Duplamente baleado, era difícil correr. O negro corpulento, de origem imbamgala, cambaleava pela mata, amparado por um velho arcabuz e um sonho errante. Um sonho que lhe fizera assassinar o homem que lhe criara como um pai. Um sonho que lhe tirara a possibilidade de uma vida em moldes europeus, inimaginável a qualquer negro do século XVII. Ele havia sido coroinha. Conhecia as artes e a religião dos brancos. Falava português e latim, além da corruptela de ioruba comum aos quilombolas daqueles dias.
Em meio à exaustão e à dor, conseguiu abrir um esboço de sorriso ao ver-se refletido nas águas escuras da Lagoa dos Negros. “Ogan”, perguntou à árvore cuja copa o abrigava. “Eu tenho cara de Francisco?”. E riu sozinho, alto, forte; desolado. Tossiu. Pôs-se novamente em pé, segurando vacilante a arma. “Eu sou imortal!”, gritou para o eco. Tossiu novamente. Cambaleou, cuspiu uma mistura viscosa de sangue e saliva e concluiu: “Não, Ogan, não tenho cara de Francisco”. Sorriu um sorriso rubro.
O ano corria. Faziam o quê? Sete, oito meses que vagava solto pela selva? Sentia-se um preto fujão na maior parte do tempo. Invasões a pequenos povoados portugueses eram lampejos da dignidade que um dia gozara. “Que morram todos!”, pensava, a rir do saco de couro repleto de furtos. Já fora tão grande, tão forte, tão poderoso. Preocupava-se com a solidão. A partida súbita do camarada Soares era esquisita, suspeita. Prometeu a si próprio que daria um sopapo na cara daquele negro quando ele aparecesse sorridente, carregado de farinha, carne de sol e pão de ló, afanados das aldeias de colonos.
Maria também lhe fazia falta. E seus filhos. Sentia saudade de casa, de acordar e ver as mulheres trabalharem a macaxeira e os cestos, de ver os homens atirar, montar e lutar. De ver as crianças a correr, livres, como imaginava que algum dia teriam sido em África, terra tão utópica quanto próxima, tão familiar quanto distante. “Não viverei para ver África”, foi um relance que lhe veio à cabeça. Sacudiu a carapinha com força, como que para afastar a impureza de tão nefasto pensamento. “Eu sou África!”, gritou, sentindo-se gratificado por mais um assentimento do eco, único companheiro em meses.
Limpou a fina linha de sangue que lhe escorria da boca e parou. Ouvira passos. Encostou atrás de uma árvore, aditivado por uma energia súbita que não lhe percorria o corpo havia semanas. Observou quieto, sentindo a brisa ressuscitar com a lenta despedida do sol. Só relaxou quando viu a descida malemolente de Antonio Soares. Estava magro, silencioso, de rifle em punho. Mas ainda balançava o quadril na caminhada, hábito que lhe rendera apelidos e mais apelidos no quilombo. Riu alto e chamou: “Antonio, seu safado! Ainda mato você! Que tem nesse saco?”. O amigo riu brevemente e apertou o passo, antecipando um abraço. Antonio estava grudendo, frio e suava atipicamente. Distanciou-se um pouco e balbuciou: “General...”
Antonio Soares tremia. O general sentiu um misto de pena e raiva. Teve vontade de cuspir na cara daquele covarde que se postava diante dele com a dignidade de um rato tísico. Na raiva cega que sentiu daquele cagão, não pôde reparar nas novas cicatrizes que lhe cobriam os braços desnudos e o pouco de pescoço que estava à mostra. Mas, no geral, lhe parecia que finalmente havia encontrado alguém em estado mais deplorável do que o dele próprio. Antonio Soares estava em pé por circunstância; já era morto havia meses. A lucidez lhe voltou subitamente quando vislumbrou barbas cinzentas de relance na mata. “Idiota!”, pensou de si próprio. Ele, o maior de todos os estrategistas, se deixara pegar no descampado, cercado por mata fechada – estava no epicentro da armadilha. Por quê? Por fidelidade a este babão que chorava como criança a sua frente. Sentiu tamanho ódio explodir dos olhos que não percebeu quando lhe varou o chumbo em brasa. Muitos furos e estampidos se seguiram. Caiu ofegante aos pés de Antonio Soares, agarrou-se às frouxas canelas lamacentas do traidor e gritou: “Eu sou imortal! Eu sou Zumbi, rei dos Palmares!”
Asè
Postado por Gabriel Rocha Gaspar às 20:44
Marcadores: consciencia negra, Zumbi
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7 Comments:
Gabriel:
A expressão"Vá pro quinto dos infernos",não é xingar,é amaldiçoar.
Na literatura, (Dante é um grande exemplo),os infernos seguem uma seqüência.O quinto dos infernos é para onde vai o traidor,o delator,o caluniador;é o pior dos infernos.Até na prisão tem êsse inferno.
Os grandes homens traídos estão livres,vivos e sôltos e nos fizeram livres,vivos e sôltos :
Jesus,Tiradentes,Zumbi,...
Günther.
Sim, sem dúvida, Günter. Os grandes homens traídos são aqueles que vivem para sempre. São os que morrem com dignidade e deixam um legado para as gerações futuras. Por isso o meu Zumbi (eu inventei essa história, ninguém sabe ao certo como foi o encontro de Zumbi com Domingo Jorge Velho) grita: "Eu sou imortal". Aproveitando, o nome do assassino era domingo, sétimo dia da semana. Será que existe um sétimo dos infernos para quem assassina os grandes homens?
Gabriel:
Você escreve bem prá caralho.
Não sabia que o texto era seu.
Deu um intervalo grande no seu blog.
Espero que as pessôas reflitam bem antes de responder.
Talento não se adquire,nasce com a pessoa.
Você tem talento e sensibilidade.
Parabéns.
Günther.
Gabriel,
concordo mil por cento com o Günther.
Bateu forte a frase "a África sou eu" e fiquei remoendo o dia inteiro. Mas lendo sobre as comemorações do feriado, pensei: será que a África é agora só um retrato na parede que nem dói mais? Ou é isso mesmo e a a transição de retrato para espelho/caleidoscópio ainda vai demorar muuitas gerações ? Aqui, do outro lado da poça, não sei bem como avaliar se o nível de conscientização está aumentando. Troqque dois dedinhos de prosa comigo, vai.
cafuné - palavra e prática africana que eu reverencio ;)
Cada dia melhor, meu parceiro. Esse aqui tá um arregaço, magnífico.
Tô orgulhoso, trutão!
Nóis!
Adoro os novos comentários! Que bom...
Günter: você pegou o espírito da coisa direitinho... O intervalo foi grande mesmo e isso foi proposital. Eu queria que as pessoas lessem este texto com cuidado e dei tempo para elas. Mas nesses três dias sem posts, comecei a pensar que talvez ninguém tivesse entendido a história. Comecei a pensar que talvez ninguém conhecesse a história de Zumbi suficientemente bem para reconhecer os personagens. Fiquei com medo que tivessem se misturado Antonios, Franciscos, Gangas e Zumbis. Seus comentários me deixaram aliviado: o texto está compreensível e, mais do que isso, está quase bom! Obrigado.
Marcia, do pé para a cabeça: também sou fãzão de cafuné! hahahahahaha O que quer dizer "do outro lado da poça?" Acho que o espelho África/Brasil é uma coisa evidente, gritante até. O problema é que aqui, do outro lado da poça (ah, a poça é o Atlântico?! Entendi!), a gente se esquece de olhar pro mais velho dos continentes. Mas, graças a Deus, existem os Pierres Verges, os os Manos Browns, os Gilbertos Gils (esses plurais ficaram horrorosos, um pior que o outro) que não nos deixam esquecer que nós, como todas as nações de grandes populações negras, somos uma extensão da África. Um filho seqüestrado de uma mãe que pouco conhecemos.
Eu acho que as comemorações do Dia da Consciência Negra não penduram a África na parede não. O simples nome "Consciência Negra" já suscita uma reflexão. Afinal, é o dia em que (por mais redundante que isso possa parecer) mais ficamos conscientes de ser negros. Ontem, passeando pela rua, encontrei com muitas famílias negras, em dia de folga, com os cabelos armados, as roupas coloridas, os sorrisos abertos. Me senti um pouquinho mais baiano (Bahia = África) em Sampa. O negro, em geral, saiu às ruas orgulhoso de ser negro. E isso não é uma coisa que a gente vê sempre. Pelo menos não em São Paulo. Se a frase "Eu sou África!" te bateu forte, te digo que ontem fiquei orgulhoso de poder ler "Eu sou África!" nos olhos de cada preto que vi nas ruas. O Dia da Consciência é uma conquista, uma conquista forte, cujos afroentes a gente só vai poder constatar dentro de muitos anos.
Vocês sabem quem é esse Murillo? É o Camarotto do Valor Econômico, futuro maior jornalista de economia deste país. Receber elogio de um homem como esse é coisa fina... Coisa finíssima. Valeu, meu trutão! Grande abraço e volte sempre que a porta da cozinha (a única que nós temos nessa casa) está sempre aberta!
Puta texto! Nossa, você tem o dom! Mistura de conto com relato, incrível, indizível de pungente e belo!
Fiquei viciada no seu blog, não consigo parar de lê-lo!
Beijo,
Ana!
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