Negro Drama

Esta é a semana. A semana de bombar o blog, de ferver o site, de preparar o feijão, de esquentar o pandeiro. Esta é a semana dos pretos. Por isso, afroentemente, vou dissertar nessa semana sobre alguns pretos poderosos que mudaram os eixos e definiram caminhos para uma sociedade mais justa, plural e igualitária. E, como 20 de novembro está logo aí, não tinha como começar de outra maneira. Vou falar sobre a data em si e sobre seu significado para a negrada.

Até poucos anos atrás, comemorávamos alvamente o dia dos pretos. Sim, o “alvamente” é irônico. Isso porque o feriado era o dia 13 de maio, a festa de um Brasil que não existe. Não existe porque em treze de maio celebra-se um pacto social. O dia em que negros e brancos do Brasil deixaram a escravidão e o preconceito de lado e uniram-se em torno das claras e lisas mãos de princesa Isabel para libertar milhares de negros desamparados e dependentes. O dia da alforria geral.

Ou seria o dia da demissão coletiva? Os pretos foram atirados às ruas, sem emprego, sem educação e sem experiência para a vida fora das fazendas. Eles eram uma mão-de-obra profundamente especializada por anos de trabalho exaustivo no campo. Mas, ao invés de ser contratados como profissionais remunerados, foram descartados para abrir vagas a imigrantes europeus encarregados de clarear um país que havia se enegrecido em sangue escravo. De um dia para outro, os pretos estavam “livres” para mendigar sua sobrevivência pelas ruas aterradas de um caos urbano anunciado. Formaram-se favelas, bolsões de pobreza instituída e sem perspectiva.



Isso aconteceu porque o tal pacto social que Isabel consolidou com corda britânica no pescoço nunca houve. O Brasil continuava tão racista como sempre fora, agora saudosista da escravidão. Por isso, treze de maio é uma formalidade, uma data de pouco sentido prático. Na verdade, ela simplesmente coroa a introdução de uma nova modalidade de discriminação no Brasil. A partir dali, o racismo deixaria as senzalas para se tornar sem-teto.



Por isso, o movimento negro lutou tanto por vinte de novembro feriado. Por isso, essa data merece tanta celebração. É a data em que lembramos a luta que desencadeou não na abolição pura e simples, mas na Universidade Zumbi dos Palmares; nos Racionais MCs; no Olodum; em Gilberto Gil; em Jorge Ben; em todas as mães e pais pretos que fizeram deste país um lugar um pouco mais alegre e vivo. Que forjaram nosso samba, nosso feijão e nosso futebol. A todos esses que sobreviveram às condições mais adversas para um dia poder gritar em voz, cabelos, roupas e pele: “Sou negro!”. É a data de Zumbi, o precursor da consciência negra no Brasil.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

10 Comments:

Anônimo said...

é porque você arrasa e diz tudo o que a gente precisa ouvir e muitos não sabem falar e não querem ouvir que eu nem sei o que escrever por aqui. e quase sempre é assim. você é muito inteligente e todo completo. negão que me dá muito orgulho enquanto eu escrevo e me faz chorar, quase sempre, de alegria.
com muito amor, beijo grande,
Lulu.

Gabriel Rocha Gaspar said...

Luisa! Toma cuidado com esses comentários... Eu estou no trabalho e pega meio mal ficar com os olhos marejados. Você é uma bênção! Obrigado pelo comentário e pela consciência explosiva que você tem, neguinha. Ah, e por ser essa minha irmã que racha o coco fazendo o melhor tececê da história! Boa, neguinha. Com muito amor também, seu irmão. Beijo!

Márcia W. said...

Ga(briel)Ga(spar)birô,
"dia da demissão coletiva" é um resumo de muitos megatons.
Outra: rapá esse negócio de convite pro blip.fm: mêda. Tem mó jeitão de coisa que vicia.
beijocas e Deus nos preteje !

Gabriel Rocha Gaspar said...

Hehehehehehe! Valeu, Márcia! A idéia da internet tem que ser meio chicobuarqueana, né? Tipo, uma palavra com muitos significados!

Sim! O BLip.fm vicia, deixa maluco... Tem alguns monstrinhos por lá. Mas vale a pena, viu? Vc conhece música e apresenta música pra caramba!

Sunshine said...

gá, tu é foda, babe.
beijos e agora te sigo aqui tb.
re sunshine

Gabriel Rocha Gaspar said...

Sunshine!! Que legal tê-la por aqui! Volte sempre, comente sempre, critique sempre - a casa é sua. Beijo!

Neil Son said...

belíssimo post. e muito informativo para aqueles que por preguiça, ignorância ou puro racismo introjetado, desdenham o feriado de 20/11.

Gabriel Rocha Gaspar said...

É verdade, Neil. E você captou perfeitamente o espírito do post. Uma vez eu mandei mais ou menos esta mesma argumentação para a Veja - o Diogo Mainardi tinha chamado o 20/11 de racismo. Foi muito gratificante mandar a carta para a Veja. Recebi até um "agradecemos pela leitura". Bem louco, né?

Anônimo said...

Aí meu nêgo,
Acho que seu texto, além de bonito (daquela beleza que me enche de orgulho), tem uma função básica: muita gente não consegue entender direito a diferença entre o 13 de maio e o 20 de novembro. Estão aí todos os argumentos. Um dia é "dádiva", o outro é conquista. Vi numa redação de jornal, há muitos anos, um chefe dizer literalmente: preto na coluna social só se for o Pelé - desconfio que apenas quando fizesse mil gols. Já melhoramos um pouquinho, mas queremos mais. Vivemos um momento único. Não podemos e não vamos deixá-lo escapar. Vem aí os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. São 30 artigos. Na vida real os negros não são respeitados em nenhum deles.
bjs,
Maria Amélia

Marina Morena said...

Poxa, nem sei bem o que dizer aqui... Tanta coisa bonita já foi dita aí em cima! Mas posso falar q ver você escrevendo essas coisas que as pessoas precisam ouvir, saber, conhecer, me enche de orgulho. Bom demais, Ga!
E viva ZUMBI!

 
Afroências Arte: Gabriel Rocha Gaspar