Dreadlocks ina Babylon

A data era 14 de novembro de 1979. Há exatos 29 anos. Depois de um disco deliberadamente comercial para agradar a ouvidos norte-americanos – acostumados às sonoridades estridentes do rock e do disco –, Bob Marley & The Wailers baixavam no Teatro Apollo, no Harlem. A turnê era Survival, o objetivo, catequizar (ou seria rastafarizar?) a negrada yankee no pan-africanismo. O disco estava nas lojas havia dois meses e as vendas, embora explodissem na Inglaterra, eram quase inexpressivas na América.

Kaya havia sido bem recebido, mas agradara muito mais a brancos do que a negros. E Marley acreditava que o início de um retorno espiritual global à África se daria a partir dos Estados Unidos. Ele tentaria pela música a mesma empreitada ambiciosa que Marcus Garvey tentara com sua companhia marítima, a Black Star Line. “Os negros americanos têm de ter a consciência que este é o momento do homem africano”, disse em coletiva no hotel Waldorf-Astoria.


Marley triunfa no Apollo, em 1979

Por isso, Marley lançara em 1979 seu álbum mais contundente. “Survival” tinha um esboço de navio negreiro na capa, com as montanhas humanas representadas como carga em um modelo deplorável de coisificação. Ao fundo, bandeiras de todos os países africanos se acumulavam, coloridas e gritantes. Logo de cara, um alerta: “There’s so much trouble in the world” (há problemas demais no mundo), seguido por clamores pela independência da colônia britânica Rodésia. “Brother, you’re right! We’re gonna fight for our rights. Africans, liberate Zimbabwe” (irmão, você está certo! Vamos lutar por nossos direitos. Africanos, libertem o Zimbábue).



Era um grito pela luta global dos pretos. E, nos Estados Unidos, ela começaria pelo Harlem. Bob Marley havia pisado no lendário teatro em que Malcolm X proferiu seus últimos discursos em 1976, mas o público escasseara e duas noites foram canceladas. Agora, era o momento de a mensagem libertária dos negros jamaicanos entrar de cabeça na carapinha americana. Marley subiu no palco inspirado, proferiu sua Natural Mystic, expulsou Crazy Baldheads da cidade, pediu para que os negros Acordassem e vivessem. Foi um show histórico. Depois desse show, um jovem jornalista da Filadélfia tornou-se obsessivo por entrevistar aquela figura que movera os olhares de milhares de negros de volta à África. Tanto fez que conseguiu: um ano depois, ele obteve um dos últimos registros de uma conversa com Bob Marley. Seu nome? Wesley Cook, popularmente conhecido como Mumia Abu-Jamal.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

7 Comments:

Marina Morena said...

adoro essas "historinhas" que vc conta do Marley!
esse blog veio em boa hora =)

e pq mesmo que o Mumia Abu-Jamal foi parar no corredor da morte? (tema pra um próximo post?)

Gabriel Rocha Gaspar said...

Sim! Alguma hora faço um post sobre Mumia Abu Jamal, Marina! Com certeza, merece um só dele. Mas te adianto que ele é acusado de ter assassinado o policial branco Daniel Faulkner. Todas as provas apontam para sua inocência. Apesar da acusação de homicídio, acredita-se que ele seja o único preso político condenado à morte nos Estados Unidos. Será que o Obama solta o homem?

Anônimo said...

to aqui no curso monster!Parei pra ler de novo porque estou usando o conteúdo do seu brog para meus exercícios de XHTML CSS e os caraio todo!
Esse brog tá dando o que falar!

abs mosntro!

ric.

Bruno Momma said...

Eaí hermano, buenas?

Teus textos merecem props. hahaha
Tá de parabéns!

Um abraço.

hélio said...

Gabriel, Bob Marley é um daqueles exemplos... ele mirou numa formiguinha e acertou um elefante. Falou de liberdade para os negros, mas muitos brancos entenderam suas mensagens, e perceberam que não eram só os negros que precisavam se libertar. Viva Bob Marley!!

Graficamente eu vejo tudo que vc falou, e concordo com tudo. O degradê está maravilhoso, tudo de muito bom gosto. Só que, vc precisa considerar que as máquinas não tem, a mesma calibragem, e acho que é isso o que está acontecendo. Não tem nada a ver com o firefox ou... fiofó hahaha. Quando o degradê chega no azul com o texto em cinza ou azul, fica batendo e vc não lê nada. Ajuste isso e tudo bem.

Sou viciado em Bob Marley, tenho que ouvir o cara de tempos em tempos para parar de tremer. Babylon by bus na veia.

Marcio Gaspar said...

marley foi (é) um dos grandes da musica popular de todos os tempos. e aqui, digo isso independentemente de sua mensagem/postura política e comportamental. musicalmente, nunca houve e nem haverá alguém como marley. sua voz única, sua sutileza melódica... um verdadeiro mestre.

Gabriel Rocha Gaspar said...

Hehehehehehehe Ric! Be my guest! Pode pegar à vontade que aqui não existe essa de pirataria, tudo na base do Creative Commons.

Momma: firmeza total, meu parceiro! Compareça sempre, que a toada é essa mesma. Me sinto devidamente propado...

Hélio: eu também sou viciado em Bob Marley. É uma das abstinências mais pesadas que existem. Ficar uma semana sem ouvir Bob Marley é mais ou menos como ficar uma semana sem água. Simplesmente não dá.

Quanto ao visual, é mesmo um problema com o navegador, Hélio. É um problema de padronização da Microsoft. Ninguém precisa de um hardware pesado para visualizar esse blog, ele não tem scripts complexos nem nada disso. Ele tem um degradê que o explorer não reconhece. E eu não vou mudar o design (que deu mó trampo pra criar) para adaptar a um navegador ultrapassado... Me desculpe, mas é sem chance.

Marcio: dizer o quê? Se não fosse por você, eu nunca teria tido contado com esse "mestre", como você bem colocou. Valeu!

 
Afroências Arte: Gabriel Rocha Gaspar