse post, mas o cara é secular. Pra mim, um dos mais fOdas do soul.

Paz!
e um abraço!

Aqiqah said...

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