Motown 50 anos: Jackson Five





















"Jackie é o vocalista", determinou o pai, Joe, depois de muito custo. Desde que encontrara um violão escondido no porão do sobrado em que morava, em Gary, Indiana, passara a vigiar os filhos de perto. Ele próprio se aventurara pelas cordas (e estradas) ressonantes do blues e temia que os filhos embarcassem na onda musical. Um dia voltou mais cedo da siderúrgica em que trabalhava e colou o ouvido na porta, tentando flagrar um acorde ou outro.

Ouviu as belas vozes de Tito, Jackie e Jermaine harmonizando sucessos de Sam Cooke, Ray Charles e James Brown. Era soul, era hip, era novo, era diferente. Era grana no bolso, certeza. Sorriu, pensativo. Até que uma nota saiu do lugar e seu ouvido de músico flagrou a falha. Invadiu o porão de cinto em riste e proferiu um discurso que marcou a cabeça (e a pele) dos três moleques. "Se vocês vão fazer música, vão fazer bem feita. Nem que eu tenha que passar dez dias seguidos com vocês nesse porão". A brincadeira de criança virou trabalho profissional; os côveres despretensiosos, música pra parada de sucesso.



A contragosto do rabugento Joe, os caçulas Michael e Marlon resolveram pegar na percussão e entrar na onda. O Jackson Family virou Jackson Five. E o Jackson Five voou alto: partiu dos clubes black de Gary para os clubes black de todo o estado; de Indiana para Chicago; de Chicago para as concorridíssimas audiências da Motown. O primeiro teste não foi grande coisa, os "capos" da gravadora sacaram potencial no menorzinho. E só. Joe ficou inconformado e resolveu tirar a ideia de que "Jackie é o vocalista" da cabeça. "O menorzinho é o vocalista", determinou. Pobre Michael. Debaixo de porrada, ele aguentou o fardo de toda a família. Cantou, apanhou, dançou, apanhou, deixou de dormir para ensaiar, apanhou, deixou de brincar para ensaiar, apanhou, liderou o grupo na derradeira audiência da Motown, com uma versão estrondosa de "I Got The Feelin'", de James Brown, apanhou, conseguiu o contrato, apanhou, atingiu o primeiro lugar da Billboard, apanhou, resolveu seguir carreira solo, apanhou, virou o maior ícone pop do planeta e passou a apanhar de si próprio e do mundo.



Mas, no fundo, entre todas as esquisitices que cercam a carreira e a vida dele, Michael Jackson sempre foi um menino extremamente talentoso. Um gênio precoce que pagou com corpo e a alma o preço de sua genialidade. E não se deu conta disso. Mas as especulações acerca do excêntrico e possivelmente criminoso Michael são muito menos interessantes do que seu legado musical. Este sim, bastante nutritivo.


Uma atualização fundamental, indicada pelo meu amigo Ramiro:


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

11 Comments:

Marina Morena said...

que jeito bonito de contar essa história!
Adorei, nego.
Viajei ouvindo I'll Be Theeeeere
Bjs

Gabriel Rocha Gaspar said...

Obrigado, Marina! Fique de olho aqui porque nesta semana eu vou contar a história de alguns nomes da Motown, sempre nesse jeitão meio romanceado! Tava sentindo saudade de você por aqui... Valeu pela visita! Beijo

Neil Son said...

excelente post, gaba! dá pena do que fizeram com o pequeno, e no que toda essa máquina de moer carne transformou o michael. mas musicalmente, o mantra só pode ser: "forget the rest, michael is the best!"

Gabriel Rocha Gaspar said...

Obrigado, Neil. Mas sabe que eu acho que ele é um retrato grotesco da sociedade de consumo. Aquela cara deformada de plástica, a pele transformada, a infantilidade, a assexualidade... Tudo isso condiz com o ideal midiático americano. O Michael Jackson é uma espécie de "queridinha da América" às avessas. Ele não é um monstro encontrado no mato, é um monstro criado no cativeiro do sonho americano.

Márcia W. said...

Gente,
e o cartum-seriado com o Jackson Five? Eu era vidrada. A vinheta de abertura era A,B,C, 1, 2, 3 que eu ficava cantarolando loucamente depois.
E Gabriel, concordo com a tua leitura do Michael ser um fruto precocemente envenenado da sociedade do sonho/pesadelo de consumo.

Gabriel Rocha Gaspar said...

É, Márcia! Eu até pensei em falar do desenho, mas como blog é blog, escolhi um recorte da história pra contar... Como no próximo post, em que eu cometi a heresia de não falar em David Ruffin. Me perdoem todos antecipadamente! hehehehehe

E essa história do Maicon com a sociedade de consumo merece um post só pra ela, né não? Vou escrevê-lo quando passar a overdose de Motown!

Beijo!

Lara said...

LINDO texto! Especialmente essa parte: virou o maior ícone pop do planeta e passou a apanhar de si próprio e do mundo.

Bjos

Danielle said...

É isso aí, a genialidade dele sobrepõe quaisquer supostos erros que ele possa ter cometido. Texto maravilhoso...arrepiou! Dani Barg

Anônimo said...

olha.. acredito q ele apanhou muito desde cedo até os últimas anos de fama.. mas tenho certeza q ele soube q muitos, mas muitos fãs, muitas mulheres inclusive,o amava, até o idolatravam.. ele era querido, foi querido pelo mundo, e por isso, aqueles que com inveja agrediram sua imagem a custo de vender banana, saiu perdendo, pois michael, sempre foi o menino doce, e todos os fãs não deixaram de gostar dele, pois acreditavam nele.. as suas músicas serão lembradas pra sempre, e muitas delas, há mensagens importantes deixada pra nós.. michael fala de amor, da natureza, das crianças, dos famintos, da brincadeira, e principalmente.. daquele lugar onde ele hoje está... Paz!

Juliana Dantas said...

arrasou. post incrivel!
bjx.

Gabriel Rocha Gaspar said...

Uau! Juliana Dantas afrovindo pra cá? Que presença ilustre! Valeu!

 
Afroências Arte: Gabriel Rocha Gaspar