Por um mundo sem racismo



Miriam Makeba foi uma alma guerreira. Nasceu em Johanesburgo, África do Sul, em 1932, começou a cantar em grupos vocais locais, fez sucesso, vendeu discos com uma mistura peculiar de jazz, blues e música tradicional sul-africana. Mas nunca viu um centavo de distribuição ou crédito por suas gravações. Sob o governo segregacionista, os artistas pretos tinham pouca – quando não nenhuma – chance na indústria.

Por isso, ela resolveu partir para os Estados Unidos para tentar uma carreira profissional. Lá, conheceu Harry Belafonte (compositor do clássico absoluto Banana Boat Song), gravou cinco discos – Miriam Makeba, 1960; The World Of Miriam Makeba, 1962; Makeba, 1963; Makeba Sings, 1965; e An Evening With Belafonte/Makeba, 1966. O último lhe rendeu um Grammy.

Mas os Estados Unidos não eram a terra da liberdade que Makeba sonhava. O Sul continuava com o segregacionismo declarado, o Norte, velado. Os guetos viviam em eterna tensão, sob a mira da polícia branca e dos governos reacionários. O Estados Unidos eram uma panela de pressão. Pressão que veio a estourar no fim dos anos 60, quando dois jovens de Oakland – Bobby Seal e Huey Percy Newton – resolveram criar um partido político para tentar resolver alguns problemas básicos em sua comunidade. Em poucos meses, eles eram uma das mais importantes organizações políticas de esquerda do mundo – eram o BPP, Black Panther Party for Self Defense. Miriam Makeba não podia ficar de fora: se aproximou do grupo. Se juntou ao grupo. Se apaixonou no grupo.

Casou-se com um dos líderes do Partido, Stokely Carmichael. E pagou o preço. Foi proibida de gravar nos Estados Unidos e se exilou na Guiné. À mesma época, teve seu passaporte sul-africano cancelado pelo regime do Apartheid – foi apátrida por 27 anos. Não retornaria à pátria até a queda do regime, em 1990. Mas, mesmo de longe, seria uma das mais atuantes vozes contra a discriminação.

Miriam Makeba morreu neste domingo, em Castel Volturno, na Itália. Durante sua trajetória, ganhou duas medalhas da paz, foi embaixadora da ONU, foi uma ativista negra. Miriam Makeba, um último aplauso.

Abaixo, Miriam cantando (e explicando) o Click Song.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

4 Comments:

ladybug said...

essa mulher guerreira, linda e suingada que viveu e lutou para nos aliviar do peso do preconceito.

foi pouco depois de ver o primeiro presidente negro da história dos EUA.

Pra ela não há Adeus, e sim Obrigada.

adorei o espaço.

beijo,

Elaine

Gabriel Rocha Gaspar said...

Pois é, Lady! Pelo menos ela viveu para ver o Obamão sentar no trono do mundo (sem trocadilhos!). Obrigado pela visita e pelo comentário. Beijos e apareça sempre!

Anônimo said...

Do blog do Carlso Brickmann:

"Adeus, pata-pata

Miriam Makeba, a excelente cantora sul-africana, morreu aos 76 anos. E um mistério se mantém: qual a letra correta do refrão de “Pata-Pata”, seu grande sucesso? Neil Ferreira, ícone da publicidade brasileira, fez um levantamento em várias fontes, e obteve os seguintes resultados:

- Sat wuguga sat ju benga sat si pata pata.

- Saguquga sathi bega nantsi pata pata.

- Sacutunda sachipega, dancing pata pata.

- Sacude bien la cadera asa pata pata.

- Saguquka sathi bheka nantsi patapata. "

Abraço Pensa!

Gil

Gabriel Rocha Gaspar said...

hahahahahahaha Da hora, Gil! E qual a letra certa?

 
Afroências Arte: Gabriel Rocha Gaspar