Afropapo com Luiz Melodia, negro ilimitado


Quando eu estava bolando aquele perfilzinho ali do lado, fiquei ali, encucado, pensando. Como me definir? Como definir o que eu sou...? Não tem como – é embaçado se restringir a palavras. Lembrei daquela música dos Racionais, lá do comecinho, “Negro Limitado” (“Você tem duas saídas/ Ter consciência ou se afogar na sua própria indiferença/ Escolha o seu caminho/ Ser um verdadeiro preto, puro e formado/ Ou ser apenas mais um negro limitado”) Então, pintou a idéia de Negro Ilimitado.

Aí, pela associação de idéias – um óbvio ululante, na verdade – lembrei da entrevista que fiz recentemente com o Luiz Melodia. Cara... Luiz Melodia é o que se pode chamar de um Negro Ilimitado. No começo da carreira dele, logo que Waly Salomão apresentou sua Pérola Negra a Gal Costa, a crítica caiu de pau. Era um tal de “Neguinho do morro tem que fazer samba”, “Esse neguinho é enjoado”... Foi uma chuva de preconceitos. Um calhamaço, uma cacetada.

O negrão mostrou que é impossível segurar uma mente criativa nas grades do preconceito. “Pérola Negra” é uma Maravilha Contemporânea (nossa, que idiota isso! Hahahahahaha). “Maravilhas Contemporâneas” é uma... Bom, deixa pra lá. A verdade é que Melô conhece de som. E não se deixou limitar pelas amarras de uma crítica arcaica que mofava nas prateleiras. Tanto que agora, que ninguém mais o associa com o samba – ele não é “sambista de São Carlos”, ele é Luiz Melodia e só – não é que o homem resolveu lançar um álbum só de sambas? De acordo com ele próprio, não tem ironia nenhuma com a crítica de outrora: “O disco que está aí fala por si sem querer causar polêmica ou qualquer coisa assim”. Luiz Melodia é um negro ilimitado.




GABRIEL RG – Apesar de ter nascido no samba, "Estação Melodia" foi uma novidade na sua carreira em dois sentidos: seu primeiro disco de samba e primeiro essencialmente como intérprete. Como foi a recepção do público à nova empreitada?

Luiz Melodia –
Foi das melhores, embora tenha sido uma surpresa, como foi pra mim também. Eu tive vontade de fazer uma leitura desses grandes sambistas, até porque eu já os ouvia quando garoto, na voz de meu pai ou de parentes meus, que sempre foram envolvidos com música. E ouvia no rádio também. Eu sempre fui muito ligado ao rádio: ouvia dia e noite. Depois do futebol, meu programa preferido era ficar colado no rádio. Então, eu já tinha memória de alguns desses sambas. Fui ouvir mais pra poder fazer uma seleção e gravar esse CD.

GABRIEL RG – Você sofreu todo tipo de preconceitos. Quando surgiu, a crítica tinha aquela coisa: "negrão do morro tem que fazer samba". Mas você fez de tudo, samba, soul, rock, funk, trabalhou como ator etc.

LM – Por isso que eu digo que o rádio foi minha grande referência, a formação na minha música porque eu ouvia dia e noite. Tinha um programa de som nordestino que eu ouvia sempre, que se chamava "Hora Sertaneja", que tocava Luis Gonzaga, Jackson do Pandeiro, todas as músicas nordestinas. Mas eu ouvia também boleros, o bolero italiano invadiu nos anos 60 a programação musical no Brasil. Então, toda essa coisa eu ouvia. Junto com o samba! Pô, eu sou cria do morro de São Carlos, berço de escolas. Tinha um bloco chamado Bafo da Onça, em que eu sempre estava presente, tinha o Vai Quem Quer. Era toda essa mistura musical que caía muito bem mesmo. Ouvia Ângela Maria, Elza Soares, Jamelão... Então, eu nem tive barreira. Quando fui gravar um disco, foi isso: a liberdade!

GABRIEL RG – Enquanto tinham preconceito com você, você não tinha preconceito com ninguém?

LM – Nenhum, de jeito algum! Eu caminhava em todas essas áreas musicais da forma mais tranqüila. Relax. Mas sempre confiante que não faltava com respeito, principalmente ao meu público. Eu tenho essa coisa muito forte em mim porque eu mesmo enfrentei críticas etc., mas fui com uma idéia e continuo fazendo aquilo que eu gosto com sinceridade.

GABRIEL RG – E o fato de você ter finalmente feito um disco de samba depois de ter rodado por todos os estilos não teve uma pontinha de ironia com os críticos de outrora?

LM – Ih, não... Nunca tenho essa intenção, não. Pelo contrário: acho que o disco que está aí fala por si sem querer causar polêmica ou qualquer coisa assim. Eu estou fazendo uma coisa brasileira, até pra jovens que não conheceram esses grandes compositores, não tiveram a oportunidade de conhecer esse samba que é mais cadenciado, mais malemolente. Acho que foi bom eu registrar isso, foi bem legal.





GABRIEL RG – O que mudou do Estação Melodia para o Especial da MTV, além do fato de o segundo ser ao vivo?
LM – Acho que mudou pra melhor, né? Quando a MTV me chamou para fazer o DVD, eu achei ótimo. Muito bacana esse dueto com a MTV. É sempre bom ter jovens pra gente fazer um "a mais" nesse samba dos anos 30 e 40, enfim. Eu achei muito bacana essa parceria – espero que aconteça mais vezes e com outros artistas também. O Brasil é de todos, musicalmente falando.

GABRIEL RG – Falando em nova geração, você já pensou em gravar um disco com o Mahal (rapper, filho de Melodia)?

LM – Às vezes, a gente faz shows juntos. Eu convido ou ele convida. Mas em estúdio, não pensamos ainda não. Quer dizer, eu penso sempre em fazer alguma coisa com ele, mas por enquanto eu quero só trabalhar meu disco. Eu acho o Mahal muito interessante naquilo que ele faz. É hip hop, com uma característica bem pessoal que merece realmente que a gente faça mais coisas juntos.

GABRIEL RG – O Mahal faz parte de uma geração que faz e divulga música pela internet...

LM – É, né? Agora essa geração tem esse privilégio (risos)! É muito bom. O cara se destaca e vende disco, às vezes, pela internet. É uma mídia incontestável.
GABRIEL RG – Como você vê esse novo mercado, com tudo online (venda, distribuição, pirataria etc.)?
LM – É uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo divulga, ao mesmo tempo é pirateado e você não tem como controlar. Onde se controla, controla-se falsamente. Mas acaba apoiando a divulgação, mesmo que você não queira. Às vezes, dentro do camarim, chegam pessoas com CDs que eu nem retruco, perguntando onde o cara comprou, porque eu sei que é pirata (risos). Mas a gente vai vivendo com as novidades.

GABRIEL RG – Isso te afeta muito?
LM – Eu não quero nem me preocupar com isso, nem me deixar afetar porque senão eu fico louco. E louco eu quero ficar por música (risos). Quero continuar compondo, mostrando meu trabalho independentemente disso. Quero fazer meus shows, estar nos eventos mais legais, viajar pra fora, mostrar o trabalho e dar continuidade àquilo que eu acho muito bom que é o amor e a música.

GABRIEL RG – E um próximo disco de inéditas, você já pensa a respeito?

LM – É... Já comecei a compor, tenho algumas músicas prontas, mas é sempre bom ir fazendo mais pra ter um repertório que você possa escolher a vontade. Então, aos poucos eu estou pensando, mas nada concreto, nada corrido. Eu costumo dizer que, antigamente, quando eu era mais jovem, eu corria. Agora estou só andando (risos). Estou começando a andar, tranqüilamente.





A entrevista na íntegra, você confere aqui.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

4 Comments:

Marcio Gaspar said...

nossa, que blog!! ducarái!! e tão raitéqui, hein? um dia vc me ensina? olha, sobre o melô nem tenho muito a dizer, além de reafirmar que é um dos grandes da muicabrasileira de todos os tempos; sempre achei isso. e colaboro com o blog trazendo as palavras do´'mano caetano', ele mesmo, o veloso. o cara fala muito, às vezes besteira, a maioria lucidez. como agora, olha só: "...afro-isso, afro-aquilo (e a forma americana 'African- American' é ainda pior) é um modo racista de falar. Um egípcio é africano. Um bôer da África do Sul também. O mesmo para tunisinos, marroquinos e argelinos. 'Africano' não quer dizer 'negro'. Mas mesmo que todos os africanos fossem pretos, seria racismo designar povos tão variados (inclusive fenotipicamente), oriundos do maior continente da Terra, por uma só palavra. Iorubanos não são bantos, malineses não são bundos, haussás não são gege. São povos com histórias diferentes e muitas vezes tingidas de inimizades milenares. Chamar um mulato filho de uma branca americana com um preto do Quênia de 'African-American' é uma grosseria histórica. Essas expressões são 'muito piores do que qualquer outra adotada espontaneamente pelas pessoas'. Usá-las é adotar o olhar do traficante de escravos". que tal??

Gabriel Rocha Gaspar said...

É, acho bacana essa discussão. Eu mesmo não me sentiria nem um pouco à vontade se chamado de Afro-brasileiro. Mas eu entendo a denominação por um ponto de vista diferente do Caetano. Esse negócio de African American vem do Garveyismo e não do traficante de escravos. Isso é histórico. Quando os ideais pan-africanistas começaram a pipocar pela América, com a peregrinação de Marcus Garvey, o povo começou a introjetar aquele negócio de "África para os africanos". É aquilo: todos os negros são africanos de um jeito ou de outro, pois são vítimas da diáspora. Quer dizer, todos os pretos são apátridas, a não ser que estejam na África. A idéia de african-american não vem diretamente do traficante de escravos, mas de Marcus Garvey e foi posteriormente adotada por Malcolm X. A idéia é dizer que todos os descendentes de escravos pertencem a uma só raiz - isso não é físico, mas ideológico. Foi uma maneira que Marcus Garvey encontrou para dar aos negros um senso - mínimo que fosse - de pertencimento a alguma coisa. Você não é solto no mundo, você é só um filho expatriado da África. Pelo ponto de vista histórico sou obrigado a discordar de Caetano. Mas acho que a idéia dele do conceito tem mais aplicabilidade prática - principalmente para os brasileiros - do que a de Garvey. Mas a de Garvey é mais importante. Com base nela, fundaram-se os principais movimentos negros dos Estados Unidos. É mais ou menos como cotas em universidades - um mal necessário e com prazo de validade.

Valeu, Marcio! Volte sempre!

E ow, vê se me linka lá no Quase Pouco!

Marina Morena said...

Caramba, que aula de pan-africanismo!

Gabriel Rocha Gaspar said...

hihihihihihi! Valeu, neguinha! Mas não chega a ser uma aula. Se você quiser uma aula de pan-africanismo de fato, sugiro o livro "Redress for historical injustices in the United States", de Michael T. Martin. É sociologia pura, mas vale a pena! Beijos!

 
Afroências Arte: Gabriel Rocha Gaspar